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A Bruxa do Monte Cordova – Camilo Castelo Branco

O capitão-mor de cabeceiras de basto morria por ela. Dois frades bentos de S. Miguel de refojos andavam como energúmenos desde que a lobrigaram na sua igreja. O juiz ordinário, o alferes de milícias, o juiz dos órfãos, o escrivão das sisas, o boticário e o mestreescola farejavam-na, tanto à inveja, que a rapariga, quando eles, um por cada vez, se lhe faziamencontradiços, resmoneava, formando com os dedos uma figa oculta: — Eu tarrenego, diabo! E apertava o passo com os olhos no chão e o credo na boca. Desculpemolos sem exceção dos frades. Pobres rapazes!, nenhum ainda tinha vinte e seis anos. Espadaúdos, vermelhaços, beiços grossos e rosados, narizes de água, sadios como duas montanhas! … Frades, semfé, sem esperança, sem caridade! Desculpemo-los todos; que a culpa não na tinham eles nem ela. A culpa era o fomes peccati, a “isca do pecado “, boas palavras com que os santos padres explicam uma coisa simplíssima que os rouxinóis dizem em regorjeados trilos, e os poetas em madrigais de esmadrigadas cantilenas, e os outros indivíduos todos, ao seu modo, desde o urro atroador do leão hircano até ao guincho estridente da água do hermínio. Angélica Florinda era a tentação, dos homens e dos anjos, inclusos os seres intermédios do género humano e dos serafins: os frades. Alta, reforçada, nalgas e espáduas boleadas, breve cintura separando os tumentes seios das ancas maciças e rotundas, cabelos em ondas lustrosas de azeviche, as sobrancelhas cerradas e indistintas, olhos pestanudos e piscos, dentes de imaculado esmalte, o beiço superior orlado de um debrumpenugento, e o inferior carnoso, cor de cravelina. A tez sobre o moreno, com a sua zona rosada em cada face. A forma do rosto oblonga, testa escantuda, barba tirante a redonda e fendida a meio levemente no lóbulo. Eu não sei se este debuxo dá a perceber os mais donairosos, engraçados e louçãos dezassete anos de rapariga do concelho de cabeceiras de basto! S. Pedro de Alvite era a freguesia dela. Tinha Angélica pai e mãe, lavradores medianos, conhecidos pelo assento da sua casa no cabeço de um oiteirinho. Daí vinha chamarem-lhes: os do picoto; ou então, ao pai o Joaquim da teresa, e à mãe a teresa do Joaquim. Tem certa poesia este recíproco senhorio dos nomes entre marido e mulher, lá nas aldeias, onde nomes e almas, tanto monta, são bem e invejavelmente uma só alma e nome. A filha, seis léguas em volta, era conhecida pela Angélica do picoto. Dizia o tio Joaquim da teresa que a sua filha não casava com algum dos lavradores que lha tinhampedido, porque um tio materno, estabelecido em Pernambuco, a vira, quando veio à terra, tendo doze anos a rapariga, e prometera vir casar com a sobrinha, assim que ela perfizesse os dezanove. Este almejado tio, no dizer do cunhado, media o dinheiro aos alqueires, tinha três navios e duzentos pretos. Em prova do que, havia já mandado à sobrinha um caixão de caju, pitanga e goiabada, gulosinas que os velhos apresigavam com broa, pesarosos, ao que parecia, de não poderem apresigar também um papagaio e um sagui, bichos que distraíam Angélica do trabalho. O casamento apalavrado era notório, e mesmo assim os casquilhos do concelho e os lavradores solteiros não desistiam de enviar-se à esposa prometida do brasileiro. — Se ela não estivesse ajustada com o tio-dizia o pai — quem na levava era o Barnabé da botica. Aquilo é que é modo de vida! Com um gigo de ervas e seis garrafões de água da fonte arranja caroço daquela casta! Anda aí o escrivão das sisas atrás da rapariga: também não é mau modo de vida, escrivão; mas eu ladrões cá na minha família não nos admito. O mestre-escola é bom sujeito e devolhe obrigações porque me ensinou a fazer bem ou mal uns garatujos para não assinar de cruz; e ensinou a rapariga também; mas tanto lhe faz saber ler como não: o pobre homem não tem tábua sua onde caia, se não for na cadeia… Andam estes badamecos a rentarem-me à rapariga e não se acabam de desenganar! Deus traga depressa meu cunhado a ver se ma deixam; que ela, a respeito de juízo, é até onde pode chegar! Quando algum fidalgote lhe diz praqui pracolá, a rapariga, moita! Vocês bem sabem que ela não vai a espadeladas nem festas de ninguém.


Romarias é lá uma ano a ano. O seu regalo é ir às festas de igreja do mosteiro. Isso vai a todas, e raro é o mês que lá não se confessa… Estava mal informado o tio Joaquim da teresa, no artigo confissão. Angélica Florinda não exercitava tão louváveis espiritualidades. Às festas ia; mas, fora da quaresma e jubileus, a rapariga parece que andava armazenando fazenda pecaminosa que assoalhasse no confessionário. Angélica do picoto, imitante a qualquer donzela das que pisam tapetes e têm segredos com a lua, sentia no íntimo peito uma tristeza alegre e uma alegria triste, um bem de que padecia e um mal que a consolava, enfim, um mal que a recreava e um bem que a afligia: tudo isto cifra na saudade, como S. Bernardo a definiu, e depois do santo muitos à semelhança dele, salvante a santidade. A saudade de Angélica tinha sete anos de coração, enraizara-se, era dor sem esperança de remédio. Quem no diria, vendo-a florir, nutrir, folgar honestamente? Pois violentava-se a jovem. A natureza aformosentava-a, de força e contra vontade dela; as cores salubérrimas eram dotes da juvenil matéria que não tinha satisfações que dar à alma; folgava-se com as suas amigas, cantando o S. João ou outras cantilenas assim místicas, é que a briosa rapariga forcejava por esconder a sua mágoa dos outros e de si, delindo-a da lembrança. A saudade, pois, de Angélica Florinda devia de ser ruim, que assim lhe dava pejo de que lha soubessem. Ai!, se era! Ainda que deus lha perdoasse, e mandasse anjos a publicar na terra o indulto da pecadora, o mundo não lhe perdoaria. Porque ela, a querida do juiz ordinário, do alferes de milícias, do juiz dos órfãos, do boticário, do capitão-mor, do escrivão das sisas, do mestre-escola… Amava… Um frade bento! Mas este frade não era algum dos dois que andavam perdidos por ela. Era um terceiro frade de S. Miguel de refojos. Três! Que muito, se seria natural amá-la o convento todo! Amá-la toda a congregação de S. Bento! Amarem-na S. Pacómio, S. António abade, S. Jerónimo, o escarnado velho que vencia a custo as voluptuárias lembranças das romanas! Aquilo era mulher de prova! Não conhecia o diabo semelhante tipo, quando o senhor lhe permitiu atanazar o inquebrantável job. Era mostrar-lhe a rapariga… E dispensá-lo da lepra. Era dar-lhe umas comichões de alma que não se coçam com telha, o diabo, além de mau, é tolo, e às vezes “velho parvo”, camões, o sábio d. Francisco Manuel de meio, e primeiro que ele António de sousa de macedo, e mais antigo Isidoro de barreira, e mais ainda Manuel Severim de faria, e mais velho que todos Duarte nunes de leão. Parei neste, prometendo esquadrinhar quem ensinou Duarte nunes.

Ultimamente encontrei S. Bernardo. Mais tarde, se deus quiser, direi onde o santo abade da Claravai achou a galantaria, que se me antolha ser antediluviana. Como lhe chama frei João de ceita. Anda tanta gente a querer perder-se e infernar-se com as mulheres de certo feitio, e o parvo a dormir, e elas a fugirem da tentação! Entendam-no lá! Há uma só explicação que o salva e abona; e é que modernamente os vícios são tantos, emcomparação dos antigos, que hoje em dia alguns dão mais trabalho a conseguir que propriamente as virtudes opostas. Conservando-se satanás neutral, a honestidade é a mais barata das granjearias. Bem no dizem os filósofos: a mulher emancipou-se. A formosa, creio que sim. As outras, duvido. Figura-se-me que ainda colabora com elas coisa de tentação que as ala ao fastígio donde formosas e feias se despenham. O discrime está em que umas avoejam lá com asas do céu, outras vão de gatinhas ou às cavaleiras do diabo. CAPÍTULO II O FRADE Tomás de Aquino, filho de gente afidalgada de basto, e vizinho dos da casa do picoto, era a saudade infantil e o amor do coração adulto de Angélica. A jovem aos dez anos tinha parecenças dos quinze, formas de mulher perfeitamente acabadas. Tomás gracejava com ela sem resguardo dos seus pais, que eram padrinhos da galante pequena. Procurava-a nas devesas onde ela pascentava o gado, sentava-se à sua beira, sem testemunhas, e não sabia gracejar. Quedava-se sisudo ou silencioso. Era a poesia em osso. Às vezes inclinava-se sobre o braço direito, meio deitado no relvado, a olhar pelas quebradas e cabeços das montanhas. Angélica parava de torcer o fiado e seguia os olhos dele. Ao pardejar da tarde, despediam-se tristes; e ao outro dia encontravam-se como amantes desafogados de longas saudades. Estava destinado ao mosteiro o filho segundo. Chegou o tempo de noviciar. Não se despediu dela; que não pôde. Aqueles inocentes afetos ninguém os suspeitou. Prometiam acabar na obscuridade do seu nascimento.

Noviciou Tomás em Tibães. Findo o ano, professou e chamou-se frei Tomás de S. Plácido. De Tibães transferiu-se para S. Miguel de refojos a estudar humanidades. O frade era taciturno, triste, pouco estudioso; todavia não se estremava dos seus companheiros emmatéria de letras. Naquele tempo, 1828 provavelmente, os monges velhos pressagiavam destroço na casa do senhor, e os novos tinham O ouvido colado à terra para escutar o soturno remugir da cratera. Frei Tomás escutava e dizia aos da sua idade: — felizes os que nasceram há vinte anos, e gemem cativos nestes cárceres do falso deus. Felizes porque eles serão livres pela liberdade, filha do deus verdadeiro, o qual, há dezanove séculos, mandou à terra um filho plantá-la. A árvore fez-se cruz. Foi porque a liberdade, antes de bater a estas portas, tinha de chorar milhões de vítimas crucificadas. Dezanove séculos de lágrimas… Era tempo… Um dos frades novos delatou estas blasfémias ao prelado. Tomás foi repreendido e ameaçado de maior pena. Desde então, o colegial filosofou em silêncio, e odiou os velhos e os novos. Dois amigos tinha ele: um era um donato, despenseiro do convento. Chamavam-lhe frei João do socorro. Vestira a túnica de saragoça e escapulário de estamenha no mosteiro de refojos para assim viver e acabar sob as telhas em que vivia frei Tomás, o menino que ele vira nascer. O sexagenário frei João servira cinquenta anos os avós e pais do monge (*). [(*) os donatos ou leigos eram admitidos sem luz alguma de estudo. Alguns nem ler sabiam; e, pelo muito, o convento lhes concedia aprenderem isso e nada mais, salvo algum ofício prestadio à comunidade. Era-lhes defesa com pesadas penas o ingresso na cela dos monges, excetuado o caso de serem mandados servir algum frade provecto. Sujeito que tivesse compadres no mundo, ou houvesse prometido casamento, era, pelas constituições da ordem, impedido de ser donato. Corria-lhes obrigação de se confessarem semanalmente. Rezavam muito, e por conta, uma hora antes de amanhecer, e jejuavam, como era costume na ordem, higienicamente para não acumular indigestões. A cama, se a não tinham melhor da que a regra lha dava.

Não há para que lha invejemos: era um enxergão de palha e três mantas, e “durmarn”, diz a const., “com um escapulário pequeno cingido”. Parece que os frades costumavam matraquear com chacotas estes pobres alvares; visto que a regra manda castigar os monges “que lhes chamarem nomes e os escandalizarem “. Vej. Constitutiones monachorum nigrorum, 1629, e consi. Da ordem de S. Bento, 1590. Nota do Autor] Do outro amigo, falaremos ao diante. Frei João violaria a regra, se a relaxação da disciplina monástica o não dispensasse de engenhar traças de encontrar-se a miúdo com o seu Tomás. O prelado não lhe ia à mão, atentas as raras virtudes de despenseiro económico e fiei que o donato exercitava. O velho via o abafado choro do rapaz e confrangia-se. Falava-lhe em céu, em paciência, emsacrifício. O frade agastava-se. Saía o donato com os olhos húmidos, e valia-se do patriarca S. Bento, pedindo-lhe que reduzisse o seu menino à conformidade e amor do hábito. Frei Tomás de S. Plácido viu um dia Angélica na igreja. Estava ele no coro e ela ajoelhada no altar da nossa senhora. Reconheceram-se. O frade saiu do coro e Angélica ficou orando. Passados minutos voltou ele e já a não viu. A comovida jovem tinha saído lavada em lágrimas. As vizinhas que a viram passar de rosto baixo no adro ficaram dizendo que a Angélica do picoto dava em beata. Recolheu-se frei Tomás à cela. Entrou-se de angústias de outra condição mais brava.

Dantes reconcentrava-se, padecia, pelejava consigo mesmo, e saía do seu recolhimento com aspeito sereno e resignado por algumas horas. A dor nova era um desesperado desassossego, um abafar, uma constrição que o atirava da cadeira ao leito, do leito à janela, aspirando a sorvos o ar que lhe escaldava o sangue. O leigo encontrou-o assim nestes transportes de insano. Lançou-se a ele com impetuosa ternura. Rogou, chorou, arrancou-lhe o segredo. — Vi Angélica! — soluçou o frade. — vi-a… E hei de morrer sem tomar a vê-la! Frei João do socorro não se espantou. A inocente amizade do estudante à afilhada do seu amo bem na tinha ele suspeitado. Aquela tristeza do noviço em Tibães, onde o servo ia todos os meses, e perguntar-lhe ele se Angélica ainda lá ia por casa, se o tio brasileiro ainda estava na terra, e outras curiosidades, confirmavam-lhe a desconfiança. Falar-lhe nela, bem o faria o leigo, se escrúpulos o não amordaçassem. Contra a paixão pecaminosa do amortalhado rapaz não ousava também frei João invetivar. Seria sarjar-lhe a chaga sem a certeza de cicatrizar o que o tempo não tinha conseguido. Andava o consternado velho agora indeciso entre calar-se e consolá-lo. O silêncio não prestava algum beneficio ao seu querido amo; ora, a consolação, como o frade a carecia, encontrava o ânimo religioso do leigo. Neste meio tempo, Angélica voltou à igreja do mosteiro e frei Tomás de S. Plácido tomou a vê-la. Deteve-se já imóvel a contemplá-la. Não fugiu à tentação: alheou de si a consciência de monge, e fitou-lhe uns olhos amorosos, orvalhados de doce alegria como se fora homem, e dentro do peito sentisse alguma coisa mais sagrada que o hábito exterior. A rapariga, depois que rezou à virgem da sua devoção, sentou-se à espera da missa. A espaços relançava ao coro a vista com o recato e a modo de assustada. reparou de que a observavam de lá. Reconheceu frei Tomás algum tanto afastado de dois monges que também a lobrigavam por entre o gradeado de madeira. Temia-se destes, receosa de que a espiassem. E frei Tomás, também, se eles o observavam de soslaio, voltava o rosto para não dar suspeitas. Estes frades, guinando com os olhos entre a guapa rapariga e Tomás de S.

Plácido, segredavam e sorriam, como se houvessem dado no disfarce dos dois, o discreto monge, desconfiando que os seus espiões o delatassem, como já tinham feito das expressões blasfemas arguidas pelo dom abade, saiu do coro e foi espreitar de outra galeria a jovem. Tinha o frade imã que norteava os olhos de Angélica. Lá o enxergou através do rótulo da galeria. Como ela o conheceu! O amor é, além de tudo que está dito, uma coisa que falta dizer: é umtelescópio. A saudade dos entes mortos alcança ainda mais pelo infinito dentro. Vêem-se as almas na via láctea: diferençam-se as asas brancas de um querubim da lumieira alvacenta das miríades de estrelas. Dizem-no os poetas. Vem a prosa e desdenha, matraqueando, estes tresvalios da ótica. Que sabe — mos nós, raça de aleijados, disso que poetas sabem e veem?! O cego que negasse a formosura de uma veiga de boninas e a copa de uma floresta banhada de luar far-nos-ia dó. A cegueira do coração não deixa ver senão o que a ciência infere e a mão apalpa. Dizem por aí “coração morto”: não está morto; está cego. Eu, quando leio dante ou swedenborg, lastimo-me: não veio, não os entendo; e, todavia, creio. Fé em deus e fé nos poetas que são, uma ou duas primaveras da sua vida, emanações puras de deus. Fé, sem esperança de comungar com eles na mesa eucarística do seu divino pão. Injuriemo-los, se nos rói a inveja; admoestemo-los porque nos atiram flores ao nosso lameiral; apupem-se os pálidos videntes que nos esfolham as suas rosas do céu e tecem dos nossos espinhos a sua grinalda; vá!, que é próprio da nossa reles condição. Façamos camaradagemcom os dois frades que estavam do canto do coro a espreitar, a cochichar e a rir de frei Tomás de S. Plácido, bem que o monge não dissesse as suas estrofes senão a deus. As harmonias do órgão faziam consonância às da sua romântica mandora. Se não fosse o rouquejar de algum frade gosmento, cuja garganta faria fugir santa cecília do céu, frei Tomás de S. Plácido trataria que na fumosidade dos incensos iam evoladas duas almas pelo alto caminho da glória, a buscarem-se no foco luminoso donde tinham caído. Sem embargo dos catarrosos cantores, três horas de sonho, de poesia, de luz passaram rápidas na arroubada contemplação do frade. Angélica Florinda foi a última mulher que saiu da igreja. Frei Tomás também então saiu da galeria. Caminhava, como se o espertassem do primeiro sono, ao longo do dormitório. Per~ passou pelo domabade sem parar nem inclinar-se na reverente postura das constituições.

Isto feriu o espírito disciplinar do prelado e foi discutido na residência abacial.

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