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A BESTA DOS MIL ANOS – Ilmar Penna Marinho Junior

A maior e a mais impressionante tapeçaria do mundo foi o tema da palestra do curador do Castelo de Angers, na 21 a edição do Festival de Jornalismo, promovido anualmente pela prefeitura da histórica capital de Anjou, situada no Vale do Loire, na França, com seus majestosos castelos e deliciosos roses. — Meus amigos, tenho a honra de estar aqui, no Palácio das Artes, para lhes falar da grandiosa tapeçaria inspirada no último livro do Evangelho, ou melhor, no Apocalipse, segundo São João. Uma obra belíssima que transcende os valores feudais e a imaginação, e era somente exibida nas grandes ocasiões festivas da realeza para mostrar o poder e o luxo dos príncipes de Anjou. Também tenho orgulho de lhes falar do Castelo de Angers, essa inexpugnável fortaleza militar, construída por uma mulher guerreira, a regente Blanche de Castille. Atualmente, o castelo abriga a tapeçaria do Apocalipse e o Museu de Armas Medievais, que reúne a mais completa coleção de bestas de guerra da França, esta abençoada terra de François Villon, Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay… A partir daí, inicia-se, na noite de 13 de outubro de 2006, uma longa viagem através do tempo feita pelo renomado historiador e curador Ferdinand Rochemont de Sailly, auxiliado pelo padre Antoine Duvert, ambos palestrantes no auditório do Palácio das Artes. Inicialmente, apresentou-se uma explanação sobre como se deu a anexação da província de Anjou ao reino da França, em 1204, e como a regente Blanche de Castille, que reinou de 1221 a 1244, mãe de dez filhos, mandou construir uma colossal fortaleza, com as dezessete torres, para resistir às ameaças e ambições do então rei da Inglaterra, Henrique III. O curador teceu loas à beleza e sabedoria da regente, celebradas em versos e cantigas medievais, pois ela possuía a mesma autoridade e determinação soberana de Catarina II, da Rússia, conhecida como Catarina, a Grande. Depois, o curador, de blazer e gravata borboleta, resgatou a tumultuosa vida de Luís I de Valois, duque de Anjou e Touraine, rei de Nápoles (Napoli), Itália, e conde de Provença (Provence), França, o segundo filho do rei João II, o Bom, e irmão de Carlos V, o Sábio, ambos reis da França, dinastia de Valois. Contou que durante o período de dominação inglesa e da Guerra dos Cem Anos, Luís I, mesmo residindo pouco tempo no Castelo de Angers, encomendou, em 1373, a famosa tapeçaria do Apocalipse aos ateliês parisienses de Nicolas Bataille, que levaram nove anos para concluí-la. Projetou então diversos textos e fotos para ilustrar a saga do nascimento e da destruição e ressurreição das cinzas da mais famosa tapeçaria medieval francesa. Não se intimidou em censurar o filho de Luís II, Renê, o último duque de Anjou, a morar no castelo, também conhecido como Renato I de Anjou, duque de Lorena (Lorraine), França, e rei de Nápoles, o Bom Rei Renato (Le Bon Roi Renê), que doou a tapeçaria, em testamento, aos dignitários eclesiásticos da Catedral de Angers, dedicada a São Maurício, padroeiro da cidade. — Foi um verdadeiro sacrilégio o que fizeram com a tapeçaria de haute lisse doada à catedral. Emconsequência desse gesto impensado, ela foi retalhada e posta à venda. Após o comentário, em tom emocionado, Ferdinand de Sailly explicou que, durante a Revolução Francesa, os objetos sacros foram destruídos. No caso da tapeçaria, algo extraordinário aconteceu. Em vez de as peças desmembradas desaparecerem, elas foram milagrosamente reagrupadas e conservadas na Abadia de Saint-Serge. O curador, percebendo que o padre Antoine não parava de se mexer na cadeira, demonstrando visível impaciência, autorizou-o, com um sinal de cabeça, a ler um documento, datado de 1806, que acabara de retirar de sua pasta e descrevia o estado deplorável da tapeçaria, jogada “num lugar úmido, onde se esburacava e se rompia ao simples contato das mãos”. Mas o padre não se deu por satisfeito com apenas a leitura e expressou também sua opinião sobre a vitalidade cromática da obra religiosa. — É muito importante ressaltar que a tapeçaria conserva nos dias de hoje, no lado do avesso, toda a força de suas cores originais: vermelhos quentes, azuis profundos, alaranjados dourados e verdes arrebatadores. Essas cores se mesclam nas esplendorosas imagens dos vinte e quatro anciões, nos quatro cavaleiros do Apocalipse, nos anjos trombeteiros da Anunciação, nos adoradores do Anticristo, nas bestas fantásticas de sete cabeças, nos eleitos, nos baldaquinos e nas igrejas góticas. Tomando novamente a palavra, o curador ressalvou que nem sempre os resultados, sobretudo das mais recentes restaurações, foram bem-sucedidos, porque as modernas tinturas químicas, com o passar dos anos, se revelariam impróprias no restauro das obras de arte tecidas por magistrais artesãos medievais, que utilizavam tintas naturais, extraídas das plantas. Ao término da conferência, seguiu-se uma saraivada de perguntas, algumas descabidas, como a primeira, de uma jovem, provocando risos no público: — Gostaria de saber, senhor curador, se a regente Blanche passava a tropa em revista como fazia a rainha Catarina? Foi esta a resposta do curador à pergunta capciosa: — Mademoiselle, como as muralhas do castelo eram espessas, surdas e cegas aos amores de seus donos, não há nenhum registro sobre o que a regente Blanche, viúva de Luis VIII, morto em 1226, fazia da sua disponibilidade de tempo, após revistar a sua guarda de honra. Curiosamente, sua pergunta me faz lembrar o famoso episódio, contado pelo menestrel de Reims, em que um gesto extravagante dessa rainha serviu para silenciar as calúnias do bispo de Beauvais e de outros vassalos. A regente dirigiu-se ao Parlamento, onde tinha assento. Entrou, vestindo um longo casaco, e exigiu silêncio e atenção.


Subiu numa mesa central e gritou para o bispo: “Olhem bem e vejam se estou grávida”, enquanto deixava cair o casaco até aos pés. Foi girando nua em todas as direções sob os olhares embevecidos da assistência, tudo para provar ser falsa a acusação de estar esperando outro filho. Todos se precipitaram até ela com respeito e admiração, cobriram-na com o casaco e a conduziram aos aposentos reais. Não se sabe até hoje se agiram assim por devoção à sua beleza ou à sua coragem. — Poderia explicar o porquê da venda? — indagou uma senhora no fundo do auditório. — O padre Antoine Duvert, que conhece bem essa fase nefasta da tapeçaria, vai responder à senhora. — Bem, após a doação, em 1474, a tapeçaria ficava exposta na nave da catedral, no dia de São Maurício, no Natal, na Páscoa e no domingo de Pentecostes. Por mais que a considerassem”absolutamente magnífica”, os padres se queixavam do grande trabalho de suspendê-la na abóbada e dos gastos para conservá-la intacta. Reclamavam também porque ela abafava os cantos e tornava os sermões inaudíveis. Decidiram colocá-la à venda em 1783, às vésperas da Revolução. Ninguém quis comprá-la! Mas o pior estava por vir. Como sua conservação se tornou um estorvo, ela foi recortada e passou a ter as mais inusitadas utilidades. Serviu de proteção em estufas de produtos hortigranjeiros, de cortina, de pelego para selas e até de capacho. Foi uma afronta o que fizeram comessa grandiosa obra de arte sacra. — Poderia nos dizer quando se iniciaram os trabalhos de restauração? — indagou uma jovem, comovida com a descrição. — O cónego Louis-François Joubert, nomeado custódio da catedral, foi quem teve a ideia genial de criar um ateliê para restaurar a tapeçaria. Os trabalhos começaram no dia 1º de fevereiro de 1849 e continuam até hoje. Recuperaram-se as seis peças que contêm 14 quadros cada uma e mais as cenas com os “grandes personagens”. Ao todo, tem 103 metros de comprimento por quatro e meio de altura. Não há como não ficarmos impressionados com as quatro figuras gigantescas restauradas, no meio do dossel sustentado por colunas, em que somos convidados à contemplação e reflexão sobre as cenas bíblicas. Os expositores foram submetidos a uma série de perguntas sobre as cenas desaparecidas. — Bem, senhores — expôs o curador. — Eu tenho muita esperança de recuperar alguns quadros perdidos. É um sonho que acalento com fé religiosa. Conto com a ajuda dos alunos do Liceu SaintSerge; lançamos um aviso internacional pela internet a todos os centros culturais, historiadores, diretores de museus, antiquários e pesquisadores de arte sacra e também às famosas casas de leilões, buscando localizar a obra.

Esse excelente trabalho foi coordenado pelo nosso querido padre Antoine Duvert da Abadia e do Liceu Saint-Serge. Ele tem me ajudado a desfazer equívocos e desmanchar pistas fraudulentas, que sempre ocorrem em relação às obras de arte. — Realmente, sou um fa incondicional da comunicação virtual — confirmou o padre Antoine, ainda irrequieto na desconfortável cadeira, após ser elogiado pelo curador. — Tenho desenvolvido um trabalho de rastreamento com um grupo de jovens alunos que praticam a informática no liceu. Os meninos têm me ajudado muito nas pesquisas pelo mundo inteiro. — Obtiveram algum resultado? — perguntou um rapaz barbudo, com ar de estudante universitário e uma tatuagem no pescoço, que estava sentado na segunda fila. — Infelizmente nada de positivo até agora. Há um boato que uma cena da tapeçaria possa estar na Polônia — ressalvou o curador. — A notícia está sendo analisada. Onde houver um indício, usarei de todos os meios ao meu alcance para recuperar pelo menos um dos quadros perdidos. Não vou desistir. Sem mais perguntas para responder, após passar a mão pela calvície frontal, o curador concluiu a palestra: — Meus amigos, todos estão convidados a visitar o Castelo de Angers, um dos mais importantes museus do glorioso patrimônio histórico da França. Visitem o Museu de Armas e a tapeçaria reveladora do Apocalipse, que traz esperanças de um mundo sem miséria e violência quando descer do céu a Nova Jerusalém. Encantem-se com a beleza da maior tapeçaria do mundo, antes do início das obras de reforma da galeria para a instalação da nova iluminação, prevista para o início do verão. Muito satisfeitos com os aplausos que se habituaram a compartilhar, os dois velhos amigos saíram sorridentes do prédio reformado na Praça Michel Debré, a poucos metros da prefeitura. Viram todas as luzes da fachada branca do Palácio das Artes acesas, tal como o prefeito exigira que ficasse durante o 21º Festival de Jornalismo. Queria que o maior evento sociocultural daquele ano de eleição municipal fosse intensamente iluminado pelas luzes do saber para uma platéia francesa sempre ávida de conhecer a grandeza de sua história. — O que mais me impressiona no festival é a vontade dessa gente de respirar cultura — exaltou o padre Antoine, sorridente. — Isso é muito bom. — Breve, serão recompensados. A galeria está ficando uma beleza! Resolvi reaproximar mais as telas e acabar com os enormes espaços vazios entre elas. Não haverá mais o impacto negativo causado pelas cenas que faltam. Deixei apenas um espaço vazio para o sonho não acabar. — Deixou onde? — perguntou o padre Antoine, curioso. —Vai descobrir, amigo, quando fizermos juntos a inspeção final para a reabertura da galeria — provocou o curador Ferdinand, sorrindo e estendo-lhe a mão em sinal de despedida.

— Vou aguardar. Pode deixar que vou descobrir tudo que anda escondendo de mim — disse o padre, como se, por trás do sorriso irônico do curador, desconfiasse de algo demoníaco que o misterioso vazio na parede quisesse ocultar. O padre Antoine Duvert, de repente, silenciou e ficou com o semblante grave, aflito, de quem estava prestes a orar. Reconhecia como legítima e saudável a ambição do curador do castelo em recuperar pelo menos um dos sete quadros perdidos da sequência da Revelação Divina; em especial, a recuperação a qualquer preço da cena desconhecida do Diabo enjaulado por mil anos. Na verdade, temia que esse quadro desaparecido significasse que o dragão de sete cabeças estivesse solto e fosse o grande responsável pela atual desordem no mundo. Onde estivesse, estaria semeando a discórdia, incentivando a aids, a pedofilia, o aborto e a clonagem humana, instigando a violência, a ganância e a corrupção.Tudo indicava que os homens teriam perdido a batalha do bem contra o mal. Essa foi a visão aterrorizante que sua mente teve, pairando sob as imensas torres circulares do Castelo de Angers. Mais do que nunca acreditou ser fundamental, do ponto de vista religioso ou cultural, encontrar esse quadro perdido da tapeçaria do Apocalipse, cujas telas ilustravam as visões recebidas por São João, de Jesus Cristo, por intermédio de um anjo. A busca do quadro da Besta deveria ser intensificada em qualquer ponto do mundo. Portanto, mãos à obra, senhor curador.

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