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A bola de neve – Alice Schroeder

Warren Buffett se balança para trás, na cadeira, com suas longas pernas cruzadas, atrás da mesa simples de madeira de seu pai, Howard. O caro paletó Zegna se avoluma em seus ombros, como se não tivesse sido feito sob medida. Ele usa terno o dia inteiro, todos os dias da semana, mesmo quando os outros 15 funcionários da Berkshire Hathaway se vestem de forma casual. Sua camisa, previsivelmente branca, vai até o alto do pescoço, com o colarinho justo demais se projetando sobre a gravata. Parece um resquício dos seus tempos de jovem executivo – como se ele tivesse passado 40 anos sem se lembrar de conferir o tamanho do próprio pescoço. Suas mãos estão entrelaçadas atrás da cabeça, entre os fios grisalhos de seu cabelo. Uma mecha especialmente grande e rebelde, penteada com os dedos, salta do couro cabeludo como uma pista de esqui, fazendo uma curva para cima, na altura de sua orelha direita. A sobrancelha esquerda, desgrenhada, serpenteia por sobre os óculos de aro de tartaruga, conferindo ao seu rosto uma expressão que pode ser cética, astuta ou sedutora. Nesse instante ele mostra um sorriso sutil, o que empresta à sobrancelha rebelde um ar cativante. Mas seus olhos, azul-claros, estão concentrados e atentos. Ele está cercado por 50 anos de recordações. No corredor do lado de fora do seu escritório estão fotografias do time de futebol americano Nebraska Cornhuskers; o contracheque por sua participação numa telenovela; a carta de oferta (jamais aceita) de compra do fundo hedge Long Term Capital Management; e suvenires da Coca-Cola. Na mesa de centro do escritório, uma garrafa clássica do refrigerante e uma luva de beisebol, num suporte de acrílico. Em cima do sofá, um diploma do curso de oratória de Dale Carnegie, concedido em janeiro de 1952. A réplica de uma diligência da Wells Fargo, rumo ao Oeste, está em cima de uma estante, ao lado de um Prêmio Pulitzer, conquistado, em 1973, pelos jornais do grupo Sun, de Omaha, então pertencente à sua sociedade de investimentos. Livros e jornais estão espalhados por todo o escritório. Fotografias da sua família e de amigos cobrem o aparador, uma mesinha e o espaço inferior de um suporte para computador, ao lado de sua mesa. Um grande retrato do pai de Buffett paira sobre a sua cabeça na parede atrás da mesa. Ele encara todo e qualquer visitante que entre no escritório. Embora uma manhã de fim de primavera se insinue atrás das janelas, as persianas de madeira marrom estão fechadas, bloqueando a vista. A televisão, voltada na direção da mesa, está ligada na CNBC. Está sem som, mas a faixa horizontal, na parte inferior da tela, o abastece de notícias o dia inteiro. Ao longo dos anos, para sua satisfação, elas foram muitas vezes sobre ele mesmo. Mas poucas pessoas o conhecem bem. Eu fiz meu primeiro contato com ele há seis anos, como analista financeira das ações da Berkshire Hathaway.


Com o tempo, nós nos tornamos amigos, e agora tenho a chance de conhecê-lo melhor. Estamos no escritório de Warren porque ele não vai escrever um livro. As sobrancelhas indomáveis sublinham as suas palavras quando ele diz, repetidas vezes: “Você fará um trabalho muito melhor do que eu, Alice. Que bom que é você quem está escrevendo este livro, e não eu.” O motivo dessas palavras ficará claro mais adiante. Por ora, começamos com o assunto de que ele mais gosta. “Qual é a explicação, Warren? De onde saiu toda essa vontade de ganhar dinheiro?” O olhar dele fica distante por alguns segundos, e seus pensamentos se voltam para dentro, como que folheando os arquivos da sua memória. Então Warren começa a contar sua história: “Balzac disse que, por trás de toda grande fortuna, há um crime. 1 Isso não se aplica à Berkshire.” Ele se levanta da cadeira para desenvolver essa ideia, atravessando o escritório com algumas passadas. Então se senta novamente, numa poltrona com brocado dourado, e se inclina para a frente, parecendo mais um adolescente que se gaba de sua primeira namorada do que um investidor de 72 anos. O livro agora é problema meu: como interpretar a sua história, quem entrevistar, o que escrever. Ele discorre longamente sobre a natureza humana e a fragilidade da memória. Então diz: “Sempre que a versão de outra pessoa for diferente da minha, use a menos lisonjeira.” São muitas as lições que ele tem para ensinar, e algumas das melhores vêm do simples fato de observá-lo. Eis a primeira: a humildade desarma. No fim das contas, não houve muitos motivos para escolher a versão menos lisonjeira. Porém, quando o fiz, a culpa foi geralmente da natureza humana, e não da fragilidade da memória. Um desses fatos aconteceu no Sun Valley, em 1999. 2 Sun Valley Idaho – Julho de 1999 Warren Buffett saiu do carro e tirou sua bagagem do porta-malas. Ele atravessou o portão magnético e foi até à pista de decolagem do aeroporto, onde um jato Gulfstream IV – branco e reluzente, do tamanho de um avião de passageiros de porte médio e a maior aeronave particular do mundo em 1999 – aguardava o investidor e sua família. Um dos pilotos apanhou sua mala para guardá-la no bagageiro. Sempre que voavam com Buffett pela primeira vez, os pilotos ficavamsurpresos ao vê-lo carregando a sua própria bagagem ou saindo de um carro sem chofer. Enquanto subia a escada de embarque, ele cumprimentou a aeromoça – que era nova ali – e escolheu um lugar junto à janela, pela qual não olharia em momento algum durante o voo. Ele estava animado: havia meses esperava por aquela viagem.

Seu filho Peter e sua nora Jennifer, sua filha Susan e o namorado, além de dois de seus netos já estavam acomodados nas poltronas de couro café com leite, na cabine de quase 14 metros de comprimento. Eles giraram os assentos, afastando-os dos painéis abaulados das paredes para ganhar mais espaço, enquanto a aeromoça vinha da cozinha para servir os tira-gostos e bebidas favoritos da família. Havia uma pilha de revistas no sofá: Vanity Fair, The New Yorker, Fortune, Yachting, Robb Report, Atlantic Monthly, The Economist, Vogue, Yoga Journal. A aeromoça trouxe também os jornais do dia, juntamente com uma cestinha de batatas fritas e uma Cherry Coke, que combinava como suéter vermelho de Buffett, da Universidade de Nebraska. Ele agradeceu, conversou com ela por alguns minutos, tentando aliviar seu nervosismo por voar pela primeira vez com o chefe, e pediu que avisasse ao copiloto que eles estavam prontos para decolar. Então enfiou a cabeça num jornal, enquanto o avião deixava a pista e rapidamente alcançava os 12 mil metros de altitude. Ao longo das duas horas seguintes ele ficou cercado pelo burburinho de seis pessoas, que assistiam a filmes, conversavam e falavam pelo telefone, enquanto a aeromoça arrumava toalhas e vasos de orquídeas nas mesas de madeira de lei, antes de voltar à cozinha para preparar o almoço. Buffett não se mexeu em nenhum momento. Ficou sentado lendo, escondido atrás dos seus jornais, como se estivesse sozinho no escritório de casa. Eles estavam voando num verdadeiro palácio aéreo, de 30 milhões de dólares, conhecido como jato “fracionário”. Cada aeronave podia ser dividida por até oito proprietários, mas, como fazia parte de uma frota, os donos podiam voar ao mesmo tempo, se quisessem. Todos – dos pilotos aos funcionários da manutenção, dos programadores de voo, que preparavam tudo para o embarque numprazo máximo de seis horas, à aeromoça que servia as refeições – trabalhavam para a NetJets, que pertencia à companhia de Warren Buffett, a Berkshire Hathaway. Algum tempo depois o G-IV cruzou a planície do Snake River e se aproximou das Sawtooth Mountains, uma formação rochosa do período cretáceo, de granito escuro tostado pelo sol durante milênios. O avião singrou o ar luminoso e límpido até Wood River Valley e desceu até 2.500 metros de altitude, onde enfrentou a turbulência provocada pelo relevo acidentado da região. Buffett continuou lendo, imperturbável, enquanto o avião chacoalhava e sua família se sacudia nas poltronas. Moitas salpicavam as partes mais altas da cordilheira, e fileiras de pinheiros começavam sua escalada serra acima, entre desfiladeiros. A família sorria com expectativa. Enquanto o avião descia pela fenda que se estreitava entre dois picos, o sol do meio-dia projetava a sombra alongada do avião sobre a cidade de Hailey, Idaho, um antigo centro de mineração. Poucos segundos depois as rodas tocaram a pista do aeroporto Friedman Memorial. Quando os Buffett pisaram o solo, apertando os olhos contra o sol de julho, dois utilitários esportivos já tinhamatravessado o portão e estavam parados ao lado do jato, com um homem e uma mulher da Hertz aos volantes. Ambos usavam as camisas douradas e pretas da companhia. Mas, em vez de “Hertz”, a logomarca dizia “Allen & Co.”. As crianças saltitavam, animadas, à medida que os pilotos levavam a bagagem, as raquetes de tênis e a sacola de golfe de Buffett (vermelha e branca, da Coca-Cola) para os carros.

Ele e os outros passageiros apertaram as mãos dos pilotos, se despediram da aeromoça e entraram nos veículos. Contornando o escritório da Sun Valley Aviation – na verdade um pequeno trailer na extremidade sul da pista –, eles manobraram até a estrada que apontava na direção dos picos mais distantes. Cerca de dois minutos haviam passado desde que as rodas do avião tocaram o solo. Exatamente oito minutos depois, outro avião chegou, encaminhando-se para a sua vaga na pista. Por toda aquela tarde ensolarada uma série de jatos chegou do Sul e do Leste, ou contornando os picos do Oeste, para descer em Hailey: “paus para toda obra” como os Cessna Citations; Learjets glamourosos das redondezas; Hawkers velozes; Falcons luxuosos; mas, em sua maioria, imponentes G-IV. À medida que a tarde chegava ao fim, dezenas de aeronaves brancas, imensas e reluzentes se enfileiravam na pista, como uma vitrine repleta de brinquedos de magnatas. Os Buffett seguiram o caminho trilhado por outros carros por alguns quilômetros, do aeroporto até a cidadezinha de Ketchum, ao lado da Sawtooth National Forest, perto da saída para o desfiladeiro de Elkhorn. Alguns quilômetros depois eles contornaram a Dollar Mountain, deparando-se com um verdadeiro oásis verde, como se tivesse sido aninhado no meio das encostas marrons. Ali, entre pinheiros e choupos, fica o Sun Valley, o mais lendário resort das montanhas, onde Ernest Hemingway começou a escrever Por quem os sinos dobram e muitos esquiadores e patinadores olímpicos encontraram um segundo lar. Todas as diversas famílias às quais eles se juntariam naquela tarde tinham algum vínculo com o Allen & Co., um pequeno banco de investimentos especializado em empresas de mídia e comunicação. O Allen & Co. realizara algumas das maiores fusões de Hollywood e vinha organizando, havia mais de uma década, uma série anual de debates e seminários entremeados por atividades recreativas ao ar livre, no Sun Valley, para seus clientes e amigos. Herbert Allen, o CEO da empresa, convidava apenas as pessoas de que gostava, ou ao menos aquelas com quem tinha interesse em fazer negócios. Assim, o encontro estava sempre repleto de rostos famosos e ricos: produtores de Hollywood e estrelas, como Candice Bergen, Tom Hanks, Ron Howard e Sydney Pollack; magnatas do mundo do entretenimento, como Barry Diller, Rupert Murdoch, Robert Iger e Michael Eisner; jornalistas com pedigree social, como Tom Brokaw, Diane Sawyer e Charlie Rose; e titãs da tecnologia, como Bill Gates, Steve Jobs e Andy Grove. Uma multidão de repórteres os aguardava todos os anos em frente ao Chalé Sun Valley. Os jornalistas tinham chegado na véspera, do aeroporto de Newark ou de Nova Jersey ou de algum ponto de embarque parecido, onde apanharam um voo comercial até Salt Lake City. Eles percorreramo saguão e ficaram sentados no meio de uma multidão que estava à espera de voos para lugares como Casper, no Wyoming, e Sioux City, em Iowa, até à hora de se espremerem num teco-teco para a penosa viagem até Sun Valley. Ao pousar, o avião dos jornalistas foi conduzido ao lado oposto do aeroporto, próximo a um terminal do tamanho de uma quadra de tênis. Ali eles puderam ver um grupo de jovens funcionários bronzeados do Allen & Co. – vestidos com camisas polo em tons pastel e shorts brancos – dar as boas-vindas aos convidados da empresa que chegaram mais cedo, em voos comerciais. Estes se destacavam imediatamente dos demais passageiros: homens de botas de vaqueiro, camisas Paul Stuart e calças jeans; mulheres usando jaquetas de couro de cabra acamurçado e colares de contas de turquesa do tamanho de bolas de gude. Os funcionários do Allen já haviam memorizado os rostos dos recém-chegados por meio de fotografias fornecidas comantecedência. Eles abraçavam pessoas que tinham acabado de conhecer como se fossem velhos amigos e logo se apressavam a apanhar toda a bagagem dos convidados e a levavam até os utilitários esportivos, alinhados a alguns passos de distância, no estacionamento. Já os repórteres iam até o guichê de aluguel de carros e tinham que dirigir até o Chalé – já bastante conscientes, naquela altura, de que tinham um status inferior.

Ao longo dos dias seguintes, diversas áreas do Sun Valley passariam a ser “restritas”, isoladas dos olhares de curiosos por portas fechadas, pelos onipresentes seguranças, por cestos de flores suspensos e grandes vasos de plantas que encobriam a visão. Excluídos dos acontecimentos lá dentro, os repórteres espreitavam pelas beiradas, com os narizes colados nos arbustos. 1 Desde que Michael Eisner, da Disney, e Tom Murphy, da Capital Cities/ABC, haviam fechado um acordo para a fusão de suas companhias no Sun Valley ’95 (o encontro acabou sendo chamado assim, como se englobasse todo o resort, o que, de certa maneira, era verdade), a cobertura da imprensa crescera até o evento assumir a atmosfera artificialmente eufórica de um Festival de Cannes do mundo dos negócios. As fusões que surgiam no Sun Valley eram, no entanto, apenas ilhotas de gelo que se desprendiam do iceberg. O Sun Valley não era somente um lugar onde se fechavam negócios, embora estes tivessem a maior parte da publicidade. Todos os anos multiplicavam-se os boatos de que esta ou aquela companhia estava envolvida em alguma grande negociação naquele misterioso conclave nas montanhas de Idaho. Assim, enquanto os utilitários esportivos entravam, em fila, pela porte-cochère, os repórteres espreitavam pelos vidros, tentando enxergar quem estava lá dentro. Quando algum colunável chegava, eles perseguiam a presa até o chalé, brandindo câmeras e microfones. A imprensa logo reconheceu Warren Buffett quando ele saiu do carro. “Ele está entranhado no DNA do encontro”, disse seu amigo Don Keough, presidente do Allen & Co. 2 A maioria dos jornalistas gostava de Buffett, que se esforçava para não ser malquisto por ninguém. Mas ele tambémos intrigava. Sua imagem pública era a de um homem simples – e ela parecia corresponder à realidade. Sua vida, porém, era bastante complicada. Ele tinha cinco casas, embora só morasse emduas. De alguma maneira, e para todos os efeitos, ele acabara tendo duas mulheres. Falava usando aforismos de fácil compreensão com um brilho delicado no olhar e possuía um círculo de amizades extremamente leal, embora tivesse conquistado, ao longo de sua vida, uma reputação de negociador durão e até mesmo hostil. Ele parecia querer evitar a publicidade a qualquer preço, mas conseguira se tornar mais famoso, praticamente, que qualquer outro homem de negócios na face da Terra. 3 Percorria o país em um jato G-IV, comparecia com frequência a eventos de celebridades e convivia com várias pessoas famosas, embora dissesse que preferia Omaha, hambúrgueres e um estilo de vida modesto. Ele afirmava que seu sucesso se baseava em algumas ideias simples sobre investimentos – e na prática de sapateado, que lhe dava energia para trabalhar com entusiasmo todos os dias. Mas, se fosse assim, por que ninguém mais tinha sido capaz de fazer o mesmo? Buffett, como sempre, acenou com cortesia para os fotógrafos, abrindo o sorriso acolhedor de umavô bondoso, enquanto passava. Depois que o fotografaram passaram a espreitar o carro seguinte. Os Buffett seguiram até o chalé da família, decorado à francesa, que fazia parte do cobiçado conjunto Wildflower, próximo da piscina e das quadras de tênis, onde Herbert Allen instalava os convidados VIPs. Lá dentro, os tesouros de sempre os esperavam: uma pilha de paletós do Allen & Co., bonés de beisebol, agasalhos, camisas polo – cada ano numa cor diferente – e uma agenda comzíper.

Apesar da sua fortuna de mais de 30 bilhões de dólares – dinheiro suficiente para comprar mil daqueles G-IV parados no aeroporto –, pouca coisa deixava Buffett mais feliz do que ganhar uma camisa de golfe de um amigo, de forma que ele passara um bom tempo analisando com atenção aqueles brindes preciosos. Mais interessante ainda, no entanto, era o bilhete personalizado que Herbert Allen enviara a cada convidado e a organizadíssima agenda do encontro, que explicava o que o Sun Valley reservava para eles naquele ano. Com todos os segundos contados, organizada nos mínimos detalhes e tão impecável quanto o punho da camisa de Herbert Allen, a agenda de Buffett estava detalhada em cada hora de cada dia. Ela apresentava os palestrantes e seus respectivos temas – o que, até aquele momento, era umsegredo guardado a sete chaves – e os almoços e jantares aos quais ele deveria comparecer. Diferentemente dos demais convidados, Buffett já sabia de boa parte de tudo aquilo, mas ainda assimgostava de conferir a sua agenda. Herbert Allen, conhecido como “Senhor do Sun Valley” e discreto organizador do encontro, dava o tom de sofisticação casual que permeava o evento. As pessoas sempre se referiam a ele como um homem de princípios, disposto a dar bons conselhos, generoso e inteligente. “Qualquer um gostaria de morrer sendo respeitado por alguém como Herbert Allen”, derramou-se um hóspede. Por medo de não serem mais convidados para o encontro, aqueles que faziam qualquer tipo de crítica dificilmente iam além de comentários vagos a respeito de Herbert ser “excêntrico” ou indócil ou impaciente ou dono de um ego inflado. Diante da sua figura esbelta mas musculosa, era preciso se esforçar para acompanhar as palavras que ele disparava como uma metralhadora. Allen vociferava perguntas e, em seguida, interrompia seu interlocutor no meio das respostas, para que não desperdiçassem umsegundo sequer de seu tempo. Era um especialista em dizer o indizível. “No final das contas, Wall Street será varrida do mapa”, ele declarara certa vez a um repórter, embora ele próprio administrasse um banco em Wall Street. Allen gostava de se referir aos concorrentes como “vendedores de cachorro-quente”. 4 Allen mantinha a sua empresa deliberadamente pequena, e seus banqueiros investiam dinheiro do próprio bolso em seus empreendimentos. Essa abordagem pouco convencional tornava a empresa uma sócia – e não uma mera servidora – dos seus clientes, entre os quais se incluíam a elite de Hollywood e do mundo da mídia. Assim, quando ele bancava o anfitrião, seus convidados se sentiam privilegiados, e não prisioneiros de olhos vendados sendo observados a cada passo. Todos os anos o Allen & Co. organizava uma agenda social detalhada, que girava em torno da rede de relacionamentos pessoais de cada convidado – que a empresa conhecia bem – e das novas pessoas que os assistentes de Allen achavam que deveriam conhecer. Hierarquias tácitas estabeleciam a distância entre os chalés de cada hóspede e a pousada (onde as reuniões aconteciam), bem como os almoços ou jantares aos quais cada um seria convidado, e com quem se sentariam. Tom Murphy, amigo de Buffett, se referia àquele evento como um “encontro de elefantes”. “Sempre que um bando de figurões se reúne”, Buffett disse, “é fácil atrair as pessoas, pois elas ficam tranquilas em saber que, se estão presentes num encontro de elefantes, devem ser elefantes também.” 5 Sun Valley é sempre um lugar muito tranquilo, pois, ao contrário da maioria dos encontros de elefantes, não se pode comprar ingresso para ele. O resultado acaba sendo um clima elitista e falsamente democrático. Parte da emoção de estar lá é ver quem foi convidado e, mais emocionante ainda, quem não voltou a sê-lo.

Contudo, dentro da sua camada social, as pessoas desenvolvemrelacionamentos genuínos. O Allen & Co. estimulava a sociabilidade por meio de diversas atividades de entretenimento. Elas começavam à tardinha, quando os convidados vestiam roupas de caubói, embarcavam em charretes puxadas por cavalos e seguiam vaqueiros de verdade por uma trilha sinuosa que passava por uma torre de pedra natural no caminho para os prados de Trail Creek Cabin. Ali eles eram recebidos por Herbert Allen ou por um dos seus dois filhos, quando o sol começava a se pôr. Junto a uma enorme tenda branca, decorada com arranjos de petúnias vermelhas e sálvias azuis, caubóis faziam truques com cordas, divertindo as crianças. Enquanto isso, a velhaguarda de Sun Valley se reunia e dava as boas-vindas aos novos hóspedes, que faziam fila com seus pratos para se servirem do bufê de carnes e salmão. Os Buffett geralmente terminavam a noite reunidos com amigos em volta de uma fogueira, sentados sob o céu do Oeste salpicado de estrelas. A diversão continuava na tarde de quarta-feira, com um passeio opcional de bote pelas corredeiras suaves do Salmon River. Ali floresciam algumas amizades, pois o Allen & Co. determinava o lugar que cada um ocuparia no ônibus, no caminho até o local de embarque e nos botes. Os guias, em silêncio, os conduziam pelo vale montanhoso, para não interromperem parcerias que se formavam. Ambulâncias e vigias contratados entre a população local se espalhavam estrategicamente pela rota, para o caso de alguém cair na água gelada. Os convidados recebiamtoalhas quentes assim que largavam seus remos e saíam dos botes, para então participar de umdelicioso churrasco. Os que não estavam fazendo rafting poderiam estar pescando, cavalgando, praticando tiro ao alvo, mountain bike, jogando bridge, aprendendo a tricotar, fotografando a natureza, jogando frisbee comos onipresentes convidados caninos do encontro, patinando na pista de gelo coberta, jogando tênis em quadras de saibro perfeitas, relaxando na piscina ou jogando golfe em campos impecáveis, onde andavam em carrinhos em que não faltavam protetores solares, tira-gostos e repelentes. 6 Todas as recreações transcorriam na maior tranquilidade, sem interrupções. Qualquer coisa que os convidados precisassem aparecia como que por mágica, sem sequer ser pedida, trazida por uma equipe aparentemente incansável – quase invisível, porém sempre presente – de funcionários em camisas polo. A arma secreta de Herbert Allen, no entanto, eram as baby-sitters: cento e poucas beldades adolescentes, quase todas louras e superbronzeadas, usando as mesmas camisas polo e mochilas do Allen & Co., que combinavam com elas. Enquanto os pais e avós se divertiam, as baby-sitters garantiam que cada Joshua e Brittany estivesse com o companheiro certo de brincadeiras, emqualquer atividade que escolhessem, fosse uma partida de tênis ou de futebol, um passeio de bicicleta ou de charrete, uma exposição de cavalos, patinação, corrida de revezamento, pescaria, umprojeto artístico, comer pizza ou tomar sorvete. Cada baby-sitter era selecionada pessoalmente, para garantir que toda criança se divertisse tanto que implorasse para voltar no ano seguinte – ao mesmo tempo que deleitava os pais, pois eram jovens muitíssimo atraentes que lhes permitiam se dedicar por dias a fio à companhia de outros adultos, sem culpa. Buffett sempre foi um dos hóspedes mais gratos de Allen. Ele adorava o Sun Valley como local de férias em família, pois, se ficasse por conta própria em um resort nas montanhas com seus netos, não teria a mínima ideia de como agir. Ele não se interessava por nenhuma outra atividade ao ar livre além do golfe. Jamais praticava tiro ao alvo ou mountain bike, considerava a água “uma espécie de prisão” e preferia andar algemado a passear de bote.

Em vez disso, ele escapava confortavelmente para o meio da manada de elefantes. Jogava um pouco de golfe e de bridge, incluindo, no primeiro caso, uma partida com Jack Valenti, presidente da Motion Picture Association of America, valendo um dólar, e, no segundo caso, com Meredith Brokaw. De resto, passava o tempo conversando com pessoas como Christie Hefner, CEO da Playboy, e Michael Dell, CEO da empresa de hardware que leva seu sobrenome. Muitas vezes, no entanto, ele desaparecia por longos períodos em seu chalé com vista para o campo de golfe, onde lia e assistia às notícias do mundo dos negócios na sala de estar, sentado diante de uma grande lareira de pedra. 7 Mal notava a vista coberta de pinheiros da Baldy Mountain, da janela, nem a colina que parecia um tapete persa, coberta de flores e plantas das mais variadas espécies e cores. “Imagino que a paisagem esteja lá”, ele dizia. O principal motivo da sua ida era a atmosfera acolhedora criada por Herbert Allen. 8 Ele gostava de estar com seus amigos mais próximos: Kay Graham e seu filho Don; Bill e Melinda Gates; Mickie e Don Keough; Barry Diller e Diane von Furstenberg; Andy Grove e sua mulher, Eva. Mas, acima de tudo, para Buffett o Sun Valley significa uma oportunidade de se reunir com a família, um dos raros momentos em que a maior parte dela fica junta. “Ele gosta que todos fiquemos na mesma casa”, disse sua filha, Susie Buffett Jr. Ela morava em Omaha; Howie, seu irmão mais novo, e sua mulher, Devon – que não estavam presentes naquele ano –, moravam em Decatur, Illinois; enquanto o caçula Peter e sua mulher, Jennifer, moravam em Milwaukee. Susan, mulher de Buffett havia 47 anos, mas que vivia separada dele, tinha pegado um avião de São Francisco, onde morava, para encontrá-los. E Astrid Menks, sua companheira havia mais de 20 anos, ficara na casa deles, em Omaha. Na sexta-feira à noite, Warren vestiu uma camisa havaiana e acompanhou sua primeira mulher na tradicional festa ao ar livre, junto às quadras de tênis, perto do chalé da família. A maioria dos convidados conhecia Susie e gostava dela. Sempre a estrela da festa, ela interpretou clássicos da canção popular, à luz de tochas tiki, em frente a uma piscina olímpica iluminada. Naquele ano, à medida que os coquetéis e amenidades corriam soltos, ouvia-se o burburinho de uma nova língua, quase incompreensível – B2B, B2C, largura de banda, banda larga –, completada pelo som do grupo musical de Al Oehrle. Durante a semana inteira uma vaga sensação de desconforto pairou pelos almoços, jantares e coquetéis, como uma névoa silenciosa que se insinuasse entre os apertos de mão, beijos e abraços. Um novo grupo de executivos da área de tecnologia, cheios de uma arrogância incomum, se apresentava a pessoas que, um ano antes, sequer tinham ouvido falar em seus nomes. 9 De certa forma, a autoconfiança que demonstravam não combinava com a atmosfera natural de Sun Valley, onde reinava uma informalidade planejada. Herbert Allen adotava uma espécie de regra tácita contra a ostentação, sob pena de exclusão.

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