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A Caca ao Tesouro – Andrea Camilleri

Que Gregorio Palmisano e sua irmã Caterina eram beatos de igreja desde jovens era fato mais que conhecido em toda a cidade. Não perdiam uma função matinal, uma santa missa, um ofício de vésperas e às vezes apareciam na igreja sem motivo algum, só porque tinha dado na telha. Para os Palmisanos, o leve perfume de incenso que pairava na igreja depois da missa e o odor de cera das velas eram melhor que o cheiro de um guisado para alguém que não come há dez dias. Sempre ajoelhados na primeira fila, não abaixavam a cabeça durante as preces: ficavam de cabeça em pé e de os olhos bem abertos. Mas não olhavam nem para o grande crucifixo em cima do altarmor nem para a madona sofrida a seus pés: não, não tiravam os olhos do padre nem por um segundo, de tudo que ele fazia, como fazia, como virava as páginas da bíblia, como abençoava, como mexia os braços ao dizer domino vobisco e encerrava a função com o ite, missa est. A verdade verdadeira era que sempre quiseram ser padres, todos os dois, vestir túnicas, estolas e paramentos, abrir a portinhola do tabernáculo, segurar o cálice de prata, dar a comunhão aos devotos. Os dois, inclusive Caterina. Conta-se que quando Caterina disse à mãe, Matilde, o que queria fazer quando crescesse, foi logo peremptoriamente corrigida. — Você quer dizer freira. — Não, mamãe, padre! — O quê? E por que quer ser padre e não freira? — perguntou dona Matilde, rindo. — Por que o padre pode rezar missa e a freira não. Mas eles foram obrigados a ajudar o pai, que vendia suprimentos no atacado, estocados em três grandes armazéns, um ao lado do outro. Com a morte dos pais, Gregorio e Caterina mudaram de mercadoria e no lugar de massas, tomates em conserva e merluza salgada começaram a vender peças de antiquário. Quem arranjava a mercadoria era Gregorio, vasculhando as velhas igrejas das aldeias vizinhas e as mansões parcialmente arruinadas dos que um dia foram nobres ricos e hoje não passavam de mortos de fome. Um dos três armazéns estava cheio de crucifixos, desde aqueles para pendurar no pescoço numa correntinha até os de tamanho real. E havia pelo menos umas três cruzes nuas, idênticas, enormes e bastante pesadas, destinadas a ser carregadas nas costas pelos penitentes nas procissões da semana santa, enquanto eram chicoteados pelos cruéis centuriões romanos. Quando ele fez 70 e ela 68 anos, tinham vendido os três armazéns, mas não sem garantir que uma quantidade do material fosse levada durante a noite para a casa deles, no último andar de um edifício ao lado da prefeitura. Era um apartamento com seis cômodos espaçosos e um terraço que eles não costumavam usar, uma casa grande demais para dois irmãos que nunca se casaram e não tinham nem sobrinhos. Sua fixação religiosa aumentou ainda mais com o fato de que já não tinham nada para fazer: só saíam para ir à igreja, lado a lado, a passos rápidos, cabeça baixa, sem responder a nenhumcumprimento. E voltavam em seguida para se trancar em casa, as persianas sempre fechadas, como se estivessem eternamente de luto. Quem lhe fazia as compras era uma mulher que costumava limpar os armazéns, mas ela não podia entrar na casa deles. De manhã, a mulher sempre encontrava uma folhinha de papel presa na porta, com uma tachinha, na qual Caterina escrevia a lista das coisas de que precisava e, embaixo do tapete, o dinheiro necessário. Quando voltava, colocava as sacolas no chão, batia e avisava, antes de dar meia-volta: — As compras! Não tinham televisão e quando ainda mantinham o antiquário, ninguém jamais os viu lendo umlivro ou um jornal, só o breviário, como fazem os padres. Passados dez anos, as coisas mudaram. Os Palmisanos não saíam mais de casa, não apareciammais na igreja, nunca mais se debruçaram nas varandas, nem mesmo quando passava a procissão do padroeiro da cidade.


O único contato com o mundo exterior, por voz e papelzinho, era com a mulher das compras. Certa manhã, os vigatenses viram que entre a primeira e a segunda varanda dos Palmisanos tinha aparecido uma grande faixa branca com uma inscrição em letras maiúsculas: ARREPENDAM-SE, PECADORES! Uma semana depois, entre a segunda e a terceira varanda, apareceu outra: NÓS PUNIREMOS OS PECADORES!! E, na semana seguinte, uma terceira, que dessa vez cobria inteiramente o parapeito do terraço e era a maior de todas: VOCÊS VÃO PAGAR SEUS PECADOS COM A VIDA!!! Quando viu a terceira faixa, Montalbano ficou preocupado. — Não me faça rir! — disse Mimì Augello. — São dois pobres velhos caducos com mania de religião! — Não sei, não! — Não sabe o quê? — Os pontos de exclamação. De um viraram três. — E daí? — Sinal de que estavam dando um prazo aos pecadores e de que esse é o último aviso. — Mas quem serão esses tais pecadores? — Somos todos pecadores, Mimì, esqueceu? Sabe se Gregorio Palmisano tem porte de arma? — Vou verificar. Voltou quase imediatamente, com uma expressão sombria no rosto. — Tem porte de arma. Requisitou quando era antiquário e teve o pedido concedido. Um revólver. E registrou mais dois fuzis de caça e uma pistola que pertenceram ao pai. — Escute, pergunte a Fazio que igreja eles frequentavam e vá conversar com o vigário amanhã. — Mas o vigário está sob segredo confessional! — Mas você não vai bisbilhotar os segredos de ninguém, vai apenas perguntar até que ponto pode ir a loucura dos dois, se o padre acha que são perigosos ou não. Enquanto isso, vou ligar para o prefeito. — Para quê? — Para pedir que mande um guarda à casa dos Palmisanos para retirar aquelas faixas. O guarda comunal Landolina se apresentou na casa dos Palmisanos por volta das sete da noite. Como tinha jogo do Palermo logo depois do telejornal, queria se livrar logo daquele assunto, voltar para casa, comer e se instalar na poltrona. Bateu, mas ninguém atendeu. Como Landolina, além de ser um sujeito teimoso e escrupuloso, não queria perder tempo, não só continuou a bater com toda a força com o punho fechado, como tambémcomeçou a chutar a porta até que uma velha voz masculina deu sinal de vida: — Quem é? — Polícia municipal! Abra! — Não. — Abra imediatamente! — Saia da minha porta, seu guarda, que será melhor para você! — Deixe de ameaças e abra logo essa porta! Gregorio não mais ameaçou, simplesmente disparou um tiro de revólver através da porta. A bala passou de raspão pela cabeça de Landolina, que deu as costas e saiu correndo. Quando chegou à rua principal, depois de descer a escada, o guarda deu de cara com um correcorre de gente entre gritos, lamentos, blasfêmias e preces. Gregorio e Caterina tinham começado a atirar, em dois balcões diferentes, contra as pessoas que passavam pela rua. Foi assim que começou o assédio das forças da ordem, quero dizer, de Montalbano, Augello, Fazio, Gallo e Galluzzo, ao forte dos Palmisanos.

A multidão de curiosos era grande, mas foi mantida à distância pelos guardas municipais. Depois de uma hora, chegaram também os jornalistas e as equipes de TV locais. Às dez da noite, considerando que nem mesmo o vigário, munido de um alto-falante, tinha conseguido convencer os dois velhos paroquianos a se render, Montalbano chegou à conclusão que teriam de invadir o forte. Mandou Fazio verificar como poderiam chegar ao terraço, talvez pelo teto ou por algum dos apartamentos vizinhos. Fazio voltou depois de uma hora de busca conscienciosa dizendo que não tinha jeito: de nenhum dos apartamentos da vizinhança era possível chegar ao teto ou ao terraço. Então o comissário pegou o celular e ligou para Catarella. — Ligue imediatamente para os bombeiros de Montelusa… — Pegou fogo, doutor? — Deixe-me acabar! Peça que tragam uma escada que chegue até o quinto andar de um edifício. — Pegou fogo no quinto andar? — Não tem fogo nenhum! — E então por que está chamando os bombeiros? — perguntou Catarella com sua lógica implacável. Blasfemou, desligou, digitou o número dos soldados do fogo e, depois de se apresentar, disse o que queria. O telefonista perguntou: — Agora? — Claro! — O problema é que as escadas estão ocupadas. Só poderão chegar a Vigàta daqui a uma horinha, mais ou menos. Quanto aos holofotes, não tem problema. Vou mandar agora mesmo. O agora mesmo significou mais uma hora perdida. De vez em quando, os Palmisanos disparavam um tiro de fuzil ou de revólver, só para não perder o costume. A viatura com os holofotes chegou, posicionou-se e ligou a luz. Toda a fachada do edifício foi inundada por um violento clarão azulado. — Obrigada, Dr. Montalbano! — disseram os operadores de TV. Parecia mesmo que iam gravar um filme. A escada, porém, só chegou depois da uma da madrugada e foi estendida até alcançar o parapeito coberto pela faixa. — Vou subir — disse o comissário. — Você vem atrás de mim, Fazio. Mimì, pegue Gallo e Galluzzo e fique na porta. Enquanto eu trato de mantê-los ocupados lá no terraço, vocês tentamarrombar e entrar.

Assim que colocou o pé no primeiro degrau, Gregorio, que surgiu de repente atrás da faixa, disparou um tiro de revólver em sua direção e desapareceu de novo. Montalbano correu procurando abrigo atrás de um portão e disse a Fazio: — É melhor eu subir sozinho. Você fica na rua e me dá cobertura. Assim que Fazio disparou o primeiro tiro, que fez um furo na faixa, o comissário galgou o primeiro degrau. Segurava a escada só com a mão esquerda, pois a direita estava ocupada com o revólver, e subia cautelosamente. Já estava na altura do quarto andar quando Gregorio reapareceu apesar da fuzilaria de Fazio e disparou um tiro de revólver que passou raspando. Instintivamente, Montalbano encolheu a cabeça entre os ombros e, nesse movimento, acabou olhando para baixo, na direção da rua. De repente, um suor gelado cobriu seu corpo, e sua cabeça começou a girar tanto que teve medo de despencar. Uma ânsia de vômito chegou à garganta. Era vertigem. Nunca tinha sofrido de vertigem na vida e, certamente por causa da idade, ela resolveu aparecer, justamente agora, quando não devia. Ficou um longo minuto sem conseguir se mexer, com os olhos fechados, mas depois, cerrando os dentes, retomou a subida, ainda mais lentamente do que antes. Quando chegou à altura do parapeito, esticou-se bruscamente, pronto para atirar, mas num golpe de vista viu que o terraço estava completamente deserto. Gregorio tinha entrado em casa, fechando a porta-balcão. Com certeza estava bem ali atrás da veneziana, com o revólver em punho. — Desliguem os holofotes! — gritou. E saltou dentro do terraço, caindo deitado no chão. O tiro de Gregorio chegou pontualmente, mas o apagão repentino da luz forte do holofote o deixou cego e ele atirou a esmo. Montalbano atirou de volta, mas também não via nada. Depois, pouco a pouco, sua visão foi voltando ao normal. Nem lhe passou pela cabeça a ideia de levantar e correr atirando até a porta. Dessa vez, Gregorio acertaria o alvo com certeza. Enquanto pensava no que fazer, Fazio pulou o parapeito e deitou ao seu lado. Agora, ouviram tiros de fuzis vindos do interior. — É Caterina, que está atrás da porta de entrada atirando em nós — disse Fazio em voz baixa.

No terraço não havia absolutamente nada, nem um vaso de flores, uma corda com roupa estendida para secar, qualquer coisa que pudesse servir de proteção: nada de nada. No entanto, encostadas no muro, havia três ou quatro longas varas de ferro, talvez restos de um velho gazebo. — O que vamos fazer? — perguntou Fazio. — Corra e pegue um daqueles ferros. Se a ferrugem não destruiu tudo, use para arrombar a porta. Deixe o revólver comigo. Pronto? Um, dois, três, já! Levantaram e Montalbano começou a atirar com as duas armas, sentindo-se meio ridículo, parecia um xerife de filme americano. Em seguida, juntou-se a Fazio, que usava a vara de ferro como alavanca, e continuou a atirar, agora através da veneziana. Finalmente, a porta do terraço cedeu, escancarando-se, e os dois penetraram numa escuridão quase total, pois a enorme sala em que entraram era iluminada apenas por um lampião a querosene que estava em cima de uma mesinha. Fazia muito tempo que não usavam luz elétrica naquela casa, com certeza tinha sido cortada. Onde teria se escondido o velho maluco? Ouviram dois disparos de fuzil a certa distância. Era Caterina que respondia às tentativas de Mimì, Gallo e Galluzzo de arrombar a porta da frente. — Tente pegá-la pelas costas — disse Montalbano a Fazio, devolvendo a pistola. — Vou procurar Gregorio. Fazio desapareceu por uma porta que dava para o corredor. Mas havia outra porta na sala, fechada, e o comissário teve certeza de que o velho estava lá. Aproximou-se na pontinha dos pés, girou a maçaneta da porta que abriu um pouquinho. A esperada fuzilaria não aconteceu. Então, escancarou de uma só vez, colocando-se de lado. Não houve nenhuma reação. O que estaria fazendo Fazio? Por que a velha continuava atirando? Respirou profundamente e entrou, inclinado, pronto para atirar. E, de repente, não sabia mais onde estava. Havia uma espécie de floresta dentro do quarto, mas feita de quê? Finalmente entendeu e ficou paralisado por um pavor irracional. À luz de outro lampião de querosene, viu dezenas e dezenas de crucifixos, de tamanhos variados, desde um metro até quase tocar o teto, presos em bases de madeira e formando, justamente, uma mata fechada, pois estavam arrumados de modo que se encaravam reciprocamente e o braço de cada cruz cruzava o braço com a cruz a seu lado, enquanto outra, mais baixa, estava de costas, frente a frente com outra da mesma altura, e assim por diante. O comissário logo se convenceu de que Gregorio não estava lá: certamente não iria se meter a atirar ali dentro, correndo o risco de atingir algum crucifixo.

Mas ele não conseguia andar, estava assustado como um menino que, sem mais nem menos, se viu sozinho numa igreja vazia, iluminada apenas por algumas velas. No fundo do quarto, havia uma porta aberta, pela qual passava a luz fraca de outro lampião de querosene. Olhava para a maldita porta, mas não conseguia dar um passo. O que fez com que começasse a travessia do bosque de cruzes foi um grito de Fazio no meio do pavoroso guincho de rato que eram os berros desesperados de Caterina. — Peguei a velha, doutor! Deu um pulo para a frente, ziguezagueando entre os crucifixos, esbarrou num deles, que balançou mas não caiu, e atravessou a porta. Era um quarto com uma cama de casal. Gregorio apontou o revólver e atirou, enquanto o comissário se jogava no chão. Ouviu o clique do percussor, anunciando que a arma estava descarregada. Montalbano levantou. O velho, um esqueleto, de estatura alta, cabelos brancos até as costas, completamente nu, olhava desorientado para o revólver em sua mão. Com um pontapé, Montalbano jogou a arma no chão. Gregorio começou a choramingar. Logo depois, o comissário percebeu, quase imobilizado de horror, que a cabeça de uma mulher com longos cabelos castanhos repousava sobre um dos travesseiros. O lençol cobria o resto do corpo. Compreendeu imediatamente que se tratava de um corpo sem vida. Aproximou-se da cama para ver melhor e ouviu Gregorio ordenar, com uma voz áspera: — Não ouse se aproximar da esposa que Deus me deu! Ergueu o lençol. Era uma boneca inflável decrépita, que já tinha perdido uma parte dos cabelos, com um olho só e um dos peitos murcho. Tinha o corpo marcado, cá e lá, por círculos e retângulos de borracha cinzenta. Estava claro que, quando aparecia um furo, devido à velhice, Gregorio tratava de remendar a boneca. — Onde você está, Salvo? Era a voz de Augello. — Aqui, está tudo bem. Ouviu um barulho estranho e olhou para o quarto ao lado. Munidos de potentes lanternas a pilha, Gallo e Galluzzo estavam afastando os crucifixos para formar um corredor. E, quando terminaram, Montalbano viu Mimì e Fazio avançando entre uma ala de crucifixos, segurando Caterina à força. Ela se debatia, sempre com seu chiado de rato.

Parecia saída diretamente de um livro de terror. Usava uma camisola suja e toda furada, os cabelos brancos amarelados e arrepiados, os olhos redondos esbugalhados, gordíssima, baixa, umúnico e longo dente sobressaindo no meio da baba que escorria da boca. — Maldito! — disse Caterina, olhando para Montalbano com olhos de louca. — Vai queimar vivo nas chamas do inferno! — Conversaremos mais tarde — respondeu o comissário. — Acho que devíamos chamar uma ambulância — sugeriu Mimì. — E mandar os dois diretamente para o manicômio ou coisa que o valha. — Na cela é que não dá para eles ficarem — reforçou Fazio. — Está bem, chamem a ambulância e podem levá-los. Agradeçam aos bombeiros e digam que já podem ir. A porta foi arrombada? — Não foi preciso, eu mesmo abri por dentro — disse Fazio. — E você, o que vai fazer? — perguntou Augello. — Ela estava com os dois fuzis? — perguntou a Fazio, em vez de responder. — Estava. — Então deve haver mais uma arma na casa, a pistola do pai deles. Quero dar uma olhada. Podemir, mas deixem uma das lanternas comigo. Quando ficou sozinho, Montalbano enfiou o revólver no coldre e deu um passo. Em seguida, pensou melhor e pegou a arma de volta. Tudo bem, não havia mais ninguém, mas aquela casa era assustadora. A luz da lanterna projetou sobre as paredes a sombra dos crucifixos, que pareciam gigantescos. Montalbano atravessou o corredor aberto por seus homens quase correndo e foi parar na sala que dava para o terraço. Saiu, pois precisava de um pouco de ar puro. E embora a fumaça da fábrica de cimento e a gasolina dos carros tivesse emporcalhado o ar da cidade, parecia o ar puro da montanha comparado ao que se respirava dentro da casa dos Palmisanos. Retornou um pouco depois e dirigiu-se para a porta que dava para o corredor. Logo à esquerda, havia três quartos seguidos.

A parede da direita não exibia nenhuma abertura. O primeiro era o quarto de Caterina. Em cima da cômoda, sobre a mesa de cabeceira e da estante, espremiam-se milhares de estatuetas da madona, cada uma com uma velinha acesa na frente. Pregados nas paredes, mais uma profusão de santinhos, sempre da madona. Embaixo de cada santinho, havia um pequeno apoio de madeira com uma velinha acesa. Parecia um cemitério à noite. A porta do segundo quarto estava fechada, mas com a chave na fechadura. O comissário girou a chave, abriu e entrou. A escuridão era total. À luz da lanterna, viu que era um quarto bem maior e estava cheio de pianos, dois ou três de cauda e um com a tampa do teclado aberta. Enormes teias de aranha brilhavam entre um piano e outro. Depois, de repente, um dos pianos de cauda soou. E enquanto Montalbano gritava de susto e dava um passo atrás, seus ouvidos puderam ouvir toda a escala musical, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Será que aquela maldita casa estava cheia de mortos-vivos? Espíritos? Suado, com o revólver em punho tremendo levemente, conseguiu encontrar forças para levantar o braço e iluminar novamente o quarto. Finalmente, o pianista fantasma apareceu. Era umrato enorme que corria loucamente de um piano ao outro. Deve ter passado pela tampa do teclado do piano, que estava aberta. A terceira peça era a cozinha. Fedia tanto que o comissário não teve coragem de entrar. Mandaria algum de seus homens procurar a pistola. Quando voltou à rua, não havia mais ninguém. Caminhou em direção ao seu carro, estacionado perto da prefeitura, deu partida e tomou o caminho de Marinella. Tomou uma bela chuveirada, mas depois não foi deitar. Preferiu ficar um tempo sentado na varandinha. E foi assim que, em vez de ser despertado pelas primeiras luzes do dia, como sempre, ele viu o dia despertar.

Dois E foi assim que resolveu não ir dormir: duas ou três horas de sono certamente não serviriam de nada, ao contrário, fariam com que ele se sentisse ainda mais sonolento. No fundo, pensou enquanto ia para a cozinha preparar mais um bule de café, a história que aconteceu naquela noite era praticamente um pesadelo que vem à tona num relâmpago quando a gente acorda. Durante o dia, o pesadelo ainda perdurava na memória, mas cada vez mais esmaecido, tanto que depois de uma noite de sono ele começa a sumir: é cada vez mais difícil relembrar, algumas imagens e detalhes vão se perdendo e tudo se transforma num mosaico construído pelo tempo, comgrandes manchas cinzentas na parede, onde ficavam as peças coloridas que se perderam. Portanto, você só precisa de mais 24 horas de paciência e vai esquecer tudo o que aconteceu e o que viu na casa dos Palmisanos. Mas, naquele momento, não havia como tirar da cabeça a forte impressão que aquele apartamento tinha lhe causado. A floresta de crucifixos, a boneca inflável que envelheceu junto com seu dono, o salão de pianos com as teias de aranha, o rato pianista, as luzes trêmulas dos lampiões a querosene… e Gregorio nu e seco como um esqueleto… e Caterina com seu único dente… Nada mau para um filme de terror. O problema é que não se tratava de ficção, mas de verdade verdadeira, de realidade. Talvez não faltasse nem uma única vírgula para que aquela realidade absurda se transformasse em ficção. Mas o verdadeiro problema, que ele tentava esconder com aquela história de pesadelo, de ficção, consistia numa questão que não queria enfrentar, isto é: na diferença de comportamento entre ele e seus homens. E também não foi desta vez que enfrentou a questão, pois o café tinha ficado pronto. Levou a bebida para a varada, sentou e tomou a primeira xícara do segundo bule. Observou demoradamente o céu, o mar, a praia. O dia que estava nascendo precisava ser saboreado aos poucos, como uma geleia bem doce. — Bom dia, comissário — cumprimentou o habitual pescador solitário e madrugador, que já estava trabalhando em seu barco. Respondeu levantando o braço. — Boa pesca! — disse. — Posso falar? — disse Montalbano segundo, surgindo de repente e atacando sem esperar resposta. — O problema que está tentando evitar pode ser reduzido a duas perguntas. A primeira é: por que Gallo e Galluzzo não se assustaram nem um pouco com o bosque de crucifixos, mas, ao contrário, trataram de abrir caminho com certa indiferença? A segunda é: por que Mimì Augello não ficou impressionado quando viu a boneca inflável e até achou graça pensando que Gregorio era mesmo um velho safado? — Bem, cada um é do jeito que é e se comporta de acordo com isso — disse Montalbano primeiro, desprotegido. — Isso é verdade, mas é uma banalidade. O problema é que houve um tempo na vida do nosso comissário em que ele teria reagido exatamente como Gallo e Galluzzo diante dos crucifixos e Mimì diante da boneca. Um tempo. — Vamos acabar com isso? — exigiu Montalbano, entendendo aonde o outro queria chegar. — Quero concluir. A meu ver, o senhor comissário mudou desde então por culpa da velhice, mas tem muita dificuldade, ou melhor, se recusa a admitir isso.

Por exemplo: é como se tivesse passado por um transplante de olhos. — Mas que história é essa? — Sei muito bem que ainda não existem transplantes de olhos. Foi a velhice quem fez essa operação no comissário. E, agora, ele tem olhos diferentes, aninhados numa cabeça que envelhece. — Diferentes em que sentido? — Muito mais sensíveis. Não vê apenas as coisas, mas às vezes percebe o halo que envolve essas coisas: é como um leve vapor aquoso que sai deles e… — E, na sua opinião, qual era o halo que envolvia a boneca inflável? — perguntou Montalbano primeiro, em tom desafiador. — O halo do desespero, da solidão. O halo de um homem só, que passa as noites abraçado a uma boneca inerte, alimentando a ilusão de que é uma criatura viva, e que talvez a chame de meu amor. — Vamos às conclusões. — Em conclusão, sua frieza começou a falhar, seu distanciamento diante dos fatos. Está se deixando envolver, perturbar. Antes, talvez se deixasse pegar de vez em quando, mas agora ficou muito, como direi, muito vulnerável. — Agora chega! — disse Montalbano, levantando bruscamente. — Já encheu meu saco! Ao contrário do que tinha resolvido antes, foi tirar duas horinhas de sono e, quando o despertador tocou, levantou completamente atordoado, como previsto. Uma boa ducha, acertar a barba e colocar roupa de baixo limpa contribuíram para uma melhora, deixando-o pelo menos em condições de comparecer ao gabinete. Quando entrou, Catarella saltou na sua frente e começou a bater palmas. — Bravo, doutor! Bravo! — O que houve com você? Estamos no teatro, por acaso? — Ah, doutor! Que coragem, minha Nossa Senhora, que agilidade! Que esperteza! Parecia até um equilibrista de circo! — Quem? — O senhor doutor mesmo, em pessoa! Melhor que filme! Hoje de manhã, a televisão mostrou tudo que fez ontem! — Eu?! — Claro, doutor, o senhor mesmo! Subindo a escada dos bombeiros de revólver em punho, sabe a cara de quem o senhor estava? — Não. — Bruçuílis, igualzinho, idêntico. Sabe quem é? Aquele ator que sempre vence nos tiroteios, com prédios pegando fogo e navios afundando. — Está bem, acalme-se e mande Fazio vir à minha sala. Só me faltava mais essa droga de amolação! Pelo jeito a metade da cidade que não tinha visto nada à noite, ao vivo, agora podia curtir com a sua cara reprisada na televisão! Bruce Willis! Imagine! Estava muito mais para irmãos Marx! — Bom dia, doutor. — Como acabou a história com os Palmisanos? — Como poderia acabar? O promotor de justiça Tallarita caiu em cima deles com vontade. Resistência à prisão, tentativa de homicídio múltiplo, tentativa de massacre… — Para onde foram levados? — Para uma clínica psiquiátrica, com vigilância permanente. — Acho um pouco excessivo, sem armas o que poderiam… — Doutor, sabe o que Caterina fez com um dos enfermeiros? — O quê? — Rachou a cabeça dele com uma cadeira! — Por quê? — Por que dava para ver que era árabe e, portanto, segundo ela, inimigo de Deus. — Ouça, mande alguém procurar uma pistola escondida em algum lugar do apartamento dos Palmisanos.

— É pra já. Vou mandar Galluzzo e mais dois. Uma meia hora depois, Fazio bateu e entrou. — Desculpe, doutor, mas o senhor trancou a porta quando saiu do apartamento dos Palmisanos ontem à noite? Deixei as chaves na fechadura quando abri para o Dr. Augello. Montalbano pensou um pouco. — Não consigo lembrar se fechei ou não. Por quê? — Porque Galluzzo acabou de ligar dizendo que encontrou a porta dos Palmisanos escancarada. — Levaram alguma coisa? — Galluzzo acha que não, que está do jeitinho que estava ontem, tudo revirado. Mas quem pode ter certeza no meio daquela zona? Minhas melhores congratulações, senhor comissário, pela coragem suprema, pelo grande desprezo pelo perigo que demonstrou ao ficar sozinho na famigerada casa dos horrores. A longa luta contra o terrível rato pianista deixou-o tão esgotado que precisou sair às pressas, esquecendo-se até de fechar a porta. Nada mau. Mais uma vez, parabéns. — Tem uma coisa que me deixa curioso, Fazio. — Diga, doutor. — Você não ficou impressionado, ficou? Com a casa? — Nem me fale, doutor. Quando vi aquele salão entupido de crucifixos, desculpe a má palavra, quase me caguei todo, quase! Teve vontade de abraçá-lo, o bom Fazio. Todos ficaram impressionados, assustados. Só que não deram na vista. E, portanto, todas as suas conclusões matinais tinham sido inúteis. Foi almoçar no Enzo à uma da tarde. Estava com uma baita fome. Devido ao pandemônio da noite anterior, não teve tempo nem para jantar. Sentou à mesa de sempre. A televisão estava ligada e sintonizada na Televigàta.

O som estava bem baixinho, quase não dava para ouvir, mas aquelas imagens eram do apartamento dos Palmisanos. Algum jornalista babaca deve ter aproveitado que ele tinha deixado a porta aberta para entrar e filmar a casa dos dois velhos malucos. Evidentemente, teve de usar uma luminária a bateria e a luz enviesada fazia com que crucifixos e pianos brotassem da escuridão reinante ainda mais sinistros, ameaçadores, perigosos, exatamente como achou que eram na noite anterior. — Bom dia, doutor. Já fez seu pedido? — Volte em cinco minutos. Agora o cinegrafista tinha entrado no quarto de Gregorio. E ficou pelo menos cinco minutos filmando a boneca inflável, mostrando-a primeiro por inteiro e passando em seguida para os detalhes, os cabelos ralos, o olho perdido, a cara amassada, exibindo um por um os remendos colocados por Gregorio para que ela não murchasse, que pareciam pequenas feridas cobertas com esparadrapo. — E então, o que vai ser? E não é que o apetite tinha desaparecido de uma hora para outra? Comeu tão pouco que nem precisou fazer seu habitual passeio de meditação. Voltou para o gabinete e encarou a pilha de cartas que tinha para assinar. Não acontecia nada de substancial havia pelo menos um mês. Claro, a história dos Palmisanos foi bastante movimentada, às vezes tragicômica, mas não teve consequências, terminou sem mortos ou feridos. Para dizer a verdade, chegou a pensar várias vezes durante o mês em tirar alguns dias de folga para ficar com Livia, emBoccadasse. Mas acabava sempre desistindo, imaginando que um imprevisto podia obrigá-lo a interromper as férias. E, desse jeito, como ia fazer para não perder Livia? — Galluzzo encontrou a pistola, finalmente — disse Fazio ao entrar. — Onde? — No quarto de Caterina. Enfiada dentro de uma estatueta oca da madona. — Alguma outra novidade? — Calmaria total. Catarella tem uma teoria sobre isso. — Sobre o quê? — Sobre o fato de terem ocorrido menos roubos, por exemplo. — E qual é a explicação? — Ele diz que os ladrões, quero dizer, os nossos aqui do pedaço, que roubam residências ou bolsas de mulher, estão com vergonha. — Vergonha de quê? — Dos colegas mais importantes. Dos industriais que levam a empresa à falência e embolsam o dinheiro dos pequenos investidores, dos bancos que encontram sempre um jeito de foder com os clientes, das grandes empresas que roubam dinheiro público, enquanto eles, pobres coitados, têm que se contentar com dez euros aqui, uma televisão que não funciona ali, uma computador velho acolá… Ficam com vergonha e perdem a vontade de trabalhar.

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