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A Bicicleta Azul – Regine Deforges

Pierre Delmas era o primeiro a levantar-se. Tomava um mau café que a criada mantinha quente em cima do velho fogão. Saía em seguida, chamando o cão com um assobio; no inverno, lá fora ainda era noite, ou uma madrugada que, tristonha, anunciava a alvorada, durante o verão. Gostava do cheiro da terra quando tudo ainda permanecia adormecido. O dia surpreendia-o com freqüência no terraço, o rosto voltado para a linha sombria de Landes, em direção ao mar. Na família comentavam que seu único desgosto era não ter sido marinheiro. Durante a infância decorrida em Bordeaux, passava horas esquecidas no cais de Chartrons, vendo os cargueiros entrarem e saírem do porto. Imaginava-se, então, comandando um desses navios, sulcando mares, desafiando tempestades, senhor absoluto a bordo depois de Deus. Certa vez, fora descoberto no porão de um cargueiro de carvão prestes a largar para a África. Nemameaças nem carícias o levaram a revelar o modo como entrara a bordo ou por que motivo abandonava sem explicações a mãe, que adorava. Depois disso, porém, não mais rondara as docas atulhadas de mercadorias, com cheiro de aventura, de alcatrão e de baunilha. Pierre Delmas, tal como o pai, tornou-se vinhateiro. Seria aquele amor frustrado pelo mar que o impelira a adquirir, ano após ano, cada vez mais hectares de pinheirais fustigados pelo vento oeste? Aos trinta e cinco anos, sentiu necessidade de casar; mas recusou-se a escolher uma esposa na sociedade de Bordeaux, a despeito dos bons partidos que ali havia. Conheceu Isabelle de Montpleynet em Paris, em casa de um amigo negociante de vinhos. Apaixonou-se à primeira vista. Isabelle acabara de completar dezenove anos, mas parecia mais velha devido aos belos e melancólicos olhos azuis e à cabeleira farta e pesada presa na nuca. Mostrara-se atenciosa e encantadora com Pierre, embora ela lhe parecesse, em certos momentos, triste e distante. Ele sentiu vontade de afastála de tal tristeza e mostrou-se divertido sem ser inconveniente. Tornou-se então o mais feliz dos homens, ao vê-la rir. Aprovou o fato de Isabelle não ter sacrificado sua esplêndida cabeleira, ao contrário do que fizera a maioria das mulheres respeitáveis da cidade, sucumbindo às exigências da moda, Isabeile de Montpleynet era filha única de um rico proprietário da Martinica. Criada na ilha até os dez anos, conservara da sua infância insular a fala cantada e uma certa languidez de movimentos. Mas aquela aparente leveza ocultava umtemperamento forte e altivo, que se acentuara com o decorrer dos anos. Pela morte da mulher, uma admirável crioula, o pai de Isabelle, desesperado, a confiara aos cuidados das duas irmãs, Albertine e Lisa de Montpleynet, velhas senhoras que viviam em Paris. Seis meses mais tarde morria também, deixando à filha vastíssimas plantações. Pouco tempo depois de conhecê-la, mas sem grandes esperanças, Pierre Delmas confessou a Isabeile o seu amor e o desejo de se casar.


Para sua grande surpresa e alegria, a jovem aceitou. Um mês depois, casavam- se em São Tomás de Aquino, com grande pompa. Após longa temporada na Martinica, instalaram-se em Montillac na companhia de Ruth, a velha governanta, de quem Isabelle não quisera se separar. Embora estranha naquela terra, bem depressa Isabelle foi aceita pelos vizinhos e pela família do marido. Recebera considerável dote com o casamento, que utilizou para embelezar a nova casa. Tendo levado vida de solteirão até aquela altura, Pierre Delmas utilizava apenas dois ou três aposentos, deixando ao abandono os restantes. Tudo se modificou em menos de um ano e, quando nasceu Françoise, a primeira filha do casal, a velha moradia já estava irreconhecível. Decorridos dois anos, vinha ao mundo Léa, seguida de Laure, três anos depois. Pierre Delmas, proprietário do domínio de Montillac, era considerado o homem mais feliz da região. De La Réole a Bazas, de Langon a Cadillac, muita gente lhe invejava a felicidade tranqüila, passada junto da mulher e das três filhas. O Castelo de Montillac era cercado por muitos hectares de terras férteis, matas e, sobretudo, vinhedos, onde se produzia um generoso vinho branco, semelhante ao consagrado Sauternes. O vinho de Montillac ganhara diversas medalhas de ouro. Na propriedade cultivava-se também um vinho tinto de forte aroma. Mas “castelo” era uma palavra demasiado pomposa para designar a vasta moradia do início do século XIX, emoldurada pelas adegas e flanqueada pela fazenda e respectivas instalações agrícolas: celeiros, palheiros, cavalariças e cocheiras, O avô de Pierre mandara substituir o telhado da casa, as bonitas telhas redondas da região, de tonalidades que iam do cor-de-rosa ao bistre, trocando-as por ardósia fria, considerada mais elegante. Felizmente as adegas e as acomodações do pessoal conservavam a cobertura de origem. O telhado cinzento conferia ao edifício um ar de respeitabilidade e de certa tristeza, mais condizentes com o espírito burguês de seu antepassado. Atingia-se a propriedade, magnificamente situada, subindo uma colina que dominava o Garona e o Langonês, entre Verdelais e Saint-Macaire, percorrendo um longo caminho bordejado de plátanos, perto do qual se erguia um antigo pombal. Chegava-se deste modo às instalações da fazenda e, logo depois do primeiro celeiro, desembocava-se na “rua” — assim se designara, desde sempre, a passagem que separava a fazenda do castelo, onde se situava a enorme cozinha, que funcionava, de fato, como entrada principal da casa. Só os estranhos utilizavam o vestíbulo, de mobiliário heteródito e pavimento com lajes em forma de grandes quadrados pretos e brancos, sobre o qual assentava uma tapeçaria de cores vivas. Nas paredes pintadas de branco, alguns pratos antigos, graciosas aquarelas e um belíssimo espelho estilo diretório davam o toque alegre. Atravessando-se o vestíbulo acolhedor, saía-se para o pátio, onde, à sombra de duas enormes tílias, a família ficava a maior parte do tempo quando chegavam os dias bonitos. Seria difícil imaginar local mais tranqüilo; bordejado, em parte, por moitas de lilaseiros e sebes de alfeneiro, abria-se, por entre dois pilares de pedra, para um vasto gramado que descia até o terraço, de onde se dominava a paisagem. À direita, um pequeno bosque, um jardim cheio de flores e, logo depois, vinhedos e mais vinhedos até Bellevue, envolvendo o castelo por todos os lados. Pierre Delmas aprendera a amar essa terra e adorava-a quase tanto como às filhas. Era um homemviolento e sensível.

O pai, falecido prematuramente, legara-lhe a administração de Montillac, propriedade rejeitada pelos outros filhos e filhas por ser demasiado distante de Bordeaux e pelo seu magro rendimento. Ao instalar-se no domínio, Pierre Delmas prometera a si próprio ser bem sucedido. Endividara-se para pagar aos irmãos a parte que lhes cabia por herança, pedindo dinheiro emprestado a um amigo, Raymond d’Argilat, rico proprietário das proximidades de Saint-Êmilion. E foi desse modo que, sem ter sido senhor absoluto depois de Deus a bordo de um cargueiro, Pierre Delmas se transformou em senhor absoluto de Montillac. Capítulo 1 Agosto chegava ao fim. Léa, segunda filha de Pierre Delmas, que acabara de completar dezessete anos, estava sentada sobre a pedra ainda quente de sol da mureta do terraço de Montillac. De olhos semicerrados, voltava-se para a planície de onde, em certos dias, subia até ali o odor marinho dos pinheiros do litoral. Balançava as pernas nuas e bronzeadas, os pés calçados em sandálias listradas. De mãos apoiadas ao muro de um e de outro lado do corpo, entregava-se ao prazer voluptuoso de sentir a carne livre sob o leve vestido de algodão branco. Suspirou de bem-estar, estirando-se em lenta ondulação, tal como fazia Mona, a sua gata, ao despertar ao sol. À semelhança do pai, Léa também amava essa propriedade, da qual conhecia os mínimos recantos. Em criança, brincara às escondidas atrás dos feixes de lenha ou das filas de tonéis, com primos e primas ou filhos e filhas dos vizinhos. O seu companheiro inseparável fora, então, Mathias Fayard, filho do encarregado das adegas, mais velho que ela três anos. De total dedicação, ele sucumbia ao menor dos seus sorrisos. Os cabelos encaracolados de Léa viviam em permanente desalinho, e os seus joelhos andavam sempre esfolados. O rosto desaparecia sob os enormes olhos violeta, sombreados por longas pestanas negras. O seu passatempo favorito era pôr Mathias à prova. No dia de seu décimo quarto aniversário, pedira-lhe: — Ensine-me como se faz amor, Mathias. Louco de alegria, o jovem tomou-a nos braços e beijou-lhe suavemente o rosto emoldurado pelo feno do palheiro. Semicerrados, os grandes olhos violeta observavam com atenção todos os gestos do companheiro. Quando este lhe desabotoou a blusa branca, Léa soergueu-se para ajudá-lo. Depois, num gesto de pudor tardio, ocultou os seios que despontavam, sentindo subir em si um desejo desconhecido. Em algum lugar nas instalações do pessoal, ouviu-se a voz de Pierre Delmas. Mathias interrompeu as carícias. — Continue — murmurou Léa, atraindo para si a cabeça do rapaz, de cabelos castanhos e ondulados.

— Mas. seu pai. — E então? Está com medo? — Não. Mas, se nos descobrir, vou ficar envergonhado. — Ora, envergonhado! Por quê? O que estamos fazendo de mau? — Você sabe muito bem. Seus pais sempre se mostraram bons para mim e para a minha família. — Mas você me ama. Mathias olhou-a demoradamente. Como era bela assim, com os cabelos de ouro pontilhados de flores secas e de pedaços de palha, os olhos brilhantes, a boca entreaberta sobre pequenos dentes brancos e carnívoros, os seios jovens de mamilos eretos! Mathias avançou a mão para logo suspender o gesto. E disse, como se falasse consigo: — Não. Seria malfeito. Assim, não. Depois acrescentou em tom decidido: — Amo você, sim. E por isso mesmo não quero… Você é a menina do castelo e eu. Afastou-se dela e desceu a escada. — Mathias. O rapaz não respondeu, e Léa ouviu a porta fechar-se. — Que estúpido… Abotoou então a blusa e adormeceu até tarde, despertando apenas com o segundo toque da sineta que chamava para o jantar. Ao longe, no campanário de Langon ou no de Saint-Macaire, soaram cinco badaladas. Sultão, o cão da propriedade, ladrava alegremente, perseguindo dois jovens que desciam correndo pelo gramado. À frente de Jean Lefèvre, Raul, o irmão, alcançou a mureta onde Léa se empoleirava. Semfôlego, ambos se encostaram à pedra, um de cada lado da jovem, que os olhou amuada. — Já não era sem tempo! Julguei que preferissem a companhia dessa palerma da Noélle Villeneuve, que não sabe o que fazer para agradar vocês. — Não é nenhuma palerma! — objetou Raul. O irmão deu-lhe um pontapé.

— Demoramos por causa do pai dela. O sr. Villeneuve acha que a guerra começará dentro em breve. — A guerra! A guerra! Não se fala de outra coisa. Estou farta! Esse assunto não me interessa — disse Léa bruscamente, passando as pernas por cima do muro. Jean e Raul, com o mesmo gesto teatral, precipitaram-se a seus pés. — Perdoe-nos, rainha das nossas noites, sol dos nossos dias. Abaixo a guerra, chocante para as moças e mortal para os rapazes! A sua beleza fatal não deve descer a tão mesquinhos pormenores. Nós a amamos com um amor sem par. Qual de nós você prefere, ó rainha? Escolhe. Jean? Venturoso amado! Morro neste mesmo instante de desespero — declarou Raul, deixando-se cair no chão, com os braços em cruz. Com os olhos cheios de malícia, Léa contornou o corpo estendido no chão, passou sobre ele comares de desprezo e depois, parando, empurrou-o com o pé, proferindo no mesmo tom melodramático: — Morto é ainda maior do que vivo. Em seguida, dando o braço a Jean, que se esforçava por manter- se sério, arrastou-o consigo, dizendo: — Abandonemos o cadáver malcheiroso. Venha me cortejar, meu amigo. Afastaram-se sob o olhar falsamente desesperado de Raul, que erguia a cabeça para vê-los partir. Raul e Jean Lefèvre tinham uma força muscular pouco comum. Com vinte e um e vinte anos, respectivamente, eram tão afeiçoados um ao outro como se fossem gêmeos. Se Raul fazia qualquer tolice, logo Jean se acusava. Se este recebia um presente, dava-o ao irmão imediatamente. Educados num colégio de Bordeaux, eram o desespero dos professores devido à indiferença que manifestavampor qualquer tipo de matéria escolar. Sempre em último lugar durante anos, só muito tarde conseguiram concluir o curso. E apenas para agradar à mãe, Amélie — segundo afirmavam. Mas sobretudo — tal como outras pessoas garantiam — para evitar os castigos com o chicote que aquela mulher impetuosa não hesitava em aplicar à sua numerosa e turbulenta prole. Tendo ficado viúva muito cedo e com seis filhos para criar — o caçula estava apenas com dois anos —, retomara firmemente a gerência da propriedade vinícola do marido, Verderais. Não gostava muito de Léa, que considerava insuportável e mal- educada.

Não era segredo para ninguém o fato de Raul e de Jean Lefèvre estarem apaixonados pela jovem. isso era mesmo objeto de gracejos por parte dos outros rapazes e motivo de irritação para as moças. — Léa é irresistível — diziam eles. — Quando nos fita de pálpebras semicerradas, morremos de desejo de abraçá-la. — Ora, não passa de uma provocadora! — respondiam as moças. — Mal vê um homem interessarse por outra mulher começa logo a lançar-lhe olhares. — Talvez seja verdade. Mas acontece que podemos falar de todos os assuntos com ela: cavalos, pinheiros, vinhas e de muitas outras coisas. — Ora, isso são gostos de camponesa! Léa comporta-se mais como um rapaz frustrado do que como uma menina de sociedade. Ver vacas parir e cavalos copular, sozinha ou junto de homens e criados, ou levantar-se da cama para ir admirar a lua acompanhada do Sultão, será que isso é manter a compostura? A mãe desespera-se com ela. Foi expulsa do internato por indisciplina. Devia seguir o exemplo da irmã, Françoise. Uma moça direita. — Mas tão chata!. — Só pensa em música e em vestidos. A ascendência de Léa sobre os homens era, de fato, absoluta. Nenhum conseguia resistir-lhe. Novo ou velho, rendeiro ou proprietário, a todos subjugava. Por um só sorriso dela muitos seriam capazes de cometer loucuras; o pai em primeiro lugar. Quando fazia algum disparate, a filha ia procurá-lo no escritório e sentava-se em seu colo, aninhando-se em seus braços. Nesses instantes, Pierre Delmas sentia-se invadido por tamanha felicidade que fechava os olhos para melhor saboreá-la. Raul ergueu-se de um salto- e alcançou Léa e o irmão. — Estou aqui! Ressuscitei! De que falavam? — Do garden parly que o sr. d’Argilat vai oferecer amanhã e do vestido que Léa usará na festa. — Seja qual for, tenho a certeza de que será a mais bonita — afirmou Raul, abraçando a jovem pela cintura.

Léa esquivou-se, rindo. — Pare com isso! Você me lisonjeia. Vai ser estupenda a festa dos vinte e quatro anos de Laurent. Ele será o herói do dia. Depois do piquenique haverá baile, seguido de ceia e de fogos de artifício. Nem mais nem menos! — Laurent d’Argilat é duplamente o herói da festa — interveio Jean. — Por quê? — inquiriu Léa, erguendo para ele o belo rosto pontilhado de algumas sardas. — Não posso dizer. Por enquanto é segredo. — Como?! Você tem segredos para mim? E você? — disse ela, dirigindo-se a Raul. — Sabe de alguma coisa? — Sim. —. de certo modo. — Julguei que fosse sua amiga e que vocês gostassem de mim o suficiente para não me ocultaremnada — observou Léa, deixando-se cair sobre o banco de pedra encostado à adega, em frente das vinhas, fingindo enxugar os olhos na borda do vestido. Fungando, observava pelo canto do olho os dois irmãos, que se fitavam com ar de embaraço. Sentindo-os indecisos, aplicou-lhes o golpe de misericórdia: ergueu para eles os olhos marejados de lágrimas fingidas e ordenou: — Desapareçam! Vocês me magoam muito. Não quero vê-los mais. Raul decidiu-se, então: — Pois bem, aí vai! O sr. d’Argilat vai anunciar amanhã o casamento do filho — O casamento do filho?! — interrompeu-o Léa. Deixou imediatamente de gracejar e proferiu, em tom de extrema violência: — Você está completamente louco! Laurent não tem nenhuma intenção de se casar, ele me falou. — Com certeza não teve oportunidade. Mas você sabe muito Sem que desde criança está noivo da prima, Camille d’Argilat — prosseguiu Raul. — De Camille d’Argilat! Mas ele não a ama! Aquilo não passou de uma brincadeira de criança para o divertimento dos pais. — Você se engana. Amanhã será anunciado oficialmente o noivado entre os dois.

E vão se casar dentro de pouco tempo, por causa da guerra. Léa deixara de ouvi-lo. Da alegria de momentos atrás, transitava para o pânico, que a invadia aos poucos. Tinha frio e calor ao mesmo tempo, sentia-se tonta e enjoada. Laurent casado! Não era possível! Aquela Camille a quem todos elogiavam não era mulher para ele; não passava de uma citadina, de uma intelectual sempre mergulhada em seus livros. “Laurent não pode casar com ela, pois me ama”, gritava Léa no seu íntimo. “Vi muito bem no outro dia o modo como me pegou na mão e me olhou. Eu sei… sinto-o.” — Hitler bem que se importa com isso. — Mas a Polônia… Em plena discussão, os dois irmãos não notaram a mudança de atitude de Léa. — Tenho de falar com ele — disse ela em voz alta. — Que disse? — perguntou Jean. — Nada. Disse que já é hora de voltar para casa. — Já? Mas acabamos de chegar! — Estou cansada e com dor de cabeça. — Seja como for, amanhã, em Roches-Bianches, quero que você dance apenas com Raul e comigo. — Está bem, está bem… — concordou Léa, erguendo-se, enfastiada. — Hurra! — exclamaram os rapazes em uníssono. — Cumprimente sua mãe. — Farei isso. Até amanhã. — E não se esqueça: todas as danças serão nossas. Raul e Jean partiram correndo, atropelando-se como dois cachorrinhos. “Que moleques!”, pensou Léa, que, voltando resolutamente as costas para a casa, dirigiu-se para o calvário, local de refúgio de todos os seus desgostos infantis. Em criança, quando brigava com as irmãs, quando Ruth a punia por negligência dos deveres ou, sobretudo, se a mãe ralhava com ela, refugiava-se numa das capelas do calvário, para acalmar o desgosto ou a cólera.

Léa evitou a casa de Sidonie, a antiga cozinheira do castelo, a quem a doença, mais do que a idade, tinha forçado a interromper o trabalho. Como recompensa pelos bons serviços prestados, Pierre Delmas lhe dera aquela casa que dominava toda a paisagem. Léa vinha muitas vezes tagarelar com a velhota, que sempre fazia questão de lhe oferecer um cálice de licor de cássis, preparado por ela. Orgulhava-se da bebida e ficava à espera dos elogios que Léa não regateava, embora detestasse licor de cássis. Nesse instante, porém, ouvir as conversas de Sidonie e ter de engolir o licor estavam muito alémde suas forças. Sem fôlego, Léa parou junto ao calvário e deixou-se cair no primeiro degrau, apoiando a cabeça nas mãos geladas. Trespassou-a uma dor terrível. As têmporas latejavam-lhe, os ouvidos zumbiam e um gosto de bile invadiu-lhe a boca. Ergueu-se e cuspiu. — Não, não é possível! Não é verdade! Os Lefèvre tinham dito aquilo por despeito. Onde já se viu alguém casar sob o pretexto de ter ficado noivo em criança? Além disso, Camille era muito feia para Laurent, com o seu ar sábio e melancólico, uma saúde que se dizia delicada e uns modos excessivamente suaves. Que tédio viver com uma mulher como aquela! Não, Laurent não podia amá-la! Amava a ela, Léa, e não àquela magricela que sequer conseguia se manter aprumada em cima de um cavalo ou dançar durante uma noite inteira… Ele a amava, tinha certeza. Percebera-o pela maneira como lhe retivera a mão, pelo olhar procurando o seu. Ainda ontem, na praia. Ela inclinara a cabeça para trás e sentira o desejo dele, ansiando por beijá-la. Mas não fizera a mínima tentativa nesse sentido, como é óbvio. Que exasperantes os rapazes da alta sociedade, tão bloqueados pela educação! Não, Laurent não podia amar Camille. Tal certeza restituiu-lhe um pouco a coragem. Recompôs-se, resolvida a esclarecer o caso e a fazer os Lefèvre pagarem por tal gracejo. Ergueu o rosto para as três cruzes, murmurando: — Ajude-me. O pai fora nesse dia a Roches-Blanches e não tardaria a voltar. Decidiu ir ao seu encontro: saberia por ele o que se passava. No caminho, surpreendeu-se por encontrá-lo já de volta. — Você vinha correndo como se o Diabo a perseguisse — comentou Pierre Delmas. — Mais uma briga com suas irmãs? Está corada e despenteada.

Ao ver o pai, Léa procurou retomar uma expressão mais calma, tal como uma mulher que se empoasse às pressas vendo chegar um visitante imprevisto. Mas o resultado não era dos melhores. Esforçou-se por sorrir, deu o braço ao pai, apoiou a cabeça no ombro dele e disse no seu tom mais meigo: — Que alegria ver você, paizinho! Ia justamente ao seu encontro. Está um dia maravilhoso, não é? Um pouco surpreso com a jovialidade da filha, Pierre Delmas apertou-a contra si, contemplando as encostas revestidas de cepas cuja disposição regular transmitia uma sensação de ordem e de perfeita calma. — Um belo dia, de fato. Um dia de paz, mas talvez o último — disse ele com um suspiro. Perplexa, Léa indagou: — O último, como? O verão ainda não terminou. E em Montillac o outono é sempre a melhor estação. Pierre Delmas afrouxou o abraço, proferindo em tom sonhador: — Sim, é de fato a melhor estação. Mas surpreende-me a sua indiferença; à sua volta tudo prenuncia a guerra e você. — A guerra! A guerra! interrompeu-o a filha com violência. — Estou farta de ouvir falar em guerra. Hitier não é tão loucc que declare guerra à Polônia. E, depois, mesmo que isso aconteça naquele país, em que isso nos diz respeito? Os poloneses que se arranjem! — Cale-se! Você não sabe o que diz! — gritou o pai, agarrando-a pelo braço. — Nunca mais fale assim, ouviu? Existe uma aliança entre os nossos dois países, e nem a Inglaterra nem a França poderão se esquivar. — Mas os russos aliaram-se à Alemanha. — Para grande vergonha deles. E, no futuro, Stálin vai saber que fez papel de bobo. — Mas Chamberlain. — Chamberlain fará o que a honra exigir, confirmando a Hitier o seu propósito de respeitar o tratado anglo-polonês. — E então? — Então haverá guerra. Um silêncio povoado de imagens bélicas caiu entre pai e filha. Foi Léa quem o quebrou: Mas Laurent d’Argilat é de opinião que não estamos preparados para a luta e que o nosso armamento data do conflito de 1914- 1918, só prestando para figurar num museu de guerra. Afirma também que a aviação é inexistente, a artilharia pesada, uma lástima… — Para quem não quer ouvir falar em guerra, vejo que você está bem mais a par do nosso poderio armado do que o seu velho pai. Mas não leva em conta a coragem dos nossos soldados.

— Laurent diz que os franceses não têm vontade de guerrear. — Mas será necessário que o façam. — E que se deixem matar por coisa nenhuma, por um conflito que não lhes diz respeito. — Morrerão pela liberdade. — Ora, a liberdade! Onde está a liberdade quando se está morto? Eu não quero morrer nem quero que Laurent morra. Sua voz ficou embargada, e Léa virou o rosto para ocultar do pai as lágrimas. Perturbado pelas palavras da filha, porém, ele não notou sua emoção. — Se você fosse homem, Léa, eu a chamaria de covarde. — Não sei, papai. Desculpe. Faço você sofrer, mas tenho tanto medo! — Todos nós temos. — Laurent não. Garante que cumprirá o dever, embora tenha a certeza da derrota. — As mesmas idéias pessimistas que o pai exprimiu esta tarde. — Ah… você esteve em Roches-Blanches? — Estive. Léa segurou a mão de Pierre Delmas e o puxou, endereçando- lhe seu melhor sorriso. — Vem. Voltemos para casa. Se nos atrasarmos, mamãe ficará preocupada. — Você tem razão — concordou o pai, correspondendo ao sorriso da jovem. Pararam em Believue para cumprimentar Sidonie, que terminara a refeição da noite e tomava ar fresco sentada em frente de casa. — Então, Sidonie, em forma?

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