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A bela e a fera – Clarice Lispector

Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maior defeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o pelo macio e quente de um gatinho, por isso é que sua vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros como um “pedaço de hora perdida”, sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados. Eu, na verdade, não sabia o que retrucar e lamentava não ter um gesto de reserva, como o seu, de alisar o cabelo, para sair da confusão. No entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisa que pareça profunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, sem dúvida, também o achava, porque não respondia. Ficava muito triste, a olhar para o chão e a alisar seu gatinho morno. Assim se passavam as horas. Às vezes eu mandava buscar uma xícara de café, que ele bebia com muito açúcar e gulosamente. E eu pensava um pensamento muito engraçado: é que se achasse que andava a destruir tudo, não teria tanto gosto em beber café e não pediria mais. Uma leve suspeita de que W… era um artista, vinha-me à mente. Para desculpá-lo, respondia-me: destrói-se tudo em torno de si, mas a si próprio e aos desejos (nós temos um corpo) não se consegue destruir. Pura desculpa. Num dia de verão abri a janela de par em par. Pareceu-me que o jardim entrara na sala. Eu tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Aquele dia estava lindo. Um sol mansinho, como se nascesse naquele instante, cobria as flores e a relva. Eram quatro horas da tarde. Ao redor, o silêncio. Voltei-me para dentro, amolecida pela calma daqueles momentos. Queria dizer-lhe: – Parece-me que essa é a primeira das horas, mas que depois dela mais nenhuma se seguirá. Mentalmente ouvi-o responder: – Isso é apenas uma tendência sentimental indefinível, misturada à literatura da moda, muito subjetivista.


Daí essa confusão de sentimentos, que não tem verdadeiramente um conteúdo próprio, a não ser o seu estado psicológico, muito comum em moças solteiras de sua idade… Tentei explicar-lhe, combatê-lo… Nenhum argumento. Voltei-me desolada, olhei seu rosto triste e ficamos calados. Foi então que pensei aquela coisa terrível: “Ou eu o destruo ou ele me destruirá.” Era preciso evitar a todo o custo que aquela tendência analista, que terminava pela redução do mundo a míseros elementos quantitativos, me atingisse. Precisava reagir. Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e a clara tarde de verão. Decidi-me, disposta a começar no mesmo momento a lutar. Voltei-me para ele, apoiei as mãos no parapeito da janela, entrefechei os olhos e sibilei: – Essa hora me parece a primeira das horas e também a última!! Silêncio. Lá fora, a brisa indiferente. Ele ergueu os olhos para mim, levantou a mão sonolenta e acariciou os cabelos. Depois pôs-se a riscar com a unha os desenhos em xadrez da toalha da mesa. Fechei os olhos, abandonei os braços ao longo do corpo. Meus lindos e luminosos vinte e dois anos… Mandei vir café e com muito açúcar. Depois que nos separamos, no fim da estrada, voltei muito devagar para casa, mordendo um capim e chutando todos os seixos brancos do caminho. O sol já se tinha deitado e no céu sem cor já se viam as primeiras estrelas. Estava com preguiça de chegar em casa: invariavelmente o jantar, o longo serão vazio, um livro, o bordado e, enfim, a cama, o sono. Enveredei pelo atalho mais comprido. A relva crescida era penugenta e quando o vento soprava forte ela me acariciava as pernas. Mas eu estava inquieta. Ele era moreno e triste. E sempre andava de escuro. Oh, sem dúvida eu gostava dele. Eu, muito branca e alegre, ao seu lado. Eu, numa roupa florida, cortando rosas, e ele de escuro, não, de branco, lendo um livro. Sim, nós formávamos um belo par.

Achei-me fútil, assim, imaginando quadros. Mas justifiquei-me: precisamos contentar a natureza, enfeitá-la. Pois se eu jamais plantaria jasmim junto de girassóis, como ousaria… Bem, bem, o que precisava era de resolver “meu caso”. Durante dois dias pensei sem cessar. Queria achar uma fórmula que mo desse para mim. Queria achar a fórmula que pudesse salvá-lo. Sim, salvá-lo. E essa ideia era-me agradável porque justificaria os meios que empregasse para prendê-lo. Tudo me parecia porém estéril. Ele era um homem difícil, distante, e o pior é que falava francamente de seus pontos fracos: por onde atacá-lo então, se ele se conhecia? O nascimento de uma ideia é precedido por uma longa gestação, por um processo inconsciente para o gestante. Assim explico a minha falta de apetite no jantar magnífico, minha insônia agitada numa cama de lençóis frescos, após um dia atarefado. Às duas horas da madrugada, enfim, nasceu ela, a ideia. Sentei-me alvoroçada na cama, pensei: veio depressa demais para ser boa; não se entusiasme; deite-se, feche os olhos e espere que venha a serenidade. Levantei-me porém e, descalça para não acordar Mira, pus-me a andar pelo quarto, como um homem de negócios à espera do resultado da Bolsa. Porém cada vez mais parecia-me que achara a solução. Com efeito, homens como W… passam a vida à procura da verdade, entram pelos labirintos mais estreitos, ceifam e destroem metade do mundo sob o pretexto de que cortam os erros, mas quando a verdade lhes surge diante dos olhos é sempre inopinadamente. Talvez porque tenham tomado amor à pesquisa, por si mesma, e se tornem como o avarento que acumula, acumula, apenas, esquecido da primitiva finalidade pela qual começou a acumular. O fato é que com W… eu só conseguiria qualquer coisa, pondo-o em estado de “shock”. E eis como. Dir-lhe-ia (com o vestido azul que me fazia muito mais loura), a voz suave e firme, fixando-o nos olhos: – Tenho pensado muito a nosso respeito e resolvi que só nos resta… Não. Simplesmente. – Vamos nos casar? Não, não. Nada de perguntas. – W…, nós vamos casar. Sim, eu conhecia os homens.

E sobretudo conhecia-o fundamente. Ele não teria o recurso do gesto preferido. E permaneceria estático, atônito. Porque estaria diante da Verdade… Ele gostava de mim e talvez porque só a mim não conseguira destruir com suas análises (eu tinha vinte e dois anos). Não consegui dormir durante o resto da noite. Estava tão desperta que o ressonar de Mira me enervava, e até a lua, muito redonda, cortada ao meio por um galho de folhas finas, parecia-me defeituosa, com uma inchação do lado e excessivamente artificial. Queria abrir a luz, mas ouvia de antemão as queixas de Mira a mamãe, no dia seguinte. Levantei-me com a disposição de uma mocinha no dia do seu casamento. Cada ato meu era preparatório, cheio de finalidades, como parte de um ritual. Passei a manhã muito agitada, pensando na decoração do ambiente, na roupa, nas flores, frases e diálogos. Depois disso, como arranjar a voz suave e firme, serena e meiga? A continuar naquela febre, eu correria o risco de receber W… com gritos nervosos: “W… vamos casar imediatamente, imediatamente.” Peguei numa folha de papel e enchi-a de alto a baixo: “Eternidade, Vida. Mundo. Deus. Eternidade. Vida. Mundo. Deus. Eternidade…” Essas palavras matavam o sentido de muitos de meus sentimentos e deixavam-me fria por umas semanas, tão minúscula eu me descobria. Mas na verdade eu não queria ficar fria: desejava viver o momento até esgotá-lo. Precisava apenas conquistar um rosto menos afogueado. Sentei-me para uma longa costura. A serenidade foi pouco a pouco voltando. E com ela, uma profunda e emocionante certeza de amor. Mas, pensei, não existe mesmo nada, nada, por que eu troque os instantes que vêm! Só duas ou três vezes na vida experimenta-se tal sensação e as palavras esperança, felicidade, saudade, a ela se ligam, descobri.

E fechava os olhos e imaginava-o tão vivo que sua presença se tornava quase real: “sentia” suas mãos sobre as minhas e uma ligeira tontura me atordoava. (“Oh, meu Deus, me perdoe, mas a culpa é do verão, a culpa é de ele ser tão bonito e moreno e eu tão loura!”) A ideia de que eu estava sendo feliz me enchia tanto que eu precisava fazer alguma coisa, alguma bondade, para não ficar com remorsos. E se eu desse a golinha de renda a Mira? Sim, o que é uma golinha de renda, embora bonita, diante de… “Eternidade. Vida. Mundo… Amor”? Mira tem catorze anos e é muito exagerada. Por isso, quando entrou esbaforida no quarto e fechou a porta atrás de si, com grandes gestos, eu disse: – Beba um copo d’água e depois conta como a gata teve trinta gatinhos e dois cachorrinhos pretos. – Clarinha disse que ele se matou! Se matou com um tiro na cabeça… É verdade, é? É mentira, não é? E repentinamente a história se partiu. Nem teve ao menos um fim suave. Terminou com a brusquidão e a falta de lógica de uma bofetada em pleno rosto. Estou casada e tenho um filho. Não lhe dei o nome de W… E não costumo olhar para trás: tenho em mente ainda o castigo que Deus deu à mulher de Loth. E só escrevi “isso” para ver se conseguia achar uma resposta a perguntas que me torturam, de quando em quando, perturbando minha paz: que sentido teve a passagem de W… pelo mundo? que sentido teve a minha dor? qual o fio que esses fatos a … “Eternidade. Vida. Mundo. Deus.”? Outubro 1940 GERTRUDES PEDE UM CONSELHO Sentou-se de modo que seu próprio peso “passasse a ferro” a saia amarrotada. Endireitou os cabelos, a blusa. Agora, só esperar. Lá fora, tudo muito bom. Podia ver os telhados das casas, as flores vermelhas duma janela, o sol amarelo derramado sobre tudo. Não havia hora melhor que duas da tarde. Não queria esperar porque ficaria com medo. E assim não daria à doutora a impressão que desejava causar. Não pensar na entrevista, não pensar. Inventar depressa uma história, contar até mil, recordar-se das coisas boas.

O pior é que só se lembrava da carta que mandara. “Minha senhora, eu tenho dezessete anos e queria…” Idiota, absolutamente idiota. “Estou cansada de andar de um lado para outro. Às vezes não consigo dormir, mesmo porque minhas irmãs dormem no mesmo quarto e se remexem muito. Mas não consigo dormir porque fico pensando nas coisas. Já resolvi me suicidar, mas não quero mais. A senhora não pode me ajudar? Gertrudes.” E as outras cartas? “Não gosto de nada, sou como os poetas…” Oh, não pensar. Que vergonha! Até que a doutora terminou por lhe escrever, chamando-a para o escritório. Mas, afinal, o que iria dizer? Tudo tão vago. E a doutora riria… Não, não, a doutora, encarregada de menores abandonados, escrevendo conselhos nas revistas, tinha que entender, mesmo sem ela falar. Hoje ia acontecer alguma coisa! Não pensar 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7… Não servia. Era uma vez um rapaz cego que… Cego por quê? Não, ele não era cego. Tinha até a vista muito boa. Agora é que sabia por que Deus, podendo tanto, inventava pessoas aleijadas, cegas, ruins. Só por distração. Enquanto esperava? Não, Deus nunca precisa esperar. Que é que ele faz então? Está aí, mesmo que ainda acreditasse n’Ele (eu não acreditava em Deus, tomava banho bem em cima do almoço, não usava o uniforme do colégio e resolvera fumar), mesmo que ainda acreditasse em fantasmas, não poderia achar graça na eternidade. Se fosse Deus até já teria esquecido de como principiara o mundo. Já há tanto tempo e com séculos à frente… A eternidade não começa, não termina. Sentia uma pequena vertigem, quando procurava imaginá-la, e Deus, sempre em toda a parte, invisível, sem forma definida. Riu, lembrando-se de quando bebia avidamente as histórias que lhe contavam. Tornara-se bem livre… Mas isso não significava estar contente. E era exatamente o que a doutora ia explicar. De fato, nos últimos tempos, Tuda não passava nada bem.

Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. Tinha frequentemente vontade de chorar, e o que em geral se reduzia à vontade apenas, como se a crise se completasse no desejo. Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade. E realmente não a suportava, embora não soubesse propriamente em que consistia essa felicidade. Caía num choro abafado, aliviando-se, com a impressão confusa de que se entregava, a não sei quem e não sei de que forma. Às lágrimas sucedia-se, acompanhando os olhos inchados, um estado de suave convalescença, de aquiescência a tudo. Surpreendia a todos com sua doçura e transparência e, ainda mais, forçava uma leveza de passarinho. Dava esmolas a todos os pobres, com a graça de quem joga flores. De outras vezes, enchia-se de força. Seu olhar tornava-se duro como aço, áspero como espinhos. Sentia que “podia”. Fora feita para “libertar”. “Libertar” era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores. Como fora amena há dias, quando se destinava a outro papel? Outro, qual? Tudo era confuso e só se exprimia bem na palavra “liberdade” e nos passos pesados e firmes, no rosto fechado que adotava. À noite não dormia até que os galos longínquos começassem a cantar. Não pensava, propriamente. Sonhava acordada. Imaginava um futuro em que, audaciosa e fria, conduziria uma multidão de homens e mulheres, cheios de fé quase a adorá-la. Depois, pelo meio da noite, deslizava para uma meia inconsciência, onde tudo era bom, a multidão já conduzida, uma ausência de aulas, um quarto só seu, muitos homens a amá-la. Acordava amarga, notando com alegria reprimida que não se interessava pelo bolo que as irmãs devoravam animalmente, com irritante despreocupação. Vivia então os seus dias gloriosos. E chegavam ao auge com algum pensamento que a exaltava e a mergulhava em misticismo ardente: “Entrar para um convento! Salvar os pobres, ser enfermeira!” Imaginava-se já vestindo o hábito negro, o rosto pálido, os olhos piedosos e humildes. As mãos, aquelas mãos implacavelmente coradas e largas, emergindo, brancas e finas, das longas mangas.

Ou então, com a touca alva, olheiras cavadas pelas noites não dormidas. Entregando ao médico, silenciosa e rapidamente, os ferros de operar. Ele a miraria com admiração, simpatia mesmo, e quem sabe? Amor até. Mas, impossível ser grande num ambiente como o seu. Interrompiam-na com as observações mais banais: “Já tomou banho, Tuda?” Ou, senão, o olhar das pessoas de casa. Um olhar simples, distraído, completamente alheio ao nobre fogo que ardia dentro dela. Quem poderia persistir, pensava acabrunhada, junto de tanta vulgaridade? E além disso, por que não “aconteciam coisas”? Tragédias, belas tragédias… Até que descobriu a doutora. E antes de conhecê-la, já lhe pertencia. De noite mantinha longas conversas imaginárias com a desconhecida. De dia, escrevia-lhe cartas. Até que foi chamada: viam afinal que ela era alguém, uma extraordinária, uma incompreendida! Até o dia marcado para a entrevista, Tuda não se sentiu. Viveu numa atmosfera de febre e de ansiedade. Uma aventura. Compreendem bem? Uma aventura. Não tardaria a entrar no escritório. Vai ser assim: ela é alta, tem os cabelos curtos, olhos fortes, um busto grande. Um pouquinho gorda. Mas ao mesmo tempo parecida com Diana, a Caçadora, da sala de visitas. Ela sorri. Eu fico séria. – Boa-tarde. – Boa-tarde, minha filha (não seria melhor: boa-tarde, irmã? Não, não se usa). – Vim aqui por excesso de audácia, confiando na bondade e compreensão da senhora. Tenho dezessete anos e acho que já posso começar a viver. Duvidava que tivesse tanta coragem.

E mesmo o que a doutora tinha, afinal, a ver com ela? Mas, não. Aconteceria alguma coisa. Dar-lhe-ia trabalho, por exemplo. Poderia mandá-la viajar para colher dados sobre… sobre a mortalidade infantil, suponhamos, ou sobre os salários dos homens do campo. Ou poderia dizer: – Gertrudes, você terá papel muito maior na vida. Você fará… O quê? Afinal o que é grande? Tudo acaba… Não sei, a doutora vai falar. De repente… O rapazinho coçou a orelha e disse, o ar velho que as pessoas teimavam em emprestar aos fatos excitantes e novos: – Pode entrar… Tuda atravessou a sala, sem respirar. E encontrou-se diante da doutora. Estava sentada junto à mesa, rodeada de livros e papéis. Uma estranha, séria, com uma vida própria, que Tuda não conhecia. Fingiu arrumar a mesa.

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