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A Batalha Pela Alma Dos Beatles – Peter Doggett

A fama é uma maldição, sem compensações suficientes. Allen Ginsberg Os Beatles poderiam ser perdoados por duvidarem do valor da fama. Um deles foi assassinado a tiros, em frente ao prédio onde morava, por um homem que se declarava um fã. Outro foi brutalmente atacado em sua casa; e morreu menos de dois anos depois do incidente. Um terceiro envolveu-se numa crise conjugal na qual foram expostos ao público todos os detalhes de sua vida pessoal. Ao quarto foi tão difícil sobreviver fora da banda que ele se perdeu em álcool e cocaína. Esses quatro homens criaram uma música de tamanha alegria e inventividade que conquistou o imaginário mundial e nunca perdeu seu fascínio. Mesmo alguns poucos compassos de She Loves You ou Hey Jude têm o poder de descolar do cotidiano os ouvintes e lançá-los num mundo de fantasia emque cada momento transborda de possibilidades, e o amor vence o sofrimento. As canções dos Beatles recriam magicamente o idealismo que inspirou sua própria criação e abrem essa fonte a todos nós. São canções que parecem vir de uma época de inocência e sonhos e representam todo o esplendor e turbulência associados à sua década. São marcos históricos que se tornaram míticos, familiares como enredos de contos de fadas. Compõem uma memória coletiva reconfortante – ‘umbrilho universal’, como já foi observado, que iluminou e ainda ilumina o mundo. E, contudo, eram humanos os heróis do mito, teimosa e por vezes aflitivamente humanos. Quase que isolados em sua geração, não quiseram que a fantasia continuasse. O público acalentou-se na liberdade evocada pelos Beatles; os Beatles quiseram simplesmente a liberdade de não ser mais os Beatles. Em fins da década de 1960, enquanto os fãs orientavam suas vidas por aquelas canções, o quarteto tramava um futuro alternativo, com os integrantes libertos das algemas quádruplas que eles mesmos haviam forjado. Mas logo perceberiam que não havia escapatória: eles sempre seriam os Beatles, sempre julgados em comparação aos picos escalados no passado. Os trabalhos individuais, não importava o quão inspirados, eram inevitavelmente ofuscados pelas eternas reprises de sua fabulosa juventude. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Richard Starkey (‘Não me chamem pelo meu nome artístico,’ pediu Starkey, em 2009, num anúncio de TV) estão trancafiados juntos, para sempre, como guardiães do mais duradouro legado da música popular. Mas seus laços não terminam aí. Desde 1967, eles (ou seus herdeiros) passaram a ser coproprietários da Apple Corps, um empreendimento idealizado para driblar impostos, depois remodelado como alternativa revolucionária ao sistema capitalista, e a seguir corroído até tornar-se um ímã de advogados e contadores. O que foi concebido como utopia virou uma cadeia. As estranhas consequências desse destino – estar divididos mas ainda combinados, separados e no entanto juntos – são o assunto deste livro, que percorre a história pessoal e corporativa dos Beatles, desde as alturas de 1967, passando pelo implacável declínio dos meses finais, até os infindáveis desdobramentos posteriores. Sobreviver e, às vezes, prosperar no olho de um furacão jurídico, financeiro e emocional talvez esteja entre suas maiores e menos valorizadas façanhas. Passando por tudo, juntos e isolados, em confronto e em harmonia, os Beatles de algum modo conseguiram criar e preservar uma música tão duradoura quanto seu mito, condensando perfeitamente seu próprio tempo e enriquecendo todos os tempos a seguir.


Prólogo: 8 de dezembro de 1980 Eram quase onze da noite em Nova Iorque, e o cantor e compositor James Taylor estava em seu apartamento no exclusivo Edifício Langham, na vizinhança do Central Park West. Ele falava ao telefone com Betsy Asher, cujo marido o contratara ao selo Apple, dos Beatles, havia doze anos. ‘Ela estava em Los Angeles e reclamava que as coisas estavam muito loucas por lá,’ relembrou Taylor. ‘Algo a ver com a família de Charles Manson e as maluquices que aconteciam. Daí eu ouvi os tiros. Alguém já tinha me falado que os policiais carregavam as armas não com seis, mas com cinco balas, então se você ouvisse um tiroteio de policial, seriam cinco tiros em sequência até a arma ser descarregada. Foi o que escutei – pá-pá-pá-pá-pá – cinco disparos. Eu disse para Betsy, “E você acha que é aí que as coisas estão loucas… Acabei de ouvir a polícia atirar em alguém aqui perto.” Desligamos, e uns vinte minutos depois ela me ligou de volta, dizendo: “James, não era a polícia.” ’ A polícia chegou à cena em minutos, e a notícia estalou pelo rádio, sobre os tiros em frente ao Edifício Dakota, a uma quadra do Langham. A agência de notícias UPI telegrafou os primeiros informes: ‘Polícia de Nova Iorque avisa: ex-Beatle John Lennon em situação crítica após ser baleado com três tiros em seu lar no Upper West Side, em Manhattan. Um porta-voz da polícia informou, sem mais detalhes, que um suspeito foi detido. Um funcionário do hospital disse: ‘Tem sangue por toda parte. Estão trabalhando nele feito loucos.’ A rede ABC correu a notícia ao longo da tela durante a transmissão de Patriots contra Dolphins, partida daquela segunda-feira à noite. Cinco minutos depois, o comentarista Frank Gifford interrompeu seu colega Howard Cosell: ‘Não me importa o próximo lance, Howard, você tem que anunciar o que soubemos na cabine.’ ‘Sim, temos que comunicar isso,’ disse Cosell gravemente, e acrescentou o que soou quase como um sacrilégio num país obcecado por esportes: ‘Lembrem-se de que isso é só um jogo, não importa quem ganhe ou perca.’ Então, com a solenidade de um locutor acostumado a dramatizar disputas esportivas, Cosell anunciou: ‘Tragédia indescritível. Confirmada pela ABC Notícias de Nova Iorque. John Lennon, em frente a seu prédio no West Side de Nova Iorque, talvez o mais famoso dos Beatles, baleado duas vezes pelas costas, encaminhado às pressas ao Hospital Roosevelt’ – cada palavra pronunciada lenta e cuidadosamente como um prego sendo batido na madeira – ‘morto… ao chegar… Vai ser difícil voltarmos ao jogo depois dessa notícia.’ Richard Starkey e sua namorada, a atriz Barbara Bach, estavam bebendo numa casa alugada, nas Bahamas, quando sua secretária pessoal, Joan Woodgate, entrou em contato com Starkey. ‘Recebemos telefonemas dizendo que John estava ferido’, relembrou ele. ‘Depois ouvimos que estava morto.’ Foi o primeiro dos Beatles sobreviventes a saber da notícia. ‘John era meu amigo querido, sua esposa é uma amiga, e quando você ouve uma coisa dessas…’ O horror rompeu a névoa anestésica de álcool que o protegia do mundo.

‘Você não fica mais ali sentado, pensando no que fazer… Precisávamos agir, então voamos para Nova Iorque.’ Primeiro, Starkey telefonou à sua ex-esposa, Maureen Cox, na Inglaterra. Hóspede na casa, Cynthia Lennon acordou com os gritos. Segundos depois, Maureen irrompeu no quarto: ‘Cyn, atiraram em John. Ringo está na linha, ele quer falar com você.’ Cynthia acorreu ao telefone e ouviu o som de um homem chorando. ‘Cyn’, soluçou Starkey. ‘Eu sinto muito. John está morto.’ Ela deixou cair o telefone e gritou como um animal apanhado numa armadilha. A irmã mais velha de George Harrison, Louise, acabara de se deitar, em Sarasota, Flórida, quando um amigo telefonou dizendo para ela ligar a TV. ‘Meu primeiro pensamento foi que seria algo errado com George,’ recordou ela. ‘Quando soube, senti duas coisas – uma onda de alívio porque George estava bem e o horror pelo que tinha acontecido com John.’ Ela tentou telefonar imediatamente para Friar Park, a desmesurada mansão gótica de seu irmão, em Henley, mas ninguém atendeu. ‘Naquela época eles deixavam o telefone embaixo da escadaria,’ relembrou ela, ‘para George não se incomodar.’ Pelas duas horas seguintes ela discou o número repetidamente, mas só ouviu o toque de chamada. Por volta das cinco da madrugada em Londres, uma hora após o assassinato, a BBC estava pronta para dar a notícia ao mundo. Em sua casa com vista ao cais de Poole, a senhora, de 74 anos, Mimi Smith – tia de John Lennon, que cuidara dele desde seus seis anos de idade – dormitava ao zumbido reconfortante da rádio BBC de notícias. Ela não via o sobrinho havia nove anos, mas dois dias antes ele lhe dissera que retornaria à Inglaterra no Ano Novo. Ela ouviu o nome dele, sem saber se estava ou não acordada, depois percebeu que era o locutor falando sobre Lennon. Ela só teve tempo de repassar um pensamento familiar durante a infância dele – ‘O que aprontou dessa vez?’ – antes que o locutor confirmasse um temor que sempre a assombrara. Permaneceu deitada, sozinha e atenta, enquanto a esperança e a alegria morriam em seu coração. Uma hora depois, Louise Harrison desistira de telefonar a Friar Park e conseguira acordar o irmão Harry, que vivia numa casa diante da entrada da propriedade do irmão mais novo. ‘Eu desabafei que John tinha sido baleado,’ recordou ela. ‘Harry disse que não havia motivo para acordar George àquela hora, porque ele não ia poder fazer nada.

“Vou conversar com ele quando eu levar a correspondência, depois do café da manhã,” foi o que Harry me disse.’ A notícia se espalhou gradualmente pela comunidade Beatle. O assistente mais antigo do grupo, Neil Aspinall, tinha um vínculo especialmente estreito com Lennon. Quando Neil foi acordado, seu primeiro impulso foi telefonar à tia de John, Mimi: a chamada convenceu aquela senhora de que seu pesadelo era real. Depois Aspinall seguiu severamente pela hierarquia dos Beatles, telefonando à casa de Harrison, falando com Starkey antes de este seguir rumo ao aeroporto de Nassau, mas não conseguindo contatar McCartney, cujo telefone ficava desligado durante a noite. No chalé de McCartney, em Sussex, ninguém ligara a TV ou o rádio; Linda McCartney levou os filhos do casal à escola, como de costume. Enquanto ela estava fora, seu marido conectou o telefone e soube que o parceiro de composições e então desafeto, o homem que marcara, por vezes dolorosamente, sua vida adulta inteira, estava morto. Minutos depois, a esposa voltou para casa. ‘Eu entrei com o carro’, ela lembrou, ‘e ele saiu pela porta da frente. Eu soube só de olhar para ele que algo absolutamente errado tinha acontecido. Eu nunca tinha visto ele assim. Desesperado.’ Linda descreveu como ‘horrível’ o rosto dele. Então ele lhe contou o que ocorrera. ‘Eu revejo claramente’, disse ela depois, ‘mas não me lembro das palavras. Só consigo me lembrar da situação por imagens.’ Chorando e tremendo, o casal cambaleou para dentro da casa. ‘Era insano demais’, disse McCartney. ‘Tudo ficou borrado.’ Um ano depois, perguntaram a Paul McCartney como se sentira. ‘Não consigo lembrar,’ disse ele, apesar de conseguir, com clareza talvez excessiva. Reviveu as emoções clamorosas daquele momento: ‘Eu não posso expressar. Não posso acreditar. Era loucura. Raiva.

Medo. Insanidade. Era o mundo chegando ao fim.’ Vacilando entre tristeza e irrealidade, começou a imaginar que também ele poderia tornar-se alvo de um assassino. ‘Ele começou a imaginar que poderia ser o próximo,’ revelou Linda McCartney, ‘ou se não seria eu, ou as crianças, e eu não sabia mais o que pensar.’ ‘Era uma informação que você não conseguia assimilar,’ confirmou o marido. ‘Eu ainda não consigo.’ George Martin, que supervisionara a carreira de gravações dos Beatles com cuidado paternal, foi acordado por um amigo americano ansioso para passar a notícia. ‘Não foi uma boa maneira de começar o dia’, lembrou. ‘Telefonei imediatamente a Paul.’ Os dois tinham encontro marcado para mais tarde, no estúdio de Martin, em Londres, onde McCartney estava gravando um álbum. Martin relembrou: ‘Eu disse, “Paul, você obviamente não quer vir hoje, não é?” Ele disse “Deus, o que eu não posso é não ir. Eu preciso ir. Não posso ficar aqui com o que aconteceu.” ’ Como McCartney explicou depois, ‘Ouvimos a notícia pela manhã, e o curioso é que todos nós reagimos da mesma forma. Separadamente. Todos simplesmente fomos trabalhar naquele dia. Ninguém conseguiu ficar em casa. Nós tivemos que ir trabalhar e estar com as pessoas que conhecíamos.’ ‘Nós’ para Paul então significava, como na década de 1960, os Beatles, outro dos quais também tinha compromisso de gravação naquela tarde. Após ouvir que seu material mais recente era insuficientemente comercial, George Harrison relutantemente concordara em apresentar mais quatro novas canções. Seus colaboradores incluíam o percussionista Ray Cooper e o músico norteamericano Al Kooper, um insone que, assim como Mimi Smith, soubera da morte de Lennon pela BBC de notícias. ‘Liguei para Ray e disse “Sabe o que mais?” ’ lembrou Kooper. ‘Eu disse “Devemos ir lá e levar ele [Harrison] pro estúdio, e trabalhar e tirar a cabeça dele disso”, em vez de deixar ele cozinhando o assunto. Então o Ray concordou e fomos pra lá, e quando chegamos no portão tinha um milhão de jornalistas parados lá, na chuva.

Saí do carro e eles começaram a gritar pra mim. Eu disse “Vocês não têm nada melhor pra fazer?” ’ McCartney enfrentou uma situação semelhante nos estúdios AIR, de Martin, em Londres. ‘Eu cumpri o dia de trabalho em estado de choque’, disse ele depois. O músico irlandês Paddy Moloney estava lá. ‘Foi um dia estranho’, lembrou Paddy, ‘mas tocar pareceu ajudar Paul a passar por aquilo.’ George Martin recordou que a música cedeu lugar a uma terapia de grupo: ‘Nós chegamos lá e caímos uns nos ombros dos outros, e nos servimos de chá e uísque, e nos sentamos juntos e bebemos e falamos e falamos. Conversamos e lamentamos John o dia todo, e isso ajudou.’ Um amigo de infância de Lennon, Pete Shotton, que trabalhara para os Beatles no final dos anos de 1960, decidiu que ‘queria estar com alguém que conhecesse John tanto quanto eu’. Ele chegou por volta do meio-dia à mansão de Harrison. ‘[George] pôs o braço no meu ombro e fomos em silêncio para a cozinha, tomar um chá. Conversamos em voz baixa, sem dizer muita coisa, e George foi atender uma chamada transatlântica de Ringo.’ Depois desse telefonema, Starkey voou para Nova Iorque. ‘Não podemos fazer muito mais que isso’, disse Harrison a Shotton; ‘temos só que seguir adiante.’ Al Kooper foi conduzido à cozinha, onde encontrou Harrison ‘branco que nem um papel, totalmente abalado. Tomamos um café da manhã todos juntos. Ele recebeu telefonemas de Paul e de Yoko, o que pareceu ajudar seu espírito, e depois fomos pro estúdio e começamos o dia de trabalho.’ Em Nova Iorque, milhares de fãs em luto se reuniram ao redor do Edifício Dakota. Às duas da manhã, a polícia já isolara o local, com guardas armados de plantão na cena do crime. A viúva de Lennon, Yoko Ono, recordou: ‘Voltei para cá e fiquei em nosso quarto, em frente à Rua 72. Eu só ouvia, toda noite, e pelas semanas seguintes, os fãs lá fora colocando os discos dele para tocar. Foi tão doloroso, simplesmente apavorante. Pedi aos meus assistentes que implorassem aos fãs para pararem.’ A equipe informava aos fãs em vigília, nos momentos em que Yoko estava tentando dormir, e filtrava as chamadas em sua linha privativa. O filho de Lennon, Julian, então com 17 anos de idade, disse à sua mãe Cynthia que queria voar imediatamente da Inglaterra a Nova Iorque para acompanhar a madrasta e o meio-irmão. ‘Fomos colocados diretamente em contato com [Yoko],’ recordou Cynthia, ‘e ela concordou que seria bom que Julian estivesse junto.

Disse que iria arranjar um voo para ele naquela tarde. Eu falei da minha preocupação com o estado dele, mas Yoko deixou claro que eu não seria bem-vinda: “Não é como se você fosse uma colega de escola, Cynthia.” Foi meio áspera, mas eu aceitei.’ Quando Yoko falou com Paul, algumas horas mais tarde, o tom foi mais conciliador. ‘Ela chorava, arrasada,’ disse McCartney naquela noite, ‘não tinha ideia por que alguém quis fazer uma coisa dessas. Ela queria que eu soubesse o quanto John era afetuoso a meu respeito.’ Por mais de uma década, a relação entre Lennon e McCartney foi fragmentária e tensa, e a autoconfiança de McCartney ficou evidentemente abalada por aquele afastamento. O conforto de Yoko ajudou Paul a reerguer seu ego: ‘Foi quase como se ela percebesse que eu me perguntava se a relação já não tinha desaparecido.’

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