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A Biblioteca Magica de Bibbi Bokken – Jostein Gaarder, Klaus Hagerup

A meu ver tem um certo estilo. Mas não é da poesia que quero te falar. É da tal mulher! Quando entrei na livraria em Sogndal, ela também estava lá. Vagueava por entre as estantes observando os livros. E, Berit, se babava toda! Isso mesmo, não há outra maneira de dizer: aquela mulher vagueava pela livraria babando como se os livros fossem feitos de chocolate ou de um doce qualquer. Mas a coisa mais estranha é que, no exato momento em que eu ia pagar o caderno, ela se aproximou de mim e perguntou se podia contribuir com uma nota de mil para o pagamento da minha despesa. Fiquei sem saber o que dizer. Fixou-me com um olhar tão terrificante que fiquei sem coragem de não aceitar. A expressão dos olhos é difícil de descrever, porém, senti-me exatamente como se eu fosse um livro aberto e ela estivesse me lendo. Não pude fazer mais nada senão aceitar o dinheiro e agradecer. E sabe o que é que ela me respondeu? Disse: — Eu é que tenho que agradecer! — Depois, puxou um lenço, limpou os cantos da boca e desapareceu. De qualquer forma, aqui vai o caderno. Envio também uma das duas chaves. Tome cuidado para não deixá-lo aberto quando não o estiver usando. Lembre-se que é for your eyes only (só para os teus olhos). Perdoe-me pela fotografia da capa: só podia escolher entre o Sognefjord e um pôr do Sol com um coração no lugar do Sol. Qual você escolheria? Fim da carta. Querido primo! Obrigada pelo epistolário que encontrei na caixa de correio e que acabo de abrir. Infelizmente, não posso te contar como vão as coisas por estas bandas porque aquilo que aconteceu hoje à tarde não me deixa pensar em mais nada. Tenho que escrever já, ainda que esteja com as mãos tremendo. Você consegue ler do mesmo jeito, não é? Trata-se da mulher misteriosa. A mesma que você encontrou em Sogndal. Ó meu Deus por onde é que começo? Eu estava no cais de embarque quando chegou o barco das duas da tarde. Aqui, de fato, as aulas só começam na próxima segunda-feira e, por isso, não há muito o que fazer. E foi então que ela chegou, percebe? De todos os passageiros, ela foi a primeira a desembarcar.


Passou ao meu lado e me deu uma olhada do tipo «sei muito bem quem é você!». Ainda não tinha lido a sua carta, porém, me lembrei do encontro no refúgio de Flatbre e decidi segui-la — à distância, claro! Nem sei onde fui buscar tanta coragem. Era como se ela tivesse me hipnotizado e me obrigasse a segui-la (agora pode ver a minha mão tremendo!). Logo depois da igreja voltou-se e olhou para trás. Não tive outra escolha senão me atirar para a beira da estrada e esconder-me na valeta, e isto aconteceu várias vezes ao longo da estrada que leva até Mundalen. Mas acho que ela não me viu. Está vendo aquela cancela de madeira que se abre no muro? Pois bem, ela virou alí à direita, na direção da casa amarela, que se encontra isolada à beira do bosque. Eu fiquei de vigia por trás do muro. E, agora, vou direto ao que interessa: no momento em que ela estava para abrir a porta vi qualquer coisa que, subitamente, caiu do seu saco. Um segundo depois ela tinha desaparecido. Estava tão agitada que não consegui pensar em mais nada. Deve ser assim que se sente quemcomete um crime pela primeira vez. De um momento para o outro, encontrei-me em frente da casa, mais ou menos como um ladrão mascarado que, de repente, salta para a varanda e grita: «Isto é umassalto.» Bom, o meu não era bem um assalto de verdade, não gritei e nem sequer estava mascarada. No entanto, peguei o pequeno envelope e, sorrateiramente, esgueirei-me, outra vez, para trás do muro. Dentro do envelope havia uma carta e, na carta, estava escrito: Querida Lilli, Vagueei pela cidade a manhã inteira mas não fui capaz de encontrar aquele extraordinário antiquário. Será que fechou as portas de um dia para o outro? Só sei que se situava numa das ruelas estreitas que ficam nas proximidades da Praça Navona. Pelo menos era ali que estava no dia em que, por acaso, fui parar lá. Andava à procura de uma edição italiana do Peer Gynt mas, quando o proprietário percebeu que eu era norueguesa, chamou-me à parte, conduziu-me até uma velha estante e indicou-me um livro com uma capa diferente de todas as outras, pelo simples fato de que era nova em folha. — Não tenho somente livros que já estão escritos — sussurrou, olhando-me intensamente. Eu, naturalmente, não entendia o que ele queria dizer. Foi então que tirou um livro da estante, olhou-me com atenção, como se estivesse me estudando, e esclareceu: — Eu também coleciono livros que, mais cedo ou mais tarde, irão ser escritos. É claro que livros deste tipo são infinitos, porém, só muito raramente me vem parar um às mãos. Depois, entregou-me o livro. Na capa figuravam altas montanhas, e o título tinha a ver com uma certa «biblioteca mágica».

Mas o problema não era nem a capa nem o título. O PROBLEMA É QUE O LIVRO É PUBLICADO EM OSLO, NO ANO DE 1993! Publicado no próximo ano, Lilli! E o velho sublinhou que se tratava de uma edição especial. Fiquei de tal maneira assustada que larguei o livro imediatamente como se queimasse. Nem sequer tive tempo para tomar nota do nome do autor. Pode me ajudar, Lilli? Se existe uma bibliógrafa na Noruega, uma só que seja, é você. E, na verdade, não se trata de encontrar quem escreveu um livro sobre uma «biblioteca mágica», mas de encontrar quem, porventura, o está escrevendo ou se prepara para tal. Escapuli, literalmente, da loja com a desculpa de já estar atrasada para apanhar o trem. Mas, no momento em que abria a porta para sair, voltei-me e perguntei ao antiquário quanto custava aquele raro exemplar. Ele ficou irritadíssimo, tinha que vê-lo! Arqueou as sobrancelhas e ladrou: — Quem lhe permite tamanha ousadia!? Os filhos mais queridos não se vendem… Só este volume custa mais do que qualquer incunábulo. Perguntei a mim mesma se o velho não seria surdo: falava um italiano algo confuso e parecia ler meus lábios quando eu falava. Perdoe-me por ter telefonado ontem à noite a uma hora tão tardia, mas estava completamente transtornada. Se eu conseguisse encontrar novamente o tal antiquário! É como se a terra o tivesse engolido. Cumprimentos, Siri. Campo dei Fiori 8 de Agosto de 1992 A carta dizia tudo isto, Nils. O que acha? De uma só vez roubei uma carta misteriosa e li às escondidas. E agora, como é que iria me desembaraçar dela? Você costuma me gozar porque ando sempre com o meu bloco de anotações no bolso. Bem sabe que eu gosto de tomar nota dos meus pensamentos mais inteligentes antes que me esqueça deles. E, desta vez, o bloco foi extremamente útil. Apressei-me a copiar a carta e, mal acabei, rastejei de novo até à casa amarela e coloquei o envelope no local onde o tinha encontrado. Cheguei em casa há cerca de meia hora. E agora que li a sua carta não me sinto minimamente mais tranqüila, pois não me agrada a idéia de que ela tenha patrocinado o nosso epistolário com uma nota de mil. Sinto como se agora os nossos pensamentos fossem de sua propriedade. O que devo fazer? Creio que estamos perante algo de muito importante. Pelo menos, sabemos que a estranha mulher se chama Lilli. Pondo fé na carta, sabemos também que ela é uma «bibliógrafa».

Mas, que raio quer dizer isso é que eu não sei. E depois, o que é um «incunábulo»? Neste momento, tenho vontade de chorar, por isso, é melhor ficar por aqui. Acho que a tinta não se dá bem com a água. Vou já correndo ao correio para te enviar o caderno. Por favor, responda-me imediatamente! Cumprimentos da tua prima medrosa, Berit BoyumÉ para já Berit! Muito divertido. Muito divertido, mesmo. Um livro que foi publicado em 1993. Deve achar que eu sou idiota! Está bem que estamos escrevendo um epistolário, mas não é por isso que temos de inventar o que quer que seja. Se acha que me leva no bico por tão pouco está muito enganada. Eu sei que sou um ano mais novo que você e que tenho dez centímetros a menos, porém, não sou uma criançinha qualquer que engole a primeira história que lhe contam. Não caio nessa! Se quer que acredite na carta tem que me enviar a original. Não basta uma simples transcrição das fantásticas lendas do bloco de anotações de Berit Boyum. Pois muito bem, dei-me ao trabalho de procurar e descobri o significado de «bibliógrafo» e de «incunábulo». Biblos é uma palavra grega que significa livro. Daqui deduzi que um bibliógrafo é uma pessoa apaixonada por livros, coisa que me parece algo perverso. «Incunábulo» vem de uma palavra latina, incunabula, que significa berço. Ou seja, essa tal Lilli é uma doida varrida por livros, e a tal fulana que lhe escreveu a carta descobriu um livro que ainda não está escrito mas que já é mais precioso do que um berço. Só posso acreditar em você. Oh, como acredito! Se te pareço sarcástico, tem toda razão. Hoje tive aula de ginástica com o maluco furioso do «Homem de Ferro» e, por isso, não tenho nenhuma vontade de rir. Agora, como bem pode imaginar, estou impaciente para ter em minhas mãos a verdadeira carta de Siri Campo dei Fiori. Tchau tchau Nils Querido (?) Nils, Muito, muito triste! Quando acabei de digerir todo o teu sarcasmo fiquei durante quase meia hora à janela olhando a chuva cair. Você não acredita em mim! Eu arrisco a minha vida por você ao surrupiar aquela maldita carta bem na frente da toca do lobo, e o teu único agradecimento é um simples «tchau tchau» e «as fantásticas lendas do bloco de anotações de Berit Boyum». De repente, esta é a última vez que te escrevo. Se você não acredita naquilo que te conto, não temsentido continuar.

Pode ficar com o epistolário todo para você. Tem tanta podridão nesse cérebro que, com certeza, vai conseguir encher o caderno todo. Pelo menos, vai ter alguma coisa para cheirar quando for velho caduco (ah, ah!). Aliás, acho que não se esqueceu de que acabei de me transferir de Bergen e que prometi escrever a cerca de quinze ou vinte amigos. Além do mais, também tenho o meu diário pessoal, estritamente privado, no qual encontro sempre algo de novo para escrever. Por isso, pode deixar de considerar as tuas cartas como uma resposta ao anúncio PROCURAM-SE AMIGOS DESESPERADAMENTE, assinado «garota só e abandonada nas altas montanhas do Sognefjord». E também não estou convencida de que você não acredita nem um pouco naquilo que te escrevi. Tem é medo de parecer estúpido, como todos os pequenos da tua idade. Diz o provérbio: «Quem não arrisca não petisca.» Se não tivesse acreditado na tal carta misteriosa nem sequer teria se dado ao trabalho de ir procurar no dicionário o significado daquelas palavras esquisitas. Aliás, eu também me dei a esse trabalho. Passo a citar: «bibliógrafo, pessoa que se ocupa de bibliografia, conhecedor de livros». Você confundiu, claramente, com «bibliófilo», a pessoa que ama os livros. Cito novamente: «bibliófilo, pessoa que ama os livros, que coleciona livros raros e preciosos». No que diz respeito a «incunábulo», é verdade que significa berço, porém, atualmente, a palavra só se usa para indicar os livros que foram impressos até finais do século XVI. Passo a citar: «incunábulo, livro impresso no período imediatamente a seguir à invenção da imprensa». Agora, já compreende a lógica? O antiquário queria dizer que o livro da biblioteca mágica era ainda mais raro do que aqueles livros antiqüíssimos impressos há mais de quinhentos anos. De fato, esses livros, ou foram queimados pela Igreja Católica por causa de disputas doutrinais ou perderamse por outros motivos. Contudo, um livro que ainda não foi publicado deve ser uma raridade bemmais inaudita! Para não dizer um verdadeiro e próprio mistério, Nils! Concordo plenamente contigo: a carta que encontrei é absolutamente incrível. Mas agora, que você não acredite em mim, não é a mesma coisa! De repente, deve achar que é mais fácil acreditar que viu uma mulher adulta passeando numa livraria e lambendo os bigodes como se os livros fossem de chocolate ou de outro doce qualquer? Ou então que ofereça uma nota de mil a um certo pequeno só porque ele vai comprar um caderno? (Satisfeito!?) Faz-me lembrar aquele discípulo que exigiu a todo o custo pôr o dedo nas feridas de Jesus para acreditar que realmente era ele. Infelizmente, não tenho feridas para te mostrar. Somente a ferida da alma que, hoje, me fez. E olha que neste tipo de ferida não se pode tocar assim tão facilmente. E nemsequer pode curar rapidamente. Porém, descobri algo mais, Nils, e se não quiser acreditar no que vou te contar, pelo menos aqui tem as provas.

Como sabe, a minha mãe começou a trabalhar no hotel. O que é bom pois assim também posso entrar lá. A seu tempo contarei mais alguma coisa acerca da vida por trás daquela velha fachada. Por enquanto, digo somente aquilo que descobri acerca da senhora da casa amarela: quer que a tratempor LILLI DOSLIVROS. Só o nome já quer dizer muita coisa. Porém, ninguém sabe se esse é o seu nome verdadeiro. Ela não costuma falar com ninguém. Fato é que acaba de chegar à terra, tal como eu. Mas eu, pelo menos, nasci por estas bandas enquanto LILLI DOSLIVROS pisou nesta terra, pela primeira vez, há poucos anos. Comprou uma pequena casa com vista para o fiorde. «E qual é o problema?», me perguntará. No entanto, nas semanas que se seguiram à sua vinda para cá ouviam-se, de vez em quando, barulhos estranhos na casa. De repente Lilli estava reformando a casa, uma parede aqui, um banco de cozinha ali. Talvez. No entanto, os barulhos inexplicáveis ouviam-se, sobretudo, durante a noite. E, por vezes, eram fortes pancadas… Sabe que mais? Falei com a porteira noturna. Chama-se Hilde Mauritzen e é uma pessoa de personalidade. É filha de um membro do parlamento (ou seja, é uma pessoa de confiança. Ou não?). Ela me contou mais algumas coisas: aqui na terra dizem que LILLI DOSLIVROS foi uma espécie de bibliotecária numa grande biblioteca de Oslo. E parece que, de repente, fez as malas e se transferiu para Fjaerland. Aí na capital, consegue investigar estas coisas? Pelo menos, pode procurar o sobrenome «dos Livros» na lista telefônica de Oslo (ainda que ela já não more lá).

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