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A bibliotecária de Auschwitz – Um romance baseado numa história real – Antonio G. Iturbe

Auschwitz-Birkenau, janeiro de 1944 Esses oficiais, que se vestem de negro e veem a morte com a indiferença de coveiros, ignoram que, sobre essa lama escura em que tudo se afunda, Alfred Hirsch levantou uma escola. Eles não sabem, e é preciso que não saibam. Em Auschwitz, a vida humana vale menos que nada; tem tão pouco valor que já nem se fuzila ninguém, pois uma bala é mais valiosa do que um homem. Há câmaras comunitárias onde se usa gás Zyklon porque barateia os custos, e com um único barril dá para matar centenas de pessoas. A morte se tornou uma indústria que só é rentável se trabalharem por atacado. No galpão de madeira, as salas de aula não passam de rodas de tamboretes amontoados. As paredes não existem, os quadros-negros também são invisíveis, e os professores traçam no ar, apenas com o movimento das mãos, triângulos isósceles, acentos circunflexos e até o curso dos rios da Europa. Há cerca de vinte pequenas ilhas de alunos, cada uma com seu tutor, tão perto uma da outra que os professores têm de dar as aulas sussurrando para que a história das dez pragas do Egito não se misture com a cadência da tabuada. Alguns não acreditaram que isso fosse possível; pensaram que Hirsch era um louco ou um ingênuo: como escolarizar crianças num brutal campo de extermínio, onde tudo é proibido? E ele sorria. Hirsch sempre sorria, enigmático, como se soubesse algo que os demais desconheciam. Não importa quantos colégios os nazistas fechem, respondia. Cada vez que alguém se detiver numcanto para contar algo e algumas crianças se sentarem ao redor para escutar, ali terá sido fundada uma escola. A porta do barracão se abre bruscamente, e Jakopek, o assistente de vigilância, corre até o quarto de Hirsch, o chefe do bloco. Os tamancos do assistente salpicam o chão com a terra úmida do campo, e a bolha de plácida segurança do bloco 31 estoura. Do canto onde está, Dita Adlerova olha hipnotizada para as minúsculas marcas de barro: parecem insignificantes, mas contaminam tudo de realidade, tal como uma única gota de tinta mancha uma tigela inteira de leite. — Seis, seis, seis! É o sinal que indica a chegada de guardas da SS ao bloco 31, e murmúrios alvoroçados se espalham por todo o barracão. Nessa fábrica de destruição de vidas que é Auschwitz-Birkenau, onde os fornos funcionam dia e noite com um combustível de corpos, o 31 é um barracão atípico, uma raridade. Mais propriamente, uma anomalia. Uma conquista de Fredy Hirsch, que começou como umsimples instrutor de esportes para grupos juvenis e agora é um atleta, realizando em Auschwitz uma corrida de obstáculos contra o maior rolo compressor de vidas da história da humanidade. Conseguiu convencer as autoridades alemãs do Lager de que manter as crianças entretidas num barracão facilitaria o trabalho dos pais naquele campo BIIb, que chamam de “campo familiar”, pois nos demais as crianças são tão raras quanto os pássaros. Em Auschwitz, não há pássaros. Eles morrem eletrocutados nas cercas. O alto comando do campo permitiu a criação de um barracão infantil — talvez essa tenha sido sua intenção desde o princípio —, mas desde que fosse um bloco de atividades lúdicas: estava terminantemente proibido o ensino de qualquer matéria escolar. Hirsch põe a cabeça entre o batente e a porta de seu quarto de Blockältester do 31 e não precisa dizer nada aos assistentes nem aos professores, cujos olhos estão cravados nele. Assente com a cabeça de maneira imperceptível.


Seu olhar transmite exigência. Ele sempre faz o que deve fazer e espera que todos ajam do mesmo jeito. As lições são interrompidas e vão se transformando em banais cantigas em alemão ou em jogos de adivinhação, para fingir que tudo está em ordem quando despontar o olhar louro dos lobos arianos. A patrulha composta por um par de soldados entra rotineiramente no barracão, mas mal passa da porta, fica observando as crianças por alguns segundos, às vezes até aplaude uma canção ou acaricia a cabeça de um pequeno e, em seguida, retoma a ronda. Jakopek, porém, acrescenta algo mais ao alarme convencional: — Inspeção! Inspeção! Já a inspeção é bem diferente. É preciso entrar em formação, registros são feitos, às vezes interrogam as crianças menores na tentativa de arrancar alguma informação, aproveitando sua ingenuidade. Nunca arrancaram nada delas. Essas crianças entendem mais do que suas carinhas melequentas sugerem. Alguém sussurra: “O Padre!…” E brota um murmúrio de desolação. É assim que chamam umsuboficial da SS (um Oberscharführer) que sempre caminha com as mãos enfiadas nas mangas da jaqueta, como um clérigo, ainda que a única religião que conheça seja a crueldade. — Vamos, vamos, vamos! Juda, você mesmo, diga: “O que é, o que é…”! — O que é o quê, sr. Stein? — Qualquer coisa! Por Deus, meu filho, qualquer coisa! Dois professores levantam a cabeça, angustiados. Eles têm nas mãos algo estritamente proibido emAuschwitz e podem ser condenados à morte se forem descobertos. Esses artefatos, tão perigosos que portá-los é motivo de pena máxima, não disparam nem são objetos pungentes, cortantes ou contundentes. O que tanto temem os implacáveis guardas do Reich são apenas livros: livros velhos, desencadernados, desfolhados e quase desfeitos. Mas que são perseguidos, condenados e vetados de maneira obsessiva pelos nazistas. Ao longo da história, todos os ditadores, tiranos e repressores, fossem arianos, negros, orientais, árabes, eslavos ou de qualquer outro tom de pele, defenderam a revolução popular, os privilégios das classes nobres, os mandamentos de Deus ou a disciplina sumária dos militares. Qualquer que fosse sua ideologia, todos tiveram algo em comum: sempre perseguiram os livros com verdadeira sanha. São muito perigosos, fazem pensar. Os grupos estão em suas posições, cantarolando, à espera dos guardas, mas uma menina quebra a harmonia típica de um tranquilo barracão de entretenimento e se põe a correr ruidosamente entre os círculos de tamboretes. — Pare! — Que está fazendo? Ficou louca? — gritam. Um professor tenta puxar o braço da menina para detê-la, mas ela escapa e continua correndo aos tropeções, em lugar de ficar quieta e passar despercebida. Ela sobe na lareira horizontal de um metro de altura que divide o barracão ao meio e salta ruidosamente para o outro lado. Inclusive dá uma freada brusca e derruba um tamborete desocupado, que gira e ressoa, chegando a silenciar as atividades por um instante. — Desgraçada! Você vai delatar todos nós! — grita a sra.

Krizková, vermelha de raiva. As crianças, quando não estão em sua presença, a chamam de “Sra. Pelanca”. Mal sabe ela que foi a própria menina repreendida quem inventou o apelido. — Vá sentar-se lá atrás com os assistentes, sua idiota! A menina, porém, não para. Continua correndo, frenética, alheia a todos os olhares de reprovação. Muitas crianças observam, fascinadas, como ela corre com as pernas fracas metidas em meias de cano longo, feitas de lã, com listras horizontais. É uma menina muito magra, mas não débil, com uma cabeleira castanha até os ombros, que balança de um lado para o outro em seu veloz zigue-zague por entre os grupos. Dita Adlerova se movimenta em meio a centenas de pessoas, mas corre sozinha. Sempre corremos sozinhos. Chega serpenteando ao centro do barracão e ali abre caminho aos tropeções no meio de um grupo. Derruba um dos assentos num movimento brusco, e uma garotinha cai e rola. — Ei, onde é que você está com a cabeça? — grita a garotinha do chão. A professora de Brno vê com assombro que a jovem bibliotecária, ofegante, está plantada a sua frente. Sem tempo nem fôlego para dizer nada, Dita toma o livro das mãos da professora, que se sente, de súbito, aliviada. Quando, um instante depois, reage para lhe agradecer, Dita já está a várias pernadas dali. Faltam apenas alguns segundos para os nazistas chegarem. O engenheiro Marody, que acompanhou a manobra, já está esperando a menina fora do círculo. Entrega-lhe o livro de álgebra no ar, como se lhe passasse o bastão numa corrida de revezamento. Dita corre, desesperada, até os assistentes, que, no fundo do barracão, fingem varrer o chão. Ainda está na metade do caminho quando nota que as vozes dos grupos fraquejam por ummomento, tremendo como a chama de uma vela ao se abrir uma janela. Não precisa virar para saber que a porta se abriu e que os guardas da SS estão entrando. Ela se joga bruscamente e aterrissa numgrupo de garotinhas de 11 anos. Enfia os livros sob o vestido e cruza os braços sobre o peito para evitar que caiam. As garotinhas olham de soslaio para ela, entretidas, enquanto a professora, muito nervosa, gesticula com o queixo para que não deixem de cantarolar.

Na entrada do barracão, após observarem o panorama por alguns segundos, os SS gritam uma de suas palavras prediletas: — Achtung! Faz-se silêncio. Cessam as cantigas e o “o que é, o que é”. O movimento se detém. E, entretanto, em meio ao silêncio, ouve-se alguém assobiar nitidamente a “Quinta sinfonia” de Beethoven. O Padre é um sargento temível, mas até ele parece um tanto nervoso, pois está acompanhado de alguémainda mais sinistro. — Que Deus nos ajude — sussurra a professora. A mãe de Dita tocava piano antes da guerra, por isso a menina reconhece Beethoven perfeitamente. Ela se dá conta de que já ouviu antes essa maneira tão peculiar de assobiar as sinfonias, com tal precisão de melômano. Foi depois de viajarem amontoados durante três dias num vagão de carga fechado, sem comida nem água, vindos do gueto de Terezín, para onde foram deportados ao serem expulsos de Praga e onde viveram durante um ano. Era noite quando chegaram a Auschwitz-Birkenau. Impossível esquecer o barulho de sucata do portão metálico se abrindo. Impossível esquecer a primeira baforada de um ar gelado que cheirava a carne queimada. Impossível esquecer os clarões de luz, intensos na noite: a plataforma estava iluminada como uma sala de cirurgia. E depois, as ordens, os golpes de culatras contra as paredes do vagão, os disparos, os apitos, os gritos. E, emmeio à confusão, essa sinfonia de Beethoven impecavelmente assobiada com a mais absoluta calma por um capitão, um Hauptsturmführer, para o qual os próprios SS olhavam com pavor. Naquele dia, o oficial passou perto de Dita, e ela viu seu uniforme impecável, as luvas brancas imaculadas e a cruz de ferro sobre o peitilho da jaqueta; uma medalha que só se ganha em combate. Ele parou diante de um grupo de mães e filhos e deu uma amistosa palmadinha com a mão enluvada em um dos pequenos. Até sorriu. Apontou para dois gêmeos de 14 anos — Zdenek e Jirka —, e um cabo se apressou a tirá-los da fila. A mãe agarrou o guarda pela aba da jaqueta e se pôs de joelhos, implorando que não os levasse. O capitão interveio com absoluta calma: — Em lugar algum eles serão tratados como tio Josef os tratará. E, de certo modo, assim seria. Ninguém emAuschwitz tocava num fio de cabelo dos gêmeos que o doutor Josef Mengele colecionava para seus experimentos. Ninguém os trataria como ele em seus macabros experimentos genéticos para averiguar como fazer para que as alemãs dessem à luz gêmeos e assim multiplicassem os nascimentos arianos. A menina se lembra de Mengele se afastando de mãos dadas com os garotos sem deixar de assobiar placidamente.

A mesma sinfonia que agora se ouve no bloco 31. Mengele… A porta do quarto do responsável pelo bloco se abre com um ligeiro chiado, e o Blockältester Hirsch sai de seu minúsculo cubículo fingindo ter uma agradável surpresa com a visita dos SS. Bate sonoramente os calcanhares para saudar o oficial. É uma forma respeitosa de reconhecer a patente do militar, mas também uma maneira de mostrar uma postura marcial, nem submissa, nem acovardada. Mengele mal olha para Hirsch, está distraído e continua assobiando com as mãos para trás, como se nada daquilo fosse por sua causa. O sargento — o Padre, como todos o chamam — esquadrinha o barracão com seus olhos quase transparentes sem tirar, todavia, as mãos de dentro das mangas da jaqueta, caídas sobre o colo, não muito distantes da capa da pistola. Jakopek não se enganou. — Inspeção — sussurra o Obersharführer. Os SS que o acompanham repetem sua ordem e a amplificam, até transformarem-na num grito que penetra os tímpanos dos prisioneiros. Dita, no grupo das garotinhas, sente um calafrio, aperta os braços contra o corpo e ouve os livros roçando em suas costelas. Se a pegarem com eles, será o fimde tudo. — Não seria justo… — murmura. Tem 14 anos e a vida por estrear, tudo por fazer. Nada pôde sequer começar. A Dita lhe vêm à cabeça estas palavras que sua mãe repete há anos, de maneira maçante, quando ela lamenta a própria sorte: “É a guerra, Edita… É a guerra.” Era tão pequena que quase já não lembra como era o mundo quando não existia a guerra. Tal como esconde os livros sob o vestido nesse lugar onde arrebataram tudo, também guarda na cabeça umálbum de fotografias feito de lembranças. Fecha os olhos e trata de evocar como era o mundo quando não existia o medo. Ela se vê com nove anos de idade, parada em frente ao relógio astronômico da praça da Cidade Velha, em Praga, no início de 1939. Olhava meio de soslaio para o velho esqueleto a vigiar os telhados da cidade com suas órbitas vazias, enormes como punhos negros. Na escola, haviam lhes contado que o grande relógio era um inofensivo artefato mecânico idealizado pelo mestre Hanus mais de cinco séculos antes. Mas a lenda contada pelas avós a angustiava: o rei teria mandado Hanus construir o relógio astronômico e suas estátuas, que desfilavam a cada hora em ponto; depois, teria dado ordens para que seus xerifes o cegassem, de modo que ele nunca pudesse reproduzir uma maravilha igual para outro monarca. Para vingar-se, o relojoeiro teria enfiado a mão dentro do mecanismo e o inutilizado. Quando as engrenagens a seccionaram, as peças emperraram, e anos se passaram sem que fosse possível repará-las. À noite, às vezes sonhava com essa mão amputada serpenteando por entre as rodas dentadas do mecanismo, para cima e para baixo.

O esqueleto fez soar uma sineta, e teve início o festival mecânico: um desfile de autômatos que se destravava para recordar os cidadãos de que os minutos se empurram nervosos uns aos outros, e que as horas se vão uma após a outra, tal como aquelas estátuas, que havia séculos entravam e saíam apressadamente daquela descomunal caixa de música. Todavia, agora se dá conta, atormentada pela angústia, de que aos nove anos uma menina ainda não tem consciência disso, enxergando o tempo como uma cola espessa, um mar imóvel e pegajoso por onde não se avança. Por isso, nessa idade os relógios só apavoram mesmo se tiverem esqueletos próximos ao mostrador. Dita, agarrada a esses livros velhos que podem levá-la à câmara de gás, vê com nostalgia a menina feliz que foi. Quando acompanhava a mãe nas compras no centro, adorava parar diante do relógio astronômico da praça da Cidade Velha, mas não para ver o espetáculo mecânico — porque na verdade aquele esqueleto a inquietava mais do que ela gostaria de admitir —, e sim para se divertir espiando os transeuntes absortos, muitos deles estrangeiros de passagem pela capital, que observavam muito concentrados a aparição dos autômatos. Continha com pouca dissimulação a vontade de rir que sentia ao ver as caras de assombro e o sorriso abobado dos presentes. Em seguida inventava apelidos para eles. Recorda com uma pontinha de melancolia que uma de suas diversões preferidas era pôr apelidos em todo mundo, principalmente nos vizinhos e conhecidos de seus pais. A espichada sra. Gottlieb, que tanto esticava o pescoço para se fazer de importante, Dita chamava de “Sra. Girafa”. E o tapeceiro cristão da loja de baixo, completamente calvo e magricela, ela chamava em segredo de “Sr. Cabeça de Bola”. Lembra-se de perseguir por alguns metros o bonde, que tocava sua campainha ao fazer a curva da praça Staromĕstské e se perdia serpenteando pelo bairro de Josefov, e logo se punha a correr em direção à loja do sr. Ornest, onde sua mãe comprava tecido para fazer seus casacos e saias de inverno. Não esqueceu o quanto gostava daquela loja, cuja porta exibia um letreiro luminoso com uns carretéis coloridos, que iam acendendo um depois do outro até chegarem ao topo e recomeçarem. Se não tivesse sido uma garotinha que corria com essa felicidade isolante das crianças, talvez, ao passar perto da banca de jornais, teria notado que havia uma longa fila de compradores e que, na pilha de exemplares do Lidové Noviny, a manchete, com quatro linhas e um tamanho de fonte descomunal, não só informava como também gritava na primeira página: “O governo consente a entrada do exército alemão em Praga”. Dita abre os olhos por um momento e vê os SS fuçando nos fundos do barracão. Até levantam os desenhos pendurados na parede com pregos feitos de pontas de arame para ver se debaixo se esconde algo. Ninguém fala, e o barulho dos guardas revirando tudo é ouvido com nitidez nesse barracão que cheira a umidade e mofo. A medo também. É o cheiro da guerra. Do pouco que recorda de quando era criança, sempre lhe vem à mente que a paz cheirava à densa sopa de galinha que cozinhavam nas noites de sexta-feira. Como não se lembrar do sabor do cordeiro bem-tostado e da pasta de ovo com nozes? Longos dias de escola e tardes brincando de amarelinha e de pique comMargit e outras colegas de classe que se esfumam em sua memória… Até que tudo entrou em decadência. As mudanças não foram de supetão, mas progressivas.

No entanto, houve, sim, um dia em que a infância se fechou como a gruta de Ali Babá e ficou sepultada na areia. Desse dia, sim, se lembra nitidamente. Ela não sabe a data, mas foi dia 15 de março de 1939. Praga amanheceu tremendo. Os pingentes de cristal da lâmpada da sala vibravam, mas ela soube que não era um terremoto porque ninguém corria nem se alterava. Seu pai tomava uma xícara de chá no café da manhã e lia o jornal fingindo indiferença, como se nada acontecesse. Ela foi para o colégio acompanhada da mãe, e a cidade estremecia. Começou a ouvir o barulho ao se dirigir à praça de Wenceslao, onde a trepidação do chão era tão forte que fazia cócegas nas solas dos pés. O ruído surdo se tornava mais perceptível à medida que se aproximavam, e Dita estava intrigada diante daquele estranho fenômeno. Ao chegar, não puderam atravessar a rua bloqueada por tanta gente, nem ver outra coisa além de uma muralha de costas, casacos, nucas e chapéus. Sua mãe parou do nada. Endureceu o rosto e envelheceu de repente. Pegou na mão da filha para dar a meia-volta e passar por outro caminho até o colégio, mas Dita não resistiu à curiosidade e, numpuxão, se libertou da mão que a levava. Como era miúda e magra, não teve dificuldades para se enfiar naquela multidão amontoada na calçada e chegar à primeira fila, justo onde os policiais da cidade formavam um cordão com as mãos entrelaçadas. O ruído era estrondoso: uma após a outra, as motos cinzentas com sidecar passavam à frente transportando soldados vestidos com reluzentes jaquetas de couro e óculos de proteção pendendo no pescoço. Seus capacetes brilhavam, recém-saídos das fábricas do centro da Alemanha, sem um arranhão ainda, sem rastro de batalhas. Atrás, vinham os carros de combate munidos com enormes metralhadoras e, em seguida, retumbavam os tanques, que avançavam pela avenida com a ameaçadora lentidão dos elefantes. Dita recorda ter lhe parecido que os que desfilavam eram autômatos como os do relógio astronômico da praça e que, ao cabo de alguns segundos, uma comporta se fecharia e eles desapareceriam. E acabaria o tremor. Mas dessa vez não eram autômatos os que formavam uma procissão mecânica, e sim homens. Naqueles anos aprenderia que a diferença entre uns e outros nemsempre é perceptível. Tinha apenas nove anos, mas sentiu medo. Não havia música de desfile, não havia gargalhadas nem algazarra, não havia assobios… Era um cortejo mudo. Por que aqueles homens de uniforme estavam ali? Por que ninguém ria? De repente, aquela procissão silenciosa lhe fez lembrar umcortejo fúnebre. A férrea mão de sua mãe a arrastou por entre a multidão.

As duas se distanciaram na direção oposta, e Praga voltou a aparecer diante de seus olhos como a cidade vívida de sempre. Era como acordar de um pesadelo com alívio e comprovar que tudo estava de volta no lugar. O chão, porém, continuava se agitando sob seus pés. A cidade tremia. Sua mãe também tremia. Puxava a filha, desesperada, tentando deixar o desfile para trás e escapar das gigantescas garras da guerra com passinhos apressados sobre seus faceiros sapatos de charão. Dita suspira agarrada aos livros. Ela se dá conta com tristeza de que foi nesse dia e não no de sua primeira menstruação que abandonou a infância, porque deixou de ter medo de esqueletos ou das velhas histórias de fantasmas e começou a temer os homens. 2 Os SS começaram o escrutínio no barracão sem sequer olhar para os prisioneiros, ocupando-se das paredes, do chão e dos objetos. Os alemães são organizados a esse ponto: primeiro a forma e depois o conteúdo. O doutor Mengele se volta para falar com Fredy Hirsch, que passou esse tempo todo quase em posição de sentido, sem se mexer um milímetro. Dita se pergunta sobre o assunto da conversa. O que Hirsch estará contando para que esse oficial, temido até pelos membros da SS, permaneça ali parado junto dele, sem gesticular nem mostrar reação alguma, mas aparentemente atento? Muito poucos judeus seriam capazes de se dirigir com tamanha segurança a esse homem, que alguns chamam de Anjo da Morte; muito poucos poderiam fazê-lo sem que lhes tremesse a voz ou lhes traísse o nervosismo dos gestos. A essa distância, porém, Hirsch parece conduzir a conversa com a mesma naturalidade de alguém que para na rua para conversar com um vizinho. Há quem diga que Hirsch é um homem destemido. Outros dizem que caiu nas graças dos alemães por ele próprio ser alemão, e alguns até insinuam que existe algo turvo por trás de seu aspecto impecável. O Padre, que comanda a inspeção, faz uma cara que Dita não consegue decifrar. Se mandam todos se levantarem e ficarem em posição de sentido, como ela vai sustentar os livros sem que eles caiam? A primeira lição que qualquer veterano dá a um recém-chegado é a de que sempre se deve ter claro seu objetivo: sobreviver. Sobreviver mais umas horas e assim acumular mais um dia, que somado a outros poderá se transformar em mais uma semana. E assim sucessivamente: nunca fazer grandes planos, nunca ter grandes objetivos, apenas sobreviver a cada momento. Viver é um verbo que só se conjuga no presente. É sua última chance de enfiar a mão por debaixo do vestido e deixar os livros dissimuladamente sob um tamborete desocupado a um metro dali. Quando se levantarem para entrar em formação e os livros forem encontrados lá, não poderão acusá-la, os culpados serão todos e ninguém. E não poderão levar todos para as câmaras de gás. Mas com toda a certeza fecharão o bloco 31.

Dita se pergunta se esse fechamento seria mesmo algo tão importante. Já lhe contaram como alguns professores se rebelaram no começo: por acaso o estudo é de alguma serventia para umas crianças que provavelmente nunca sairão com vida de Auschwitz? Faz sentido lhes falar dos ursos polares ou insistir com eles na tabuada de multiplicação em vez de falar sobre as chaminés que a poucos metros dali expulsam a fumaça negra dos corpos incinerados? Hirsch os convenceu com sua autoridade e seu entusiasmo. Disse-lhes que o bloco 31 seria um oásis para as crianças. Oásis ou miragem?, ainda se perguntam alguns. O mais lógico seria se desvencilhar dos livros, lutar pela própria vida. Mas ela hesita. O suboficial faz a posição de sentido diante de seu superior e recebe ordens precisas, que transmite de imediato com uma voz autoritária: — De pé! Sentido! Agora, sim, tem início o alvoroço de gente que começa a levantar. É o instante de confusão de que necessita para se salvar. Ao diminuir a pressão exercida pelos braços, os livros deslizaram por dentro do vestido até seu colo. Mas então ela volta a apertá-los contra o ventre, e com tanta força que até os sente estalar como se tivessem ossos. A cada segundo que demora para se desfazer deles, sua vida corre mais e mais perigo. Os SS ordenam de maneira imperativa que haja silêncio, que ninguém saia do lugar. O que mais irrita os alemães é a desordem. Isso é insuportável para eles. No começo, quando puseram emprática a solução final para raças inimigas como a judaica, as execuções sangrentas despertaramrepúdio em inúmeros oficiais da SS. Para eles era difícil suportar o tumulto de corpos mortos misturados com os agonizantes, a árdua tarefa de arrematar os fuzilados um por um, o lamaçal de sangue ao passar pisando nos corpos abatidos, as mãos de moribundos enroscadas nas botas como trepadeiras. Desde que encontraram a fórmula para exterminar os judeus com eficácia e sem gerar situações de caos em centros como Auschwitz, o crime em massa orquestrado por Berlim deixou de ser um problema. Tornou-se para eles mais uma rotina derivada da guerra. Os outros se puseram de pé na frente de Dita, e os SS não podem vê-la. Ela enfia a mão direita no blusão e retira o tratado de geometria. Ao tocá-lo, sente a rugosidade das folhas e percorre com o dedo os sulcos de goma-arábica da lombada arrancada. Percebe que a lombada nua de um livro é como um campo arado. E nesse momento fecha os olhos e aperta bem forte os livros. Sabe o que já sabe desde o princípio: que não vai fazer isso. Ela é a bibliotecária do 31.

Não vai falhar com Fredy Hirsch porque ela mesma lhe pediu, quase exigiu, que confiasse nela. E foi o que ele fez, lhe mostrou os oito exemplares clandestinos e disse: “Esta é a sua biblioteca.” Por fim, se levanta com cuidado. Tem um dos braços cruzado com firmeza sobre o peito para sustentar os livros, para que não caiam no chão e façam barulho. Põe-se no centro do grupo de garotinhas, que a encobrem um pouco, mas ela é mais alta, e sua postura suspeita pode chamar a atenção. Antes de iniciar a inspeção dos prisioneiros, o sargento dá umas ordens, e dois dos SS entram no quarto do chefe do bloco. Dita pensa no restante dos livros, escondidos no quarto de Hirsch, e se dá conta de que o Blockältester agora corre um grande perigo. Se os descobrem, tudo estará acabado para ele. Todavia, o esconderijo lhe parece seguro. O quarto tem um piso de tábuas, e uma delas, num canto, é solta. Sob esta, a terra foi escavada o suficiente para criar um espaço para depositar a pequena biblioteca. Os livros cabem com uma exatidão tão milimétrica que, ainda que pisem ou batam na tábua com as juntas dos dedos, ela não soa oca e nada leva a suspeitar que ali debaixo há um minúsculo esconderijo.

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