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A Caca de Harry Winston – Lauren Weisberger

Quando a campainha de Leigh tocou inesperadamente às 21h numa segunda-feira, ela não pensou, Meu Deus, quem será. Ela pensou, Merda. Vá embora. Será que havia alguém que realmente gostava de receber visitas de surpresa de gente que resolveu dar uma passadinha para “dar um oi” ou “ver como você está”? Reclusos, provavelmente. Ou aquelas pessoas simpáticas do meiooeste que ela já vira representadas emBig Love,mas que nunca havia conhecido pessoalmente — é, eles não deviam se incomodar. Mas isso! Isso era uma afronta. As noites de segunda-feira eram sagradas e completamente proibidas para o resto do mundo, um momento de Nenhum Contato Humano, quando Leigh podia ficar de moletom e assistir a vários episódios gravados de Project Runway.Era seu único momento sozinha a semana inteira e, depois de um treinamento intensivo, ela conseguira fazer com que seus amigos, sua família e seu namorado, Russell, aceitassem. As meninas haviam parado de convidá-la para programas nas noites de segundafeira no final dos anos 1990; Russel, que no começo do namoro havia se recusado abertamente a ceder, agora sufocava silenciosamente seu ressentimento (e, na temporada de futebol, adorava ter suas próprias noites de segunda-feira livres); sua mãe teve dificuldades em passar uma noite por semana sem telefonar, aceitando finalmente, depois de todos aqueles anos, que não teria sua ligação retornada até terça-feira de manhã, não importava quantas vezes apertasse a teclaredial. Até o editor de Leigh sabia que não devia lhe passar coisas para ler nas noites de segunda-feira… ou, Deus proíba, dar um telefonema que a interrompesse. Exatamente por isso era tão inacreditável que sua campainha tivesse acabado de tocar — inacreditável e apavorante. Pensando ser o zelador, para trocar o filtro do ar condicionado; ou um dos entregadores do Hot Enchiladas deixando um menu; ou, mais provável que tudo, alguém que simplesmente confundira sua porta com a de um dos vizinhos, ela apertou o botão de Mudo no controle remoto da TV e não mexeu um músculo. Inclinou a cabeça para o lado como um labrador, tentando obter alguma confirmação de que o intruso fora embora, mas a única coisa que ouviu foi o barulho surdo e constante do andar de cima. Sofrendo do que seu antigo terapeuta chamava de “sensibilidade a ruídos” e todos os outros descreviam como “neurose total”, Leigh havia, é claro, investigado completamente sua vizinha de cima antes de comprometer as economias de uma vida inteira: o apartamento podia ser o mais perfeito que vira em um ano e meio de procura, mas ela não ia se arriscar. Leigh pedira a Adriana informações sobre a mulher de cima, do apartamento 17D, mas sua amiga apenas franzira os lábios carnudos e dera de ombros. Apesar de Adriana ter vivido na cobertura do prédio desde o dia em que seus pais haviam se mudado de São Paulo para Nova York há quase duas décadas, ela incorporara completamente a atitude nova-iorquina EuPrometo-Ignorá-lo-Se-Você-Me-Fizer-A-Mesma-Gentileza em relação a seus vizinhos e não pôde lhe dar nenhuma informação sobre a mulher. Portanto, num sábado chuvoso de dezembro, logo antes do Natal, Leigh dera discretamente 20 dólares ao porteiro, estilo James Bond, e esperara na portaria, fingindo ler um original. Após três horas lendo a mesma história cem vezes, o porteiro tossiu alto e olhou significativamente para ela por cima dos óculos. Ao erguer os olhos, Leigh sentiu uma onda imediata de alívio. Diante dela, retirando um catálogo da QVC da caixa de correio, estava uma mulher gorda com um vestido de bolinhas. Não tem um dia menos do que 80 anos, pensou Leigh, dando um suspiro de alívio; não haveria saltos agulha martelando contra o piso de tábua corrida, nenhuma festa até de madrugada, nenhum bando de visitas batendo o pé. No dia seguinte, Leigh fez um cheque com a entrada e, dois meses depois, mudou-se animadamente para seu apartamento quarto-e-sala dos sonhos. Tinha uma cozinha reformada, uma banheira enorme e uma vista do ângulo norte mais do que decente do Empire State Building. Podia ser uma das menores unidades no prédio — está bem,amenor —, mas mesmo assimera um sonho, um sonho lindo e afortunado em um prédio que ela nunca havia pensado que pudesse pagar, cada um dos metros quadrados obscenamente caros quitado com seu suor e economias. Como poderia prever que a aparentemente inócua vizinha do andar de cima fosse uma usuária dedicada de enormes tamancos ortopédicos de madeira? Leigh repreendia-se regularmente por seu amadorismo ao pensar que saltos altos eram o único risco potencial de barulho.


Até ver sua vizinha usando os malditos sapatos, Leigh criara uma elaborada teoria para a barulheira incessante no andar de cima. Decidiu que a mulher só podia ser holandesa (já que todo mundo sabe que os holandeses usam tamancos) e provavelmente era a matriarca de uma enorme e orgulhosa família que recebia visitas constantes de inúmeros filhos, netos, sobrinhas, sobrinhos, irmãos, primos e pessoas em busca de conselhos… todos, muito provavelmente, holandeses que também usavamtamancos. Depois de vê-la usando uma tala semirrìgida e fingir interesse em suas doenças nojentas, incluindo (mas não limitadas a) fasciíte plantar, unha encravada, neuromas e joanetes, Leigh se expressou da forma mais solidária que conseguiu e então subiu correndo para verificar sua cópia das regras do condomínio. E, como previa, elas ordenavam que os proprietários recobrissem oitenta por cento do piso com carpete — o que percebeu ser um ponto totalmente discutível, já que a página seguinte declarava que sua vizinha de cima era presidente do conselho. Leigh já agüentara quase quatro meses de tamancadas incessantes, algo que poderia ser engraçado se estivesse acontecendo com outra pessoa. Seus nervos estavam diretamente ligados ao volume e freqüência do constantetum-tum-tum,que dava lugar a umtuntum-tum-tun-tumtum-tum quando seu coração começava a bater junto com ele. Tentava respirar devagar, mas suas exalações eram curtas e ofegantes, pontuadas por pequenas arfadas, como as de um peixe. Enquanto examinava sua aparência (a qual, em dias bons, ela considerava “etérea” e em todos os outros dias aceitava como “doentia”) na porta espelhada do armário do corredor, uma camada fina de suor começou a umedecer sua testa. Esse negócio de suar/respirar parecia estar acontecendo mais freqüentemente —e não só quando ela ouvia as batidas de madeira na madeira. Às vezes, Leigh acordava de um sono tão profundo que quase doía, apenas para sentir seu coração acelerado e os lençóis ensopados. Na semana anterior, no meio de uma shavasna completamente relaxante — apesar de o instrutor ter se sentido compelido a tocar uma versão a capela de “Amazing Grace n pelo sistema de som —, Leigh sentira uma dor aguda atravessar seu peito a cada inspiração controlada. E, esta manhã mesmo, enquanto observava a maré de gente indo para o trabalho se amontoando no trem N — ela se obrigava a pegar o metrô, mas odiava cada segundo —, sua garganta começara a se contrair e seu pulso acelerou inexplicavelmente. Só parecia haver duas explicações plausíveis e, apesar de poder ser um pouco hipocondríaca, nem mesmo Leigh acreditava ser uma provável candidata a infarto: era um ataque de pânico, pura e simplesmente. Numa tentativa ineficaz de dissipar o pânico, Leigh pressionou as pontas dos dedos contra as têmporas e alongou o pescoço de um lado para o outro, nenhuma das duas medidas dando o menor resultado. Parecia que seus pulmões só alcançavam 10 por cento da capacidade e, enquanto imaginava quem encontraria seu corpo — e quando —, ela ouviu um soluço baixo e sufocado, e mais um toque da campainha. Foi na ponta dos pés até a porta e espiou pelo olho mágico, mas viu apenas o corredor vazio. Era exatamente assim que as pessoas acabavam sendo assaltadas e estupradas na cidade de Nova York — ludibriadas por algum gênio do crime a abrirem suas portas. Não vou cair nessa, pensou enquanto telefonava furtivamente para o porteiro. Não importava que a segurança de seu prédio rivalizasse com a da ONU ou que em oito anos morando na cidade ela não tivesse conhecido pessoalmente ninguém que tivesse ao menos tido a carteira batida, ou que as chances de um assassino psicopata escolher seu apartamento entre as mais de 200 outras unidades em seu prédio fossem improváveis… Era assim que começava. O porteiro atendeu depois de quatro toques intermináveis. — Gerard, é Leigh Eisner, do 16D. Há alguém do lado de fora da minha porta. Acho que estão tentando arrombá-la. Pode subir imediatamente? Devo ligar para a polícia? — As palavras saíam em uma desordem frenética enquanto Leigh andava de um lado para o outro no pequeno hall de entrada e jogava quadrados de Nicorette na boca diretamente do invólucro de papel laminado. — Srta.

Eisner, é claro que vou mandar alguém aí imediatamente, mas talvez esteja confundindo a srta. Solomon com outra pessoa. Ela chegou há alguns minutos e seguiu diretamente para o seu apartamento… o que é admissível para alguém em sua lista de autorização permanente. — Emmy está aqui? — perguntou Leigh. Esqueceu tudo sobre sua morte iminente por doença ou homicídio, abriu a porta e encontrou a amiga se balançando para a frente e para trás no chão do corredor, os joelhos puxados junto ao peito, o rosto molhado de lágrimas. — Senhorita, posso ajudá-la em mais alguma coisa? Ainda devo… — Obrigada pela ajuda, Gerard. Estamos bem agora — disse Leigh, fechando o celular e enfiando-o no bolso canguru de seu moletom. Caiu de joelhos sem pensar e passou os braços em volta de Emmy. — Querida, o que houve? — sussurrou, afastando o cabelo úmido de lágrimas do rosto de Emmy e juntando-o num rabo-de-cavalo. — O que aconteceu? A demonstração de preocupação trouxe consigo uma nova torrente de lágrimas; Emmy soluçava tanto que seu corpo tremia. Leigh repassou as possibilidades do que poderia causar tanta dor e conseguiu pensar em apenas três: morte na família, morte iminente na família ou homem. — Querida, são seus pais? Aconteceu alguma coisa com eles? Com a Izzie? Emmy balançou a cabeça. — Fale comigo, Emmy. Está tudo bem com o Duncan? Isso provocou um gemido tão infeliz que Leigh sentiu-se mal só de ouvir. — Acabou — chorou Emmy, a voz presa na garganta. — Acabou de vez. Emmy fizera esse pronunciamento não menos que oito vezes nos cinco anos de namoro com Duncan, mas algo esta noite parecia diferente. — Querida, tenho certeza de que é só… — Ele conheceu alguém. — Eleo quê?— Leigh deixou os braços caírem e sentou-se de cócoras. — Desculpe, deixe-me refazer a frase: eu comprei alguém para ele. — Do que diabos você está falando? — Lembra-se de quando dei a ele um título da Clay em seu aniversário de 35 anos porque ele estava absolutamente desesperado para entrar em forma de novo? E aí ele nunca foi, nem uma única vez em dois anos inteiros, porque, segundo ele, não era “um uso eficiente” do seu tempo ir correr na esteira? Então, em vez de simplesmente cancelar a porcaria toda e esquecer essa história, eu, o grande gênio, decidi lhe pagar uma série de aulas com uma personal trainer para que ele não precisasse desperdiçar nenhum segundo precioso se exercitando como todo mundo. — Acho que estou vendo onde isso foi parar. — O quê? Você acha que ele trepou com ela? — Emmy riu melancolicamente. As pessoas às vezes ficavam surpresas ao ouvir Emmy falar palavrões com tanta ferocidade; afinal, ela só tinha l,55m de altura e não parecia ser mais velha do que uma adolescente, mas Leigh quase nem percebia mais. — Eu também achei.

É tão pior do que isso. — Isso já parece ruim o suficiente, querida. — Leigh achou que solidariedade e apoio irrestrito eram o melhor que podia oferecer, mas Emmy não parecia reconfortada. — Você deve estar imaginando como pode ficar pior, certo? Bem, deixe-me lhe dizer como. Ele não trepou com ela; talvez eu pudesse lidar com isso. Nããããooo, não o meu Duncan. Ele “se apaixonou” por ela — Emmy desenhou as aspas com o dedo indicador e o médio de ambas as mãos e revirou os olhos vermelhos de tanto chorar. — Ele está “esperando por ela”, abre-aspasfecha-aspas, até que ela esteja “pronta”. Ela éVIRGEM,pelo amor de Deus! Eu agüentei cinco anos de traições e mentiras e sexo estranho e depravado para que ele pudesse SE APAIXONARPORUMAPROFESSORADEGINÁSTICAVIRGEMQUEEUCONTRATEIPARAELENAACADEMIAQUEEUPAGUEI?Apaixonado!Leigh, o que é que eu vou fazer? Leigh, aliviada por finalmente poder fazer algo, pegou o braço de Emmy e a ajudou a ficar de pé. — Entre, querida. Vamos lá para dentro. Vou fazer um chá e você pode me contar o que aconteceu. Emmy fungou. — Ah, Deus, eu esqueci… é segunda-feira. Não quero interromper. Eu vou ficar bem… — Não seja ridícula. Eu nem estava fazendo nada — mentiu Leigh. — Entre agora mesmo. Leigh a guiou até o sofá e, depois de dar tapinhas no braço exageradamente estofado para indicar onde Emmy deveria botar a cabeça, abaixou-se atrás da parede que separava a sala de estar da cozinha. Com suas bancadas de granito salpicado de pintinhas e eletrodomésticos novos de aço inoxidável, a cozinha era o aposento favorito de Leigh em todo o apartamento. Todas as suas panelas estavam penduradas por ordem de tamanho em ganchos debaixo dos armários, e todos os seus utensílios e temperos estavam organizados obsessivamente em potes de vidro e aço combinando. Farelos, coisas derramadas, invólucros, pratos sujos — inexistentes. A geladeira parecia ter sido limpa com aspirador e as bancadas não tinham nenhuma mancha. Se fosse possível um aposento personificar a personalidade neurótica de seu dono, a cozinha e Leigh seriam gêmeas idênticas. Ela encheu a chaleira (comprada na semana anterior numa liquidação de artigos para o lar na Bloomingdale’s, porque quem disse que você só tem direito a coisas novas quando temuma lista de casamento?), encheu uma bandeja com queijo e Wheat Thins e espiou pela janela que dava para a sala de estar, para se assegurar de que Emmy estava descansando confortavelmente.

Vendo que estava deitada reta, de barriga para cima, com um braço passado por cima dos olhos, Leigh tirou o celular do bolso e selecionou na agenda de telefones o número de Adriana. Digitou: S.O.S. E e D terminaram. Desça para cá imediatamente. —Você tem umAdvil? — Emmy gritou do sofá. E então, mais baixo: — Duncan sempre tinha Advil. Leigh abriu a boca para acrescentar que Duncan sempre tinha um monte de coisas — um cartão do seu serviço favorito de acompanhantes, uma foto dele mesmo quando criança do tamanho da carteira e, ocasionalmente, uma ou duas verrugas genitais que ele jurava serem apenas “apêndices de pele” —, mas se controlou. Além de ser desnecessário, já que Emmy estava sofrendo o suficiente, seria hipócrita: ao contrário do que todo mundo pensava, Leigh também não tinha exatamente o relacionamento mais perfeito do mundo. Mas afastou Russell da mente.

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