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A besta humana – Emile Zola

PUBLICADO EM 1890, A besta humana é o 17º título do extenso projeto literário de Émile Zola Os RougonMacquart: História natural e social de uma família sob o Segundo Império, cujos vinte livros foram lançados entre 1871 e 1893. Mas, assim como Balzac, o expoente da geração literária anterior, fizera em A comédia humana, o fato de integrar um projeto mais amplo em nada compromete a leitura avulsa dos romances. A ideia de Zola era usar em sua série as teses literárias por ele desenvolvidas e chamadas “naturalistas”, que viam na ciência a evolução definitiva do homem, com respostas inclusive para suas aflições espirituais. Os Rougon-Macquart seria o encontro da literatura com o saber científico dos anos 1850-60. Em 1869, Zola escreveu um texto bastante explícito nesse sentido – “A diferença entre mim e Balzac” –, anunciando o projeto: Minha obra será menos social e mais científica. Com a ajuda de 3 mil figurantes, Balzac escreveu a história dos costumes, tendo como base a religião e a monarquia. Sua cientificidade consistia em constatar a existência de advogados, de ociosos etc. como há cães, lobos etc. Em outras palavras, sua obra pretendia espelhar a sociedade contemporânea. A minha buscará outra coisa. O enquadramento será mais restrito. Não pretendo descrever a sociedade contemporânea, mas apenas uma família, mostrando a relação da “raça modificada” pelos diferentes meios ambientes … e entendo por meio ambiente, entre outras coisas, a ocupação profissional e o local de residência. Minha intenção maior é a de ser puramente naturalista, puramente fisiologista. Em vez de princípios (a monarquia, o catolicismo), terei leis (a hereditariedade, o atavismo). Não quero, como Balzac, interferir nos interesses humanos, ser político, filósofo, moralista. Para mim basta a ciência … sem maiores conclusões. … Balzac diz querer descrever os homens, as mulheres e as coisas. Para mim, homens e mulheres são o mesmo, admitidas as diferenças de natureza, e submeto ambos às coisas. Declaradamente, então, a meta é escrever uma Comédia humana contemporânea, científica e não mais fixada nos valores da geração anterior, que realçavam no homem, sobretudo, a razão, e dentro de um enquadramento social antigo. Por trás do processo civilizatório que vinha divinizando o ser humano, o tempo todo se escondia a “besta”, com sua primitiva violência. Desvenda-se o instinto, e ele pode ser feroz. Do outro lado do canal da Mancha, na Inglaterra, Robert Louis Stevenson publicara O médico e o monstro em 1886, cinco anos antes de A besta humana. Stevenson abordava exatamente o mesmo tema de forma bem diversa, mostrando que o inumano faz parte do homem. Mais rigorista e menos alegórico, o francês procurava enxertar em sua obra teses por ele defendidas, uma vez que o romance devia se assumir como “consequência da evolução científica do século”. 1 É bomlembrar que o simples uso da palavra “evolução” imediatamente remetia então ao darwinismo, teoria que escandalizava a sociedade conservadora de convicções criacionistas com o que Freud mais tarde chamaria “a segunda ferida narcísica” do homem na modernidade, isto é, a sua ascendência primata.


No mesmo texto, Zola afirma que o romance naturalista “continua e completa a fisiologia, que por sua vez se apoia na química e na física, estabelecendo, no lugar do homem abstrato, do homemmetafísico, o estudo do homem natural, submetido às leis físico-químicas e determinado por influências do seu meio”. É este, então, o grande projeto literário de Zola, que, partindo de sua formação jornalística, monta uma consistente reportagem, em que a acuidade das sensações enriquece a pertinência das observações técnicas. Ao final da primeira etapa do trabalho – de pesquisa e levantamento de material –, são tantas as informações reunidas que ele poderia repetir a boutade do grande mestre do realismo francês, Gustave Flaubert, que, em carta à escritora George Sand, redigida enquanto ele preparava o romance Salambô, disse: “O livro está pronto, só falta escrevê-lo.” Dentro desse espírito de, antes mesmo de compor a primeira linha, montar a ossatura não só do romance mas da série inteira, Zola, entre 1868 e 1869, desenhou a árvore genealógica dos seus personagens (ela sofreria modificações em 1878 e em 1889, para afinal ganhar sua versão definitiva no último romance da série, Le docteur Pascal). Nessa árvore, já semeada com toda sua ramagem, cada membro da família tinha um balão explicativo com um resumo cronológico da sua vida, suas tendências hereditárias e profissão, de forma tão inexorável que o escritor Alphonse Daudet (enciumado, na verdade, com o crescente sucesso do colega) declarou que, se fosse fruto de semelhante vegetal, rapidamente se enforcaria no seu galho mais alto. FILHO DE PAI ITALIANO e mãe francesa, o menino Émile Zola nasceu em 1840, em Paris. A família se mudou para Aix-en-Provence, no sul da França, quando ele tinha três anos de idade, pois o pai, que era engenheiro, conseguira autorização para montar um empreendimento que levaria água potável à cidade. Foi um projeto inovador, com a construção da “barragem Zola”, ainda existente junto à montanha Sainte Victoire. O engenheiro, porém, jamais a veria pronta, pois foi vítima de uma pneumonia que o matou em 1847. Os credores pediram a falência da empresa, para comprá-la emleilão público pouco tempo depois. O menino, filho único, foi educado pela avó e pela mãe, numambiente de quase pobreza. Passou a infância e a adolescência emAix, desde cedo fazendo amizade com Paul e Jean-Baptiste, formando uma trinca conhecida na cidade como “os três inseparáveis”. Paul é o pintor Paul Cézanne (que tornaria famosa no mundo inteiro, justamente, a bela montanha Sainte Victoire, com várias telas) e Jean-Baptiste Baille foi um eminente físico e astrônomo francês. Ambos serviram de base para personagens do 14º volume dos Rougon-Macquart, L’Œuvre (1886), mas Cézanne rompeu em definitivo com o escritor, ofendido por ter servido de base para o retrato de um pintor fracassado e semienlouquecido, Claude Lantier. Foram Paul e Jean-Baptiste os primeiros leitores de Zola, que desde cedo diz em cartas que seria, no futuro, um escritor reconhecido. Reprovado duas vezes no exame vestibular, Émile mudou-se para Paris em 1859 e começou uma vida de pequenos empregos e muitos desempregos, ligando-se à boemia dos jovens artistas do círculo impressionista, já frequentado por Cézanne. Em 1866, quando começou a trabalhar na livraria e editora Hachette, aproximou-se enfim do mundo dos livros e produziu intensa e apaixonadamente. Colaborou com jornais e revistas, em pleno boom da imprensa, publicando, em capítulos seriados, centenas de contos e romances. Mas foi em 1867 que a carreira de escritor deu um salto, com a publicação de Thérèse Raquin. O relativo êxito serviu de pretexto para Zola, temerariamente, dedicar-se com exclusividade à literatura. Ele tinha 27 anos, e passou então por grandes dificuldades materiais. Vivia há dois anos em concubinato com Alexandrine, também pobre, mas que o apoiava em suas decisões, muitas vezes inclusive fazendo frente sozinha às despesas domésticas. O casamento oficial só se efetuou em 1870, depois da morte da mãe de Zola, que era contra a união do filho com aquela moça de origemduvidosa. De fato, não se sabe muito como o escritor e Alexandrine se conheceram, mas alguns biógrafos afirmaram que ela posava nua para pintores… O casamento foi longevo, mas sem gerar descendentes. Beirando os cinquenta anos, Zola se apaixonaria por uma empregada da casa, de 21 anos, com quem teve dois filhos, Denise e Jacques.

Ao saber da infidelidade do marido, Alexandrine, depois de muito relutar, acabou aceitando e inclusive reconheceu, depois da morte do escritor, a paternidade de Zola, para que as crianças tivessem o nome do verdadeiro pai. Zola morreu ao lado de Alexandrine, num acidente ocorrido em 1902, intoxicado pela fumaça da lareira do quarto de dormir. A única atividade extraliterária mantida por Zola a partir da publicação de Thérèse Raquin foi o jornalismo, livre, entretanto, de vínculos fixos com qualquer órgão da imprensa. O eixo de sua produção jornalística está na declarada oposição ao governo autoritário de Napoleão III, que assumira o trono imperial em 1852, após um golpe de Estado, sustentado pela magia que o nome do tio famoso guardava ainda no imaginário político francês. Tal militância rendeu a Zola amigos e inimigos no mundo do poder, muito embora ele nunca tenha querido se candidatar a qualquer cargo público. A estabilidade financeira, ou até mais que isso, o sucesso propriamente dito, teve início com a publicação do sétimo volume dos Rougon-Macquart, L’Assommoir, em 1877. Já no ano seguinte, Zola comprou uma casa em Médan, à beira do Sena, a 26 quilômetros de Paris, que se tornará o ponto de encontro da corrente naturalista. NA EFERVESCÊNCIA LITERÁRIA do século XIX, o naturalismo dava continuidade ao realismo – este por sua vez ummovimento de reação contra o melodrama excessivo em que havia degenerado o romantismo. A nova corrente filiava-se a Balzac e a Stendhal (que certamente não se imaginavam “realistas”) emdetrimento de Victor Hugo. Já no prefácio para a segunda edição de Thérèse Raquin, em 1868, Zola definiu o que seria a intenção naturalista: representar o cotidiano da maneira mais fiel possível, semomitir o banal e mantendo sempre um ponto de vista objetivo. Balzac buscou seus personagens nas classes privilegiadas; o naturalismo faria o mesmo junto às classes médias e populares, abordando temas como o trabalho assalariado, as relações conjugais, os conflitos sociais, reproduzindo a realidade com perfeita objetividade, sem recuar diante de nenhum dos seus aspectos, inclusive os mais vulgares. Por essa última característica – e sobretudo nos primeiros anos –, a crítica foi implacável. Umartigo do jornal Le Figaro rotulou o movimento de “literatura pútrida”, e Zola foi regularmente acusado de pornografia. Seu prestígio intelectual, contudo, não parava de crescer, assim como sua popularidade, que alcançou o ápice em 1880, com a publicação de Nana, o nono volume da série, que vendeu mais de oitenta edições em seis meses. Esse mesmo afã da “objetividade extrema” rendeu ao escritor uma sutil repreensão do poeta Stéphane Mallarmé, que em carta ao amigo afirmou que “o mundo existe e não temos o que lhe acrescentar … a literatura é um pouco mais complicada do que isso”. A escola naturalista, também conhecida como escola de Médan, terminou antes que fossem publicados os vinte volumes dos Rougon-Macquart. À sua volta, enquanto durou, agruparam-se escritores importantes, como demonstra o livro Les soirées de Médan (1880), uma espécie de manifesto coletivo que juntou contos e novelas do próprio Zola e ainda de Guy de Maupassant, J.-K. Huysmans, Henry Céard, Léon Hennique e Paul Alexis. Da confraria brotaram valores estéticos essenciais, unanimemente assumidos, como a rejeição ao idealismo romântico, à imaginação e ao próprio realismo – o primeiro “desmentido pelas realidades da sociedade industrial”, a segunda desqualificada em prol da observação e o terceiro rejeitado por se pretender mero espelho da vida, sem se aprofundar em esclarecimentos nem explicações. A literatura, para os integrantes das reuniões de Médan, não devia mais se fazer sem levar em consideração a história e a tomada de consciência dos mecanismos sociais. Assim sendo, ela não podia mais se calar diante das novas realidades, como o desenvolvimento dos grandes centros urbanos, tristes e miseráveis, nem fechar os olhos às terríveis injustiças da sociedade capitalista. Zola, pessoalmente, somava a essas normas, de caráter mais político e objetivo, um fascínio particular por fenômenos que a medicina de então começava a compreender, como o da hereditariedade fisiológica, com todo seu caudal de taras, degenerescências e crimes, regidos por leis imutáveis que existem nos indivíduos, com raízes ainda mais fundas até que o meio social. O espírito de dedução e racionalização de Introduction à l’étude de la médicine expérimentale, do médico Claude Bernard, publicado em 1865, tinha sido uma revelação para o jovem escritor, que se propusera então a estudar as doenças do corpo social, seguindo o caminho aberto não só pelo terapeuta, mas também pelo historiador Hippolyte Taine, para quem a história é determinada por leis equivalentes às do mundo natural, com cada fato dependendo de três condições: o meio (geográfico, climático), a raça (o estágio do corpo humano na evolução biológica) e o momento (o estado de avanço intelectual do homem). A todas as especialidades, inclusive a literatura, convenceu-se Zola, podia e devia ser ministrado o mesmo método experimental hipotético-dedutivo.

Não faltaram condenações a tanta ciência aplicada a romances. Juntem-se a isso os fantasmas pessoais de Zola, que povoaram a sua obra – o incesto, o parricídio, o adultério, a perversão e a corrupção dos costumes –, levando-a a um desespero ontológico que acabou afastando de Médan mesmo os seguidores mais fiéis. De fato, o mundo dos Rougon-Macquart é um mundo de paisagens em que a luz porventura acesa logo é encoberta pela fumaça das fábricas e pela sujeira das cidades, onde procriam homens alienados, embrutecidos pela miséria e pelo álcool, tendo como único escape a violência. Já as mulheres são bestas de carga ou de prazer, enquanto as crianças, espancadas e estupidificadas, deixam que se apague nos seus olhos o brilho da ancestral busca da felicidade. O determinismo biológico e social abria alternativas nada otimistas para o ser humano, apesar dos avanços da ciência. Tal pessimismo se consolidaria ao longo de dezenove volumes dos Rougon-Macquart: La fortune des Rougon, La curée, Le ventre de Paris, La conquête de Plassans, La faute de l’abbé Mouret, Son Excelence Eugène Rougon, L’Assommoir, Une page d’amour, Nana, Pot-bouille, Au bonheur des dames, La joie de vivre, Germinal, L’Œuvre, La terre, Le rêve, La bête humaine, L’Argent, La débâcle. Dezenove, mas não vinte, pois o último tomo, Le docteur Pascal, embora parta da relação incestuosa entre o doutor e sua sobrinha, entreabre um possível escape à inexorabilidade do destino e das leis fisiológicas, concluindo-se (e com ele toda a série) com o nascimento de uma criança, num hino à vida e à natureza todo-poderosa. O próprio Zola explicita sua marcha a ré, numa carta de 12 de junho de 1893: “Quis [nesse último romance] explicar e defender a série inteira, e atrevo-me a dizer que é uma conclusão científica, filosófica e moral, não fossem essas pomposas palavras tão ambiciosas.” ESTE É O “MEIO”, então, inóspito, a partir do qual estende os seus galhos a árvore genealógica dos RougonMacquart. Jacques Lantier é o principal membro da família em A besta humana, mas a metáfora animal do título pode caracterizar vários personagens da história. Ele é maquinista, trabalhando no expresso que liga Paris à cidade de Le Havre, destacado porto do norte da França, voltado à comunicação do país com a Inglaterra e as Américas. Até o advento da ferrovia, o percurso era feito principalmente pelo rio Sena, cujos inúmeros meandros passaram a ser cortados pelo trem (aliás, essa mesma linha e o rio passam por Médan, onde morava Zola). Se em toda a família a hereditariedade alcóolatra criou diferentes neuroses de continuidade biológica, em Jacques isso se transformou num distúrbio que abre uma “rachadura” no seu espírito, por onde seu eu escapa e o faz perder o controle de si mesmo, emprestando-lhe “mãos legadas por algum antepassado da época em que os homens, na floresta, estrangulavam as feras!” Mas Jacques é incapaz de fazer mal a uma mosca, e sua violência se volta exclusivamente contra as mulheres, pois a atração física nele se completa por uma irresistível necessidade de matar a quem deseja, buscando se vingar “daquelas ofensas antiquíssimas, das quais não tinha mais a lembrança exata, o rancor transvasado de macho em macho desde a primeira traição feminina no fundo das cavernas”. Ao se apaixonar e conseguir ter relações sexuais ardentes e completas – sem matar sua parceira –, o maquinista julga estar curado, acreditando que “nas sombrias profundezas da besta humana, possuir e matar se equivalem”. Zola, é claro, não tinha o apoio do instinto de morte freudiano, que só viria à luz cerca de trinta anos depois, em Além do princípio do prazer. Nesse livro, publicado em 1920, o autor austríaco desenvolveu a sua teoria das pulsões, a partir de duas forças opostas, por ele denominadas Eros e Tânato, os deuses gregos que representam o erotismo e a morte. Enquanto o primeiro busca a preservação da vida, o segundo tende à destruição. O detalhe complicador, nesse esquema aparentemente simples, é que as duas pulsões, presentes em todo ser humano, são complementares, funcionando em conjunto. A partir desse ponto de vista, a aflição do maquinista Jacques Lantier prenuncia e personifica maravilhosamente a tese do pai da psicanálise, como bem realçou o filósofo Gilles Deleuze num texto de A lógica do sentido (1969), “Zola e a fissura”, mostrando como o maquinista pressente a maneira pela qual o instinto de morte se disfarça sob os diferentes apetites, levando-o então a evitar não só as mulheres, mas também o álcool, o dinheiro, as ambições. Para protegê-lo dos instintos, nada mais seguro que a máquina, a locomotiva. O romance vai bem além dessa vertente psicológica, em torno da qual pululam personagens e histórias que se entrecruzam e entredilaceram, mas não à maneira oitocentista do folhetim, formato ao qual Zola se opunha. Desdobra-se numa segunda vertente, judiciária, que anuncia o futuro autor de J’Accuse, a carta aberta ao presidente da República francesa escrita em 1898, denunciando o famoso processo Dreyfus, no qual um capitão foi usado como bode expiatório num escândalo militar envolvendo interesses de Estado. Por fim, a última vertente do livro, espetacular e tão naturalista, é a observação da vida e dos espaços em torno das ferrovias, com imagens que se tornaram familiares para nós, reproduzidas nas telas impressionistas dos pintores da época. De fato, as locomotivas, os vagões, o vapor, a fumaça, o corre-corre nas grandes estruturas de ferro e vidro das estações foram temas recorrentes na pintura daquelas décadas, e Zola, em A besta humana, soube transpor para as páginas do livro todo o fascínio e o espetáculo que era um trem no século XIX. São grandiosas as descrições técnicas das estações ferroviárias de Saint-Lazare, em Paris, e de Le Havre, assim como o retrato da vida dos funcionários da estrada de ferro, dos trens e da máquina a vapor.

Esta última é praticamente um personagem do romance, representada pela Lison, a locomotiva perfeita, amorosamente conduzida por Jacques Lantier e seu foguista, num verdadeiro “ménage à trois” (a expressão é do autor) sobre trilhos, indo e vindo no percurso Paris–Le Havre, atravessando túneis (muito propícios dramaticamente), passagens de nível, cidades e vilarejos. O mundo é visto a partir do trem e o trem é visto a partir do entorno das vias, transportando sua multidão de anônimos perfilados nas janelinhas de vidro dos vagões. Símbolo do progresso, o trem é uma força cega, indiferente aos dramas humanos e conjuga, no romance, a fatalidade mais obscura e o avanço tecnológico. Para tanto, o escritor doublé de cientista recorria a notas infindáveis, pessoais e encomendadas a profissionais das diferentes áreas abordadas em seus romances. Em carta de 27 de junho de 1890, ele explicou ao colega Jules Héricourt: “Minha maneira de trabalhar é sempre a seguinte: antes de tudo me informo vendo e ouvindo, em seguida com livros e anotações que me dão os amigos. Depois a imaginação faz o resto. Essa parte intuitiva é bem maior do que pretende a crítica. Como dizia Flaubert, tomar notas é sinal de honestidade, mas uma vez tomadas, é preciso saber desprezá-las.” Se nos preparativos para Au bonheur des dames foram necessárias detalhadas observações in loco nos magazines Au bon marché e Louvre, e para Germinal Zola foi às minas de carvão de Anzin, assim como para La terre passou vários dias na região rural da Beauce, A besta humana exigiu uma viagem em locomotiva, detalhada visita às estações e arredores e a ajuda de especialistas tanto do universo ferroviário quanto do judicial. O romance, entretanto, interessa por suas dimensões épica e dramática, mais do que pelas teses apresentadas e defendidas. De fato, o leitor de hoje vê como curiosidade pitoresca – ambientando primorosamente a narrativa – todo esse trabalho exato e quase enciclopédico que se acrescenta ao formidável thriller policial e ao intenso drama psicológico. A angústia de Jacques, só apaziguada no cockpit da sua locomotiva, em certos momentos se equipara à de Raskólnikov em Crime e castigo. Já Séverine, a principal figura feminina do livro, junta sincera doçura e firme crueldade, que fazem dela um personagem tão explosivamente perigoso quanto o maquinista à mercê do atavismo homicida. Com mistérios de atuante passividade, ela desperta – e manipula – sentimentos dóceis e até servis em homens brutos. No plano ainda das descrições, sejamos clementes com aquelas feitas a partir dos traços fisionômicos dos personagens. São calcadas na leitura de O homem delinquente, do médico e frenologista italiano Cesare Lombroso, livro publicado em 1876 e que teve grande e duradoura influência na criminologia “científica”. Mesmo à época em que foi escrito o romance, as deduções lombrosianas, tiradas da observação de dezenas de crânios de criminosos condenados à morte e que o levaram a “prever” tendências congênitas nos indivíduos, já eram muito combatidas por ciências sociais emergentes, como a sociologia e a antropologia. Mas foram teses defendidas por Zola, dentre outras que hoje parecem datadas e até extravagantes – como as curas com injeções de substâncias orgânicas e o fenômeno da combustão humana espontânea, lenda urbana então em voga, apoiada emdiversas explicações fisiológicas e que mata um membro da família Macquart, em Le docteur Pascal. MAIS DO QUE SÓLIDA e previamente estruturado dentro do projeto naturalista do escritor, A besta humana é também uma obra-prima de indiscutível gênio literário. E a presente tradução, por sua vez, tentou ao máximo dar conta dessas duas facetas; subjetiva a segunda, com entusiasmo descritivo às vezes verborrágico (para não dizer hemorrágico), e mais objetiva a primeira, que nos obrigava a praticamente sujar as mãos de graxa, encontrando a palavra tecnicamente correta para designar bielas, cilindros, excêntricos e cruzetas, dentro do vocabulário das máquinas a vapor. O romance se conclui com imagem crítica à bestialidade industrial e militar – tão onipresentes no século XX, o qual nunca se livrou por inteiro desse tom noir e degradado que ambienta toda a série Rougon-Macquart. Zola foi quem apontou na literatura a alienação dos homens, sua desumanização social, a presença esmagadora da indústria, a perda dos valores e do sentido das coisas, tão constantes nos debates e nas artes das décadas seguintes, inclusive no cinema, que então despontava. Não por acaso, foi a Zola que outro gênio literário, Louis-Ferdinand Céline, o escritorsíntese dessa crise com os rumos da civilização, prestou sua única homenagem pública a alguém ou a qualquer coisa. Foi em 1933, em Médan, justamente, num discurso de pouco mais de cinco minutos: Pensando em Zola ficamos sem saber o que dizer diante da sua obra, que está ainda perto demais de nós e fala de coisas que nos são excessivamente familiares… São metais em tortura, ameaças colossais, catástrofes anunciadas. Seria bom que tivessem mudado um pouco.

A vida moderna começava. E desde então ela não melhorou, as coisas permaneceram as mesmas, com apenas algumas variantes. Precisou Zola já de certo heroísmo para mostrar às pessoas do seu tempo alguns quadros da realidade. A de hoje ninguém poderia. Aqui estamos depois de vinte séculos de alta civilização e, no entanto, regime nenhum – marxista, burguês ou fascista – resistiria a dois meses de verdade. Pois o homem não subsiste em nenhuma das formas sociais, todas masoquistas, sem a violência da mentira permanente e maciça, freneticamente repetida, “totalitária”, como se diz. Hitler não é o suprassumo disso, veremos outros ainda mais epiléticos. O sadismo unânime vem de um desejo profundamente arraigado no Homem, uma espécie de impaciência irresistível pela morte. A novidade da fé científica deu a Zola e aos escritores do seu tempo certa fé social… ele acreditava na virtude, queria assustar, mas não desesperar, mas aprendemos, sobre a alma, desde que ele se foi, um bocado de coisa. Seguindo certa tradição, eu deveria terminar essa pequena homenagem num tom de boa vontade, de otimismo a todo custo… O que devemos então esperar do naturalismo nas condições em que nos encontramos? Tudo e Nada. Pesando mais para o Nada, pois os conflitos espirituais irritam muito a massa humana de hoje. A Dúvida está em vias de extinção em nosso mundo. Matamna matando os homens que têm dúvida. É mais garantido assim. Desde Zola, o pesadelo em que vivia o homem não só ganhou precisão, mas também se tornou oficial. À medida que os nossos “Deuses” ficaram mais poderosos, se tornaram também mais ferozes, mais despeitados e mais imbecis… Eles se organizam. O que dizer a eles? Não há mais compreensão possível… A escola naturalista terá cumprido o seu dever no momento em que for proibida em todos os países do mundo. Era este o seu destino. A vida moderna começava, sem dúvida, e Zola é decididamente moderno, embora aquilo por que ele mais se achava moderno tenha sido ultrapassado com tanta rapidez. Manteve-se moderno e atual pela simples e pura qualidade literária, independente do desejo formal de dissolver o literário no real e fazer do livro um suporte transparente que as imagens simplesmente atravessassem. Por trás da “fé científica”, Zola parece ainda nos dizer que o progresso e a tecnologia nos livraram da tirania religiosa, mas a liberdade haverá sempre de continuar entravada pelas incontornáveis paixões e corrupções. Lison, a locomotiva, é perfeita, mas depende, para a exibição da sua excelência, de maquinistas, foguistas, subchefes de estação, guarda-cancelas etc. – que um dia ou outro acabam por descarrilhá-la.

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