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A Biblia Envenenada – Barbara Kingsolver

Imagine uma ruína tão estranha que pareça nunca ter existido. Primeiro, imagine a floresta. Quero que você seja sua consciência, os olhos das árvores. As árvores são colunas de cortiça lisa e escura, como animais musculosos que cresceram além de qualquer limite. Todo o espaço está cheio de vida: sapos venenosos, delicados e pintados como esqueletos, secretando os ovos preciosos nas folhas molhadas. Cipós que sufocam a própria espécie na eterna luta por um raio de sol. A respiração dos macacos. A barriga da cobra deslizando pelo galho. Um exército de formigas em fila única, cortando uma árvore enorme em grãos uniformes que carregam para a rainha voraz que se esconde no escuro. E em resposta, um coro de plantas brotando ergue-se de um tronco apodrecido, sugando vida da morte. A floresta come a si mesma e vive eternamente. Lá em baixo, seguindo pela trilha em fila única, vem uma mulher com quatro meninas, todas comvestidos abotoados na frente. Vistas assim do alto, são pálidas, flores em botão condenadas que certamente hão de atrair simpatia. Tenha cuidado. Mais tarde você terá de decidir que tipo de simpatia elas merecem. Especialmente a mãe — observe como ela avança, os olhos claros, decidida. O cabelo preto está amarrado num lenço de renda rasgado, e a mandíbula curva adornada combrincos grandes de pérolas falsas, como se esses faróis de outro mundo lhe mostrassem o caminho. As filhas marcham atrás dela, quatro meninas comprimidas em corpos tensos como a corda de umarco, cada uma pronta a atirar o coração de mulher numa direção diferente, que conduz à glória ou à danação. Mesmo agora elas resistem à afinidade, como gatas num saco: duas louras — uma pequena e intensa, a outra alta e imperiosa — flanqueadas por duas morenas iguais como suportes de livros, a gêmea à frente avançando avidamente, enquanto a última, mancando, varre o chão em passos ritmados. Mas saltam brincando sobre os troncos apodrecidos que caíram atravessados na trilha. A mãe move as mãos graciosamente à frente, abrindo cortinas e cortinas de teias de aranha. Parece reger uma sinfonia. Atrás delas as cortinas vão se fechando. As aranhas voltam à matança habitual. À beira do riacho ela prepara o piquenique melancólico, composto apenas de um pão compacto que se desmancha em migalhas, com creme de amendoim, e fatias de banana amarga.


Depois de meses de uma fome modesta, as meninas já não reclamam da comida. Engolem silenciosamente, sacodem as cascas do pão, e entram no rio para nadar em águas mais agitadas. A mãe fica sozinha na gruta formada pelas árvores enormes à beira da água tranquila. O lugar é tão familiar quanto a sala de visitas da casa de uma vida que ela não pediu. Descansa em silêncio, sem conforto, observando as formigas que fervem sobre as crostas de pão do que parecia uma refeição impossivelmente pobre. Há sempre alguém mais faminto do que suas filhas. Ela prende o vestido sob as pernas e examina os pobres pés descamados que repousam num ninho de grama à beira d’água — dois pássaros gêmeos incapazes de voar dali, de fugir da tragédia que ela sabe ser iminente. Ela poderia perder tudo: a si própria, ou pior, suas filhas. Pior de tudo: você, seu único segredo. A favorita. Como pode uma mãe viver para se culpar? Ela está desumanamente só, mas então, de repente, já não está. Um belo animal a espreita do outro lado da água. Mulher e animal erguem os olhos, olham-se assustados por se encontrarem no mesmo lugar. Ele para, examinando-a com as orelhas de pontas pretas. O lombo é de um marrom meio púrpura à luz fraca, descendo da curva suave do ombro. As sombras da floresta caem em linhas atravessadas nos flancos de listras brancas. As pernas retas se abrem para os lados como estacas, pois foi surpreendido no ato de se abaixar para beber. Sem tirar os olhos dela, ele sacode um pouco a pele nos joelhos, depois no ombro para se livrar de uma mosca irritante. Finalmente cede, desvia o olhar e bebe. Ela sente o toque da longa língua curva na superfície da água, como se ele estivesse bebendo da sua mão. A cabeça oscila suavemente, em movimentos curtos, os chifres brancos, aveludados, iluminados de trás como folhas novas. Só durou um instante, o que quer que isto signifique. Uma pausa na respiração? A tarde de uma formiga? Foi breve, isto eu posso afirmar, pois apesar de se terem passado muitos anos desde o tempo em que minhas filhas governavam a minha vida, uma mãe se lembra da medida dos silêncios. Nunca tive mais de cinco minutos ininterruptos de paz. Era eu aquela mulher à beira d’água.

Orleanna Price, batista do Sul pelo casamento, mãe de filhas vivas e mortas. Aquela vez, e nenhuma outra, o ocapi veio à beira d’água e eu fui a única a vê-lo. Não sabia o nome do que tinha acabado de ver, até dar com ele, muitos anos mais tarde, em Atlanta, durante um período curto em que tentei me consagrar à biblioteca pública, na esperança de que cada vazio na minha alma pudesse ser preenchido com um livro. Li que o ocapi macho é menor e mais retraído do que a fêmea, e que nada mais se conhece sobre eles. Durante séculos as pessoas no Vale do Congo falavam deste animal belo e estranho. Ao ouvirem falar dele, os exploradores europeus decidiram que era uma lenda: o unicórnio. Outra história fabulosa do reino escuro das setas envenenadas e dos lábios perfurados de osso. Então, durante a década de 20, quando a humanidade fez uma pausa nas guerras para aperfeiçoar o avião e o automóvel, finalmente um homem branco viu um ocapi. Posso vê-lo olhando pelos binóculos, erguendo o rifle de mira telescópica, tomando-o para si. Hoje uma família deles reside no Museu de História Natural de Nova York, bichos mortos e empalhados, os olhos de vidro sem vida. E assim o ocapi é hoje, conforme relatado cientificamente, um animal real. Apenas real, não uma lenda. Uma espécie de animal, uma gazela com algo de cavalo, um parente da girafa. É, mas hoje eu entendo, e você também. Esses olhares vítreos nos museus nada sabem de você, minha filha favorita, livre, tão selvagem quanto o dia é longo. Seus olhos brilhantes me oprimem semcessar, em nome dos vivos e dos mortos. Tome seu lugar. Veja o que aconteceu de todos os lados e considere todas as outras formas de como poderia ter acontecido. Considere até uma África absolutamente inconquistada. Imagine os primeiros aventureiros portugueses aproximando-se da praia, olhando a floresta através de suas lunetas de latão. Imagine que, por algum milagre de medo ou reverência, tivessem baixado as lunetas, içado as velas e partido. Imagine todos os que vieramdepois fazendo a mesma coisa. O que seria hoje aquela África? Só consigo pensar naquele outro ocapi, em que eles acreditavam. Um unicórnio que me encarava, olho no olho. No ano 1960 de Nosso Senhor, um macaco atravessou o espaço num foguete americano; um filho de Kennedy puxou a cadeira de um general de ar paternal chamado Ike [1] ; e todo o mundo girou em torno de um eixo chamado Congo.

O macaco viajava lá em cima, e num plano mais terreno, homens emsalas fechadas negociavam o tesouro do Congo. Mas eu estava lá, na cabeça daquele alfinete. Tinha dado à praia levada pela maré da confiança de meu marido e puxada pela contramaré das necessidades de minhas filhas. Esta é a minha desculpa, mas nenhum deles precisava tanto assim de mim. A primogênita e a caçula tentaram se soltar de mim como a palha da espiga, e as duas gêmeas tinham uma ótima visão interior, com que viam, sem me ver, tudo o que havia de mais interessante. E meu marido, meu Deus, o céu não conhece a fúria de um pastor batista. Casei-me com um homem que provavelmente nunca iria me amar. Seria um pecado contra a sua devoção à humanidade. Continuei mulher dele porque era algo que eu conseguia ser, todo dia. Minhas filhas me diriam: Mamãe, o caso é que você não tinha vida própria. Elas não entenderam. Vida própria é a única coisa que se tem. Vi coisas de que elas nunca saberão. Vi uma família de pássaros trabalhar junto, durante meses, para construir um ninho, que se tornou tamanha monstruosidade de galhos, filhotes e insensatez que finalmente toda a árvore ruiu com um estrondo. Não contei isto para meu marido nem para minhas filhas, nunca. É isso. Tenho a minha história, que me oprime cada vez mais. Agora, quando cada mudança do tempo anuncia uma dor nos meus ossos, toda vez que me viro na cama as lembranças esvoaçam sobre mim como uma nuvem de moscas na carniça. Desejo ardentemente me livrar delas, mas me percebo cuidadosa, escolhendo as que podem sair para a luz. Quero que você reconheça minha inocência. Por mais que tenha desejado seu corpinho perdido, quero agora que você deixe de acariciar o interior de meus braços com os dedos à noite. Pare de sussurrar. Vou viver ou morrer na força de seu julgamento, mas deixe-me primeiro dizer quem sou. Deixe-me dizer que a África e eu estivemos juntas por algum tempo e depois nos separamos, como se as duas fôssemos partes de relações fracassadas. Ou dizer que estive atacada pela África como por um acesso de doença rara, da qual ainda não consegui me curar completamente.

Talvez eu até confesse a verdade, que cavalguei com os cavaleiros e vi o Apocalipse, mas ainda insisto em que fui apenas uma testemunha cativa. O que é a mulher do conquistador, senão ela própria uma conquista? E falando disso, o que é ele? Quando avança para conquistar as tribos intocadas, você não acredita que elas se desmancham de desejo diante daqueles olhos cor do céu? E não anseiam por uma oportunidade com aqueles cavalos e aquelas armas? É o que gritamos em resposta para a história, sempre, sempre. Não fui só eu; houve muitos crimes, de todas as formas, e eu tinha minhas próprias bocas para alimentar. Eu não sabia. Eu não tinha vida própria. E você há de dizer que eu tinha. Há de dizer que eu andei sem algemas pela África, e agora sou mais uma alma que anda livre, na minha pele branca, usando um cordão de coisas roubadas: algodão ou diamantes, no mínimo liberdade, prosperidade. Alguns de nós sabemos a origem de nossa fortuna, outros não, mas mesmo assim nós todos a usamos. Agora, só há uma pergunta que merece ser feita: como havemos de viver com ela? Sei como são as pessoas, seus hábitos mentais. A maioria viaja do berço ao túmulo com a consciência limpa como a neve. É fácil denunciar outros homens, convenientemente mortos, a começar dos que primeiro retiraram a lama das margens dos rios em busca do cheiro da fonte. O Dr. Livingstone [2] , presumo, como era inescrupuloso! Ele e todos os aproveitadores que desde então abandonaram a África, como o marido abandona a esposa, com o corpo nu contorcido diante da mina esgotada de seu ventre. A maioria não tem a menor noção do preço de uma consciência branca como a neve. Eu seria igual a todos se não tivesse pago em sangue minha pequena quota. Pisei na África semum pensamento, passando com a nossa família diretamente de um início com inspiração divina até o nosso terrível fim. No intervalo, no meio de todas aquelas noites quentes e dias sombrios com cheiro de terra, creio que ficou um fio de instrução honesta. Às vezes eu quase consigo dizer o que era. Acho que, se pudesse, eu o lançaria sobre os outros para reduzir-lhes o conforto. Tiraria esta terrível história de meus ombros, e a simplificaria, desenharia nossos crimes como um plano de batalha fracassado, para sacudi-la na cara de meus vizinhos, que já têm medo de mim. Mas a África se altera sob minhas mãos, recusa-se a ser parte de uma relação fracassada. Recusa-se a ficar em qualquer lugar ou a ser outra coisa que não ela própria: o reino animal gozando o reino da glória. Pois é isso, sente-se. Não deixe nada com que um morcego fantasma possa perturbar a paz. Nada, exceto a vida dela.

Nada queríamos além do domínio sobre toda criatura que se move sobre a terra. E aconteceu de chegarmos a um lugar que imaginávamos ainda não formado, onde apenas a escuridão se movesse sobre a superfície das águas. Hoje você ri, dia e noite enquanto masca meus ossos. Mas o que poderíamos pensar? Só que tudo começava e terminava em nós. O que sabemos hoje? Pergunte às meninas. Veja em que se transformaram. Só podemos falar das coisas que levamos e das que trouxemos.

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