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A bolsa & a vida – Carlos Drummond de Andrade

i. o achado Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Há pessoas que acham carteiras, joias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon, inspirando o conto célebre de Aníbal Machado. Mas este escriba, nada: nem um botão. Por isso, grande foi a minha emoção ao deparar, no assento do coletivo, com uma bolsa preta de senhora. O destino me prestava esse pequeno favor: completava minha identificação com o resto da humanidade, que tem sempre para contar uma história de objeto achado; e permitia-me ser útil a alguém, devolvendo o que lhe faria falta. A bolsa pertencia certamente à moça morena que viajara a meu lado, e de que eu vira apenas o perfil. Sentara-se, abrira o livro e mergulhara na leitura. Eu senti vontade de dizer-lhe: “Moça, não faça isso, olhe seus olhos”, mas receei que ela visse em minhas palavras mais do que um cuidado oftalmológico, e abstive-me. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto, que só me atraiu a atenção quando o lotação já ia longe. Mas eu não estava preparado para achar uma bolsa, e comuniquei a descoberta ao passageiro mais próximo: — A moça esqueceu isto. Ele, sem dúvida mais experimentado, respondeu simplesmente: — Abra. Hesitei: constrangia-me abrir a bolsa de uma desconhecida ausente; nada haveria nela que me dissesse respeito. — Não é melhor que eu entregue ao motorista? — Complica. A dona vai ter dificuldade em identificar o lotação. Abrindo, o senhor encontra um endereço, pronto. Era razoável, e diante da testemunha abri a bolsa, não sem experimentar a sensação de violar uma intimidade. Procurei a esmo entre as coisinhas, não achei elemento esclarecedor. Era isso mesmo: o destino me dava as coisas pela metade. Fechei-a depressa. — Leve para casa — ponderou meu conselheiro, como quem diz: — É sua. Mas acrescentou: —Procure direito e o endereço aparece. Como ele também descesse logo depois, vi-me sozinho com a bolsa na mão, já deliberado a levála comigo. E para evitar que na saída o motorista me interpelasse: “Ei, ó distinto, deixa esse troço aí”, achei prudente envolvê-la no jornal que eu portava. Já percebe o leitor que, a essa altura, minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia, sob o fundamento de que pretendia restituí-lo à dona; como se eu conhecesse essa proprietária mais do que ele, motorista, que podia muito bem conhecê-la de vista; e como se eu duvidasse dele, que com igual razão podia desconfiar de mim, passageiro, quando o mais fácil seria explicar-lhe (ou não seria?) que eu duvidava, não dos motoristas em geral ou dele em particular, mas sim da eficácia do sistema de entrega de objetos perdidos em coletivos.


Assim, embuçada convenientemente a coisa, como algo tenebroso que convinha esquivar à curiosidade pública, paguei com dignidade a passagem e saltei sem impugnação. No próximo escrito, o que continha a bolsa, e o mais que sucedeu depois. ii. o conteúdo Chegando à casa, o primeiro cuidado deste cronista foi esvaziar a bolsa e examinar-lhe o recheio, para o fim de identificar sua proprietária. Logo atinei com a conveniência de dispor os objetos emordem, e inventariá-los, primeiro porque era minha intenção devolver tudo de maneira regular, devendo a moça verificar, em minha presença, se não faltava nenhum pertence; segundo, porque, vencida a repugnância de mexer em coisa alheia, era legítima, até científica, a curiosidade de apurar que utensílios contém uma bolsa feminina comum, em nossa época, na área cultural do Rio de Janeiro. Bem, não continha artefatos de couro, metal ou pedra, reveladores de hábitos tribais ainda não estudados; não deslumbrava pela magnificência dos artigos de toalete nem encerrava crimes e paixões em objetos simbólicos. Eis, honestamente, o seu acervo: 2 batons; 1 lápis para cílios; 1 escovinha idem; 1 espelhinho; 1 trousse folheada a ouro; 1 pente; 2 grampos; 1 vidrinho de Nuit de Longchamp; 1 sabonete de papel; 1 lencinho branco; 1 dito amarelo estampado, para limpar batom; 1 flanela para óculos; 1 caneta-tinteiro; 2 lápis; 1 borracha; 3 clipes; 1 canivete; 1 figa de madeira; 1 atadura adesiva; 1 ampola de Pernemon forte; 1 comprimido de magnésia bisurada; 1 bula de Xantinon B12; 1 chaveiro com duas chaves; 1 chave maior, solta; 1 folha de papel de embrulho; 1 pedaço de barbante; 1 cartão de firma de representações; 1 nota de venda no valor de Cr$ 4550,00 referente a “1 camisola de luxo, 1 anágua franzida e 1 calcinha comliga”; 1 porta-níqueis com Cr$ 4,50; 1 calendário pequeno; 2 folhetos; 1 papel datilografado. Numescaninho dissimulado, o dinheiro maior: Cr$ 950,00. A agenda foi explorada; em seu interior havia uma flor seca, a fotografia de um desenho, representando um rosto feminino de cabelos compridos, e uma carteira de estudante de medicina; na carteira, o retrato, de frente, de uma jovem em que não foi difícil reconhecer a moça do lotação, vista de perfil. Tive a alegria de uma descoberta; mas foi curta, pois em nenhuma folha do caderninho havia o endereço da moça. Os nomes não coincidiam, e como os endereços anotados fossem vários, pareceu incômodo e até desaconselhável discar para todos eles, indagando sobre a acadêmica de medicina. Que grau de intimidade teriam essas pessoas com ela, e por que precisavam ficar sabendo que a moça perdera sua bolsa? Resolvi, pois, telefonar para a secretaria da Faculdade de Medicina na manhã seguinte, e voltei a guardar na bolsa o que dela retirara. Dormi mal, preocupado com a noite que a jovem estaria passando, sem dinheiro, sem chave de apartamento, numa cidade onde as moças nem sempre estão bem protegidas. Quem sabe se mesmo à noite eu poderia tranquilizá-la? Eram 24 horas. Corri à bolsa, li o papelzinho datilografado: “Chave da Harmonia. Desejo Harmonia, Amor, Verdade e Justiça a todos os meus irmãos de Círculo da Comunhão do Pensamento. Estou satisfeita e em paz com o universo inteiro e desejo que todos os seres realizem suas aspirações mais íntimas”. Tais sentimentos me penetraram, e conciliei o sono. O resto, a seguir. iii. a busca Às nove da manhã, pelo telefone, comuniquei-me com a secretaria da Faculdade de Medicina. Expus o objeto da consulta, de maneira a não deixar dúvida: procurava o endereço da senhorita Andreia de Poggia (era o nome da carteira) para restituir-lhe uma bolsa, não para isso assim assim. O homemouviu-me atenciosamente, e depois: — Ah, moço, só o senhor tocando outra vez depois das onze. Eu sou faxineiro. Mais por pressentimento do que à base de fatos, comecei a perceber que não seria fácil desfazerme daquele objeto.

A razão dizia que dentro de duas horas o endereço de Andreia estaria em meu poder. Uma voz obscura me sussurrou: Duvido. Às 11h15, uma funcionária gentil tomou conhecimento do caso, certificou-se de minha honorabilidade e prometeu tocar logo que colhesse a informação. E efetivamente o fez, instantes depois. — O senhor deve estar equivocado. Não temos aluna chamada Andreia de Poggia. — Talvez esteja com a matrícula trancada, e não conste da relação. — Não, senhor. — Mas está na carteira: número 215. — 215 é um rapaz. Agradeci e fui à agenda. Para meu desapontamento, a maioria dos nomes anotados não dispunha de telefone, ou eram casas comerciais, que não queriam conversa. Os dois ou três telefonáveis não estavam em casa ou não conheciam nenhuma Andreia. Um, julgando-se vítima de trote, ia proferir uma dessas expressões comuns na Câmara de Vereadores, mas desliguei. Outro conhecia André — o André Meireles, da Sursan, que perdera uma pasta com ações da Brahma ao portador, e quase ficara maluco; eu tinha achado, é? Expliquei-lhe que eram matérias completamente distintas, e que, já às voltas com uma bolsa feminina, eu não podia responsabilizar-me pela pasta de André, mas o homem queria de toda maneira estabelecer um vínculo entre a pasta e a bolsa. Depois de tantas ligações infrutíferas, o jeito era botar no jornal um anúncio classificado. Verifiquei a eficácia desse meio de divulgação, em face de nove senhoras e senhoritas que, pelo fio, em carta ou pessoalmente, se declararam mais ou menos Andreia de Poggia, isto é, à procura de uma bolsa perdida. Mas todas se enganavam a respeito da própria identidade. Os nomes não coincidiam, ou os rostos é que não coincidiam com a foto, embora alguns fossem até mais bonitos. A quarta Andreia esclareceu que ao tirar o retratinho estava mais gorda, a sétima que estava mais magra, nenhuma se zangou quando lhes expliquei que a bolsa era, indubitavelmente, de outra Andreia de Poggia — a décima, que não aparecia. Outra observação: sendo avultado o número de bolsas femininas perdidas no Rio, muitas (senhoras, não bolsas) se resignam a aceitar outra qualquer, em substituição à que perderam. Mulheres procurando bolsas, bolsas aguardando mulheres; desencontros. Já nutrindo certo mau humor com relação a Andreia, que assim se ocultava às minhas investigações benignas, mas desejoso de cumprir até o fim o dever de um cavalheiro do velho estilo, que achou uma bolsa de senhora no lotação, anotei os nomes de ruas constantes da agenda e empreendi pesquisas de campo. E como este rocambole já me vai caceteando, embora empolgue umou outro leitor que me tem telefonado para saber se achei a dona da bolsa, darei o desfecho na próxima. iv.

o encontro Bati em várias casas de bairros vários, e ninguém soube informar-me quem era Andreia de Poggia. Em geral, acolhia-se com ceticismo minha intenção de devolver alguma coisa a alguém. Na bolsa, o dinheiro se desvalorizava, e era de recear que se um dia eu encontrasse a proprietária, já o conteúdo nada valesse. Contemplando o retrato de Andreia, eu naturalmente lhe emprestava uma personalidade universitária; meditando a frase da Chave da Harmonia, outra Andreia se figurava à minha imaginação. Uma, racional, científica, técnica; outra, sonhadora e mágica, em ligação com o universo através das “Instruções reservadas para uso do irmão do Círculo da Comunhão do Pensamento” e das “Meditações” diárias do mesmo círculo, como se intitulavam os folhetos contidos na bolsa. Cheguei a pensar que o objeto pertencesse em condomínio a duas moças, tão diversas me pareciamas tendências. Que uma se houvesse apoderado da bolsa da outra, não era agradável admitir. Pensei também — sem convicção — num caso de dupla personalidade, com visitas alternadas ao anfiteatro médico e a sessões espíritas; a bolsa serviria a ambos os interesses. Nas idas e venidas em busca da moça, carregava comigo o objeto embrulhado. Às vezes sentia ímpetos de atirá-lo fora, livrando-me da obrigação incômoda. A mesma voz de antes me murmurava então: “Fraco! Fraco!”. E daí, mesmo jogada do bondinho do Pão de Açúcar, ela seria talvez encontrada, iniciando novo ciclo de indagações. Então, redobrava de cuidados, com receio de, por minha vez, perder a coisa perdida; ninguém me censuraria por isso, a não ser eu mesmo, pois a bolsa crescia em mim, cobria-me de imperativos morais, comandava-me. Sentia-me “homem do embrulho”, vagamente suspeito à polícia. Quando de repente, um mês depois, na rua Uruguaiana, dou de cara com Andreia. Ela mesma, como a vira de perfil e a decorara de retrato. — É a senhorita Andreia de Poggia? Não disse que sim nem que não; olhou-me com naturalidade, como se me conhecesse ou me esperasse; apenas murmurou: — Será que o senhor?… — Exatamente. Encontrei sua bolsa. Aqui está. — Ah, obrigada! Eu tinha certeza de que ela voltaria, sabe? Sou espiritualista. Com licença. E abrindo-a sem cerimônia, o que me chocou um pouco, remexeu até encontrar a agenda e retirar dela a reprodução do desenho. — Felizmente aqui está ele! Perguntei-lhe a quem se referia, pois a figura era feminina, de cabelos compridos. — Não senhor, é o meu guia, um príncipe hindu, de cabelos longos. Veja que nobreza! — Tenha a bondade de contar o dinheiro — pedi-lhe, constrangido.

— Não precisa, confio em seu cavalheirismo. O essencial para mim é o retrato do guia. Eu não podia perdê-lo. Mas tinha certeza de que voltaria. — Escute, d. Andreia… — Não sou Andreia, interrompeu-me suavemente. Meu nome é Rita Peixoto, comerciária, sua criada. — Então aquela carteira? — Bem, de vez em quando a gente gosta de ir a um cineminha, o senhor compreende… Compreendi; as carteiras de estudante são para isso. Contei-lhe então os problemas de consciência que me assaltaram por causa de sua bolsa, os esforços por descobri-la. — Está vendo? Foi o meu guia que agiu em tudo isso. Me fez perder a bolsa para que o senhor se aproximasse mais da humanidade. Agora está explicado! Separamo-nos, felizes; ela, com o retrato do guia; eu, livre da bolsa, e determinado a não pegar mais nada que encontre em lotação. 1959 nascer Era manhã nova, quando ele telefonou, a voz enfestoada: — Aída Isabel acabou de nascer! No entressono, que sabia eu de Aída Isabel, como podia avaliar o ato de responsabilidade que ela cometera? — Quem? — Aída Isabel. Agora mesmo! — E é forte, bonita? — Não sei não senhor. Ainda não pude ver. Estranhei que a um pai fosse defeso espiar sua filha. Explicou-me que o regulamento era dureza, mas ele daria um jeito. E de fato, mais tarde, comunicou-me que conhecera afinal Aída Isabel. — Como é que você entrou? — Por baixo. A dona da portaria estava de costas, lendo jornal, eu me agachei e passei juntinho dela, debaixo do balcão. Sorria ao contá-lo, pois gosta dessas experiências marotas, e se pudesse ir ver a filha ao jeito comum, perderia o sabor. — Era para ela chegar na semana passada, internei Lucinha no Hospital dos Servidores, à noite a criança cismou de atrasar, as dores pararam. Então o médico disse que carecia desocupar o leito, o funcionalismo está assim de menino fazendo fila para nascer. Voltamos para Olaria, desapontados. Na noite seguinte, acordamos com um estrondo, lá longe; os vidros da casa retiniram.

Eu disse comigo: é agora. A explosão de Deodoro ajudou. Pedi a Lucinha que aguentasse firme até o dia clarear. Voltamos ao hospital, não havia vaga, mas eles foram camaradas, mandaram a gente para uma casa de saúde em Botafogo, negócio alinhado, valeu a pena. Só que não recebe visita. Pessoa da família nem nada. — Então não posso conhecer Aída Isabel. — Daqui a uma semana o senhor vai lá em casa e conhece. Damos uma reuniãozinha, bebe-se umchope. Lembrei-me de que há dez meses, em Olaria, numa reuniãozinha ao ar livre, entre vasos de begônia, com uma cunhada portuguesa muito alegre, mas que não queria cantar fado, uma discussão sobre futebol, Ema d’Ávila e outras matérias, e um cachorro pacato dormindo ao sol, tínhamos bebido uma chopada comemorativa do casamento daqueles dois. Eu fora testemunha dele, no civil. Em dez meses, Aída Isabel se fizera e agora vinha ocupar um lugarzinho em Olaria, era um fato novo, no caminhar sorrateiro da vida. O Brasil tinha 72 850 416 habitantes? Hoje tem 72 850 417. A situação se modificou, o casal tomara providências. Aída Isabel prepara-se para fazer alguma coisa, rara ou comum, ela ainda não sabe. Na dinâmica do país, uma força obscura se delineia, e como fui testemunha do desposório, dou testemunho do seu primeiro resultado, nesta fase inquieta da nacionalidade em busca de novos rumos políticos e sociais. Gostaria que todos tivessem acrescentado alguma pequenina riqueza ao país, neste período. O governo deu duro? Fizeram-se descobertas, escreveram-se livros, criou-se? Ou apenas trabalharam os casais novos?

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