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A cacada – Andrew Fukuda

Antigamente estávamos em maior número. Tenho certeza. Não chegaríamos a lotar um estádio de futebol, nem mesmo uma sala de cinema, mas certamente havia mais do que hoje. A verdade é que acho que não sobrou ninguém. Só eu. É o que acontece quando você é uma iguaria. Quando é desejado. A extinção. Onze anos atrás, descobriram uma na minha escola. Uma menina do jardim de infância, no primeiro dia de aula. Foi devorada quase imediatamente. Onde ela estava com a cabeça? Talvez um acesso de solidão repentina (e é sempre repentina) em casa a tenha feito acreditar — erroneamente — que na escola encontraria companhia. Quando a professora anunciou a hora da soneca, a garotinha ficou sozinha no chão, agarrada ao ursinho de pelúcia, enquanto as outras crianças pularam para o teto, de cabeça para baixo. Aquele momento foi o fim para ela. O fim. Foi como se ela tivesse tirado as presas falsas e simplesmente se prostrado para o inevitável banquete. Os coleguinhas a fitaramcom olhos arregalados lá de cima: Opa, o que temos aqui? Ela começou a chorar, foi o que disseram, a berrar sem parar. A professora foi a primeira a alcançá-la. Depois do jardim de infância, quando não há mais sonecas em sala, é aí que você vai para a escola. Apesar de ainda correr o risco de ser pego de surpresa. Uma vez, meu técnico de natação ficou tão enfurecido pelo desempenho letárgico da minha equipe em um evento escolar que nos levou para o vestiário e disse para dormirmos logo de uma vez. Era só uma forma de reforçar a bronca, é claro, mas quase fui descoberto. Aliás, natação não tem problema, mas não pratique nenhum outro esporte se puder evitar. Porque o suor é uma bandeira sem tamanho. O suor é o que acontece quando ficamos com calor; gotas d’água vazam de nossos poros como um bebê babando.


Eu sei, é nojento. Todos os outros continuam frios, limpos e secos. Mas eu? Sou uma torneira vazando. Então esqueça o vôlei, esqueça o tênis, esqueça até mesmo as competições de xadrez. Só nadar não tem problema, porque ninguém vê o suor. Essa é apenas uma das regras. Há muitas outras, todas marteladas por meu pai exaustivamente desde que nasci. Nunca sorria ou ria, nunca chore nem fique com os olhos cheios d’água. Mantenha uma expressão neutra e estoica o tempo todo; as únicas emoções que afloram no rosto das pessoas são desejo por sangue de eper e desejo romântico, e obviamente não tenho nada a ver com nenhumdos dois. Nunca se esqueça de espalhar bastante manteiga em todo o corpo quando sair durante o dia. Porque em um mundo assim é complicado explicar uma queimadura de sol ou mesmo um bronzeado. São tantas outras regras que daria para escrever um livro. Não que eu tenha vontade de anotar essas coisas — ser pego com um “manual” seria tão fatal quanto uma queimadura de sol. Além do mais, meu pai me lembrava das regras diariamente. Enquanto tomávamos café da manhã ao pôr do sol, ele repassava algumas de muitas. Por exemplo: não faça amigos; não pegue no sono durante a aula (aulas chatas e longos trajetos de ônibus eram especialmente perigosos); não pigarreie; não gabarite as provas, embora sejam um insulto à sua inteligência; não deixe que sua beleza o prejudique; por mais que as garotas lhe ofereçam seu coração e seu corpo, nunca ceda a essa tentação. Porque você precisa sempre lembrar que sua aparência é uma maldição, não uma bênção. Nunca se esqueça disso. Ele recitava todas essas regras enquanto inspecionava rapidamente minhas unhas, para ter certeza de que não estavam lascadas ou irregulares. Hoje as regras estão tão incutidas em mim que são como as leis da natureza. Nunca me senti tentado a desobedecê-las. Exceto por uma. Quando comecei a pegar o ônibus escolar, uma espécie de carroça puxada por cavalos, meu pai me proibiu de olhar para trás e acenar para ele. Porque ninguém faz isso. Foi uma regra difícil para mim no início.

Nas primeiras noites de aula na escola, quando entrava no ônibus eu precisava reunir todas as forças para me conter, para não olhar para trás e dar tchau. Era como um reflexo, uma tosse impossível de reprimir. Eu era pequeno na época, o que tornava tudo ainda mais difícil. Desobedeci a essa regra uma única vez, sete anos atrás. Foi na noite seguinte àquela em que meu pai chegou em casa cambaleando, com as roupas desgrenhadas, como se tivesse se metido em uma briga, o pescoço marcado. Foi puro descuido, apenas um lapso momentâneo, e agora ele tinha duas incisões evidentes no pescoço. O suor pingava de seu rosto, manchando a camisa. Era nítido que ele já sabia. Seu olhar era de um louco desespero, e senti o pânico em seus braços quando ele me apertou com força. “Você está sozinho agora, meu filho”, disse ele por entre os dentes trincados, os espasmos começando a lhe percorrer o peito. Minutos depois, quando começou a tremer, com o rosto absurdamente frio, ele ficou de pé. Saiu às pressas pela porta para a luz do amanhecer. Tranquei a porta, como ele me havia instruído a fazer, e corri para o meu quarto. Enfiei o rosto no travesseiro e gritei e gritei. Eu sabia o que ele estava fazendo naquele exato momento: correndo para o mais longe possível de casa antes que se transformasse e os raios de sol se tornassem cachoeiras de ácido a lhe queimar o cabelo, os músculos, os ossos, os rins, os pulmões, o coração. Naquela noite, quando o ônibus escolar parou na porta da minha casa, o vapor saindo pelas narinas largas e úmidas dos cavalos, eu violei a regra. Não consegui evitar: virei para trás quando entrei no ônibus. Mas, àquela altura, não importava. A entrada de casa estava vazia na escuridão do começo da noite. Meu pai não estava lá. Nem nunca mais estaria. Meu pai estava certo. Fiquei sozinho naquele dia. Antes éramos uma família de quatro pessoas, mas isso fazia muito tempo. Depois ficamos só meu pai e eu, e isso era o bastante.

Eu sentia saudade da minha mãe e da minha irmã, mas era pequeno demais para ter desenvolvido alguma ligação verdadeira com elas. Ambas são formas vagas na minha memória. No máximo, acontece vez ou outra, mesmo agora, de eu ouvir uma voz de mulher cantarolando, e sempre sou pego desprevenido. Ouço a voz e penso: Mamãe tinha uma voz muito bonita. Já meu pai… Ele morria de saudade delas. Nunca o vi chorar, nem depois que tivemos que queimar todas as fotos e lembranças físicas. Mas às vezes eu acordava no meio do dia e o via olhando pela janela aberta, um raio de sol caindo sobre seu rosto pesado, seus ombros largos tremendo. Meu pai tinha me preparado para ficar sozinho. Ele sabia que esse dia acabaria chegando, embora eu ache que, no fundo, ele acreditava que seria o último sobrevivente, não eu. Ele passou anos me ensinando as regras, para que eu as conhecesse como à palma da minha mão. Toda vez que me apronto para a escola, ao anoitecer — um laborioso processo de me lavar, lixar as unhas, depilar braços e pernas (e, ultimamente, até mesmo alguns pelos no peito), esfregar pomada (para esconder o odor), polir as presas falsas —, ouço mentalmente a voz dele repassando as regras. Como hoje. Enquanto calço as meias, ouço a voz dele. Os avisos comuns: Não durma na casa de colegas; não cantarole nem assobie. Mas então ouço a regra que ele dizia talvez só uma ou duas vezes por ano. Ele a dizia tão raramente que talvez não fosse bem uma regra, mas um lema de vida. Nunca se esqueça de quem você é. Eu nunca entendi por que meu pai dizia isso. Afinal, é como dizer não esqueça que a água é molhada, que o sol brilha, que a neve é gelada. É redundante. Não temcomo eu esquecer quem sou. Sou lembrado a cada momento de cada dia. Cada vez que raspo as pernas ou prendo um espirro ou sufoco uma risada ou finjo desviar da luz, sou lembrado de quem eu sou. Uma pessoa de mentira. A Loteria Eper Como completei dezessete este ano, não sou mais obrigado a pegar o ônibus da escola.

Agora vou a pé, feliz. Os cavalos — bichos enormes e escuros que se tornaram populares muito tempo atrás, graças à sua capacidade de rastrear presas, mas que agora estão fadados a puxar carruagens e ônibus — conseguem detectar meu odor diferente. Mais de uma vez já viraram o focinho na minha direção, apontando para mim como um intruso, suas narinas se expandindo como um grito úmido e silencioso. Prefiro a solidão de andar sob o céu do anoitecer. Saio de casa cedo, como sempre. Quando passo pelo portão da escola, alunos e professores já estão entrando aos montes, montados em cavalos e carruagens, formas cinzentas na escuridão nebulosa. O céu está nublado hoje, e especialmente escuro. “Escuro” é o termo que meu pai usava para descrever o horário noturno, quando o mundo é tomado pelo negrume. A escuridão me faz apertar os olhos para tentar enxergar melhor, e esse é um dos motivos pelos quais é tão perigosa. O resto do mundo só aperta os olhos depois de comer alguma coisa azeda ou sentir cheiro pútrido. Ninguémaperta os olhos só porque está escuro; é dar uma bandeira enorme, e eu nunca permito que minha testa sequer se enrugue. Em todas as aulas eu me sento perto das lâmpadas de mercúrio, que emitemuma pequena sugestão de luz (a maior parte das pessoas prefere o escuro cinzento ao breu completo). Assim corro menos risco de apertar os olhos involuntariamente. Ninguém gosta dessas carteiras perto das lâmpadas, pois é claro demais, então sempre consigo um lugar. Também odeio quando os professores me fazem alguma pergunta durante a aula. Foi me misturando, evitando a atenção dos outros, que sobrevivi. Ter que responder a uma pergunta na frente da turma me coloca sob os holofotes. Como hoje, quando o professor de trigonometria se dirige a mim. Ele é o que mais costuma fazer isso, e é por esse motivo que o odeio. Também tem a pior letra do mundo, e seus garranchos no quadro são quase impossíveis de enxergar na luz cinzenta. — E então, H6? O que acha? H6 é minha designação. Estou na fileira H, carteira seis; daí minha designação. Ela muda de acordo com o local onde estou sentado. Na aula de estudos sociais, por exemplo, sou D4. — Posso pular essa? — peço.

Ele olha para mim sem expressão. — Na verdade, não. É a segunda vez na semana que você faz isso. Olho para o quadro-negro. — É que estou meio perdido na matéria. Resisto ao impulso de tentar decifrar os números no quadro, por medo de acabar apertando os olhos. Ele fecha as pálpebras de leve. — Não, não, não vou aceitar isso. Sei que você consegue. Você sempre gabarita as provas. Consegue resolver essa equação dormindo. Os alunos agora estão se virando para olhar para mim. Só alguns, mas o bastante para me deixar nervoso. Incluindo a pessoa sentada na minha frente, Julia Brasa. A designação dela nesta turma é G6, mas penso nela como Julia Brasa. Desde a primeira vez que a vi, anos atrás, dei-lhe essa designação. Ela se vira e me encara com seus grandes olhos verdes. Parecem compreensivos, como se ela finalmente tivesse descoberto que costumo olhar daqui de trás cheio de desejo por seu farto cabelo castanho-avermelhado (uma cor magnífica e deslumbrante!), lembrando-me com saudade da sensação sedosa de tê-los nas mãos tantas luas atrás. Vejo que ela se surpreende por eu não desviar o olhar, como tenho feito há anos. Desde que senti o interesse dela por mim, desde que me dei conta do meu interesse por ela. — H6? — O professor começa a bater com o giz no quadro. — Chute uma resposta, vamos lá. — Eu não sei mesmo. — O que aconteceu? Isso não é nada para você. — Ele me avalia.

Sou um dos alunos mais inteligentes da escola, e ele sabe disso. A verdade é que eu poderia ser o melhor aluno com facilidade, se quisesse (tirar boas notas é fácil para mim, nem preciso estudar), mas faço questão de parecer mais burro. Ser o melhor chama muita atenção. — Olhe aqui. Vamos tentar juntos. Leia a pergunta primeiro. De repente, a situação fica mais tensa. Mas não é motivo para pânico. Ainda não. — Acho que meu cérebro ainda não acordou direito. — Apenas leia a pergunta. Só isso. — A voz dele tornou-se mais severa. De repente não estou gostando nada disso. Ele está começando a levar para o lado pessoal. Mais olhos começam a se virar para mim. Por nervosismo, quase pigarreio. Mas me seguro. Bem a tempo. Ninguém nunca pigarreia. Eu inspiro e me forço a desacelerar o tempo. Resisto à vontade de secar o lábio superior, onde desconfio que gotículas de suor estejam começando a se formar. — Vou ter que pedir de novo? Na minha frente, Julia Brasa me observa com mais atenção. Por um momento eu me pergunto se está olhando para meu lábio superior. Será que ela vê o leve brilho de suor? Será que esqueci de raspar um pelo? Então ela levanta o braço, um braço esguio, magro e pálido como um pescoço de cisne emergindo da água.

— Acho que eu sei a resposta — diz ela, e se levanta. Ela pega o giz da mão do professor, que está surpreso com a iniciativa dela. Os alunos não costumam se aproximar do quadro sem serem convidados. Se bem que ela é Julia Brasa, e Julia Brasa consegue tudo que quer. Ela olha para a equação e escreve, com um floreio rápido, letras grandes e números. Quando acaba, momentos depois, acrescenta um sinal de certo e um “A+” no final. Então limpa as mãos e volta a se sentar. Alguns dos alunos começam a coçar os pulsos, e o professor também. — Isso foi bem divertido — diz ele. — Gostei. Ele coça o pulso mais rápido, de maneira evidente, e mais alunos fazem o mesmo. Ouço o som de unhas arranhando pele. Eu me junto a eles, coço os pulsos com minhas unhas compridas, mas odeio. Porque meus pulsos são defeituosos. Não os sinto coçar quando acho algo engraçado. Meu instinto natural é sorrir (aquele negócio de alargar a boca, expondo os dentes), e não coçar o pulso. Tenho terminações nervosas sensíveis ali, não tem a menor graça. Uma mensagem soa de repente nos alto-falantes. Imediatamente todo mundo para de se coçar e se empertiga na carteira. A voz é robótica, andrógina, autoritária. — Aviso importante — anuncia a voz. — Esta noite, daqui a apenas três horas, às duas da madrugada, o Soberano fará um pronunciamento para todo o país. Todos os cidadãos devem assistir. Portanto, as aulas desse horário serão canceladas. Professores, alunos e toda a equipe administrativa se reunirão no auditório para assistir às transmissões ao vivo de nosso adorado Soberano.

E é isso. Depois do sinal de encerramento, ninguém fala mais nada. Estamos perplexos com a notícia. O Soberano (que não é visto em público há décadas) raramente faz aparições na tevê. Ele costuma deixar os avisos palacianos e administrativos para os quatro ministros subordinados a ele (da Ciência, da Educação, da Alimentação, da Lei) ou para os quinze diretores (Engenharia de Cavalos, Infraestrutura Urbana, Estudos Eper e assim por diante), os quais, por sua vez, respondem a esses ministros. E o fato de que ele vai fazer um pronunciamento não passa despercebido por ninguém. Todo mundo começa a especular sobre o que será anunciado. Um pronunciamento de alcance nacional é reservado apenas para as ocasiões mais raras. Durante os últimos quinze anos, aconteceu só duas vezes. Uma para anunciar o casamento do Soberano, e a segunda, a mais lembrada, para anunciar a Caçada Eper. Apesar de a última Caçada Eper ter acontecido dez anos atrás, as pessoas ainda falam sobre isso. O Palácio surpreendeu a todos quando anunciou que vinha hospedando secretamente oito epers. Oito epers vivos e cheios de sangue. Para levantar a moral na época da depressão econômica, o Soberano decidiu soltar esses epers. Esses epers, mantidos em confinamento durante anos, estavam gordos e lentos, desnorteados e assustados. Ao serem soltos como cordeiros para o abate, não tiveram a menor chance. Tiveram uma vantagem de doze horas. E então, um grupo de sortudos, escolhido por sorteio, teve permissão de sair à caça deles. A Caçada acabou em duas horas, e o evento gerou aumento na popularidade do Soberano. Quando entro no refeitório para almoçar, ouço o burburinho de empolgação. Muitos estão torcendo pelo anúncio de mais uma Caçada Eper. Falam que haverá novamente um sorteio para cidadãos. Outros são céticos: Os epers já não estão extintos? Mas mesmo quem duvida está babando diante da possibilidade, fios de saliva pingando pelo queixo e na camisa. Ninguém sente o gosto de um eper ou bebe seu sangue ou se banqueteia com sua carne há anos. Pensar que o governo pode estar escondendo alguns epers, pensar que qualquer cidadão pode ter a chance de ser sorteado para a Caçada… a escola está em frenesi.

Eu me lembro da Caçada de dez anos atrás. Mesmo depois que acabou, fiquei meses sem dormir por medo dos pesadelos que invadiam minha mente: imagens horrendas de uma Caçada imaginária, sangrenta e violenta. A calmaria da noite sendo perturbada por gritos horríveis de pânico, pelo som de carne sendo arrancada com os dentes e de ossos sendo mastigados. Eu acordava gritando, inconsolável mesmo quando meu pai me envolvia em um abraço forte, tentando me proteger. Ele me dizia que estava tudo bem, que tinha sido apenas um sonho, que não era real; mas o que ele não sabia era que, enquanto ele falava, eu ouvia os sons dos gritos horríveis da minha irmã e da minha mãe ecoando nos ouvidos, escapando dos pesadelos para a escuridão do meu mundo bem real. * * * O refeitório está lotado e barulhento. Até o pessoal da cozinha está discutindo o pronunciamento enquanto serve a comida — carnes sintéticas — nos pratos. A hora do almoço sempre foi um desafio para mim, porque não tenho amigos. Sou um solitário, em parte por ser mais seguro: menos interação, menos chances de ser descoberto. Mas, em geral, é a ideia de ser devorado vivo por seus ditos amigos que acaba com qualquer possibilidade de intimidade. Podem me chamar de exagerado, mas a morte iminente pelas mãos (ou presas) de um colega que sugaria seu sangue em um piscar de olhos acaba com qualquer chance de você construir uma amizade. Assim, quase sempre almoço sozinho. Mas hoje, quando pago pela comida no caixa, quase não temlugar sobrando. Vejo F5 e F19, da aula de matemática, juntos, sentados a uma mesa e vou me encontrar com eles. São dois idiotas, sendo F19 um pouco mais do que F5. Na minha mente, eu os chamo de Idiota e Imbecil. — Oi, pessoal — digo. — Oi — responde Idiota, mal erguendo o olhar. — Todo mundo está falando sobre o pronunciamento. — É — diz Imbecil, de boca cheia. Comemos em silêncio por um tempo. É assim com Idiota e Imbecil. Eles são nerds de computador, ficam acordados até as primeiras horas do dia. Quando como com eles, talvez uma vez por semana, às vezes não falamos nada. É quando me sinto mais próximo dos dois.

— Andei reparando em uma coisa — diz Imbecil depois de um tempo. Olho para ele. — Em quê? — Alguém tem prestado bastante atenção em você. Ele dá outra mordida na carne crua e sangrenta. O sangue escorre pelo seu queixo e cai no prato. — Está falando do professor de matemática? Eu sei, o sujeito não me deixa em paz em trig… — Não, estou falando de outra pessoa. De uma garota. Desta vez, tanto Idiota quanto eu olhamos. — Está falando sério? — pergunta Idiota. Imbecil assente. — Ela está olhando para você já faz alguns minutos. — Não para mim. — Tomo mais um gole. — Deve estar olhando para um de vocês. Idiota e Imbecil se entreolham. Idiota coça o pulso algumas vezes. — Essa foi boa — diz Imbecil. — Não: juro que ela está de olho em você já faz um tempo. Não só hoje. Em todos os almoços nas últimas semanas eu vejo que ela está olhando pra você. — E daí? — pergunto, fingindo desinteresse. — Sério, ela está olhando para você agora mesmo. Ali atrás, na mesa perto da janela. Idiota se vira para olhar. Quando volta a nos encarar, está coçando o pulso com força e rápido.

— O que tem de tão engraçado nisso? — pergunto, tomando mais um gole e resistindo à vontade de olhar também. Idiota só coça o pulso com mais força e mais rápido. — Dê uma olhada você mesmo. Ele não está brincando. Lentamente eu me viro e dou uma olhada rápida. Só tem uma mesa perto da janela. Algumas garotas estão sentadas em um círculo lá, comendo. As Desejáveis. É assim que são conhecidas. E aquela mesa redonda é delas, e todo mundo obedece a alguma regra implícita de deixar aquela mesa livre. Pertence às Desejáveis, as populares, as que têm namorados bonitos e vestem roupas de marca. Ninguém se aproxima daquela mesa sem permissão. Já vi até os namorados delas esperando obedientemente até poderem se aproximar. Nenhuma delas está olhando para mim. Estão conversando, comparando anéis e pulseiras, alheias ao mundo exterior à esfera daquela mesa. Mas então uma delas me lança um olhar mais longo, seus olhos encontrando os meus. É Julia Brasa. Ela olha para mim do mesmo jeito melancólico e ansioso que me olhou várias vezes nos últimos anos. Eu afasto o olhar e me viro de volta. Idiota e Imbecil estão coçando os pulsos desesperadamente agora. Sinto o calor de um rubor perigoso começar a atingir meu rosto, mas felizmente eles estão ocupados demais se coçando para reparar. Controlo o rubor respirando fundo e lentamente até o calor se dissipar. — Na verdade — diz Idiota —, aquela garota já não tinha uma queda por você antes? É, é, acho que é isso. Alguns anos atrás. — Ela ainda está atrás de você, está doida por você depois de todo esse tempo — graceja Imbecil, e nisso os dois começam a coçar o pulso um do outro incontrolavelmente.

* * * O treino de natação depois do almoço (sim, meu técnico é louco) quase é cancelado. Ninguém da equipe consegue se concentrar. O vestiário está tomado por um burburinho a respeito dos boatos recentes sobre o pronunciamento. Espero o local esvaziar antes de ir me trocar. Estou tirando a roupa quando alguém entra. — E aí — diz Exibido, o capitão da equipe, tirando a roupa e vestindo uma sunga excessivamente apertada. Ele se deita no chão para fazer flexões, o que infla seus tríceps e músculos do peito. Há um halter no armário dele, de prontidão para os exercícios de bíceps. Sua Musculecência, o Exibido, faz isso antes de todos os treinos, levando a preparação a extremos. Ele tem um fã-clube, quase todas as alunas do primeiro e segundo anos da equipe feminina. Já o vi deixando que elas tocassem no peitoral dele. As garotas antes olhavam para mim; as mais corajosas se aproximavam e tentavam puxar conversa comigo durante o treino, até perceberem que eu preferia ficar sozinho. Exibido felizmente desviou de mim a maior parte das atenções. Ele faz mais dez flexões rapidamente. — Só pode ser uma Caçada Eper — diz ele, fazendo uma pausa na descida. — E deviam esquecer essa história de sorteio desta vez. Deviam escolher os mais fortes. Que, no caso — diz ele, terminando a flexão —, seria eu. — Sem dúvida. A Caçada sempre foi uma questão da superioridade dos músculos ao cérebro. A sobrevivência dos mais aptos… — E o vencedor fica com tudo — termina ele ao iniciar mais dez flexões, as últimas três comapenas uma das mãos. — A vida destilada em sua mais pura essência. Não tem como não amar. Porque a força bruta sempre vence. Sempre venceu e sempre vai vencer.

Ele passa a mão pelo próprio bíceps de modo aprovador e sai. Só então eu termino de tirar as roupas e coloco a sunga. O técnico já está gritando conosco quando entramos na água, e continua a nos repreender pela falta de concentração enquanto damos voltas dentro da piscina. A água, sempre fria demais para mim mesmo em dias normais, está um gelo hoje. Até alguns dos meus colegas reclamam da temperatura, coisa que quase nunca fazem. A baixa temperatura da água me afeta de uma maneira que não afeta a mais ninguém. Eu tremo e fico, como dizia meu pai, todo “arrepiado”. É uma das muitas coisas que me diferem de todo mundo. Porque, apesar de minha similaridade fisiológica quase total com os outros, há diferenças sísmicas fundamentais por baixo da frágil e enganadora semelhança. Todos estão mais lentos hoje. Distraídos, sem dúvida. Preciso de mais velocidade, fazer mais esforço. Parar de tremer exige que eu reúna todas as minhas forças. Mesmo quando a água está na temperatura de sempre e está todo mundo nadando de um lado para o outro, costumo demorar vinte minutos para me aquecer o suficiente. Hoje, em vez de ficar mais quente, sinto meu corpo perdendo calor. Preciso nadar mais rápido. Depois de uma volta de aquecimento, enquanto estamos descansando no lado raso, sinto uma vontade repentina de sair nadando no estilo proibido.

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