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A Boa Terra – Pearl S. Buck

Primeira mulher do continente americano a ganhar o prêmio Nobel de literatura, Pearl S. Buck pertence a uma categoria de autores que tiveram enorme repercussão em sua época, mas que hoje precisam ser redescobertos. Passa-se com a escritora aquilo que aconteceu com nomes como Romain Rolland ou Stefan Zweig: prestigiados e influentes por causa de uma postura política lúcida, pacifista, de uma reivindicação de direitos humanos avessa a sectarismos e aberta às diferenças culturais, foram “esquecidos” pelos mesmos motivos que os tornaram célebres, ou seja, por razões extraliterárias, ideológicas. A exemplo do romancista francês e do ensaísta austríaco, Pearl S. Buck parecia relegada às estantes dos sebos, como se o caráter militante de sua obra tivesse sido suplantado pelas formas mais radicais e eficazes de engajamento que se seguiram à Segunda Guerra, período no qual os traços mais marcantes de sua literatura – a atenção aos deserdados da terra, ao diálogo inter-racial e, sobretudo, à condição feminina – já haviam se consolidado. Hoje, porém, é essa terminologia que parece datada. A publicação de A boa terra pelo selo Alfaguara oferece, assim, a possibilidade de ler sob nova luz este romance, considerado pela crítica o ponto alto de uma produção que traz os vestígios da experiência de vida da autora. Filha de missionários protestantes, Pearl S. Buck foi educada na China, tornando-se “culturalmente bifocal” (segundo sua próprias palavras) a ponto de dominar dois idiomas e, portanto, ter uma visão do Oriente despida de qualquer idéia preconcebida. Como o leitor percebe logo nas primeiras páginas do romance, esta saga de um lavrador que enfrenta as árduas condições sociais de um país rigidamente hierarquizado poderia sem maiores dificuldades ser transplantada para outros solos. Pearl não enxerga as personagens Wang Lung e O-lan (ex-escrava com a qual o protagonista se casa) como “chineses”, mas como dois seres cuja humanidade vai sendo progressivamente deformada, ora pela pobreza extrema, ora pela brutalidade da exploração do trabalho. O livro não apresenta personagens estereotipadas num ambiente típico, não apela para a “cor local” – procedimento dos escritores românticos que visava ampliar os limites estreitos de seu mundo (daí os livros de viagem de autores como Goethe e Stendhal), mas que na era do turismo acabou redundando em literatura de entretenimento que anestesia a experiência do estranho, apresentando-o em roupas exóticas. E, se Pearl S. Buck consegue evitar os clichês, isso ocorre porque ela talvez nunca tenha se sentido uma estrangeira nesse país continental. Segundo o historiador James Thomson – em frase citada pelo biógrafo Peter Conn –, ela foi “o mais influente ocidental a escrever sobre a China desde Marco Polo, no século XIII”. E o próprio Conn assinala que a filha dos pastores presbiterianos Absalom e Carie Sydenstricker, à diferença dos outros escritores de sua geração, cresceu em contato com uma China real, bem diversa das conjecturas simplificadoras que vicejavam nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, ela nunca perdeu de vista o fato de pertencer a uma minoria étnica – sentimento de exclusão amplificado por sua condição feminina num país que rebaixou a mulher a umestado de completa sujeição. Esses dois traços aparecem de chofre na passagem que abre o romance, na qual o casamento de Wang Lung com a ex-escrava é descrito não como realização afetiva ansiosamente esperada, ou como projeto de continuidade de seu clã, mas como libertação dos afazeres domésticos. Com uma crueldade acentuada pelo tom seco da escrita de Pearl, que naturaliza a maneira utilitária com que seu protagonista encara o matrimônio, o narrador expõe as hesitações que precederam o enlace. Na comunidade à qual pertence Wang Lung, dizia-se: “É melhor viver só do que se casar com uma mulher que foi escrava numa casa grande” – frase que traduz o hábito, corriqueiro nessa China senhorial, de produzir uma classe de mulheres que, quando crianças, eram vendidas pelas famílias pobres para servirem como escravas dos estratos mais abastados. Wang Lung deverá, portanto, escolher entre permanecer celibatário ou desafiar um senso comum que aceita tal prática sem contudo abdicar da condenação moral que passa a recair sobre elas. Na seqüência inicial de A boa terra, em que são descritos os preparativos desse casamento ditado por razões pragmáticas, Wang Lung já tomou sua decisão. Pajem do pai desde a morte da mãe, o protagonista se vê prestes a transferir para a esposa-escrava (e para a prole vindoura) sua servidão doméstica: “Todas as manhãs nesses seis anos, o velho esperara o filho vir lhe trazer água quente para aliviá-lo da tosse matinal. Agora pai e filho poderiam descansar. Estava chegando uma mulher na casa.


Nunca mais Wang Lung teria que se levantar inverno e verão ao romper da aurora para acender o fogo. Poderia esperar deitado na cama, e também teria uma tigela de água trazida para ele, e se a terra fosse fecunda, haveria folhas de chá na água. (…) E se a mulher se cansasse, haveria os filhos dela para acender o fogo, os muitos filhos que ela teria de Wang Lung.” E, quando vai até a Casa de Hwang (grande propriedade senhorial localizada na cidade) para buscar sua noiva, ele ouve da governanta as palavras que reiteram essa relação servil: “Tome-a e use-a bem. Ela é uma boa escrava, embora meio lenta e burra.” Arma-se, assim, um esquema que percorre as diversas idas e vindas de um romance no qual a crueza de laços sociais ditados pela necessidade não oblitera, entretanto, as nuances psicológicas. Este é o ponto a se ressaltar nessa leitura propiciada pelo relançamento da obra maior de Pearl S. Buck. A boa terra é certamente um afresco da China pré-revolucionária, em que a questão agrária e a contaminação das relações familiares e afetivas pela estrutura produtiva ocupam a boca de cena. Reduzi-lo a esse viés de denúncia social, contudo, seria confirmar o veredicto que durante tantas décadas transformou a obra da autora norte-americana num artefato obsoleto. Pearl não é uma inovadora do ponto de vista da criação literária, da linguagem e do repertório das formas narrativas. Contemporânea das vanguardas do início do século XX, sua obra assemelha-se mais ao realismo oitocentista, com as crônicas da vida burguesa e proletária e as tensões de classe fornecendo o pano de fundo para um retrato exemplar das contradições íntimas. EmA boa terra, testemunhamos a lenta transformação de Wang Lung, cuja trajetória para deixar de ser lavrador e tornar-se proprietário de terras vai mostrando as mutações de valores e a perversidade comum que enlaça opressores e oprimidos. Numa China assolada pelo flagelo da fome, em que correm boatos sobre canibalismo, Wang Lung vê na mulher uma parideira e, em cada filho homem que nasce, um sinal de prosperidade, confirmado pela compra de sua primeira gleba de terra. A decepção com o nascimento da primeira filha (que mais à frente ele descobrirá ser uma criança com retardamento mental) soa como prenúncio de maus tempos. De uma hora para outra, o pequeno agricultor se vê na condição de pária, obrigado a abandonar o campo e a vagar com a família pelas ruas da cidade, mendigando e comendo nas cozinhas públicas. A doce frugalidade que garantira momentos de conforto e o fizera olhar para a mulher com enternecimento cede lugar a um desespero homicida: O-lan assassina o quarto filho logo após o nascimento e Wang Lung cogita vender a pequena filha como escrava. Nesse ponto extremo, surgem as ambigüidades que fazem do livro uma anatomia da servidão humana que vai além dos aspectos meramente econômicos. Pois é só quando um dos filhos rouba carne no açougue que a indignação do lavrador chega a seu limite; a desonra pública é mais insuportável do que as pequenas atrocidades familiares e Wang Lung decide voltar a suas origens camponesas. “Seu lugar era a terra e ele não podia viver plenamente enquanto não sentisse a terra sob os pés, não seguisse um arado na primavera e não carregasse uma foice na mão durante a colheita.” O que parece uma idealização do campo em contraposição à cidade, porém, logo mostra serem ambos a face de uma mesma moeda. Na cidade, a ostentação do luxo torna explícitos a impessoalidade das relações sociais e o caráter contratual da exploração; no campo, as relações sociais baseadas na tradição dos laços comunitários supostamente mitigam a desigualdade, mas é justamente esse enraizamento que legitima e perpetua a violenta submissão a uma determinada ordem. Em literatura, porém, esse viés sociológico sempre aparece filtrado pela imaginação – e Pearl S. Buck, cuja militância política lhe valeu perseguições durante o período do macartismo, foi sobretudo uma escritora. Isso significa que em A boa terra os acontecimentos estarão sujeitos a uma gratuidade que não cancela – antes intensifica – a força da representação de uma realidade que a ficção examina sob ângulos sempre inesperados e iluminadores.

Assim, a volta de Wang Lung e família para o campo é favorecida por acasos decisivos: a eclosão de uma guerra e a destruição dos portões da casa senhorial levam a uma onda de saques; de posse de dinheiro e jóias, ele conseguirá retomar a semeadura de sua gleba e recomeçar a vida. O fortuito, todavia, não será aquela marca que singulariza o destino do herói. A mudança de status social de Wang Lung se encaixa de modo verossímil no contexto dessa China em convulsão e permite a Pearl S. Buck investigar sob outro prisma as deformações da subjetividade nessa sociedade embrutecedora. O camponês que se torna senhor de terras passa a olhar de outro modo para as pessoas à volta, adquire novos desejos e temores: percebe que a mulher, “criatura fiel e opaca”, não sacia seus novos apetites e arruma uma concubina; projeta a humilhação do analfabetismo nos filhos, enviando-os para a escola; descobre que o tio invejoso de sua riqueza é integrante dos Barbas Vermelhas, gangue que arrasa os vilarejos da região, e, intimidado, acolhe sua família de sanguessugas. As tensões, que nas primeiras partes do romance ocorriam em espaços externos, públicos, passam-se agora nos aposentos e edificações da propriedade da “grande família Wang”, como agora é reconhecido seu clã. As rivalidades entre as concubinas, a submissão das mulheres aos desejos de seu senhor e a disputa sexual que se estabelece entre o pai e um de seus filhos assinalam essa nova modalidade de exercício do poder, cuja moeda é a posse do corpo. A atmosfera criada por Pearl S. Buck remete àquela sensualidade asfixiante, eivada de conspirações e traições, do filme Lanternas Vermelhas, de Yimou Zhang (1991), em que a autoridade invisível do patriarca impregna cada gesto. Pearl S. Buck compôs a narrativa fechada de uma sociedade que parecia imóvel – imobilismo que se transfere para o ritmo sem sobressaltos de sua escrita, que vai acumulando acontecimentos. Em apenas dois momentos percebe-se um elemento externo a esse mundo. No primeiro deles, Wang Lung recebe de um estrangeiro, missionário como os pais de Pearl, um papel no qual está impresso “o retrato de um homem, um homem branco, pendurado numa cruz de madeira. O homem estava sem roupas a não ser por uma tanga em volta dos quadris e, aparentemente, estava morto, uma vez que tinha a cabeça caída sobre o ombro e os olhos fechados acima dos lábios cobertos de barba. Wang Lung olhou horrorizado e com crescente interesse para o retrato do homem. Havia caracteres embaixo, mas, esses, ele não conseguia entender”. No segundo, recebe um panfleto anticapitalista que mostra “um homem igual ao próprio Wang Lung, um sujeito comum”, sendo esmagado por “um homem grande e gordo, que o apunhalava com uma faca comprida”. Em ambas as passagens, Wang Lung toma contato com algo que pode transformar seu mundo, mas que ainda não pertence a ele. Talvez não haja metáfora melhor para o livro de Pearl S. Buck: uma obra de ficção que, sendo ao mesmo tempo fiel e crítica em relação à realidade representada, abre brechas para a imaginação e para a utopia. MANUEL DA COSTA PINTO Colunista da Folha de S. Paulo, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles, autor de Albert Camus – Um elogio do ensaio (Ateliê) e Literatura Brasileira Hoje (Publifolha). Foi isso que Vinteuil fizera pela pequena frase. Swann achou que o compositor se contentara (com os instrumentos à sua disposição) em desvelá-la, dar-lhe visibilidade, acompanhando e respeitando seus contornos com uma mão tão amorosa, tão prudente, tão delicada e tão segura, que o som se alterava a todo momento, embotando-se para indicar uma sombra, reavivando-se de repente quando precisava acompanhar o contorno de uma projeção mais ousada. E uma prova de que Swann não estava errado quando acreditava na existência real desta frase era que quem quer que tivesse um ouvido musical requintado detectaria de imediato a impostura, tivesse Vinteuil, dotado de menos capacidade de ver e transmitir suas formas, procurado dissimular (acrescentando, aqui e ali, uma linha de sua invenção) a imprecisão de sua visão ou a fraqueza de sua mão.

— Marcel Proust, No caminho de Swann Capítulo 1 Era o dia do casamento de Wang Lung. No primeiro momento, quando abriu os olhos na escuridão das cortinas de sua cama, não atinou por que o amanhecer parecia diferente de todos os outros. No silêncio da casa, só ouvia a tosse fraca e ofegante de seu velho pai, cujo quarto ficava em frente ao dele do outro lado da sala central. Todas as manhãs, a tosse do velho era o primeiro som que se ouvia. Wang Lung em geral ficava deitado a escutá-la e só se mexia quando a ouvia mais próxima e a porta do quarto do pai rangia nas dobradiças de madeira. Mas, nesta manhã, ele não esperou. Pulou da cama e abriu as cortinas. Era um amanhecer escuro e avermelhado, e pela pequena abertura quadrada de uma janela, onde o papel esfarrapado esvoaçava, brilhou uma nesga de céu cor de bronze. Ele foi até a abertura e rasgou o papel. — É primavera e não preciso disso — resmungou. Envergonhava-se de dizer em voz alta que queria que a casa parecesse em ordem naquele dia. A abertura era tão apertada que mal dava para sua mão passar e ele a meteu para fora a fim de sentir o ar. Uma brisa suave soprava do leste, uma brisa amena e murmurante e plena de chuva. Era um bom presságio. Os campos precisavam de chuva para frutificar. Não choveria naquele dia, mas em pouco tempo, se aquele vento continuasse, haveria água. Isso era bom. Ontem, ele dissera ao pai que, se aquele sol abrasador e inclemente continuasse, o trigo não espigaria. Agora era como se o céu tivesse escolhido esse dia para lhe desejar boa sorte. A terra daria frutos. Entrou depressa na sala central, vestindo as calças no caminho e amarrando na cintura a faixa de tecido de algodão azul. Ficou de peito nu até acabar de aquecer a água para se banhar. Foi até o alpendre que servia de cozinha e, no lusco-fusco, ao lado da porta, surgiu a cabeça de um boi que mugiu fundo para ele. A cozinha era feita dos mesmos tijolos de barro que a casa, grandes quadrados de terra tirada de seus próprios campos, e coberta de palha de seu próprio trigo. Daquela mesma terra, seu avô, na juventude, fabricara também o forno, que os muitos anos de preparação de refeições haviam cozido e enegrecido.

Em cima dessa estrutura de barro erguia-se um caldeirão de ferro fundo e redondo. Ele encheu esse caldeirão parcialmente de água, tirada de cuia de um jarro que estava ali perto, mas com cuidado, pois a água era preciosa. Em seguida, após hesitar um pouco, levantou o jarro e esvaziou toda a água do caldeirão. Naquele dia, lavaria o corpo inteiro. Desde criança no colo da mãe, ninguém olhava seu corpo. Hoje, alguém olharia, e ele desejava estar limpo. Passou por trás do forno, e, escolhendo um punhado de capim seco no canto da cozinha, dispôs tudo delicadamente na boca do forno, tirando o melhor partido de cada folha. Depois, comuma pederneira e um pedaço de ferro velhos, produziu uma centelha e ateou fogo à palha. Aquele era o último dia em que precisaria acender o fogo. Acendera-o todas as manhãs desde que a mãe morrera havia seis anos. Acendia o fogo, fervia a água, despejava-a numa tigela e levavaa ao quarto onde o pai estava sentado na cama, tossindo e tateando à procura dos sapatos no chão. Todas as manhãs nesses seis anos, o velho esperara o filho vir lhe trazer água quente para aliviá-lo da tosse matinal. Agora pai e filho poderiam descansar. Estava chegando uma mulher na casa. Nunca mais Wang Lung teria que se levantar inverno e verão ao romper da aurora para acender o fogo. Poderia esperar deitado na cama, e também teria uma tigela de água trazida para ele, e se a terra fosse fecunda, haveria folhas de chá na água. Em alguns anos, às vezes era assim. E se a mulher se cansasse, haveria os filhos dela para acender o fogo, os muitos filhos que ela teria de Wang Lung. Wang Lung parou, quando lhe ocorreu a idéia de crianças correndo pelos três quartos da casa. Sempre parecera que três quartos eram demais para eles, na casa meio vazia desde a morte de sua mãe. Estavam sempre tendo que resistir aos parentes que viviam mais apertados — o tio, com sua interminável prole, sugerindo: — Ora, como dois homens sozinhos podem precisar de tanto espaço? Pai e filho não podemdormir juntos? O calor do corpo do jovem confortará a tosse do velho. Mas o pai sempre respondia: — Estou poupando minha cama para meu neto. Ele aquecerá meus ossos na minha velhice. Agora os netos iam chegar, netos atrás de netos! Teriam que colocar camas ao longo das paredes na sala central. A casa estaria cheia de camas.

O fogo no forno morreu enquanto Wang Lung pensava em todas as camas que haveria na casa meio vazia, e a água começou a esfriar no caldeirão. A figura sombria do velho apareceu no portal, segurando no corpo as roupas desabotoadas. Tossia e cuspia dizendo ofegante: — Como ainda não tem água para me esquentar os pulmões? Wang Lung ficou olhando para ele, depois caiu em si, envergonhado: — Essa lenha está úmida — resmungou detrás do fogão. — O vento úmido… O velho continuou tossindo obstinadamente, sem parar, até a água ferver. Wang Lung encheu uma tigela, e então, pouco depois, abriu um pote vitrificado que estava numa aba do fogão, tirou dali mais ou menos uma dúzia das folhas secas enroladas e espalhou-as na superfície da água. O velho arregalou os olhos gulosamente, mas logo começou a reclamar. — Por que você é perdulário? Tomar chá é comer dinheiro. — É o dia — respondeu Wang Lung com uma risada curta. — Tome e se reconforte. O velho pegou a tigela com os dedos enrugados e nodosos, resmungando e emitindo pequenos grunhidos. Observou as folhas se desenrolarem e se espalharem na superfície da água, incapaz de admitir beber o precioso líquido. — Vai esfriar — disse Wang Lung. — É verdade… é verdade… — disse o velho alarmado, e começou a tomar grandes goles do chá quente, com uma satisfação animal, como uma criança fixada na comida. Mas não estava tão distraído a ponto de deixar de ver Wang Lung enchendo temerariamente uma funda tina de madeira com a água do caldeirão. Levantou a cabeça e olhou para o filho. — Essa água toda dá para fazer uma colheita frutificar — disse subitamente. Wang Lung continuou despejando a água até a última gota. Não respondeu. — Alto lá! — gritou o pai. — Não lavo meu corpo desde o Ano-novo — disse Wang Lung em voz baixa. Ficou com vergonha de dizer ao pai que queria ter o corpo limpo para uma mulher o ver. Saiu depressa, levando a tina para o quarto. A porta estava meio solta no caixilho de madeira empenada e não fechava direito, então o velho correu para a sala central, pôs a boca na abertura e gritou: — Vai ser ruim se acostumarmos a mulher assim — chá de manhã e esse banho todo! — É só um dia — gritou Wang Lung. Depois acrescentou: — Vou jogar a água na terra quando terminar e não será tudo desperdício. O velho ficou quieto diante disso, e Wang Lung desamarrou a cinta e se despiu.

No quadrado de luz que entrava pela abertura, torceu uma toalhinha com água fumegante e esfregou vigorosamente o esguio corpo moreno. Embora tivesse achado que estava quente, quando umedeceu a pele, sentiu frio; correu com o processo, mergulhando a toalha na água e retirando-a até que de todo seu corpo saía uma delicada nuvem de vapor. Depois, foi até uma arca que pertencera à sua mãe e tirou dali de dentro uma roupa limpa de algodão azul. Talvez sentisse um pouco de frio naquele dia sem as roupas de inverno acolchoadas, mas de repente não conseguia admitir o contato delas na pele limpa. Tinham a capa rasgada e imunda, e o forro saía pelos furos, cinzento e úmido. Ele não queria que essa mulher o visse pela primeira vez com o forro saindo para fora das roupas. Mais tarde, ela teria que lavar e cerzir, mas não no primeiro dia. Ele vestiu o casaco e as calças de algodão azul e uma túnica comprida do mesmo tecido — sua única túnica comprida, que só usava em dias de festa, mais ou menos dez dias por ano, ao todo. Então, com dedos ágeis, desfez a longa trança que lhe caía nas costas, e, pegando um pente de madeira na gaveta da mesinha bamba, começou a pentear o cabelo. Seu pai se aproximou de novo e pôs a boca na fresta da porta. — Não vou ter nada para comer hoje? — reclamou. — Na minha idade, os ossos são água de manhã até receberem comida. — Já vou — disse Wang Lung, trançando o cabelo depressa e serenamente e entrelaçando as mechas com um cordão de borlas de seda preta. Aí, logo depois, tirou a túnica comprida e enrolou a trança em volta da cabeça e saiu, carregando a tina de água. Quase esquecera o café-da-manhã. Misturaria um pouco de água na farinha de milho e daria ao pai. Ele mesmo não conseguiria comer. Foi trôpego com a tina até a entrada e despejou a água na terra o mais junto da porta, e, ao fazer isso, lembrou-se que usara toda a água do caldeirão para o banho e teria que tornar a acender o fogo. Ficou irritado com o pai. — Aquela cabeça velha só pensa em comer e beber — resmungou na boca do forno; mas, em voz alta, não disse nada. Era a última manhã em que teria de preparar comida para o velho. Pôs umpouquinho d’água no caldeirão, tirando-a com um balde de um poço junto à porta. A água ferveu logo, ele preparou o mingau e levou-o para o velho. — Vamos comer arroz hoje à noite, meu pai — disse. — Enquanto isso, tem aí milho.

— Só sobrou um pouquinho de arroz no cesto — disse o velho, sentando-se à mesa na sala central e mexendo com os pauzinhos o espesso mingau amarelo. — Então, vamos comer um pouco menos do que na última festa da primavera — disse Wang Lung. Mas o velho não ouviu. Tomava ruidosamente a papa da tigela. Wang Lung foi para seu quarto, tornou a vestir a túnica azul comprida e desenrolou a trança. Passou a mão na testa raspada e nas faces. Talvez fosse melhor estar recém-barbeado. O sol ainda não despontara. Poderia passar pela rua dos Barbeiros e fazer a barba antes de ir para a casa onde a mulher esperava por ele. Se tivesse dinheiro, faria isso. Tirou da cinta uma bolsinha sebosa de tecido cinza e contou o dinheiro que havia lá dentro: seis dólares de prata e dois punhados de moedas de cobre. Ainda não contara ao pai que convidara amigos para jantar naquela noite. Convidara o primo mais moço e o tio por causa do pai, e três fazendeiros vizinhos que moravam na aldeia com ele. Planejara naquela manhã trazer da cidade carne de porco, um peixe de água doce pequeno e um punhado de castanhas. Talvez até comprasse um pouco de brotos de bambu do sul e um pouco de carne de vaca para ensopar com o repolho que plantara no jardim. Mas isso só se sobrasse dinheiro depois de comprados o óleo vegetal e o molho de soja. Se raspasse a cabeça, talvez não pudesse comprar a carne. Bem, rasparia a cabeça, decidiu de repente.

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