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A Biblioteca Esquecida de Hitler – Os Livros que Moldaram Sua Vida – Timothy W. Ryback

Ele foi, é claro, um homem mais conhecido por queimar livros do que por colecioná-los. Contudo, na época de sua morte, aos 56 anos, estima-se que possuísse cerca de 16 mil volumes. Em qualquer medida, uma coleção impressionante: primeiras edições das obras de filósofos, historiadores, poetas, dramaturgos e romancistas. Para ele a biblioteca representava a primavera das Musas, aquela fonte metafórica de conhecimentos e inspiração. Ele extraiu muito de lá, aplacando suas inseguranças intelectuais e alimentando suas ambições fanáticas. Lia vorazmente, ao menos um livro por noite, às vezes mais, conforme alegava. “Quando se dá, também é preciso tirar”, disse certa vez, “e eu tiro o que preciso dos livros.” Ele incluía o Dom Quixote, junto com Robinson Crusoe, A cabana do Pai Tomás e Viagens de Gulliver, entre as grandes obras da literatura mundial. “Cada obra é uma ideia grandiosa em si”, disse. Em Robinson Crusoe percebeu “o desenvolvimento de toda a história da humanidade”. Dom Quixote captava “engenhosamente” o fim de uma era. Possuía edições ilustradas desses dois livros, impressionando-se sobretudo com as representações românticas feitas por Gustave Doré do herói acometido de delírios de Cervantes. Possuía também as obras completas de William Shakespeare, publicadas em tradução alemã em 1925 por Georg Müller como parte de uma série que pretendia tornar a grande literatura disponível ao público em geral. O volume 6 inclui Como gostais, Noite de reis, Hamlet e Troilus e Créssida. O conjunto inteiro está encadernado em couro marroquino filetado à mão, com uma águia estampada em ouro, flanqueada pelas iniciais do nome de Hitler na lombada. Considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller em todos os aspectos. Enquanto Shakespeare havia alimentado a imaginação com as forças ágeis e habilidosas do império britânico emergente, aqueles dois teatrólogos-poetas teutônicos desperdiçavam seu talento em histórias de crises da meia-idade e rivalidades entre irmãos. Por que, perguntou-se certa vez, o Iluminismo alemão produziu Nathan, o sábio — a história do rabino que reconcilia cristãos, muçulmanos e judeus — enquanto coube a Shakespeare dar ao mundo O mercador de Veneza e Shylock? Ele parece ter absorvido seu Hamlet. “Ser ou não ser” era uma frase favorita, assim como “É Hécuba para mim”. Apreciava em especial Júlio César. Num caderno de desenho de 1926, desenhou um palco detalhado para o primeiro ato da tragédia de Shakespeare, com fachadas sinistras cercando o fórum onde César é morto. “Nos encontraremos de novo em Philippi”, ele ameaçou oponentes em mais de uma ocasião, repetindo a advertência espectral a Brutus após o assassinato de César. Diziase que reservava os Idos de Março para decisões importantes. Mantinha seus volumes de Shakespeare no escritório do segundo andar de seu retiro alpino no sul da Alemanha, junto com uma edição encadernada em couro de outro autor favorito, o escritor de romances de aventuras Karl May. “O primeiro livro de Karl May que li foi Através do deserto”, ele certa vez recordou.


“Fiquei impressionado! Entreguei-me a ele imediatamente, o que resultou num declínio visível das minhas notas.” Mais tarde, teria buscado refúgio em Karl May assim como outros buscam na Bíblia. Ele era versado nas Sagradas Escrituras e possuía um volume particularmente bonito das Worte Christi, ou Palavras de Cristo, estampado a ouro sobre couro de bezerro cor de creme que até hoje permanece macio como seda. Possuía também uma tradução alemã do tratado antissemita de Henry Ford, The international Jew: The world’s foremost problem [O judeu internacional: O principal problema do mundo], e um compêndio de 1931 sobre gás venenoso com um capítulo detalhando as características e os efeitos do ácido prússico, o asfixiante homicida comercializado como Zyklon B. Em sua mesa de cabeceira mantinha um exemplar bastante manuseado das histórias de Wilhelm Busch da dupla travessa Max e Moritz, precursoras das histórias em quadrinhos. Walter Benjamin certa vez disse que dá para saber muita coisa sobre um homem pelos livros que ele mantém: seus gostos, seus interesses, seus hábitos. Os livros que guardamos e os que descartamos, os que lemos bem como os que decidimos não ler, dizem algo sobre quem somos. Como um judeu alemão crítico da cultura nascido numa época em que era possível ser “alemão” e “judeu”, Benjamin acreditava no poder transcendente da Kultur. Acreditava que a expressão criativa, além de enriquecer e iluminar o mundo que habitamos, também proporciona a argamassa cultural que liga uma geração à próxima, uma interpretação judaico-germânica do antigo ditado ars longa, vita brevis. Benjamin tinha em grande apreço a palavra escrita, impressa e encadernada. Adorava os livros. Era fascinado por sua fisicalidade, com sua durabilidade, com sua procedência. Um colecionador sagaz, ele argumentava, conseguia “ler” um livro da maneira como um fisionomista decifrava a essência do caráter de uma pessoa pelas suas características físicas. “Datas, nomes de lugares, formatos, proprietários anteriores, encadernações e coisas semelhantes”, Benjamin observou, “todos esses detalhes lhe devem informar algo — não como fatos isolados áridos, mas como um todo harmonioso.” Em suma, era possível julgar um livro por sua capa e, por sua vez, o colecionador por sua coleção. Citando Hegel, Benjamin observou: “Só quando está escuro a coruja de Minerva inicia o seu voo”, e concluiu: “Só na extinção o colecionador é compreendido”. Quando Benjamin invocou um filósofo alemão do século xix, uma deusa romana e uma coruja, estava claramente aludindo à famosa máxima de Georg Wilhelm Friedrich Hegel: “A coruja de Minerva alça seu voo somente com o início do crepúsculo”, com que Hegel quis dizer que o filosofar só pode começar depois que os eventos se desenrolaram. Benjamin sentia que o mesmo se dava com bibliotecas particulares. Só depois que o colecionador tivesse disposto seu último livro na estante e morrido — quando sua biblioteca pudesse falar por si mesma, sem a presença do proprietário para perturbar ou ofuscar — os volumes individuais poderiam revelar o conhecimento “preservado” de seu proprietário: como ele afirmava a sua posse, escrevendo seu nome na contracapa ou colando uma etiqueta ex-libris sobre uma página inteira; se os deixava manchados e com dobras nos cantos das páginas, ou se as páginas permaneciamintactas e não lidas. Benjamin sugeriu que uma biblioteca particular serve de testemunha permanente e confiável da personalidade do seu colecionador, levando-o à seguinte ideia filosófica: colecionamos livros na crença de que os estamos preservando quando na verdade são os livros que preservam seu colecionador. “Não que os livros se tornem vivos nele”, Benjamin postulou. “É ele quem vive nos livros.” No último meio século, o que restou da biblioteca de Adolf Hitler ocupou espaço nas prateleiras na obscuridade climatizada da Divisão de Livros Raros da Biblioteca do Congresso. Os 1200 volumes sobreviventes que outrora adornavam as estantes de livros de Hitler em suas três elegantes bibliotecas — revestimentos de madeira, tapetes grossos, luminárias de latão, poltronas superestofadas — nas residências particulares em Munique, Berlim e Obersalzberg, perto de Berchtesgaden, agora estão espremidos em fileiras nas estantes de aço de uma área de depósito sem adornos e mal iluminada do prédio Thomas Jefferson, no centro de Washington, bem perto do Washington Mall e em frente à Suprema Corte dos Estados Unidos. A energia da lógica emocional que antes permeava essa coleção — Hitler rearrumava seus livros sem cessar e insistia em mudá-los pessoalmente de estante — foi cortada.

A cópia pessoal de Hitler da genealogia de sua família está espremida entre uma coleção encadernada de artigos de jornais intitulada Meditações dominicais e um fólio de charges políticas dos anos 1920. Uma edição fac-símile com bela encadernação das cartas de Frederico, o Grande, especialmente criada para o quinquagésimo aniversário do Führer, repousa em uma estante de calhamaços, sob um volume igualmente pesado de apresentação da cidade de Hamburgo e uma história ilustrada da marinha alemã na Primeira Guerra Mundial. A cópia de Hitler dos textos do lendário general prussiano Carl von Clausewitz, autor da frase memorável de que a guerra é a política por outros meios, compartilha espaço com um livro francês de culinária vegetariana com a dedicatória: “Monsieur Hitler végétarien”. Quando examinei pela primeira vez os livros sobreviventes de Hitler, na primavera de 2001, descobri que menos de metade dos volumes havia sido catalogada, e apenas duzentos eram acessíveis no catálogo on-line da Biblioteca do Congresso. A maioria estava cadastrada em fichas antigas, ainda no sistema de numeração idiossincrásico atribuído na década de 1950. Na Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, localizei mais oitenta livros de Hitler num estado similar de saudável abandono. Retirados de seu bunker em Berlim na primavera de 1945 por Albert Aronson, um dos primeiros americanos a entrar em Berlim após a derrota alemã, foram doados à universidade pelo sobrinho de Aronson, no final da década de 1970. Atualmente estão guardados num depósito de porão apertado, junto com a cópia pessoal de Walt Whitman de Folhas de relva e os fólios originais de Birds of America, de John James Audubon. Entre os livros da Universidade Brown, encontrei um exemplar de Mein Kampf com a etiqueta ex-libris de Hitler, uma análise da ópera Parsifal, de Wagner, publicada em 1913, uma história da suástica de 1921 e cerca de meia dúzia de volumes de literatura espiritual ou ocultista que Hitler adquiriu em Munique no início da década de 1920, inclusive um relato de ocorrências sobrenaturais, Os mortos estão vivos!, e uma monografia sobre as profecias de Nostradamus. Descobri livros adicionais de Hitler espalhados por arquivos públicos e privados nos Estados Unidos e na Europa. Dezenas desses livros sobreviventes de Hitler têm marcações nas margens. Ali encontrei um homem, famoso por nunca ouvir ninguém, para quem as conversas não passavam de uma arenga contínua, um monólogo incessante, parando para se envolver com o texto, para sublinhar palavras e frases, para marcar parágrafos inteiros, para colocar um ponto de exclamação ao lado de uma passagem, um ponto de interrogação ao lado de outra, e com frequência uma série enfática de linhas paralelas na margem ao longo de determinada passagem. Como pegadas na areia, essas marcas permitem rastrear o rumo da jornada, mas não necessariamente o objetivo: onde sua atenção foi capturada e permaneceu, onde correu para a frente e onde terminou. Em uma reedição de 1934 das Cartas alemãs, de Paul Lagarde, uma série de ensaios do final do século xix que defendiam a remoção sistemática da população judaica da Europa, encontrei mais de cem páginas de intromissões a lápis, a partir da página 41, em que Lagarde defende a “transplantação” dos judeus alemães e austríacos para a Palestina, e estendendo-se a passagens mais deploráveis nas quais se refere aos judeus como uma “pestilência”. “Essa pestilência da água precisa ser erradicada dos nossos rios e lagos”, Lagarde escreve à página 276, com uma anotação “afirmação ousada” a lápis na margem. “O sistema político sem o qual a água não consegue existir precisa ser eliminado.” O historiador Ian Kershaw descreveu Hitler como uma das personalidades mais impenetráveis da história moderna. Kershaw escreve: A combinação da inata reserva de Hitler, o vazio de suas relações pessoais, seu estilo não burocrático, os extremos de adulação e ódio que provocava, e a apologética e distorções baseadas em memórias do pós-guerra e relatos indiscretos daqueles que o cercavam fizeram com que, apesar de todas as montanhas de papéis sobreviventes emitidos pelo aparato do governo do Terceiro Reich, as fontes para reconstituir a vida do Ditador Alemão fossem, em muitos aspectos, extraordinariamente limitadas — bem mais que no caso, digamos, de seus principais adversários principais, Churchill ou mesmo Stálin. A biblioteca de Hitler por certo abriga sua porção de material “ignorado”: dois terços de sua coleção consistem em livros que ele nunca olhou, muito menos leu, mas existem também vários volumes mais pessoais que Hitler estudou e marcou. Além disso há detalhes pequenos, mas reveladores. Enquanto eu examinava os volumes intactos da coleção de livros raros da Biblioteca do Congresso, deparei com um livro cujo conteúdo original havia sido retirado. As capas da frente e de trás estavam firmemente presas à lombada por uma encadernação de linho pesado, com o título Ásia do norte, central e do leste: Manual de ciência geográfica, estampado em dourado sobre um fundo azul. As páginas originais haviam sido substituídas por um maço de documentos desordenados: cerca de uma dúzia de negativos de fotos, um manuscrito sem data intitulado “A solução para a questão alemã” e uma breve anotação datilografada num cartão de apresentação que dizia: Meu Führer No 14 o aniversário do dia em que você esteve pela primeira vez em Sternecker, a sra. Gahr lhe apresenta a lista dos seus primeiros companheiros de combate. Estamos convictos de que esta é a hora do nascimento de nosso maravilhoso movimento e do nosso Reich.

Fiéis até a morte. Sieg Heil! Os Velhos Camaradas O cartão não trazia data, e a lista dos antigos quadros do Partido Nazista estava faltando, mas a menção à “sra. Gahr”, supostamente a esposa de Otto Gahr, o ourives que Hitler incumbiu de moldar as primeiras suásticas de metal para o Partido Nazista, bem como a referência ao 14 o aniversário da primeira aparição de Hitler na Cervejaria Sternecker, preserva, num breve esboço, a trajetória de arrivista político, em 1919, a chanceler do Reich alemão, em 1933. Para este livro, selecionei os volumes sobreviventes com importância emocional ou intelectual para Hitler, aqueles que ocupavam os seus pensamentos nos momentos de privacidade e ajudaram a moldar suas palavras e ações públicas. Um dos primeiros é um guia de viagem adquirido por quatro marcos numa segunda-feira sombria do final de novembro de 1915, quando, aos 26 anos, servia como cabo no front ocidental. O último é uma biografia que estava lendo trinta anos mais tarde, nas semanas que culminaram com seu suicídio, na primavera de 1945. Procurei ser criterioso na minha escolha, selecionando apenas livros com indícios convincentes de pertencerem a Hitler. Exerci cautela semelhante com as marcações nas margens, já que é difícil comprovar com certeza a “autoria” de intromissões a lápis. De novo confiei nos indícios corroborantes, e discuto casos individuais no texto, baseando-me nas descobertas de estudos anteriores eventualmente disponíveis. Para tornar os títulos acessíveis ao leitor não alemão, geralmente adoto traduções inglesas dos títulos originais, 1 exceto em casos óbvios como Mein Kampf, ou Minha luta. Ao encerrar seu prefácio sobre coleções de livros, Walter Benjamin aborda o investimento emocional, bem como financeiro, que realizou em volumes individuais. Ele recorda vivamente o dia, em 1915, em que adquiriu uma edição especial de A pele de onagro [La peau de chargin] com suas magníficas gravuras de chapa de aço, e os detalhes e as circunstâncias exatas da aquisição de um tratado raro de 1810 sobre “ocultismo e filosofia natural”, Fragmentos póstumos de um jovem físico, do autor alemão Johann Wilhelm Ritter. Os livros inundaram Benjamin de lembranças: “lembranças dos aposentos onde esses livros haviam sido guardados, do meu recanto de estudante em Munique, de meu quarto em Berna, da solidão de Iseltwald à margem do lago de Brienz e, finalmente, do meu quarto de menino, o antigo local de apenas quatro ou cinco desses milhares de volumes”. Hitler não deixou nenhuma narrativa equivalente de sua própria coleção, nenhum relato de como passou a possuir este ou aquele volume ou do seu significado emocional particular, mas as diversas dedicatórias, marcações nas margens e outros detalhes fornecem uma visão da importância pessoal e intelectual dessas obras para a sua vida. O que se segue são as histórias que contam. 1 Em nossa edição, traduzidos para o português. (N. T.)

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