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A Biblia segundo Beliel – Flavio Aguiar

Partejou Jeová da escuridão o mundo, depois o Paraíso, que engastalhou naquele como se umbigo fosse. Até porque, em relação ao mundo, o Paraíso tinha a dimensão de um umbigo. Menos: da cabeça de um alfinete. E dos bem pequenos. Foi assim que Adão, o primeiro homem (que não sabia que era um homem), percebeu o Paraíso, logo que Jeová o levantou do pó e do cuspe com que o molhou. Adão se ergueu, levantando uma nuvem de poeira, porque o cuspe de Jeová fora pouco, apenas o suficiente para criar algo do tamanho de um corpo humano. E o mundo era pequeno. O seu mundo, porque outro não haveria. O Paraíso de Adão era um oásis. Nada menos, mas nada mais do que um oásis. Adão levou o equivalente a alguns minutos (mas na época não havia minutos, o tempo era uma correia contínua) para percorrê-lo todo. Não o percorreu de ponta a ponta, porque nem pontas o mundo tinha. Era um circulinho verdejante rodeado por um oceano de areia. Quando Jeová apareceu-lhe, Tonitruante como sempre, com Sua Voz de barítono entusiasmado, e lhe deu a tarefa de nomear todos os bichos da Criação, Adão atendeu prontamente. Aquilo lhe tomou uns poucos instantes, não muitos. Afinal, o que havia a nomear? Umas quantas lagartas, as ratazanas e os insetos… Ah sim, os insetos deram algum trabalho. Não porque fossem muitos, mas porque se escondiam debaixo das folhas e das pedras. Assim mesmo Adão logo nomeou aquele bando de mosquitos, moscas e mutucas, além de algumas aranhas e escorpiões inofensivos. Porque no Paraíso não havia veneno. E foi tudo. Mais adiante, Adão pôs-se a nomear também os arbustos e as palmeiras. Aí houve um atrito comJeová, o primeiro de uma longa série com a humanidade inteira. Porque Adão se aproximou de uma palmeira mais alta do que as outras, no meio do Paraíso, numa ilhota no centro do laguinho que sustentava tudo aquilo. Na verdade, na ilhota havia duas palmeiras, mas uma era mais alta do que a outra, e foi por essa que Adão se interessou. – Não ouse! Gritou Jeová, com Sua Voz de trombeta rouca.


Essas árvores já têm nome. A mais baixa chama-se Árvore da Vida. A outra, bem… É uma Palmeira Real. E das suas bagas não comerás! São as bagas da Ciência do Bem e do Mal. Coisa que não foi feita para ti, reles mortal. Quer dizer, homem. Porque ainda és imortal. Desculpe pelo ainda. É que Eu sei de umas coisas… Bem, vais ficar sabendo. Foi assim que Adão ficou sabendo, na verdade, que era um homem. Mas ainda não entendeu muito bem o que era isso. Ousou um comentário: – Glorioso Jeová, como poderei eu comer dessas bagas, se não sinto fome nem sede? Assim me fizestes, assim fizestes o Paraíso. Aqui o tempo não passa, embora eu não saiba muito bem o que isso quer dizer. Não Vos preocupeis. Nada vai acontecer, porque aqui, no Paraíso, nada se passa. Nada se perde, nada se cria, tudo se conserva. Ou se transforma. Jeová ponderou que Adão não era burro. Conhecia já a futura Química de Lavoisier. Mas para reafirmar Sua Autoridade, voltou a falar, com Sua Voz de alto-falante: – Olha, Adão, Minha criatura, aquela outra palmeira, a mais baixa, bem ali no meio da ilhota que fica no meio do laguinho. Aquela é a Árvore da Vida. Toma nota, quando tiveres uma pedra para escrever e uma talhadeira: essa árvore é Meu maior dom para ti. Porque por ela aqui retornarás, ao fim dos tempos, muito depois que Meu Filho te libertar. Adão não tinha a menor ideia do que eram coisas como escrever e talhadeira, embora de pedra ele tivesse alguma. Mas resolveu não discutir: Jeová era mesmo cheio de maiúsculas, não convinha discutir, era abaixar as orelhas e ir mudando de assunto.

Disse, então, para não começar uma disputa: – OK. Jeová considerou aquilo uma quebra de protocolo, mas perdoou. Afinal, Adão era um mero homem, embora criado à Sua Imagem. Retirou-se, numa nuvem de relâmpagos e outros efeitos especiais, com a Cavalgada das Valquírias tocando a todo vapor. Adão ali ficou, entregue ao Paraíso. E ficou. E ficou. E… foi ficando. No Paraíso, nem os segundos passavam. Era sempre domingo. Adão se divertia esfiapando folhas de palmeira. Contando insetos para ficar com sono. Às vezes, ao acordar, ia até a fímbria do Paraíso. Lá, tomava um pouco de areia nas mãos em concha e deixava aquilo poroso escorrer por entre os dedos. E se perguntava: – Será isso o tempo? A seguir, percorria o perímetro do Paraíso, o que, naquele oásis, lhe tomava uns quantos momentos, não mais. E lhe vinha outra pergunta: – Será isso o espaço? E no passar das claridades e escuridões (ninguém ainda inventara as horas) Adão se entediava. Depois de contar interminavelmente as folhas das palmeiras, começou a contar grãos de areia. Nessa altura o arcanjo Gabriel, que de vez em quando vinha dar uma espiada, resolveu levar o caso a Jeová, Que ficou preocupado. – Preciso fazer algo, Ele disse a Gabriel. E fez. Esperou que Adão adormecesse, e praticou a primeira cirurgia da história ocidental. Extraiu do peito de Adão uma costela a mais que ali pusera just in case e, a partir dela, moldou uma mulher. – Agora ele vai ter com que se ocupar, exclamou Jeová num tom vingativo, que Gabriel não entendeu. E deixou-a adormecida, sem mais nem menos, inteiramente pelada, ao lado de Adão, que também se encontrava em estado de peladez, embora não soubesse o que era isso, já que outro estado não conhecera. Os dois se acordaram quase no mesmo berro de susto, surpresa e medo.

Num jato puseram-se de pé e já se voltavam para fugir, quando o arcanjo Gabriel interferiu e fez as apresentações. – Eva, este é Adão, seu marido. Adão, esta é Eva, a primeira mulher. Adão, que, como Jeová já dissera, não era burro, percebeu a diferença, e perguntou: – Por que a primeira? Haverá outras para mim? Gabriel limitou-se a dizer que nada sabia, que as coisas viriam com o tempo. – Tempo? O que é isso?, perguntou Eva, enquanto Adão apenas abria a boca, espantado. – O tempo virá com o tempo, respondeu Gabriel, que era dado a charadas. E os dois já estavam embevecidos um pelo outro. Admiravam-se à primeira vista, mas ainda não sabiam disso. Aliás, Eva, a recém-chegada, não sabia nada. E foi logo perguntando: – O que é isso?, e apontou para uma palmeira. – Uma palmeira, respondeu Adão. – E isso?, apontando um rato que passava. – Um rato, respondeu Adão. Duas claridades e duas escuridões depois, Eva perguntara a Adão sobre praticamente tudo o que havia para perguntar, e Adão já estava com a boca seca de tanto responder. Por isso ele se debruçou naquele laguinho no meio do Paraíso e bebeu à farta, embora não sentisse sede. Bebeu tanto que se embriagou de água, e dormiu em plena luz. Foi quando Eva reparou naquelas duas árvores na ilhota, no meio do laguinho. Sobre elas não perguntara. Atravessou a metade do laguinho a pé (ele não era fundo) e pôs-se a examiná-las. Logo no alto da Palmeira Real ouviu o ruflar de alguma coisa. Olhou para cima e, nossa!, viu uma cobra com duas asinhas e cabeça de mulher. E a cobra tinha uns arremedos de perninhas de cada lado. Tinha a cabeça bonita, cabelos compridos, negros e sedosos como os de Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel (Perdoe, caro leitor, a intrusão de uma história na outra). E uns peitos dignos da Jayne Mansfield (outra intrusão, para quem lembrar). – Quem és?, perguntou a insaciável Eva.

– Sou Lilith, a primeira mulher de Adão, foi a resposta. – Como assim?, retrucou Eva. Ele me disse que eu sou a sua primeira mulher, e a primeira mulher no mundo! E o Gabriel também! – Ah, os homens… Ele me esqueceu, o danado. Gabriel e Jeová também. Mas, diante de sua beleza, isso não me surpreende… Vosmecê é de enlouquecer um anjo! Ouça, eu fui a primeira mulher de Adão. Jeová, o Todo-Poderoso, que te criou de uma costela do Adão, me criou junto com ele, do mesmo pó e com o mesmo cuspe. Mas Jeová ainda não estava bem treinado, por isso eu saí assim, uma mistura, com asas, pele de cobra recobrindo minhas pernas e cabeça que nem a tua, voadora. Jeová ficou tão convencido com a criação de Adão que me esqueceu, no meio da nuvem de poeira que subiu quando ele se pôs de pé. Enfim, eu sou Lilith, a esquecida, mas por isso mesmo para sempre lembrada… Eva se embasbacou. Aquela… aquela coisa tinha palavras sedosas e falava de coisas que ela nunca suspeitara, nemAdão lhe falara. Mas o que ela não percebeu foi a ponta de raiva e ciúme que ressoava nas palavras de Lilith. Perguntou: – Como sabes de tantas coisas? – Ah, disse Lilith, é que eu fiquei vivendo aqui no alto dessa Palmeira Real, e comendo dessas bagas, que me dão sabedoria. Se comeres uma delas, ficarás tão sabida quanto eu… – Eu quero!, exclamou Eva. E me dá uma para Adão também, eu quero que ele fique tão sabido quanto eu! – Toma, disse Lilith, alcançando-lhas (no Paraíso a linguagem era preciosa). Mais que rápida, Eva engoliu uma, atravessou correndo o laguinho e sacudiu Adão, que, estremunhado, viu aquela baga que Eva lhe oferecia e, sem perguntar o que era, comeu-a. Foi a conta. O caguetão do Gabriel, que ficava sempre de olho, foi voando (literalmente) contar tudo a Jeová nos céus. Jeová, que Se julgava ator principal e diretor de cena, além de cenógrafo, coreógrafo, iluminador, figurinista (apesar da ausência de roupas) etc., ouviu e pensou: – É a Minha deixa! E entrou em cena. Barbaridade! Pobre Adão e pobre Eva! Viram aquela profusão de nuvens, ventos, chuvas, tempestades, coisas que no oásis não existiam nem existiriam pelos séculos dos séculos, amém, que lá nunca chove e a fertilidade se mantém de baixo para cima, isto é, pelas misteriosas fontes subterrâneas que alimentam os desertos. E como música de fundo vinha a Quinta de Beethoven, aquela do “destino bate à porta”: bam-bam-BAM-baaaam! – Que fizemos?, perguntou Adão, aterrorizado. – Que fiz?, perguntou Eva, ao lado de seu marido. – Malditos!, esbravejou Jeová. Comestes do Fruto Proibido. Agora conheceis o Bem e o Mal, coisas que antes só Eu conhecia.

Quer dizer, Eu e mais uns demônios que Eu despachei com ajuda do Miguel (Jeová usava esse tratamento coloquial) para o fim do mundo, o Inferno. Por isso, sereis expulsos do Paraíso, e terás tu de trabalhar com o suor do teu rosto, Adão, e tu, Eva, de partejar filhos com as dores de tuas entranhas. Entrementes, a Lilith resolvera se mandar. Mais do que depressa livrou as pernas da pele de cobra que as recobria e conseguiu tirar uma das asas e jogá-la ao chão. Mas não deu tempo de jogar a outra, pelo que ela a engoliu, pequena que era. A asa ficou engastalhada em seu peito, por dentro. Assim mesmo, tossindo por causa das penas da asinha que lhe faziam cócegas por dentro, ela se escapuliu e sumiu no deserto, preferindo correr esse risco a enfrentar direto a fúria de Jeová. Adão, ainda meio abobalhado, viu aquela asinha no chão, pegou-a e botou-a debaixo do braço, querendo escondê-la, pensando que era algum malfeito, consequência do que ele tinha praticado. Ainda furioso, Jeová nem olhou direito e falou para a pele de cobra que caíra no chão, como se ela fosse a Lilith inteira: – Eu te amaldiçoo e de agora em diante vais rastejar na terra e comer o pó das distâncias! E no fim dos tempos uma outra Mulher vai espremer o veneno da tua raça! A pobre da pele de cobra não teve jeito senão obedecer, botou as perninhas pra dentro, virou serpente e saiu rastejando como podia, com a pele ressecando na poeira. E é por essas e por outras que de vez em quando cobra troca de pele e até hoje se diz que os homens têm asa no sovaco e as mulheres na ponta do coração. Jeová chamou então uma tropa de querubins, que são os milicos do céu, e mandou que eles tocassemAdão e Eva por diante, para fora do Paraíso. Eles que se virassem. Cada querubim tinha na mão uma espada de fogo, o que tornou sua tarefa muito fácil, porque Adão e Eva ainda nem conheciam o fogo, quanto mais espada de fogo. Mas um dos querubins ficou com pena deles e deulhes uma caixa de fósforos, que trouxera do céu. E disse a Adão: – Olha, está escrito aí na caixinha: Fiat Lux. Foi inspirado nisso aí que Jeová criou o mundo, veja só. Isso vai facilitar as coisas para vocês. E riscou um fósforo, para mostrar como é que era. Adão e Eva saíram caminhando pelo deserto. Mas deram sorte. Logo adiante toparam com umoutro oásis, muito maior do que aquele em que eles tinham vivido até então, o tal do Paraíso Perdido. Era um oasão, com muito mais bichos e plantas. E tinha um fio d’água comprido como o quê, que se perdia no horizonte, não só aquele laguinho mixuruca do outro. E seguindo o fio d’água, Adão e Eva chegaram numa terra mais fértil, com frutas mis, onde em se plantando dava, e com um céu de anil e que era o… bom, o Hebrom! No que é que vocês pensaram? Entrementes, anoitecia, e no céu um luão cheio já rebrilhava. Foi então que Adão começou a reparar em Eva.

E reparou que seu corpo tinha linhas curvas. Lindas linhas curvas. E que seus volumes eram redondos. Até então Adão nunca pensara em linhas curvas nem em volumes redondos. E Eva olhou Adão, e gostou de seu porte ereto, como uma reta. Até então Eva nunca pensara em linhas eretas, a não ser as das palmeiras, que eram curvas, na verdade. Então ambos disseram, numuníssono, que nem o primeiro berro que deram: – Estamos nus! E já pensaram em sacanagem. Mas, para fazer sacanagem, tinham de ter roupas, porque para fazer sacanagem é preciso primeiro tirar a roupa. Adão e Eva se cobriram de folhas, que era o que tinham mais à mão, e em seguida tiraram as roupas de folhas e fizeram sacanagem sobre elas, estendidas no chão. E foi assim que inventaram o colchão. Mas aí, enquanto Eva dormia, Adão começou a pensar no tempo que perdera, naquela bobagem de Paraíso. Foi assim que ele começou a de fato ter noção do tempo. E ficou com muita raiva, uma raiva tão imensa de Jeová que ele sentiu necessidade de fazer alguma coisa. E fez. Não contra Jeová, que ele não era bobo. Vingou-se na sua criação. Passou a mão numa vara de marmelo que por ali estava e deu uma baita coça na Eva, que, sem entender nada, ficou gritando e depois gemendo, remoendo vingança. Adão, esse ficou se sentindo mais do que um homem: um macho! Agora sim, à imagem de Jeová Todo-Poderoso, pensava ele com sua vã filosofia. E Eva, que no caminho já prestara atenção em bois, touros e vacas, pensava, com sua vontade nada vã: – Vou botar guampa nesse maldito com o primeiro anjo que passar. Naquele tempo os anjos tinham sexo, só o perderam séculos depois, por decreto da Santa Madre Igreja em Bizâncio, parece. Ou então foi porque os doutores da Igreja discutiram tanto se anjo tinha ou não sexo que ele simplesmente murchou, numa brochada universal. Os que seguiram Lúcifer, no Inferno, guardaram o sexo, por isso se acham os tais e andam pelados pelas pinturas, perto dos outros, que passaram a usar camisolão ou armadura para disfarçar a sua falta. Embora nos quadros só haja anjo grande com cara de homem. E foi por isso, por essas e por outras, que nasceram Caim, moreno e de pele mais escura, que nem Adão, e Abel, de olho azul e cabelo loirinho da silva que nem… Isso é assunto para o próximo Livro.

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