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A Busca do Graal 3 – O Herege – Bernard Cornwell

Vinte mil franceses alinhavam-se nas colinas, os estandartes abundantes ao vento que soprava do mar. A auriflama, o sagrado galhardete de guerra da França, estava lá. Era uma bandeira comprida, com três caudas pontudas, uma ondulação vermelho-sangue de preciosa seda, e se a bandeira tinha uma cor viva era porque era nova. A antiga auriflama estava na Inglaterra, um troféu apanhado na larga montanha verde entre Wadicourt e Crécy no verão anterior. Mas a nova bandeira era tão sagrada quanto a antiga, e em torno dela tremulavam os estandartes dos grandes senhores da França: os estandartes de Bourbon, de Montmorency e do conde de Armagnac. Bandeiras menos importantes eram vistas entre as nobres, mas todas proclamavam que os maiores guerreiros do reino de Filipe tinham ido combater os ingleses. No entanto, entre eles e o inimigo estavam o rio Ham e a ponte emNieulay, que era defendida por uma torre de pedra, em volta da qual os ingleses haviam cavado trincheiras, as quais tinham enchido de arqueiros e soldados. Do outro lado daquela força estava o rio, depois os pântanos, e no terreno mais elevado, perto do alto muro de Calais e seu fosso duplo, havia uma cidade improvisada, de casas e tendas, onde vivia o exército inglês. E um exército como nunca se vira na França. O acampamento dos sitiantes era maior do que a própria Calais. Até onde a vista alcançava havia ruas margeadas por lonas, com casas de madeira e cercados para cavalos, e entre eles havia soldados e arqueiros. A auriflama bem que poderia ter ficado enrolada. — Nós podemos tomar a torre, majestade. — Sir Geoffrey de Charny, soldado valente como qualquer outro no exército de Filipe, fez um gesto para baixo da montanha, no ponto em que a guarnição inglesa de Nieulay estava isolada do lado francês do rio. — com que finalidade? — perguntou Filipe. Ele era um homem fraco, hesitante em combate, mas a pergunta era pertinente. Se a torre caísse e, com isso, a ponte de Nieulay ficasse em seu poder, de que serviria ela? A ponte simplesmente levava a um exército inglês ainda maior, que já se dispunha em ordem de batalha na terra firme à beira do acampamento. Os cidadãos de Calais, com fome e sem esperança, viram os estandartes franceses na crista sul e responderam pendurando as bandeiras deles em suas defesas. Eles exibiam imagens da Virgem, retratos de S. Denis da França e, no alto da cidadela, a bandeira real azul e amarelo, para dizer a Filipe que seus súditos ainda viviam, ainda lutavam. Mas a brava exibição não conseguia esconder o fato de que tinham ficado sitiados por onze meses. Eles precisavam de ajuda. — Tome a torre, majestade — insistiu Sir Geoffrey, — e depois ataque o outro lado da ponte! Meu bom Cristo, se os malditos nos virem conseguir uma única vitória, poderão perder o ânimo! Um grunhido de concordância veio dos senhores reunidos. O rei estava menos otimista. Era verdade que a guarnição de Calais ainda resistia, e que os ingleses praticamente não tinham danificado os muros da cidade, ainda menos encontrado um meio de atravessar os fossos gêmeos.


Mas também os franceses não haviam conseguido levar suprimento algum para a cidade sitiada. O povo de lá não precisava de estímulo, precisava de comida. Um jato de fumaça surgiu do outro lado do acampamento e, poucos segundos depois, o som de um canhão ecoou pelos pântanos. O projétil devia ter atingido o muro, mas Filipe estava muito longe para ver o efeito. — Uma vitória aqui irá estimular a guarnição — insistiu lorde de Montmorency — e implantar o desespero nos corações ingleses. Mas por que iriam os ingleses perder o ânimo se a torre de Nieulay caísse? Filipe achava que aquilo iria apenas enchê-los de vontade de defender a estrada no lado oposto da ponte, mas tambémentendia que ele não poderia manter seus cães contidos quando um inimigo odiado estava à vista, e por isso deu a permissão. — Tomem a torre — disse —, e que Deus lhes conceda a vitória. O rei permaneceu onde estava enquanto os senhores reuniam homens e se armavam. O vento que vinha do mar trazia um cheiro de sal, mas também um odor de decomposição talvez proveniente de algas que apodreciam nos longos alagadiços que recebiam a maré. Aquilo deixou Filipe melancólico. Seu novo astrólogo recusara-se a atendê-lo durante semanas, alegando estar febril, mas Filipe soubera que ele gozava de boa saúde, o que significava que devia ter visto algum grande desastre nas estrelas e simplesmente receava contar ao rei. Gaivotas gritavam sob as nuvens. Bem lá ao longe, no mar, uma vela desbotada enfunava-se em direção à Inglaterra, enquanto outro navio ancorava ao largo das praias ocupadas pelos ingleses e, em pequenos barcos, transferia homens para terra, a fim de aumentarem as fileiras inimigas. Filipe olhou para trás, para a estrada, e viu um grupo de cerca de quarenta ou cinqüenta cavaleiros ingleses cavalgando em direção à ponte. Ele fez o sinal-da-cruz, rezando para que os cavaleiros fossem encurralados pelo seu ataque. Ele odiava os ingleses. Odiava. O duque de Bourbon havia delegado a organização do assalto a Sir Geoffrey de Charny e Edouard de Beaujeu, e isso era bom. O rei confiava em que os dois seriam sensatos. Ele não duvidava de que pudessem tomar a torre, embora ainda não soubesse do que aquilo adiantaria; mas achava que era melhor do que deixar seus nobres mais afoitos usarem as lanças numa carga alucinada pela ponte, para sofrerem uma derrota total nos pântanos. Ele sabia que nada lhes traria maior prazer do que umataque daqueles. Eles pensavam que a guerra era um jogo, e cada derrota os deixava mais ansiosos por jogarem. Tolos, pensou ele, e tornou a fazer o sinal-dacruz, perguntando-se que funesta profecia o astrólogo estava escondendo dele. O que precisamos, pensou ele, é de um milagre. Algum grande sinal de Deus.

Então estremeceu, assustado, porque um timbaleiro acabara de tocar o seu grande timbale. Uma trombeta soou. A música não pressagiava o avanço. Eram, isso sim, os músicos que faziam o aquecimento, prontos para o ataque. Edouard de Beaujeu estava à direita, onde reunira mais de mil besteiros e outros tantos soldados, e era evidente que ele queria atacar os ingleses por um flanco, enquanto Sir Geoffrey de Charny e pelo menos quinhentos soldados atacavam montanha abaixo, contra as trincheiras dos ingleses. Sir Geoffrey percorria as fileiras mandando, em voz alta, que cavaleiros e soldados desmontassem. Eles obedeceram, relutantes. Acreditavam que a essência da guerra era a carga da cavalaria, mas Sir Geoffrey sabia que cavalos de nada adiantavam contra uma torre de pedra protegida por trincheiras, e por isso insistia em que lutassem a pé. — Escudos e espadas — gritou —, nada de lanças. A pé! A pé! Sir Geoffrey aprendera a duras penas que os cavalos eram lamentavalmente vulneráveis às flechas inglesas, enquanto que homens a pé podiam avançar agachados, atrás de escudos compridos. Alguns dos homens de berço nobre recusavam-se a desmontar, mas ele não lhes deu importância. Um número ainda maior de soldados franceses apressava-se para participar da carga. O pequeno grupo de cavaleiros ingleses tinha atravessado a ponte agora. Parecia que pretendiamcavalgar pela estrada para desafiarem toda a linha de batalha francesa, mas em vez disso detiveramseus cavalos e olharam para a horda agrupada na crista do monte. O rei, observando-os, viu que eramcomandados por um grão-senhor. Ele sabia disso devido ao tamanho do pavilhão do homem, enquanto que pelo menos uma dúzia dos outros cavaleiros levava as bandeiras quadradas de galhardetes em suas lanças. Um grupo rico, pensou ele, que valia uma pequena fortuna em resgates. Ele esperava que cavalgassem até a torre e, com isso, ficassem encurralados. O duque de Bourbon voltou para perto de Filipe com o cavalo a trote. O duque vestia uma armadura que tinha sido raspada com areia, vinagre e arame até ficar branca de tanto brilho. O elmo, ainda pendurado no arção anterior da sela, tinha em cima penas tingidas de azul. Ele se recusara a desmontar de seu corcel, equipado com uma testeira de aço para protegerlhe o rosto e um caparazão de malha brilhante para proteger-lhe o corpo dos arqueiros ingleses que, sem dúvida, estavamcolocando as cordas nos arcos nas trincheiras. — A auriflama, majestade — disse o duque. Devia ser um pedido, mas de algum modo parecia uma ordem. — A auriflama? — O rei fingiu não entender.

— Posso ter a honra, majestade, de levá-la na batalha? O rei suspirou. — Vocês têm em relação ao inimigo uma superioridade numérica de dez para um — disse ele — e por isso praticamente não precisam da auriflama. Deixe-a aqui. O inimigo já deve tê-la visto. E o inimigo iria ver o que a auriflama enrolada significava. Ela instruía os franceses a não fazer prisioneiros, a matar todos, embora não houvesse dúvida de que qualquer cavaleiro inglês rico ainda seria capturado em vez de morto, porque um cadáver não rendia resgate. Ainda assim, a bandeira de três tiras, enrolada, deveria incutir o terror nos corações ingleses. — Ela vai ficar aqui — insistiu o rei. O duque iniciou um protesto, mas naquele exato momento uma trombeta soou e os besteiros iniciaram a descida. Eles vestiam túnicas verde e vermelho, com o emblema do cálice de Gênova no braço esquerdo, e cada qual era acompanhado por um infante segurando um pavês, um escudo enorme que iria proteger o besteiro enquanto ele recarregava sua desajeitada arma. A uns oitocentos metros de distância, à margem do rio, ingleses corriam da torre para as trincheiras de terra que tinham sido cavadas há tantos meses, que agora estavam cobertas com uma camada espessa de capim e algas. — Você vai perder a sua batalha — disse o rei para o duque que, esquecendo o estandarte escarlate, girou o seu grande corcel protegido por armadura em direção aos homens de Sir Geoffrey. — Montjoie St. Denis! O duque soltou o grito de guerra da França e os timbaleiros bateram seus grandes timbales e uma dúzia de trombeteiros clamou seu desafio para os ares. Ouviram-se estalos quando as viseiras foramabaixadas. Os besteiros já estavam no sopé da encosta, espalhando-se para a direita a fim de envolver o flanco inglês. Então as primeiras flechas voaram: flechas inglesas, de penas brancas, adejando sobre a terra verde, e o rei, inclinando-se à frente em sua sela, viu que do lado do inimigo os arqueiros eram muito poucos. Em geral, sempre que os malditos ingleses combatiam, seus arqueiros estavam em superioridade numérica em relação a seus cavaleiros e soldados, no mínimo de três para um, mas o posto avançado de Nieulay parecia estar guarnecido, em sua maioria, por soldados. — Que Deus os acompanhe! — gritou o rei para seus soldados. Ele fora tomado por um súbito entusiasmo, porque sentia o cheiro da vitória. As trombetas tornaram a soar, e agora a onda metálica de soldados despejou-se encosta abaixo. Berravam o grito de guerra e o som tinha a concorrência dos tambores, que martelavam as peles de cabra esticadas, e dos trombeteiros que tocavam como se pudessem derrotar os ingleses apenas com o som. — Deus e São Denis! — gritava o rei. Os quadrelos agora voavam. Cada dardo curto de ferro era dotado de alhetas de couro, e estas faziam um chiado enquanto riscavam o ar em direção às trincheiras de terra.

Centenas de dardos voavam, e depois os genoveses foram para trás dos enormes escudos para manejar as lingüetas que tornavam a curvar os dardos reforçados com aço. Algumas flechas inglesas enfiavam-se nos paveses, mas então os arqueiros voltaram-se para o ataque de Sir Geoffrey. Colocaram flechas com ponta de estilete nas cordas, flechas que tinham na ponta sete ou dez centímetros de haste de aço que podia furar malha como se fosse pano. Eles puxavam e soltavam, puxavam e soltavam, e as flechas penetravam em escudos e nas fileiras cerradas francesas. Um dos homens foi atingido na coxa e cambaleou, e os soldados o cercaram e tornaram a cerrar fileiras. Um arqueiro inglês, de pé para disparar seu arco, foi atingido no ombro por uma seta de besta e sua flecha subiu alucinada. — Montjoie St. Denis! Os soldados berravam seu desafio enquanto a carga chegava ao terreno plano na base da encosta. As flechas entravam nos escudos com uma força desesperadora, mas os franceses mantinham a formação cerrada, escudo sobrepondo-se a escudo, e os besteiros chegavam mais perto para mirar nos arqueiros ingleses, que eram obrigados a ficar de pé em suas trincheiras para disparar suas armas. Um dardo trespassou um morrião de ferro e perfurou um crânio inglês. O homem caiu para o lado, o sangue escorrendo-lhe pela face. Uma rajada de flechas saiu do alto da torre e os dardos de bestas que respondiam bateram nas pedras enquanto os soldados ingleses, vendo que suas flechas não tinham detido o inimigo, ficaram em pé, espadas desembainhadas, para enfrentar a carga. — São Jorge! — gritavam eles, e então os atacantes franceses estavam na primeira trincheira e golpeavam os ingleses abaixo deles. Alguns franceses descobriram passagens estreitas que cortavam a trincheira e correram por elas para atacar os defensores pelas costas. Os arqueiros postados nas duas trincheiras mais recuadas tinham alvos fáceis, porém o mesmo acontecia com os besteiros genoveses que saíam de trás de seus paveses para despejar uma chuva de ferro sobre o inimigo. Alguns ingleses, sentindo a matança iminente, estavam deixando suas trincheiras para correr emdireção ao Ham. Edouard de Beaujeu, liderando os besteiros, viu os fugitivos e gritou para que os genoveses largassem as bestas e participassem do ataque. Eles sacaram espadas ou machados e lançaram-se em grande quantidade sobre o inimigo. — Matem! — gritava Edouard de Beaujeu. Ele montava um corcel e, a espada desembainhada, esporeou o animal para que avançasse. — Matem! Os ingleses a postos na trincheira avançada estavam condenados. Eles lutavam para proteger-se da massa de soldados franceses, mas as espadas, os machados e as lanças desciam com força. Alguns tentaram renderse, mas a auriflama estava erguida e aquilo significava que não deveria haver prisioneiros, de modo que os franceses encharcaram a lama pegajosa do fundo da trincheira comsangue inglês. Os defensores das trincheiras da retaguarda estavam todos correndo agora, mas os poucos cavaleiros franceses, aqueles que eram orgulhosos demais para lutar a pé, forçaram a passagem por entre seus próprios soldados e soltaram o grito de guerra enquanto lançavam seus grandes cavalos contra os fugitivos à margem do rio. Garanhões giravam enquanto espadas cortavam.

Um arqueiro perdeu a cabeça na margem do rio que, de repente, ficou vermelho. Um soldado gritou ao ser pisoteado por um corcel, e depois golpeou com uma lança. Um cavaleiro inglês ergueu as mãos, oferecendo uma manopla como sinal de rendição e foi derrubado por trás, a espinha perfurada por uma espada, e depois um outro cavalariano acertou-lhe o rosto com um machado. — Matem-nos! — berrava o duque de Bourbon, a espada molhada. — Matem-nos! — Ele viu umgrupo de arqueiros fugindo em direção à ponte e gritou para seus seguidores: — Comigo! Comigo! Montjoie St. Denis! Os arqueiros, quase trinta, tinham fugido em direção à ponte, mas quando chegaram ao grupo de casas de telhado de bambu à margem do rio, ouviram o tropel e voltaram-se, alarmados. Por uminstante, parecia que entrariam em pânico de novo, mas um homem os conteve. — Atirem nos cavalos, rapazes! — disse ele, e os arqueiros puxaram as cordas, soltaram, e as flechas com penas brancas penetraram nos corcéis. O garanhão do duque de Bourbon cambaleou para o lado quando duas flechas atravessaram sua armadura de malha e couro, e depois caiu enquanto outros dois cavalos eram derrubados, as patas agitando-se no ar. Os outros cavalarianos, por instinto, fizeram meia-volta, procurando alvos mais fáceis. O escudeiro do duque cedeu o cavalo ao seu amo e depois morreu quando uma segunda rajada inglesa chegou chiando da aldeia. O duque, em vez de perder tempo tentando montar no cavalo do escudeiro, afastou-se andando com dificuldade com sua preciosa armadura, que o tinha protegido as flechas. À frente dele, em torno da base da torre de Nieulay, os sobreviventes das trincheiras inglesas haviam formado uma parede de escudos que agora estava cercada por franceses vingativos. — Nada de prisioneiros! — gritou um cavaleiro francês. — Nada de prisioneiros! O duque pediu que seus homens o ajudassem a montar. Dois dos soldados do duque desmontaram para ajudar seu líder a montar o novo cavalo, e naquele exato momento ouviram o troar de patas. Voltaram-se e viram um grupo de cavaleiros ingleses que atacavam, vindo da aldeia. — Meu bom Jesus! O duque estava metade na sela e metade fora dela, a espada na bainha, e começou a cair para trás quando os homens que o ajudavam sacaram suas espadas. Que diabo, de onde tinham surgido aqueles ingleses? Então, seus outros soldados, no desespero de proteger o seu senhor, arriaram as viseiras e voltaram-se para enfrentar o desafio. O duque, esparramando-se na turfa, ouviu o estridor de cavaleiros vestindo armaduras. Os ingleses eram o grupo de homens que o rei francês tinha visto. Eles haviam feito uma parada na aldeia para assistir ao massacre nas trincheiras e estavam para atravessar de volta a ponte quando os homens do duque de Bourbon se aproximaram. Chegaram perto demais: um desafio que não podia ser ignorado. Por isso, o senhor inglês liderou seus cavaleiros numa carga que penetrou no grupo de homens do duque de Bourbon. Os franceses não se haviam preparado para o ataque, e os ingleses investiram com a disposição adequada, joelho tocando joelho, e as longas lanças de freixo, levadas erguidas enquanto atacavam, de repente baixaram para a posição de matar e atravessaram malha e couro.

O líder inglês usava um manto azul atravessado por uma tira branca diagonal na qual estavampintadas três estrelas vermelhas. Leões amarelos ocupavam o campo azul que de repente ficou preto com o sangue inimigo quando ele golpeou com a espada para cima, na axila desprotegida de umsoldado francês. O homem tremeu de dor, tentou golpear com a espada, mas então um outro inglês meteu uma maça na sua viseira, que amassou com o golpe e projetou sangue de umas doze rachaduras. Um cavalo jarretado berrou e caiu. — Fiquem juntos! — gritava para seus homens o inglês com o manto vistoso. — Fiquem juntos! O cavalo dele empinou, agitando as patas para um francês que fora derrubado da montaria. Aquele homem caiu, elmo e crânio esmagados por uma ferradura, e aí o cavaleiro viu o duque em pé, indefeso, ao lado de um cavalo; reconheceu o valor da armadura do homem, que brilhava, e girou seu cavalo na direção dele. O duque desviou com o escudo o golpe da espadas brandiu a dele, que vibrou contra a armadura da perna do inimigo, e de repente o cavalariano foi embora. Um outro inglês tinha puxado o cavalo do seu líder para longe. Uma massa de cavaleiros franceses descia a montanha. O rei os mandara na esperança de capturar o senhor inglês e seus homens, e ainda mais franceses, impossibilitados de participar do ataque à torre porque um número demasiado de seus companheiros se reunia para ajudar a matar o que restava da guarnição, agora atacavam a ponte. — Voltem! — berrou o líder inglês, mas a rua da aldeia e a estreita ponte estavam bloqueadas por fugitivos e ameaçadas por franceses. Ele poderia abrir caminho à força, mas isso significaria matar seus próprios arqueiros e perder alguns de seus cavaleiros no pânico caótico, de modo que, em vez disso, olhou para o outro lado da estrada e viu uma trilha que corria junto ao rio. Pensou que ela poderia levar à praia e, lá, talvez ele pudesse dobrar e seguir para o leste e voltar para as linhas inglesas. Os cavaleiros ingleses cutucaram forte com as esporas. A trilha era estreita, só dois cavaleiros podiam cavalgar juntos; de um lado estava o rio Ham e, do outro, um trecho de terreno alagadiço, mas a trilha era firme e os ingleses seguiram por ela até alcançar um trecho de terreno mais alto, onde puderam se reunir. Mas não poderiam escapar. O pequeno trecho de terreno mais elevado era quase uma ilha, que só podia ser atingido pela trilha e estava cercado por um atoleiro de junco e lama. Eles estavam encurralados. Cem cavaleiros franceses estavam prontos para segui-los pela trilha, mas os ingleses tinhamdesmontado e feito uma parede com os escudos, e a idéia de forçar a passagem por aquela barreira de aço convenceu os franceses a regressar à torre, onde o inimigo era mais vulnerável. Arqueiros ainda disparavam das defesas, mas os besteiros genoveses reagiam, e agora os franceses lançaram-se contra os soldados ingleses formados aos pés da fortificação. Os franceses atacaram a pé. O terreno estava escorregadio por causa da chuva de verão, e os pés revestidos com cota de malha transformavam-no em lama enquanto os soldados na dianteira berravam seu grito de guerra e atiravam-se contra os ingleses que estavam em inferioridade numérica. Aqueles ingleses tinham colado seus escudos uns nos outros e empurravam-nos para a frente a fim de enfrentar a carga. Houve um entrechoque de aço e madeira, um grito quando uma lâmina enfiou-se por baixo da beira de um escudo e achou carne.

Os homens da segunda fileira inglesa, que era a retaguarda deles, brandiram maças e espadas por sobre a cabeça de seus companheiros. — São Jorge! — ergueu-se um grito. — São Jorge! — E os soldados inclinavam-se à frente a fimde tirar os mortos e os moribundos de seus escudos. — Matem os bastardos! — Matem-nos! — gritou Sir Geoffrey de Charny em resposta, e os franceses voltaram, aos tropeções devido às cotas de malha e às armaduras, passando pelos feridos e mortos, e dessa vez os escudos ingleses não estavam com as bordas encostadas umas nas outras, e os franceses encontrarambrechas. Espadas batiam em armaduras, atravessavam malhas, batiam em elmos. Uns poucos defensores que restavam tentavam fugir para o outro lado do rio, mas os besteiros genoveses os perseguiram, e foi uma simples questão de segurar dentro d’água um homem vestindo uma armadura, até que ele morresse afogado, e depois saquear-lhe o corpo. Uns poucos fugitivos ingleses saíramcambaleantes na outra margem, indo para onde uma linha de combate inglesa formada por arqueiros agrupava-se para repelir qualquer ataque vindo do outro lado do Ham. Lá na torre, um francês com um machado de batalha golpeava repetidas vezes um inglês, abrindo a ombreira que protegia o ombro direito, cortando a malha que estava por baixo, batendo no homem a ponto de fazê-lo acocorar-se, e ainda assim os golpes continuaram até que o machado tivesse aberto o peito do inimigo e houvesse um esvaziar de costelas brancas entre a carne moída e a armadura cortada. Sangue e lama formavam uma pasta sob os pés. Para cada inglês havia três inimigos, e a porta da torre tinha sido deixada destrancada, para dar aos homens que estavam fora um lugar para o qual pudessem recuar, mas em vez disso foram os franceses que forçaram a entrada. Os últimos defensores que se encontravam fora da torre foram abatidos e mortos, enquanto que lá dentro os atacantes começavam a subir as escadas lutando. Os degraus voltavam-se para a direita à medida que subiam. Aquilo significava que os defensores podiam usar o braço direito sem problemas, enquanto os atacantes ficavam sempre prejudicados pelo grande pilar central da escada, mas um cavaleiro francês com uma lança curta fez a primeira investida e eviscerou um inglês com a lâmina antes de outro defensor matá-lo com um golpe de espada por cima da cabeça do moribundo. Ali, as viseiras foram erguidas, porque estava escuro na torre e não era possível enxergar com os olhos meio cobertos de aço. com isso, os ingleses golpeavam olhos franceses. Soldados puxavam os mortos dos degraus, deixando uma trilha de entranhas, e então mais dois homens atacaram escada acima, escorregando em fezes. Aparavam golpes ingleses, enfiavam as espadas em virilhas, e ainda mais franceses entravam pela torre. Umgrito horrível encheu o poço da escada e depois outro corpo ensangüentado foi jogado para baixo e para fora do caminho: outros três degraus ficaram livres e os franceses tornaram a avançar subindo. — Montjoie St. Denis! Um inglês, segurando um martelo de ferreiro, desceu a escada e bateu em elmos franceses, matando um homem ao esmagar-lhe o crânio e fazendo os outros recuarem até que um cavaleiro teve a idéia de agarrar uma besta e avançar sorrateiramente escada acima até conseguir uma visão livre de empecilhos. O dardo atravessou a boca do inglês e ergueu a parte posterior do crânio. Os franceses avançaram de novo, com gritos de ódio e vitória, pisoteando o moribundo com os pés sujos de dejetos e levando suas espadas ao alto da torre. Lá, doze homens tentaram empurrálos de volta escada abaixo, mas ainda havia mais franceses subindo. Eles forçaram os atacantes que iam à frente contra as espadas dos defensores e os homens que vinham em seguida passaram desajeitados por cima dos moribundos e dos mortos para aniquilar o que restava da guarnição. Todos os homens foram abatidos.

Um arqueiro viveu o suficiente para ter os dedos decepados, depois os olhos arrancados, e ainda estava gritando quando foi atirado da torre sobre as espadas que aguardavam lá embaixo. Os franceses ovacionaram. A torre era uma capela mortuária, mas o estandarte da França iria ser hasteado em suas defesas. As trincheiras tinham-se tornado sepulturas para os ingleses. Homens vitoriosos começaram a tirar as roupas dos mortos à procura de moedas, quando soou uma trombeta. Ainda havia alguns ingleses no lado francês do rio: cavaleiros encurralados num pedaço de terreno mais firme. De modo que a matança ainda não acabara.

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