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A Bruxa Tereza – Vampiro-Rei – Vol.2 – Andre Vianco

Lúcio tinha puxado o caixão o dia todo. O estômago roncava. Parou embaixo de uma árvore de folhagem amarela e ressequida à beira da estrada de barro. O sol descia rápido e o mormaço do dia quente, aos poucos, dava a vez a um vento cortante e frio. Lúcio não sabia se ainda estava na primavera. Há tempos não botava os olhos num calendário. Nem mesmo que dia do ano era aquele conseguia se recordar. Olhou o chão ao redor. Amontoados de folhas secas e soltas, caídas e empurradas pelo vento. Não devia mais ser primavera. Cocou a cabeça. Sentou-se na tampa do caixão preso às cordas e tirou o radinho de pilha do embornal. Ligou o aparelho. Silêncio na freqüência de São Vítor. Desde as quatro da tarde tinham parado de transmitir. O homem sorriu. Tinha gostado da música do Roberto Carlos. Tinha achado o máximo! Quem não ia gostar nem um tico da notícia era o seu amigo encaixotado. Cantarzo não queria que os bentos se juntassem e desencadeassem os milagres, mas, pelo que tinha ouvido por aí, já era tarde demais para evitar tal feito. Apesar da derrota aparente, Lúcio continuava obstinado, determinado a cumprir o pedido do vampiro que lhe daria o dom da vida eterna. Levaria o vampiro até a bruxa. Até Tereza. O vampiro tinha falado desse nome. Tereza. Tinha falado da bruxa.


Do norte. Para encontrar a serpente que engole tartaruga. Haveria de encontrar tal lugar, cedo ou tarde. Apertou os olhos, sentindo-os arderem em contato com o suor que descia da testa. Bem que podia chover um pouco. Refrescar aquele mormaço maldito. Deixou a mão deslizar sobre as tábuas rústicas do caixão improvisado. As farpas da madeira sem acabamento espetavam sua pele grossa. Um sorriso brotou no rosto do carregador. Cantarzo… seu rei, sua garantia de eternidade! Inspirou fundo. Ah! Como queria ser um vampiro! Apertou os olhos e depois arrochou os lábios. A vida eterna dessas criaturas era-lhe um sonho. Lúcio passou a mão no bíceps direito. Os braços estavam exaustos por culpa da carga. Como era pesado aquele bicho. Sempre tinha vontade de abandonar o caixão. Escondê-lo numa cova funda ou embrenhá-lo no raizame de alguma árvore. Sempre desistia. Tinha medo de perder seu passaporte da alegria. Queria virar vampiro. Queria ser eterno. Jamais conseguiria se aproximar de outro noturno e conseguir essa promessa tão rara. Cantarzo tinha jurado. Ia torná-lo vampiro. Bastava encontrar a droga da bruxa.

A bruxa saberia como despertá-lo daquela morte falsa. A bruxa saberia como trazer Cantarzo de volta. O sangue do velho Bispo tinha sido demais para o caçador das trevas suportar. O sangue do velho tinha derrubado Cantarzo. Lúcio levantou-se e olhou para o caixão novamente. Dessa vez o olhar sustentou-se por um longo tempo. A contemplação só terminou quando sentiu outro ronco no estômago. As provisões em seu embornal tinham minguado. Estava farto de frutas silvestres. Queria carne assada e repouso num colchão. Só conseguiria isso caso se infiltrasse novamente numa fortificação. Coçou o queixo. Seria perigoso. A barriga roncou de novo. Lúcio agarrou as amarras do caixão e tornou a arrastá-lo. Bufou aperreado. Aquela viagem ia demorar demais. CAPÍTULO 2 A vampira ruiva de um olho só grunhiu irritada. Os humanos estavam atrás de um Rio de Sangue. O maior nas cercanias de São Vítor. Tinha descoberto a intenção dos malditos humanos durante a caçada noturna. Apanhara um trio de bêbados na floresta. Quando o maior deles se afastou dos amigos e foi abrir a braguilha junto de uma árvore, foi agarrado pelo vampiro. Mesmo estando bêbado feito um gambá, o homem entendeu o que estava acontecendo assim que botou os olhos no rosto pálido de seu agressor. Gerson tapou-lhe a boca com uma mão, enquanto a outra o prendia pelo pescoço.

Raquel, a essa altura, já tinha saltado para o centro da clareira e parado no meio dos dois junto à fogueira. O corpulento, preso nos braços de Gerson, se debatia e esperneava, querendo, inutilmente, se livrar das garras do vampiro. Um dos homens ria, sem perceber o que acontecia ao amigo que tinha se afastado para urinar. O outro estava no meio de um gole direto no gargalo da garrafa de cachaça. Estavam felizes, a vampira podia farejar isso. Raquel tinha uma expressão mista de irritação e curiosidade. O homem, entornando a água ardente, estalou os olhos e cuspiu a bebida quando viu a mulher ruiva de tapa-olhos no meio da clareira. O segundo, percebendo a aflição na atitude do amigo, olhou para o lado. A mulher estava a três metros de distância. Era uma vampira! Raquel tinha se deliciado com aquele momento. Adorava aquele cheiro, de prazer transformando-se em medo. Medo de vampiro. Agora sim aqueles homens estavam agindo como um humano deveria agir. Deixou seu único olho brilhar vermelho. Sabia o quanto aquilo impressionava os humanos. O homem à sua esquerda largou a garrafa de cachaça e levou a mão para um objeto junto ao tronco de árvore que lhes servia de sofá. Raquel foi quinze vezes mais rápida. Antes que o homem erguesse a pistola, sua mão fechou-se no pulso da vítima esmagando os ossos ulna e rádio, fazendo a mão pender presa por pele e músculos. O berro de dor tinha varado centenas de metros, fazendo bandos de pássaros deixarem as copas das árvores e dispararem em grande agitação no frio céu da noite. Antes da arma bater no chão de terra, a outra mão da vampira foi até a traquéia e esmigalhou a cartilagem do pescoço da vítima. O homem caiu convulsivo, tremendo, tentando se ajoelhar, lutando para pôr ar nos pulmões. O segundo parecia paralisado. Raquel encarou-o com seu olho bom. Deu um passo em sua direção. O homem não esboçou reação agressiva.

Estava congelado de medo. Umcheiro conhecido chegou até as narinas da vampira. Não era o cheiro adocicado do alimento. Era cheiro de urina. O homem estava se borrando nas calças. Raquel não conseguiu conter um sorriso leve. A vampira ergueu o olho para Gerson. O jantar do parceiro de caçada não se debatia mais. O vampiro estava com os caninos cravados no pescoço do azarado, sorvendo o sangue da vítima. Gotas grossas escapavam das feridas da vítima corpulenta, infestando o ar com aquele aroma maravilhoso. Raquel olhou para trás, sua refeição ainda estrebuchava com a mão boa sobre a traquéia e o braço com a mão pendendo em pele raspando no chão. Queria assim. Sangue vivo e quente. O único homemintacto continuava hipnotizado por sua presença, parado de joelhos, com a calça molhada, balbuciando repetidamente a palavra “não”. Raquel deu um passo à frente e acariciou a cabeça do humano. Sorriu novamente, olhando-o nos olhos. Pobre infeliz, estava suado e fedendo à bebida destilada. Fedendo a mijo. Agarrou-o pela camiseta com uma mão e trouxe-o até perto de seu rosto. Passou a língua feminina na boca da vítima. O humano continuava balbuciando aquele “não” de forma irritante e desviava a boca quando a língua da vampira tocava seus lábios. Ergueu-o até ficarem olho nos olhos. — Que faz aqui, criatura? Não teme a noite? O homem começou a chorar. Naquele instante, Gerson tinha aparecido no campo de visão do homem, que arregalara mais ainda os olhos ao ver de esguelha o vampiro com a boca ensangüentada. — Por que estavam aqui, infeliz? Vocês não se parecem com degredados — murmurou a vampira.

— Não parecem fugitivos. Muita festa para quem vai passar a noite fora. — Não me mate! Pelo amor de Jesus Cristo! — O que estavam festejando? Qual o motivo de tanta alegria? — Pelo amor de Jesus Cristo… não… Raquel riu baixo olhando para Gerson, mantendo o homem erguido pela gola da camiseta. Os pés da vítima dançavam, vez ou outra encontrando o chão de terra com a ponta dos dedos. Gerson grunhiu, abrindo os lábios e exibindo os caninos sujos de sangue. — Não me mate! — gritou o infeliz. — Abra o bico, então. Diga! O que faziam aqui? Qual é o motivo dessa afronta toda? — insistiu a vampira. — Festejávamos a vitória. Gasp. Me deixa viver. Não… não con… não consigo respirar. — Que vitória? — tornou Raquel. — Os bentos. Os trinta bentos se juntaram. Raquel vacilou um instante. A imagem de Anaquias veio-lhe à mente. Ele tinha dito alguma coisa dias atrás. Tinha abandonado aquele vampiro louco. O vampiro que fora seu parceiro de caçadas. Sentiu-se tão tocada pela informação que sua mão vacilou e o prisioneiro escapou de suas garras, caindo sentado e rastejando de costas, olhan-do-a de olhos arregalados, se aproximando do tronco grosso de uma grande árvore. O homem tremia descontrolado. Seus olhos iam de Raquel a Gerson, de Gerson a Raquel. Tão apavorado estava, que não pensou em desviar-se do tronco e continuar a fuga. Raquel olhou para o parceiro.

— Será que… — as palavras escaparam e não foram concluídas. — Cedo ou tarde isso teria de acontecer, minha querida.— respondeu o vampiro brutamontes, andando na direção do humano. Raquel acompanhou os passos do parceiro de forma automática. Seu olho não estava na vítima nem mesmo na floresta escura ao redor. Seu olho fitava o nada. A vampira ruiva havia se afundado em pensamentos. Não podia ser verdade. Os trinta bentos juntos… — Os milagres! — exclamou a vampira olhando diretamente para a vítima. — Eles desencadearam os milagres. O homem, tentando afastar-se da mão de Gerson, gemeu um “sim” choroso e longo. — Quatro milagres. A profecia rezava isso, Gerson. O vampiro olhou para a líder. A criatura andava até perto da fogueira e voltava. Seus cabelos lisos e vermelhos balançavam com o movimento insistente do corpo. Raquel estacou e olhou para o homem acuado. Andou decidida até o tronco e agarrou-o pelos colarinhos novamente, fitando-o nos olhos. — Quais são os quatro milagres? CAPÍTULO 3 Anaquias despertou de seu transe vampírico. Seis noites tinham-se passado desde que seu numeroso exército de vampiros fora milagrosamente destruído pelos humanos. Remoía-se desde então com a certeza de que os malditos trinta bentos tinham-se juntado e que a profecia revelara-se verdadeira. De seus vinte mil soldados, restaram cerca de quatro mil. E desse contingente restante, poucos permaneciam fiéis na crença que Anaquias tentava sustentar. Anaquias prometera vitórias aos seus seguidores. Prometera a vinda do vampiro-rei.

Nada tinha dito sobre a luz do sol queimando e destruindo seus soldados em plena noite. Com isso, aos poucos, pequenos grupos de vampiros partiam, abandonando o exército de Anaquias. O guerreiro-líder caminhou pela caverna. Grunhiu nervosamente enquanto seus olhos vermelhos acendiam e esparramavam um espectro rubro sobre as pedras e as faces dos vampiros ainda adormecidos. Anaquias caminhou até a boca da caverna e olhou para a floresta morro abaixo. Sentiu a pele arrepiar-se. Ele estava ali. Estava perto. Anaquias deixou a entrada pedregosa e avançou para o chão gramado que descia o morro. Não tinha entrado em contato com o vampiro-rei desde a noite em que seu exército fora abatido por aqueles dois fenômenos milagrosos. Primeiro tinham sido tocados pela Barreira do Inferno por uma bola de fogo que subiu ao céu, depois seus soldados foramqueimados por uma luz inexplicável que surgiu do meio das nuvens, devorando a escuridão. Por pouco ele mesmo não perecera. Encontrou refúgio no último instante, queimando de ódio por dentro. E nada do espectro lhe explicar. Sentia-se abandonado, enganado. Mas agora, pela simples sensação da presença do vampiro-rei ali perto, seu peito inflava, a energia voltava. A sensação de atração e devoção para aquele maldito fantasma, que soprava em seus ouvidos, era tão inexplicável quanto o clarão que devorara seu exército noturno. Anaquias apertou os olhos e balançou a cabeça. Estava sendo encantado pela presença do rei, sendo arrebatado. Não podia se deixar levar mais uma vez. Ele diria coisas. Tentaria reconquistar sua confiança, fazê-lo de palhaço perante a raça da noite mais uma vez. — Por que deixou isso acontecer, senhor? Por que não nos avisou? — perguntou Anaquias para a noite. Anaquias caminhou para baixo de um eucalipto. Um vento forte passou pelo chão gramado, empurrando folhas secas para cima.

Não ouviu resposta alguma, mas tinha certeza de que o vampirorei estava ali. O guerreiro subiu para os galhos do eucalipto. O mato alto das touceiras balançavamcom o vento contínuo. Anaquias abaixou a cabeça. — Por que deixou isso acontecer, senhor? — repetiu a pergunta. — Essa tormenta não me foi revelada, vampiro. Ainda estou fraco. Não vejo tudo. Anaquias surpreendeu-se com a voz tão clara invadindo os ouvidos. Tinha sido diferente dessa vez. A voz tinha vindo no ar, não tinha se manifestado em sua cabeça, como se fosse um pensamento. Olhou ao redor. Assustou-se quando viu um chamejar sobre um galho fino da árvore. Tinha sido rápido. Um brilho. Um brilho fugaz em forma de vampiro. O rosto… o rosto do vampiro lhe parecera familiar. Cabelos longos. Presos. Tentava lembrar do dono daquelas feições, mas tinha sido rápido demais, mesmo para os olhos treinados de um vampiro caçador. Um mal-estar implantou-se em sua mente. Não queria ser enfeitiçado de novo. Não queria mais liderar aquele bando. — Eu preciso de você, Anaquias… — a voz fez uma pausa e de pois prosseguiu. — Essas malditas fofoqueiras cósmicas sopram coisas incompletas nos meus ouvidos.

Mas elas sopram esperança para nossa raça, meu general. Hão de revelar os segredos corretos para nossa vitória. Anaquias desviou o olhar. Tapou os ouvidos com as mãos. Ele estava ali. Aquele brilho tinha vindo dele, tinha visto o espectro do vampiro-rei! O fantasma riu. Levitou ao redor do vampiro. — Não esmoreça, Anaquias. Meu irmão ainda é cego. Tu serás minha espada até a hora de minha luta. Há de preparar meu reino para minha chegada. Há de subjugar meus inimigos. Venceremos os guerreiros bentos graças a você e a mim… e isso nunca será esquecido. Erguerei a mais alta estátua em teu nome. Um gigante de rocha para honrar teu valor. Tua face estampada em Diamantina… Anaquias saltou do eucalipto para a árvore seguinte. Olhou para trás. O espectro flutuava, vindo em sua direção. Se tivesse um coração vivo, ele teria disparado. Era assustador travar contato comum fantasma. — Não me tema, vampiro! Ordeno que me escute! Sempre te achei um tolo, um presunçoso mal aproveitado por aquela… aquela lá. — Cantarzo calou-se mais um instante. — Mas agora que estou em sua cabeça, há de pensar com clareza. Hei de acertar teus passos. — O que quer de mim, espírito maldito? Você levou meu exército à morte.

Abandonou-me no momento de maior necessidade, deixou meu peito seco e morto num mar de angústia. Não pode ser um rei de verdade. Anaquias ouviu mais risadas. De expressão fechada, olhou ao redor. O vampiro-rei achava graça em sua preocupação. — Foi bonito o que disse, Anaquias. Não sabia que meu general também era poeta sensível… Um pensador. — Sou um devoto dedicado, senhor, meu rei. Não mereço risadas em momento de aflição. Posso recusar crer em ti. Novas risadas rodearam o vampiro aflito. — Nossa vida é um mar de angústia desde a Noite Maldita, corpo maldito. Te arrastas nas sombras em busca de sangue para aplacar o fogo em tuas entranhas. Se não matas um humano, se não lhe tomas a vida para manter teu corpo útil, tu és quemperece. Seca, transformando teu corpo todo “num mar de angústia”. — Cantarzo pôs a mão no pescoço de Anaquias, sem ser visto. — Por que não nos contentamos com os adormecidos? Sabes? Eles têm sangue vivo nas veias, suprem-nos fisiologicamente. Mas não nos damos por satisfeitos, não é? Anaquias apenas balançou a cabeça concordando. — O que queremos, servo? O que queremos quando deixamos a toca para caçar soldados na estrada ou tentamos invadir as fortificações? — o vampiro-rei enrodilhou todo o corpo de Anaquias. — Queremos mostrar para eles que somos nós quem mandamos. Queremos saciar nosso desejo de poder. Queremos ver os humanos de quatro, virando gado estocado. Queremos colocá-los no seu devido lugar. Anaquias subiu pelo tronco seco do eucalipto. Uma lufada de vento forte balançou a ponta da árvore.

Nuvens corrediças e finas tornavam a luz da lua intermitente. — Não trarei alegrias aos meus seguidores, general. Não trarei sorrisos e vivas. Trarei organização e força. Guiarei nossa raça para a grande virada. Ainda viveremos nas trevas. Ainda seremos estas bestas sanguinolentas. Não haverá festas nem felicidade em nossas covas,donde continuaremos nos arrastando atrás do alimento vermelho e vivo. Continuaremos malditos, mas seremos conhecidos como os malditos donos da terra. Anaquias baixou a cabeça e fechou os olhos. Não queria ouvir. — Permaneceremos bestas, general. Continuaremos como demônios da noite, pois essa é nossa sina certa, mas seremos os mais fortes. Seremos letais. Para tanto vocês precisam crer em mim. Precisam seguir minhas instruções. Há caminhos escondidos nas coisas da vida. Há sinais no meio da matéria. Existe magia circulando entre as árvores e o cimento. Alguém libertou essa energia em nosso planeta e fez tudo mudar. Fez com que aflorasse no corpo de cada um a verdadeira face. A noite para os da noite. O dia para os do dia. Esse universo todo é um caldeirão de feitiços. E “elas” estão soprando coisas em meu ouvido, Anaquias.

Elas estão ensinando seu rei como conseguir o que eles tinham. Os humanos perderam o profeta Bispo e os vampiros ganharam o vampiro-rei. Agora elas contam os truques, antecipam as armadilhas, mas hei de aprender. Hei de decifrar melhor os cacos de futuro que são lançados contra meus olhos cerrados. Aprenderei a ler as peças desse quebra-cabeças inacreditável. “Elas” estão jogando um jogo. Jogando com os animados. São alcoviteiras, fofoqueiras filhas duma égua, tinhosas. “Elas” não tomam partido nem escolhem o lado. Às vezes, bichinho, parece que “elas” são cegas feito nós. Cabras da moléstia que zelam pelo sangue escolhido. Eu roubei o sangue escolhido, Anaquias. Eu roubei o sangue escolhido e “elas” não podem escolher para quem soprar. Falam para o sangue sorteado, é simples assim. Preciso que tu zeles por este sangue acorrentado na matéria. “Elas” me dizem como, e tu fazes. — O que elas dizem agora? O espectro mudou a face. As sobrancelhas fechadas abriram-se, suavizando a aparência furiosa do espectro. Anaquias não podia vê-lo, mas Cantarzo sorriu para o vampiro. Abriu a boca e demorou a revelar. — Agora, general… curiosamente, “elas” riem. Riem e cantarolam uma canção. Anaquias saltou para outra árvore. Desceu cinco metros. O espectro flutuou, acompanhando-o, indefectível, permanente, sufocante.

— “Elas” repetem: O sol nasceu para todos. Anaquias abriu um sorriso. Não sabia o que aquilo significava, mas experimentava essa sensação emanada do vampiro-rei. Aquela sensação cutucava seu estômago e irradiava para o corpo todo. Era alegria. A mais pura alegria.

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