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A Busca do Graal 2 – O Andarilho – Bernard Cornwell

Corria o mês de Outubro, aquela época do ano em que o gado é morto para o Inverno e o vento norte traz consigo uma promessa de gelo. As folhas dos castanheiros são agora douradas, as faias parecem árvores de fogo e os carvalhos feitos de bronze. Ao crepúsculo, Thomas de Hookton, a sua mulher Eleanor e o padre Hobbe, seu amigo, chegaram a uma quinta no monte e o dono recusou-se a abrirlhes a porta, embora lhes gritasse que podiam dormir no estábulo. A chuva açoitava o colmo enlameado. Thomas conduziu o cavalo para o abrigo que partilhavam com um monte de lenha, seis porcos numa pocilga de madeira e penas espalhadas que indicavam o local onde uma galinha tinha sido depenada. Essas penas recordaram ao padre Hobbe que era dia de São Gallus e contou a Eleanor que esse santo homem, ao regressar a casa, numa noite de Inverno, encontrara um urso que lhe roubara a ceia. – Enxotou o animal – disse o padre Hobbe. – Fez-lhe um belo sermão e depois obrigou-o a ir buscar lenha. – Já vi uma imagem assim – disse Eleanor. – O urso não se tornou seu servo? – Sim, porque Gallus era um homem santo – explicou o padre Hobbe. – Os ursos não vão apanhar lenha para toda a gente! Só para os santos. – Um santo – interrompeu Thomas -, que é o santo patrono das galinhas. – Thomas sabia tudo a respeito de santos, mais até do que o padre Hobbe. – Para que quer uma galinha ter um santo? – perguntou com ar sarcástico. – Gallus é o patrono das galinhas? – perguntou Eleanor confundida pelo tom de Thomas. – Não é dos ursos? – Das galinhas – confirmou o padre Hobbe. – Ou melhor, de todas as aves de capoeira. – Mas porquê? – desejava saber Eleanor. – Porque uma vez expulsou um demónio de uma jovem. – O padre Hobbe, de rosto largo, cabelo todo espetado, nascera no campo, era jovem e impulsivo e adorava contar histórias dos santos. – Umgrupo de bispos tinha tentado expulsar o demónio – continuou. – Todos eles falharam, mas o bendito Gallus apareceu e amaldiçoou o demónio. Rogou-lhe uma praga e ele guinchou de terror – o padre Hobbe acenou com as mãos para imitar o pânico do espírito maligno – fugindo do corpo da jovem, em forma de uma galinha preta… frango. Um frango preto. – Nunca vi essa imagem – comentou Eleanor no seu inglês com sotaque, para logo a seguir olhar pela porta do estábulo.


– Mas bem gostaria de ver um urso a apanhar lenha – acrescentou melancólica. Thomas sentou-se a seu lado, olhando para a escuridão húmida, coberta por uma leve bruma. Não tinha a certeza de que fosse de fato o dia de São Gallus, pois tinha perdido o sentido do tempo enquanto viajavam. Talvez fosse já dia de Santa Audrey. Sabia que era Outubro e sabia que tinham passado mil trezentos e quarenta e seis anos desde o nascimento de Cristo, mas não tinha a certeza de que dia era. Era fácil perder a conta. Uma vez o pai dissera todos os serviços dominicais ao sábado e repetira-os no dia seguinte. Disfarçadamente, Thomas fez o sinal da cruz. Era o bastardo de umpadre, fato considerado como trazendo má sorte. Estremeceu. O ar estava pesado, mas não devido ao pôr do Sol nem às nuvens de chuva ou à bruma. Deus nos ajude, pensou, mas havia um mal naquela escuridão. Voltou a fazer o sinal da cruz e, em surdina, rezou uma prece a São Gallus e ao seu urso obediente. Em Londres, vira um urso que dançava, com dentes que nada mais eram do que coutos amarelados e podres e os flancos castanhos cheios de sangue de serem picados pelo dono. Os cães vadios rosnavam-lhe e depois esquivavam-se e encolhiam-se quando ele investia. – Durham é muito longe? – perguntou Eleanor, desta vez falando em francês, a sua língua nativa. – Julgo que chegaremos amanhã – respondeu Thomas, sem deixar de olhar para o norte, para onde a escuridão pesada cobria a terra. – Ela perguntou – explicou em inglês ao padre Hobbe – quando chegaremos a Durham. – Amanhã, se Deus quiser – respondeu o padre. – Amanhã poderás descansar – prometeu Thomas a Eleanor em francês. Estava grávida de uma criança que, se Deus o permitisse, nasceria na Primavera. Thomas não tinha a certeza dos seus sentimentos acerca de vir a ser pai. Parecia-lhe cedo de mais para se tornar responsável, porémEleanor sentia-se feliz e ele gostava de lhe agradar. Assim, disse-lhe que também se sentia feliz. Parte do tempo assim era.

– E amanhã – disse o padre Hobbe – teremos as nossas respostas. – Amanhã – corrigiu-o Thomas – faremos as nossas perguntas. – Deus não há-de permitir que tivéssemos chegado até aqui para ficarmos desapontados – replicou o padre Hobbe e, depois, para evitar que Thomas discutisse, estendeu a magra ceia. – É tudo o que resta do pão – disse. – Mas podemos guardar parte do queijo e a maçã para o pequeno-almoço. – Fez o sinal da cruz sobre os alimentos para os abençoar e dividiu depois o pão em três partes. – Devemos comer antes do cair da noite. A escuridão trouxe um frio quebradiço. Caiu um leve aguaceiro e, por fim, o vento parou. Thomas dormiu perto da porta do estábulo e acordou algum tempo depois do cessar do vento, pois avistou uma luz no céu a norte. Deu a volta, sentou-se, esqueceu-se de que tinha frio, esqueceu-se da fome, esqueceu os incómodos desconfortos da vida, pois podia ver o Graal. O Santo Graal, o mais precioso de todos os legados de Cristo ao homem, perdido há um milhar de anos ou mais. Via-o cintilando no céu, como sangue brilhante e, em seu redor, luminosos como os do resplendor de um santo, raios de luz intensa que enchiam o céu. Thomas queria acreditar. Queria que o Graal existisse. Pensava que se o Graal fosse encontrado, todo o mal do mundo se afogaria nas suas profundidades. Queria tanto acreditar, que nessa noite de Outubro viu a norte o Graal como uma enorme taça ardente e os seus olhos encheram-se de lágrimas de tal forma que a imagem se ofuscou; mesmo assim, conseguia vê-la e pareceu-lhe que um vapor fervia na taça sagrada. Mais além, em alas que se erguiam nas alturas, viu anjos com asas tocadas pelo fogo. Todo o céu a norte era um fumo dourado e escarlate, cintilando na noite, como um sinal de aviso ao incrédulo Thomas. – Oh, Senhor – exclamou em voz alta, lançando o cobertor para trás e ajoelhando junto à fria porta do estábulo. – Oh, Senhor! – Thomas? – Junto de si, Eleanor tinha acordado. Sentou-se e olhou para a noite. – Fogo – disse emfrancês. – C’est un grand incendie. – Havia medo na sua voz.

– C’est un incendie? – perguntou Thomas, acordando completamente e vendo que, de fato, havia umenorme incêndio no horizonte de onde as chamas subiam, iluminando nas nuvens um abismo em forma de taça. – Há ali um exército – murmurou Eleanor em francês. – Olha! – apontou para outro clarão, mais adiante. Já tinham visto aquelas luzes nos céus de França, a luminosidade reflectida vinda das nuvens, sob as quais o exército inglês abrira caminho através da Normandia e da Picardia. Thomas continuava a olhar para norte, mas já desapontado. Tratava-se então de um exército? Não do Graal? – Thomas? – Eleanor estava preocupada. – É apenas um rumor – disse. Era o bastardo de um padre e fora criado ouvindo as sagradas escrituras. No Evangelho segundo São Mateus fora prometido que, no fim dos tempos, haveria batalhas e rumores de batalhas. As escrituras prometiam que o mundo chegaria ao fim num tumulto de guerra e de sangue e, na última aldeia, onde os habitantes lhes tinham lançado olhares suspeitos, um sacerdote mal-humorado tinha-os acusado de serem espiões escoceses. O padre Hobbe tinha-se insurgido contra aquilo, ameaçando puxar as orelhas ao seu colega, mas Thomas acalmara-os a ambos e falara com um pastor que dissera ter visto fumo nas colinas a norte. Os escoceses, dissera o pastor, marchavam para sul, embora a mulher do padre se risse da ideia, afirmando que as tropas escocesas nada mais eram do que ladrões de gado. ”Fechem bem a porta à noite”, aconselhou, ”e eles deixam-vos em paz.” A luz longínqua desaparecia. Não era o Graal. – Thomas? – Eleanor franziu a testa. – Tive um sonho – disse ele. – Foi só um sonho. – Senti o bebé mexer – disse ela tocando-lhe no ombro. – Vamos casar? – Em Durham – prometeu-lhe. Era bastardo e não queria que um filho dele carregasse consigo a mesma marca. – Amanhã chegaremos à cidade garantiu a Eleanor. – Tu e eu casaremos numa igreja e faremos as nossas perguntas. E, implorava ele, que uma das respostas seja que a Relíquia não existe. Que seja um sonho, um mero artifício de fogo e nuvens num céu nocturno, senão Thomas receava chegar à loucura.

Desejava abandonar a busca; queria desistir da Relíquia e voltar a ser o que era e o que queria ser: umarqueiro de Inglaterra. Bernard de Taillebourg, francês, frade dominicano e inquisidor, passou a noite de Outono numa pocilga e, quando a madrugada chegou espessa e branca de nevoeiro, ajoelhou e agradeceu a Deus pelo privilégio de ter dormido sobre palha suja. A seguir, preocupado com a sua importante tarefa, disse uma oração a São Domingos, implorando ao santo que intercedesse junto de Deus para que lhe facilitasse o trabalho naquele dia. – Como a chama da tua boca ilumina a verdade – disse em voz alta -, assim o faça com o caminho do nosso êxito. Na intensidade da sua emoção, avançou e bateu com a cabeça num duro pilar de pedra que suportava um dos cantos da pocilga. A dor invadiu-lhe o crânio e ele insistiu ainda mais, esfregando a pele até sentir o sangue escorrer-lhe pelo nariz. – Bendito São Domingos – exclamou. – Bendito São Domingos! Deus seja louvado pela vossa glória! Iluminai o nosso caminho! – Tinha já sangue nos lábios e lambeu-o enquanto reflectia em toda a dor que os santos e mártires tinham suportado pela Igreja. Pôs as mãos e havia um sorriso no seu rosto perturbado. Os soldados que, na noite anterior, tinham queimado grande parte da aldeia, violado as mulheres que haviam sobrevivido e matado os homens que as tentavam proteger, viam agora o padre bater repetidamente com a cabeça na pedra ensanguentada. – Oh São Domingos! – dizia em voz sufocada Bernard de Taillebourg. – Oh, São Domingos! Alguns deles faziam o sinal da cruz, pois sabiam quando se encontravam em presença de um santo. Um ou dois até ajoelharam, embora fosse pouco cómodo com as suas cotas de malha, mas a maioria limitou-se a olhar o padre com ar desconfiado, ou então olhavam para o criado deste que, sentado fora da pocilga, lhes devolvia o olhar. Tal como Bernard de Taillebourg o criado era francês, mas havia qualquer coisa no jovem que sugeria uma origem mais exótica. Tinha uma pele doentia, quase tão escura como a de um mouro e uma cabeleira longa e lisa que, juntamente com o rosto esguio, lhe dava um ar selvagem. Usava uma cota de malha e uma espada e, embora fosse apenas o criado de um padre, tinha um porte confiante e digno. A sua veste era elegante, coisa estranha naquele exército esfarrapado. Ninguém lhe conhecia o nome. Nem sequer queriam perguntar, tal como também não perguntavam porque não comia nem falava com os outros criados e se mantinha estranhamente à parte. Naquele momento, o misterioso criado observava os soldados tendo na mão uma faca de lâmina longa e fina. Assim que se apercebeu que havia bastantes a olhar para ele, balançou-a sobre um dedo esticado. A faca estava colocada sobre a ponta afiada e não picava a pele do criado pois este usava uma dedeira cortada da malha de uma manopla. Depois fez um movimento e a faca voou pelo ar, com a lâmina a brilhar, para logo descer com a ponta para baixo e se vir a equilibrar de novo sobre o seu dedo. O criado não olhara uma vez sequer para a faca, pois mantivera os olhos escuros fixos nos soldados. O padre, completamente alheio ao espectáculo, gritava as suas preces com o rosto ensopado em sangue.

– São Domingos! São Domingos! Iluminai o nosso caminho! – A faca voou mais uma vez, com a perigosa lâmina a cortar a luz enevoada da manhã. – São Domingos! Guiai-nos! Guiai-nos! – A cavalo! Montai! Rápido! – Um homem grisalho, com o escudo pendurado do ombro esquerdo, andava por entre os espectadores. – Não temos o dia todo! Com os demónios, o que estais a ver? Jesus Cristo na cruz, que se passa aqui? Será a feira de Eskdale? Por amor de Deus, depressa! Depressa! – O escudo que trazia ao ombro tinha gravado um coração vermelho, mas a tinta estava tão desbotada e o coiro do escudo tão marcado que a divisa era difícil de distinguir. – Oh, Cristo redentor! – O homem vira o dominicano e o criado. – Padre! Vamos embora. Já! E não vou esperar pelo fim das orações. Voltou-se para os seus homens: – Montai! Mexei-vos! Temos muito que fazer! – Douglas! – exclamou repentinamente o dominicano. O homem grisalho voltou-se rapidamente. – O meu nome, padre, é Sir Willíam e é melhor que não vos esqueçais. O padre pestanejou. Parecia sofrer de uma súbita confusão, ainda envolvido no êxtase da sua dolorosa oração. Fez uma vénia formal como se reconhecesse a sua falha ao usar o sobrenome de Sir William. – Falava com São Domingos – explicou. – Pois sim. Espero que lhe tenhais pedido que levante este maldito nevoeiro. – Ele há-de conduzir-nos hoje! Há-de guiar-nos! – Então será melhor que calce as botas, porque nos vamos embora, quer o vosso santo esteja disposto quer não – rosnou Sir William Douglas, cavaleiro de Liddesdale para o padre. A sua cota de malha estava rasgada pela batalha e remendada com argolas mais novas. A ferrugem aparecia nas bainhas e nos cotovelos. O escudo desbotado, tal como o rosto, envelhecido pelas intempéries, mostrava cicatrizes. Tinha agora quarenta e seis anos e calculava ter uma marca de espada, seta ou lança por estes anos que lhe tinham embranquecido o cabelo e a curta barba. Abria agora de par em par a porta da pocilga. – De pé, padre. Tenho aqui um cavalo para vós. – Vou a pé – disse Bernard de Taillebourg, pegando numa forte vara com uma correia de couro enfiada na ponta. – Como Nosso Senhor.

– Então não vos molhareis a atravessar os regatos, pois não? – riu-se Sir William. – Caminhareis sobre as águas, não é verdade, padre? Vós e o vosso criado? Era o único, entre os seus homens, que não parecia impressionado pelo padre francês, nem receoso do seu bem armado criado, mas Sir William Douglas era conhecido por não ter medo de homem nenhum. Era um chefe de salteadores que se socorria de assassínio, fogo, espadas e lanças para proteger a sua terra e não era um padre furioso, vindo de Paris, que haveria de o impressionar. De fato, Sir William, não gostava muito de padres, mas o seu rei tinha-lhe ordenado que levasse Bernard de Taillebourg no ataque daquela manhã e Sir William consentira contrariado. Em seu redor, os soldados subiam para as suas selas. Tinham consigo um armamento leve, pois não esperavam encontrar inimigos. Alguns, como Sir William, transportavam escudos, mas a maioria contentava-se apenas com uma espada. Bernard de Taillebourg, com o seu hábito de frade salpicado de lama, apressou-se a seguir Sir William. – Ides entrar na cidade? – Claro que não vou entrar na maldita cidade. Lembrai-vos de que há uma trégua. – Mas se há uma trégua… – Se há uma maldita trégua, deixamo-los descansados. O padre francês falava bem inglês, mas levou alguns momentos a perceber o significado das últimas palavras de Sir William. – Não vai haver luta? – Não. Entre nós e a cidade, não. E não há um maldito exército inglês cem milhas em redor, por isso não haverá luta. Só teremos de procurar comida e pasto, padre, comida e pasto. Alimentar os homens e os animais e é essa a maneira de ganhar as guerras. – Enquanto falava, Sir William montou o seu cavalo que um escudeiro segurava pelas rédeas. Meteu as botas nos estribos, soltou o saiote da cota de malha de debaixo das pernas e pegou nas rédeas. – Levo-vos até perto da cidade, padre, mas depois disso tereis de vos arranjar sozinho. – Arranjar? – perguntou Bernard de Taillebourg, mas Sir William já tinha dado meia volta e esporeado o cavalo por um atalho lamacento que corria entre baixos muros de pedra. Atrás dele e do padre, montados em cavalos enormes e cansados que se esforçavam por acompanhar o passo seguiamduzentos soldados sujos e cinzentos naquela manhã de nevoeiro. O criado seguia-os aparentemente despreocupado. Era evidente que estava habituado a viver entre soldados e não mostrava qualquer apreensão, mostrando até um porte que sugeria poder ser melhor com as suas armas do que a maioria dos homens que cavalgavam atrás de Sir William. O dominicano e o criado tinham viajado para a Escócia juntamente com uma dezena de mensageiros enviados ao rei David II por Filipe de Valois, rei de França.

A embaixada fora um pedido de ajuda. Os ingleses tinham queimado todas as terras por onde tinham passado na Normandia e na Picardia, tinham dizimado o exército do rei francês perto de uma aldeia chamada Crécy e os seus arqueiros possuíam agora cerca de doze praças fortificadas na Bretanha, enquanto os seus violentos cavaleiros partiam das possessões ancestrais de Eduardo de Inglaterra na Gasconha. Tudo aquilo era mau, mas, pior ainda, como que para mostrar que a França podia ser impunemente desmembrada, o rei inglês montara um cerco ao grande porto fortificado de Calais. Filipe de Valois fazia o melhor possível para o levantar, mas o Inverno aproximava-se, os nobres resmungavam que o seu rei não era um guerreiro e assim apelara à ajuda do rei David da Escócia, filho de Robert the Bruce. ”Invadi a Inglaterra”, implorara o rei francês. ”Obrigai assim Eduardo a abandonar o cerco de Calais para proteger a sua pátria.” Os escoceses tinham ponderado o convite, deixando-se convencer pela embaixada do rei francês de que a Inglaterra estava indefesa. Como não haveria de estar? O exército de Eduardo de Inglaterra encontrava-se todo em Calais ou então na Bretanha e na Gasconha e não havia ninguém para defender a Inglaterra, o que significava que o velho inimigo estava impotente, a pedir para ser violado e para que todas as riquezas de Inglaterra caíssem nas mãos da Escócia. Portanto os escoceses tinham vindo para sul. Era o maior exército que a Escócia alguma vez enviava para lá das suas fronteiras. Os grandes fidalgos estavam todos lá, filhos e netos dos guerreiros que haviam humilhado a Inglaterra na sangrenta matança junto de Bannockburn e esses senhores tinham trazido os seus homens-de-armas, mas, desta vez, sentindo o cheiro do saque, estavam acompanhados pelos chefes dos clãs das montanhas e das ilhas: os chefes conduziam violentos elementos das tribos que falavam uma linguagem própria e combatiam como diabos à solta. Tinham vindo aos milhares para enriquecer e os mensageiros franceses depois de desempenhada a sua tarefa tinham regressado à pátria para assegurar a Filipe de Valois que o rei Eduardo de Inglaterra certamente levantaria o cerco de Calais, assim que soubesse que os escoceses estavam a devastar as suas terras do Norte. A embaixada francesa regressara, mas Bernard de Taillebourg não. Tinha assuntos a tratar no Norte de Inglaterra, porém, nos primeiros dias, nada mais sentira do que frustração. O exército escocês tinha doze mil homens, era forte e mais numeroso do que aquele com que Eduardo de Inglaterra tinha derrotado os franceses em Crécy, porém, uma vez atravessada a fronteira, tinham-se detido para cercar uma solitária fortaleza, guardada por trinta e oito homens; apesar de serem apenas trinta e oito só morreram ao fim de quatro dias. Mais tempo se perdeu a negociar com os habitantes de Carlisle um pagamento em ouro para que a sua cidade fosse poupada e, logo a seguir, o jovem rei escocês esbanjou mais três dias a saquear o priorato de Black Canons, em Hexham. Agora, dez dias depois de terem atravessado a fronteira e depois de terem vagueado pelos pântanos do Norte de Inglaterra, o exército escocês tinha finalmente chegado a Durham. A cidade oferecera-lhes mil libras de ouro para ser poupada e o rei David dera-lhes dois dias para reunirem o dinheiro. Isto significava que Bernard de Taillebourg tinha dois dias para descobrir um meio para entrar na cidade, até cujo extremo, escorregando na lama e meio cego pelo nevoeiro, seguira Sir William Douglas, depois de atravessar um vale, um ribeiro e subir uma encosta íngreme. – Em que direcção fica a cidade? – perguntou a Sir William. – Quando o nevoeiro levantar, digo-vos, padre. – Respeitarão as tréguas? – Em Durham são santos, padre – respondeu Sir William. – Melhor ainda, são homens assustados. Tinham sido os monges da cidade a negociar o resgate, mas Sir William fora contra a aceitação. Se os monges ofereciam mil libras, calculava que seria melhor matar os monges e ficar com duas mil, mas o rei David impedira-o.

David the Bruce passara grande parte da sua juventude em França e considerava-se um homem culto, porém Sir William não se sentia assaltado por escrúpulos. – Estareis a salvo se conseguirdes chegar à cidade – garantiu Sir William ao padre. Os cavaleiros tinham chegado ao cimo do monte e Sir William voltou-se para sul seguindo ainda um caminho ladeado por muros de pedra que levava, uma ou duas milhas mais a diante, a uma aldeola deserta onde, juntas num cruzamento havia quatro casas, tão baixas que os seus telhados de colmo, muito estragados, pareciam sair da turfa esparsa. No centro desse cruzamento, onde trilhos enlameados rodeavam uma moita de urtigas e ervas, uma cruz de pedra inclinava-se para sul. Sir William deteve o cavalo junto ao monumento e olhou para o dragão gravado que rodeava o pilar. A cruz não tinha um braço. Desmontaram doze homens que se baixaram para entrar nas cabanas, mas não encontraram nada nem ninguém lá dentro, embora uma delas ainda tivesse umas brasas que utilizaram para pegar fogo aos quatro telhados de colmo. Foi difícil fazer o colmo arder, pois estava tão húmido que saíam cogumelos da palha coberta de musgo. Sir William retirou um pé do estribo e tentou com ele deitar abaixo a cruz, mas esta não se moveu. Gemeu com o esforço e fez má cara ao ver a expressão reprovadora de Bernard de Taillebourg. – Não é um solo sagrado, padre. É a maldita Inglaterra – espreitou para o dragão gravado, cuja boca se abria para abarcar todo o pilar de pedra. – Que coisa tão feia, não acha? – Os dragões são criaturas de pecado, criaturas do demónio – disse Bernard de Taillebourg. – Por isso têm de ser feios. – Com que então uma coisa do demónio? – Sir William deu um novo pontapé na cruz. – A minha mãe sempre me disse que os malditos ingleses enterravam o ouro roubado debaixo de cruzes com dragões – explicou enquanto dava, pela terceira vez em vão, um pontapé na cruz. Dois minutos depois a cruz tinha sido derrubada e meia-dúzia de homens espreitava desapontada para o buraco que deixara. O fumo dos telhados a arder tornava ainda mais denso o nevoeiro, rolava na estrada e desaparecia no ar cinzento da manhã. – Não há ouro – resmungou Sir William, para logo chamar os seus homens e os conduzir para sul e para longe do fumo sufocante. Procurava algum gado vivo que pudesse ser conduzido para o exército escocês, mas os campos estavam vazios. O fogo das cabanas a arder parecia uma poeira dourada e vermelha no nevoeiro atrás dos salteadores, um brilho que foi lentamente desaparecendo até que apenas se lhe sentia o cheiro, mas depois, de repente, enchendo todo o mundo com um enorme ruído, um repicar de sinos entoou no céu. Presumindo que o som viesse de leste, Sir William voltou-se para uma abertura no muro que dava para uma pastagem, deteve o cavalo e pôs-se de pé nos estribos. Escutou, o som mas no nevoeiro era impossível dizer onde estavam os sinos ou a que distância repicavam, e logo o som terminou tal como tinha começado. O nevoeiro era agora menos denso, afastando-se os farrapos por entre as folhas alaranjadas de um grupo de ulmeiros. Cogumelos brancos pontilhavam a pastagem vazia onde Bernard de Taillebourg caiu de joelhos e começou a rezar em voz alta.

– Silêncio, padre – ordenou bruscamente Sir William. O padre fez o sinal da cruz como se implorasse aos céus perdão para a terrível heresia de Sir William ao interromper-lhe as preces. – Haveis dito que não existiam inimigos – justificou-se. – Não estou à escuta de nenhum maldito inimigo – disse Sir William. Mas sim de animais. Estou à escuta de chocalhos de vacas ou carneiros. Mesmo assim, Sir William parecia extremamente nervoso para um homem que apenas procurava gado. Voltava-se constantemente na sela, espreitando o nevoeiro e estremecendo com todos os pequenos ruídos dos arreios e dos cascos que pisavam a terra molhada. Ordenava aos soldados mais próximos que estivessem calados. Fora soldado mesmo antes de alguns daqueles homens teremnascido e não se mantinha vivo por ter ignorado os seus instintos; agora, naquele nevoeiro húmido, sentia o cheiro do perigo. O bom senso dizia-lhe que nada havia a temer, que o exército inglês estava muito distante do outro lado do mar, mas sentia o cheiro da morte e, inconscientemente, puxou o escudo do ombro, metendo o braço esquerdo nas suas correias. Era um escudo grande, feito antes de se começar a meter placas de couraça nas cotas de malha, um escudo com tamanho suficiente para cobrir todo o corpo de um homem.

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