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A Cacada ao Outubro Vermelho – Tom Clancy

O “Outubro Vermelho” O capitão-de-mar-e-guerra Marko Ramius, da Marinha soviética, estava vestido para as condições árcticas habituais na base de submarinos da Esquadra do Norte, em Polyarnyy. Envolviam-no cinco camadas de lã e de oleado. Um rebocador sujo guiava a proa do seu submarino para norte, apontando-a ao canal. A doca que albergara o seu Outubro Vermelho durante dois intermináveis meses era agora uma caixa de cimento cheia de água, uma das muitas especialmente construídas para abrigar submarinos providos de mísseis estratégicos das inclemências do tempo. Na borda, marinheiros e operários do cais assistiam à saída do barco, à maneira russa, impassíveis, semum aceno ou um aplauso. — Marcha lenta à frente, Kamarov — ordenou. O rebocador saiu do caminho. Ramius olhou para a popa e viu a água agitada pela força das hélices gémeas de bronze. O comandante do rebocador acenou-lhe. Ramius retribuiu-lhe o gesto. O rebocador fizera um trabalho simples, mas depressa e bem. O Outubro Vermelho, um submarino da classe Typhoon, navegava autonomamente em direcção ao canal principal do Fiorde Kola. — Lá está o Purga, comandante. Gregoriy Kamarov apontou para o quebra-gelos que os escoltaria até ao mar. Ramius limitou-se a acenar de cabeça. As duas horas necessárias para percorrer o canal poriam à prova não a sua arte de marinharia, mas a sua resistência. Soprava um vento frio do norte, a única espécie de vento norte naquela parte do mundo. O fim do Outono fora surpreendentemente ameno e quase não tinha caído neve numa área que a conhecia com altura de metros; porém, uma semana antes, uma violenta tempestade devastara a costa de Murmansk, soltando blocos de gelo árctico. O quebra-gelos não era, pois, uma formalidade. O Purga afastaria os blocos que, de noite, pudessem ter sido arrastados para o canal. O mais aperfeiçoado submarino nuclear da Marinha soviética não podia correr o risco de ser danificado por qualquer massa errante de água congelada. As águas do fiorde estavam agitadas, batidas pelo vento agreste. Começaram a lamber a proa esférica do Outubro, envolvendo-a, escorrendo pela coberta plana dos mísseis à frente da altaneira torre negra. A água apresentava-se coberta do óleo sujo de inúmeras embarcações, sujidade que não se evaporava devido às temperaturas baixas, a qual deixava um anel preto nas paredes rochosas do fiorde como sinal do banho de um gigante pouco asseado. Comparação bastante a propósito, pensou Ramius.


O gigante soviético pouco se importava com o lixo que deixava na face da Terra, resmungou consigo. Aprendera a arte de marear na juventude, em barcos de pesca costeiros, e sabia o que era estar de bem com a natureza. — Aumentar a velocidade para um terço — disse. Kamarov repetiu a ordem do seu comandante pelo telefone da ponte. A água agitou-se mais à proa do Outubro, na esteira do Purga. O capitão-tenente Kamarov era o navegador. Servira antes como piloto de barra para os grandes vasos de guerra fundeados nas duas margens da vasta enseada. Os dois oficiais não perdiam de vista o quebra-gelos armado, trezentos metros adiante; as condições de navegabilidade exigiam atenção. Na coberta da popa do Purga um punhado de tripulantes deambulava ao frio, um deles usando o avental branco de cozinheiro. Queriam testemunhar a partida do Outubro Vermelho para o seu primeiro cruzeiro operacional e aproveitavam também o pretexto, como outro qualquer, para quebrar a monotonia, inimiga dos marinheiros. Noutra altura, o facto de lhe escoltarem o submarino — o canal era amplo e profundo, ali —teria irritado Ramius; naquele dia, não. O gelo era realmente motivo de preocupação. E para Ramius não era o único. — Então, meu comandante, lá vamos outra vez para o mar, servir e proteger a Rodina! O capitão Ivan Yurievich Putin meteu a cabeça pela escotilha — sem permissão, como de costume — e subiu a escada desajeitadamente — não era um marinheiro. O pequeno centro de controle estava já apinhado com o comandante, o navegador e um vigia silencioso. Putin era o zampolit (comissário político) do barco. Dedicava-se exclusivamente a servir a Rodina (MãePátria), palavra que possuía conotações místicas para um russo e que, juntamente com V. I. Lenin, era o substituto da divindade inventado pelo Partido Comunista. — Pois vamos, Ivan — respondeu Ramius mais bem-disposto do que realmente estava. — Duas semanas no mar. É bom deixar o cais. Um marinheiro pertence ao mar, não foi feito para estar atracado, a aturar burocratas e operários de botas sujas. E estaremos mais quentes. — Acha isto frio? — perguntou Putin, incrédulo.

Pela centésima vez, Ramius disse a si próprio que Putin era o perfeito comissário político. Falava sempre demasiado alto, o seu humor era sempre demasiado afectado. Nunca permitia a ninguém que esquecesse quem ele era. Perfeito comissário político. Putin era um homem facilmente temível. — Navego em submarinos há muito tempo, meu amigo. Habituei-me a temperaturas moderadas e a uma coberta estável debaixo dos pés. Putin não se apercebeu do insulto velado. Fora colocado nos submarinos após uma primeira comissão nos contratorpedeiros, interrompida por um enjoo crónico — e talvez porque ele não se ressentia da reclusão nos submarinos, coisa que muitos homens não suportavam. — Ah, Marko Aleksandrovich, em Gorkiy, num dia como este, as flores abrem-se! — E que flores serão essas, camarada comissário político? Ramius examinou o fiorde pelo binóculo. Ao meio-dia, o Sol mal cavalgava o horizonte a sudeste, lançando luz laranja e sombra púrpura pelas paredes rochosas. — Flores da neve, evidentemente — disse Putin, rindo alto. — Num dia como este, os rostos das crianças e das mulheres ficam muito rosados, a gente respira e o bafo parece uma nuvem, e o vodca sabe particularmente bem. Ah! Quem me dera estar em Gorkiy num dia assim! O patife devia trabalhar para o Intourist, disse Ramius consigo, se Gorkiy não fosse uma cidade fechada a estrangeiros. Já lá estivera duas vezes. Vira-a como uma típica cidade soviética, cheia de edifícios periclitantes, ruas sujas e cidadãos mal vestidos. Como na maior parte das cidades russas, o Inverno era a melhor estação em Gorkiy. A neve escondia o lixo todo. Ramius, meio lituano, possuía recordações de infância de melhores sítios, uma aldeia costeira cuja origem hanseática persistia em conjuntos de casas apresentáveis. Era raro que alguém não sendo grande-russo andasse a bordo — muito menos comandasse umvaso soviético. O pai de Marko, Aleksandr Ramius, fora herói do Partido, um comunista dedicado e convicto que servira Estaline fielmente e bem. Quando os soviéticos tinham ocupado pela primeira vez a Lituânia, em 1940, Ramius fora eficiente na repressão dos dissidentes políticos, dos proprietários de lojas, dos sacerdotes e de quem quer que pudesse resistir ao novo regime. Da sorte que lhes fora reservada nem Moscou fazia agora ideia. Quando os alemães invadiram a Lituânia, um ano mais tarde, Aleksandr lutara heroicamente como comissário político e distinguira-se, depois, na batalha de Leninegrado. Em 1944, tinha regressado como ponta-de-lança do Décimo Primeiro Exército para fazer uma vingança sangrenta sobre os que haviam colaborado com os alemães ou disso eram suspeitos.

O pai de Marko fora um verdadeiro herói soviético — e Marko sentia uma profunda vergonha de ser seu filho. A saúde da mãe soçobrara durante o interminável cerco de Leninegrado. Morrera ao dá-lo à luz e, por isso, Marko tinha sido criado pela avó paterna, na Lituânia, enquanto o pai se pavoneava no Comité Central do Partido, em Vilnius, aguardando a sua promoção para Moscou. Conseguira-a, também, e era candidato a membro do Politburo quando umataque cardíaco lhe pusera termo à vida, prematuramente. A vergonha de Marko não era total. A proeminência do pai possibilitara os seus objectivos presentes e Marko planeava vingar-se da União Soviética o suficiente, talvez, para satisfazer os, milhares de compatriotas seus que tinham morrido ainda antes de ele ter vindo ao mundo. — Para onde vamos, Ivan Yurievich, ainda faz mais frio. Putín bateu no ombro do seu comandante. Seria um afecto fingido ou real? Marko não saberia dizê-lo. Real, provavelmente. Ramius era um homem honesto e reconhecia que aquele pateta baixinho e barulhento possuía alguns sentimentos humanos. — Não percebo, camarada comandante, por que motivo parece sempre feliz quando deixa a Rodina e vai para o mar… Ramius sorriu por trás do binóculo. — Um marinheiro tem uma pátria, Ivan Yurievich, mas duas esposas. Você nunca compreenderá isso. Agora vou para a minha outra esposa, a fria e cruel que é dona da minha alma. — meno e quase não tinha caído neve numa área que a conhecia com altura de metros; porém, uma semana antes, uma violenta tempestade devastara a costa de Murmansk, soltando blocos de gelo árctico. O quebra-gelos não era, pois, uma formalidade. O Purga afastaria os blocos que, de noite, pudessem ter sido arrastados para o canal. O mais aperfeiçoado submarino nuclear da Marinha soviética não podia correr o risco de ser danificado por qualquer massa errante de água congelada. As águas do fiorde estavam agitadas, batidas pelo vento agreste. Começaram a lamber a proa esférica do Outubro, envolvendo-a, escorrendo pela coberta plana dos mísseis à frente da altaneira torre negra. A água apresentava-se coberta do óleo sujo de inúmeras embarcações, sujidade que não se evaporava devido às temperaturas baixas, a qual deixava um anel preto nas paredes rochosas do fiorde como sinal do banho de um gigante pouco asseado. Comparação bastante a propósito, pensou Ramius. O gigante soviético pouco se importava com o lixo que deixava na face da Terra, resmungou consigo. Aprendera a arte de marear na juventude, em barcos de pesca costeiros, e sabia o que era estar de bem com a natureza.

— Aumentar a velocidade para um terço — disse. Kamarov repetiu a ordem do seu comandante pelo telefone da ponte. A água agitou-se mais à proa do Outubro, na esteira do Purga. O capitão-tenente Kamarov era o navegador. Servira antes como piloto de barra para os grandes vasos de guerra fundeados nas duas margens da vasta enseada. Os dois oficiais não perdiam de vista o quebra-gelos armado, trezentos metros adiante; as condições de navegabilidade exigiam atenção. Na coberta da popa do Purga um punhado de tripulantes deambulava ao frio, um deles usando o avental branco de cozinheiro. Queriam testemunhar a partida do Outubro Vermelho para o seu primeiro cruzeiro operacional e aproveitavam também o pretexto, como outro qualquer, para quebrar a monotonia, inimiga dos marinheiros. Noutra altura, o facto de lhe escoltarem o submarino — o canal era amplo e profundo, ali —teria irritado Ramius; naquele dia, não. O gelo era realmente motivo de preocupação. E para Ramius não era o único. — Então, meu comandante, lá vamos outra vez para o mar, servir e proteger a Rodina! O capitão Ivan Yurievich Putin meteu a cabeça pela escotilha — sem permissão, como de costume — e subiu a escada desajeitadamente — não era um marinheiro. O pequeno centro de controle estava já apinhado com o comandante, o navegador e um vigia silencioso. Putin era o zampolit (comissário político) do barco. Dedicava-se exclusivamente a servir a Rodina (MãePátria), palavra que possuía conotações místicas para um russo e que, juntamente com V. I. Lenin, era o substituto da divindade inventado pelo Partido Comunista. — Pois vamos, Ivan — respondeu Ramius mais bem-disposto do que realmente estava. — Duas semanas no mar. É bom deixar o cais. Um marinheiro pertence ao mar, não foi feito para estar atracado, a aturar burocratas e operários de botas sujas. E estaremos mais quentes. — Acha isto frio? — perguntou Putin, incrédulo. Pela centésima vez, Ramius disse a si próprio que Putin era o perfeito comissário político. Falava sempre demasiado alto, o seu humor era sempre demasiado afectado.

Nunca permitia a ninguém que esquecesse quem ele era. Perfeito comissário político. Putin era um homem facilmente temível. — Navego em submarinos há muito tempo, meu amigo. Habituei-me a temperaturas moderadas e a uma coberta estável debaixo dos pés. Putin não se apercebeu do insulto velado. Fora colocado nos submarinos após uma primeira comissão nos contratorpedeiros, interrompida por um enjoo crónico — e talvez porque ele não se ressentia da reclusão nos submarinos, coisa que muitos homens não suportavam. — Ah, Marko Aleksandrovich, em Gorkiy, num dia como este, as flores abrem-se! — E que flores serão essas, camarada comissário político? Ramius examinou o fiorde pelo binóculo. Ao meio-dia, o Sol mal cavalgava o horizonte a sudeste, lançando luz laranja e sombra púrpura pelas paredes rochosas. — Flores da neve, evidentemente — disse Putin, rindo alto. — Num dia como este, os rostos das crianças e das mulheres ficam muito rosados, a gente respira e o bafo parece uma nuvem, e o vodca sabe particularmente bem. Ah! Quem me dera estar em Gorkiy num dia assim! O patife devia trabalhar para o Intourist, disse Ramius consigo, se Gorkiy não fosse uma cidade fechada a estrangeiros. Já lá estivera duas vezes. Vira-a como uma típica cidade soviética, cheia de edifícios periclitantes, ruas sujas e cidadãos mal vestidos. Como na maior parte das cidades russas, o Inverno era a melhor estação em Gorkiy. A neve escondia o lixo todo. Ramius, meio lituano, possuía recordações de infância de melhores sítios, uma aldeia costeira cuja origem hanseática persistia em conjuntos de casas apresentáveis. Era raro que alguém não sendo grande-russo andasse a bordo — muito menos comandasse umvaso soviético. O pai de Marko, Aleksandr Ramius, fora herói do Partido, um comunista dedicado e convicto que servira Estaline fielmente e bem. Quando os soviéticos tinham ocupado pela primeira vez a Lituânia, em 1940, Ramius fora eficiente na repressão dos dissidentes políticos, dos proprietários de lojas, dos sacerdotes e de quem quer que pudesse resistir ao novo regime. Da sorte que lhes fora reservada nem Moscou fazia agora ideia. Quando os alemães invadiram a Lituânia, umano mais tarde, Aleksandr lutara heroicamente como comissário político e distinguira-se, depois, na batalha de Leninegrado. Em 1944, tinha regressado como ponta-de-lança do Décimo Primeiro Exército para fazer uma vingança sangrenta sobre os que haviam colaborado com os alemães ou disso eram suspeitos. O pai de Marko fora um verdadeiro herói soviético — e Marko sentia uma profunda vergonha de ser seu filho. A saúde da mãe soçobrara durante o interminável cerco de Leninegrado.

Morrera ao dá-lo à luz e, por isso, Marko tinha sido criado pela avó paterna, na Lituânia, enquanto o pai se pavoneava no Comité Central do Partido, em Vilnius, aguardando a sua promoção para Moscou. Conseguira-a, também, e era candidato a membro do Politburo quando umataque cardíaco lhe pusera termo à vida, prematuramente. A vergonha de Marko não era total. A proeminência do pai possibilitara os seus objectivos presentes e Marko planeava vingar-se da União Soviética o suficiente, talvez, para satisfazer os, milhares de compatriotas seus que tinham morrido ainda antes de ele ter vindo ao mundo. — Para onde vamos, Ivan Yurievich, ainda faz mais frio. Putín bateu no ombro do seu comandante. Seria um afecto fingido ou real? Marko não saberia dizê-lo. Real, provavelmente. Ramius era um homem honesto e reconhecia que aquele pateta baixinho e barulhento possuía alguns sentimentos humanos. — Não percebo, camarada comandante, por que motivo parece sempre feliz quando deixa a Rodina e vai para o mar… Ramius sorriu por trás do binóculo. — Um marinheiro tem uma pátria, Ivan Yurievich, mas duas esposas. Você nunca compreenderá isso. Agora vou para a minha outra esposa, a fria e cruel que é dona da minha alma. — Ramius interrompeu-se e o sorriso morreu-lhe nos lábios. — A minha única esposa, agora. Putín calara-se finalmente, observou Marko. O comissário político tinha lá estado, chorara lágrimas verdadeiras quando o caixão de pinho polido desaparecera no forno crematório. Para Putin, a morte de Natalia Bogdanova Ramius fora um motivo de desgosto e, além disso, o acto de um Deus indiferente cuja existência sistematicamente negava. Para Ramius, fora um crime, cometido não por Deus, mas pelo Estado. Um crime desnecessário, monstruoso, que exigia castigo. —Gelo— disse o vigia, apontando. —Gelo solto, a estibordo do canal, ou talvez gelo abandonado pelo glaciar do lado oriental. Passaremos sem dificuldade — disse Kamarov. — Comandante! — A voz, da ponte, soou metálica pelo altifalante. — Mensagem do quartelgeneral da esquadra.

— Leia. —Área de exercício livre. Não há vasos inimigos nas proximidades. Execute as ordens. Assinado, Korov, comandante da esquadra. — Está bem — disse Ramius antes de desligado o altifalante. — Então não temos por aí nenhumAmerikantsi… — Duvida do comandante da esquadra? — perguntou Putin. — Oxalá ele não se engane—respondeu Ramius mais sinceramente do que o seu comissário político teria apreciado. — Lembra-se das informações que nos deram, espero. Putin mudou de posição; talvez estivesse a sentir frio. — Esses submarinos americanos da classe 688, Ivan, os Los Angeles. Lembra-se daquilo que um dos oficiais deles contou ao nosso espião? Que eram capazes de se meter por baixo de uma baleia e de a encher de microfones antes que ela desse por isso? Pergunto a mim próprio como foi que o KGB obteve essa informação… Um esplêndido agente soviético, treinado no estilo decadente ocidental, magrizela como os imperialistas gostam das mulheres, de cabelo louro… — O comandante resmungou, divertido. — Provavelmente, o oficial americano era um gabarola, queria imitar o nosso agente, não? E se calhar estava bêbado, como acontece com a maior parte dos marinheiros. Bom… A classe americana Los Angeles e os novos Trafalgars britânicos, desses temos de nos proteger. São uma ameaça para nós. — Os americanos são bons técnicos, camarada comandante — disse Putin—, mas não são gigantes. A tecnologia deles não é assim tão espantosa. Nasha lutcha (A nossa é melhor) — concluiu. Ramius concordou de cabeça, pensativo, dizendo a si próprio que os zampolits deviamrealmente perceber qualquer coisa dos barcos que supervisavam, conforme instruções do partido. — Ivan, os agricultores de Gorkiy não lhe ensinaram que é o lobo invisível que devemos temer? Mas não se preocupe excessivamente. Com este barco, dar-lhes-emos uma lição, penso. — Como disse à Administração Política — Putin tornou a bater nas costas de Ramius—, o Outubro Vermelho não podia estar mais bem entregue! Ramius e Kamarov sorriram ao ouvir isto. “Filho da mãe!”, pensou o comandante. A dizer na frente dos meus homens que a minha competência para comandar precisa do seu aval! Um homem que não saberia comandar um barco de borracha num dia de Verão! Uma pena não viveres o suficiente para engolires essas palavras, camarada comissário político, e não passares o resto da vida no gulag por esse equívoco. Quase valia a pena deixar-te vivo.

Minutos mais tarde, a agitação das águas aumentou, fazendo balouçar o submarino. O movimento era acentuado por se encontrarem acima da coberta, e Putin desculpou-se e desceu. Sempre um marinheiro de água doce. Ramius partilhou, em silêncio, a observação com Kamarov, que lhe exprimiu acordo num sorriso. Este desdém mudo pelo zampolit era profundamente anti-soviético. A hora seguinte passou rapidamente. As águas tornavam-se mais bravias à medida que se aproximavam do mar alto, e o quebra-gelos começou a chafurdar nas ondas. Ramius observava-o, interessado. Nunca andara num quebra-gelos; fizera toda a sua carreira em submarinos. Os submarinos eram mais confortáveis, mas também mais perigosos. Estava habituado ao perigo, contudo, e os anos de experiência permitiam-lhe enfrentar agora todas as situações com calma. — Bóia à vista, comandante — disse Kamarov, apontando. A bóia vermelha, iluminada, cavalgava activamente as ondas. — Centro de controle, qual é a profundidade? — perguntou Ramius pelo telefone da ponte. — Cem metros abaixo da quilha, camarada comandante. — Aumentar a velocidade para dois terços, dez graus à esquerda. — Ramius olhou Kamarov. — Avise o Purga da nossa mudança de rota. Vamos lá ver se eles não se enganam. Kamarov estendeu a mão para a pequena luz intermitente, instalada debaixo da braçola da ponte. O Outubro Vermelho começou a acelerar a pouco e pouco, o casco de trinta mil toneladas resistindo à força dos motores. A vaga da proa transformou-se num arco permanente de três metros; as ondas assim provocadas rolavam pela coberta dos mísseis, rebentando contra a torre. O Purga virou a estibordo, deixando o submarino passar à vontade. Ramius olhou para a popa, para as falésias do Fiorde Kola. Haviam sido esculpidas, milénios atrás, pela pressão implacável de glaciares monumentais.

Quantas vezes, nos seus vinte anos de serviço na Esquadra do Norte Bandeira Vermelha olhara a ampla reentrância em forma de U? Aquela seria a última. Fosse como fosse, não regressaria. Como iriam acabar as coisas? Ramius admitiu que pouco lhe importava. Talvez as histórias que a avó lhe tinha contado fossem verdadeiras, acerca de Deus e do prémio por uma vida decente. Oxalá… Seria tão bom que Natalia não estivesse verdadeiramente morta. De uma maneira ou de outra, porém, não haveria regresso. Deixara uma carta no último saco de correio, levantado antes da partida. Não podia haver regresso. — Kamarov, informe o Purga: “Mergulhar às… — Verificou o relógio. —… às 13 e 20! Exercício OUTUBRO GELADO começa conforme o previsto. Estão livres para outras missões que devam executar. Regressaremos no dia marcado.” Kamarov accionou a luz intermitente a fim de passar a mensagem. O Purga respondeu de imediato, e Ramius leu sem ajuda os sinais de luzes: “SE AS BALEIAS NÃO VOS COMEREM. BOA SORTE, OUTUBRO VERMELHO!-” Ramius pegou outra vez no telefone e carregou no botão de ligação ao centro de comunicações do submarino. Mandou transmitir a mesma mensagem ao comando da esquadra, em Severomorsk. Falou depois para o centro de controle. — Profundidade abaixo da quilha? — Cento e quarenta metros, camarada comandante. — Preparar para mergulhar. Mandou descer o vigia. O rapaz encaminhou-se para a escotilha. Agradava-lhe provavelmente o regresso ao calor de baixo, mas deteve-se a olhar pela última vez o céu enevoado e as falésias a afastarem-se dos seus olhos. Partir num submarino era sempre excitante e também, sempre, um pouco triste. — Abandonar a ponte. Tome o comando quando descer, Gregoriy.

Kamarov aceitou a ordem com um gesto de cabeça e desapareceu pela escotilha, deixando o comandante sozinho. Ramius observou pela última vez o horizonte com atenção. O Sol mal se via à popa, o céu estava cor de chumbo, o mar era negro, tirando a espuma branca das vagas. Estaria a despedir-se do mundo? Nesse caso, teria preferido dele imagem mais animadora. Antes de descer, inspeccionou à escotilha, que fechou com um cadeado, e verificou se o mecanismo automático funcionava em condições. Desceu depois oito metros até ao casco de pressão, a seguir mais dois até ao centro de controle. Um michman (graduado) fechou a segunda escotilha e, com um vigoroso movimento rotativo, fez girar o volante do fecho, apertando-o ao máximo. — Gregoriy? — perguntou Ramius. — Escotilhas fechadas — disse o navegador em voz seca, apontando para o quadro de mergulho. Todos os indicadores luminosos das aberturas no casco apresentavam a cor verde; tudo emordem. — Todos os sistemas preparados e verificados para mergulhar. Compensação accionada. Estamos prontos para mergulhar. O comandante examinou os indicadores mecânicos, eléctricos e hidráulicos. Fez um sinal de cabeça e o michman de quarto abriu os escapes de ar. — Mergulhar— ordenou Ramius, dirigindo-se ao periscópio para substituir Vasily Borodin, o seu starpom (imediato). Kamarov accionou o alarme de mergulhar e, no casco, ecoou o clamor metálico de um besouro. — Inundar os tanques principais de lastro. Armar os hidroplanos de mergulho. Dez graus de inclinação para baixo — ordenou Kamarov, verificando se todos os tripulantes executavam com precisão o seu trabalho. Ramius escutava-o, atento, mas não olhava. Kamarov era o melhor marinheiro que jamais comandara; conquistara havia muito a confiança do seu comandante. O casco do Outubro Vermelho encheu-se com o ruído do escape de ar, quando as válvulas no topo dos tanques de lastro foram abertas e a água começou a expulsar o ar de flutuação. Era umprocesso demorado, porque o submarino tinha muitos tanques destes, cada um deles rigorosamente dividido por numerosos reflectores celulares. Ramius ajustou as lentes do periscópio para olhar para baixo e viu a água escura transformar-se momentaneamente em espuma.

O Outubro Vermelho era o vaso maior e melhor que Ramius já comandara, mas tinha uma grande falha. Possuía grande força de motores e um novo sistema de propulsão que, esperava ele, confundiria os submarinos americanos… e soviéticos, mas era tão grande que se movimentava como uma baleia ferida. Subia devagar e descia mais devagar ainda. — Profundidade? — Ramius afastou-se do instrumento, após o que pareceu longa demora. —Baixar periscópio. — Passamos os quarenta metros — disse Kamarov. —Estabilizar a cem metros. Ramius observou então os seus tripulantes. O primeiro mergulho podia levar homens experientes a estremecer, e metade da sua tripulação era constituída por jovens camponeses que mal tinham concluído a instrução. O casco estalava sob a pressão da água circundante, coisa a que uma pessoa demorava a habituar-se. Alguns dos tripulantes mais jovens empalideceram, mantendo-se, porém, rigidamente firmes. Kamarov começou a manobra de estabilização à profundidade escolhida. Ramius observava-o com o orgulho que teria sentido pelo próprio filho, vendo o tenente dar as ordens necessárias comprecisão. Era o co-piloto, que Ramius recrutara. A tripulação no centro de controle respondia impecavelmente ao seu comando. Cinco minutos depois, o submarino abrandava a descida aos noventa metros e mergulhava os dez seguintes para as deter exactamente a cem. — Muito bem, camarada tenente. O comando é seu. Reduza a velocidade para um terço. Que os homens do sonar se mantenham atentos a todos os sistemas passivos. Ramius virou-se para deixar o centro de controle, fazendo sinal a Putin para que o seguisse. E foi assim que tudo começou. Ramius e Putin dirigiram-se à popa, à sala de oficiais do submarino. O comandante segurou a porta para o comissário político passar e fechou-a, depois, por dentro. A sala de oficiais do Outubro Vermelho era ampla para um submarino e localizava-se logo adiante da cozinha e atrás dos camarotes dos oficiais.

Tinha paredes à prova de fogo, e a porta podia ser fechada por dentro porque quem a concebera sabia que nem tudo o que os oficiais diziam se destinava a ser ouvido pelos tripulantes. Dispunha de espaço bastante para todos os oficiais do Outubro comerem ao mesmo tempo — embora pelo menos três estivessem sempre de serviço. O cofre que continha as ordens do barco guardava-se nesta sala e não no camarote do comandante, onde um homem estimulado pela solidão poderia tentar abri-lo. Possuía dois segredos. Ramius conhecia uma combinação, Putin a outra — precaução desnecessária porque Putin sabia já, sem dúvida, a missão do barco. O mesmo acontecia com Ramius, que ignorava, porém, alguns pormenores. Putin serviu chá enquanto o comandante acertava o relógio pelo cronometro montado na antepara. Faltavam quinze minutos para que pudesse abrir o cofre. A cortesia de Putin enervava-o. — Mais duas semanas de reclusão — disse o zampolit, mexendo o chá. —Os americanos fazem isto durante dois meses, Ivan. Claro que os submarinos deles são muito mais confortáveis. A despeito do seu tamanho, enorme, as acomodações para a tripulação do Outubro teriam envergonhado um carcereiro de gulag. A tripulação era constituída por quinze oficiais instalados em camarotes razoavelmente decentes, à popa, e cem homens, cujos beliches se encaixavam em cantos e grades por toda a proa, adiante da sala dos mísseis. O tamanho do Outubro era enganador. O interior do casco duplo estava pejado de mísseis, torpedos, um reactor nuclear e equipamento de apoio, uma enorme unidade de alimentação díesel de emergência e um conjunto de baterias de níquel-cádmio fora do casco de pressão, cujo tamanho era dez vezes o do seu equivalente americano. A direcção e a manutenção do submarino constituía tarefa ingente para uma tripulação tão pequena, não obstante o nível de automação fazer dele o mais moderno dos vasos de guerra soviéticos. Talvez os homens cão precisassem de beliches em condições; só tinham quatro ou seis horas por dia para descansar. O facto constituía uma vantagem para Ramius. A tripulação era composta por recrutas que faziam o primeiro cruzeiro operacional, e mesmo os homens mais experientes não possuíam habilitação bastante. A força da sua tripulação, ao contrário das tripulações ocidentais, resultava muito mais dos onze michmanyy (graduados) do que dos glavnyy starshini (oficiais subalternos). Eram todos homens que fariam — tinham sido especificamente treinados para fazerem — exactamente o que os seus oficiais lhes ordenassem. E Ramius escolhera os oficiais. — Quer navegar durante dois meses? — perguntou Putin. — Já o fiz em submarinos a diesel.

Um submarino pertence ao Mar, Ivan. A nossa missão consiste em levar o medo ao coração dos imperialistas. Ora, não a cumpriremos atracados à nossa toca de Polyarnyy, mas também não podemos andar no mar por mais tempo, visto que a partir das duas semanas a tripulação perde eficiência. Em duas semanas, faremos desta miudagem umdestacamento de robots estupidificados. Ramius contava com isso. — E resolveríamos esse problema se tivéssemos luxos capitalistas? — escarneceu Putin. —’Um verdadeiro marxista é objectivo, camarada comissário político— ensinou Ramius, saboreando esta sua última discussão com Putin. — Objectivamente, aquilo que concorre para levarmos a bom termo a nossa missão é bom, aquilo que funcione em sentido contrário é mau. A adversidade deve servir para aguçar o espírito e o talento, não para os embotar. O simples facto de andar a bordo de um submarino já é provação suficiente, não concorda? — Para si não, Marko — disse Putin, sorrindo e levando a chávena à boca. — Eu sou marinheiro. Os nossos tripulantes não o são, a maior parte nunca o será. Não passamde um bando de filhos de camponeses e de rapazes que anseiam trabalhar numa fábrica. Temos de nos adaptar aos tempos, Ivan. Estes jovens são diferentes de nós. — Isso é verdade. concordou Putin. — Nunca está satisfeito, camarada comandante. Em minha opinião, são homens como o senhor que nos fazem progredir a todos. Sabiam os dois por que razão os submarinos nucleares soviéticos passavam tão pouco do seu tempo — quinze por cento, no máximo — no mar, o que nada tinha a ver com o conforto da tripulação. O Outubro Vermelho dispunha de vinte e seis mísseis Seahawk SS-N-20, cada um deles com oito ogivas múltiplas de orientação independente de 500 quilotoneladas — MIRV—, o suficiente para destruir duzentas cidades. Os bombardeiros, após algumas horas de voo, tinham de regressar às bases. Os mísseis terrestres instalados, ao longo da principal rede ferroviária soviética Leste-Oeste encontravam-se sempre onde tropas paramilitares do KGB lhes pudessem chegar, no caso de algum comandante de um regimento de mísseis se lembrar, de repente, de pôr à prova o poder dos seus dedos. Mas os mísseis submarinos estavam, por definição, fora de qualquer controle de terra, A sua missão cumpria-se na invisibilidade. O facto de o seu Governo os possuir surpreendia, assim, Marko.

A tripulação dos submarinos equipados com mísseis tinha de ser digna de toda a confiança. Por isso, navegavam menos que os seus equivalentes ocidentais e, quando o faziam, era com um comissário político a bordo, junto do comandante, um segundo comandante a quem competia aprovar todas as acções. — Acha que poderemos navegar durante dois meses com estes camponeses, Marko? — Prefiro rapazes com algum treino, bem sabe. Sempre têm menos para desaprender. Depois já posso ensiná-los a serem marinheiros como deve ser, à minha maneira. Será isto o culto da personalidade? Putin riu e acendeu um cigarro. —Já fizeram essa observação no passado, Marko. Mas você é o nosso melhor professor e a confiança que nos merece bem conhecida. Era verdade. Ramius mandara centenas de oficiais e marinheiros para outros submarinos, cujos comandantes apreciavam tê-los. Eis outro paradoxo: um homem poder suscitar a confiança numa sociedade que mal reconhecia este conceito. Claro que Ramius era um membro leal do Partido, o filho de um herói do Partido que fora transportado até ao túmulo por três membros do Politburo. Putin disse, agitando o indicador: — Devia ser comandante de uma das nossas escolas superiores navais, camarada comandante. As suas capacidades serviriam melhor o Estado nessa qualidade. — Eu sou marinheiro, Ivan Yurievich. Apenas um marinheiro, não um professor… apesar do que dizem a meu respeito. Um homem sensato conhece as suas limitações. E um homem ousado não desperdiça oportunidades. Todos os oficiais a bordo tinham já servido com Ramius, exceptuando três jovens tenentes que obedeceriam às suas ordens tão prontamente como qualquer moiros (marinheiro) imberbe ou o médico, que não servia para nada. O cronómetro bateu quatro badaladas. Ramius pôs-se de pé e marcou os três elementos da sua combinação. Putin fez o mesmo. O comandante accionou a alavanca para abrir a porta circular do cofre. No interior, estavam um sobrescrito grosso, quatro livros com chaves de código e coordenadas de alvos para os mísseis. Ramius tirou o sobrescrito e fechou a porta, desfazendo os segredos antes de se sentar.

— Que acha, Ivan, que as nossas ordens nos dirão para fazer? — perguntou Ramius teatral. — O nosso dever, camarada comandante — respondeu Putin, sorrindo. — Claro. Ramius quebrou o selo do sobrescrito e retirou dele a ordem de operações, de quatro páginas. Leu-as rapidamente. Não era nada de complicado. — Vamos avançar para as coordenadas 54-90, ao encontro do nosso submarino de ataque V. K. Konovalov — o novo comando do capitão Tupolev. Conhece Viktor Tupolev? Não? Viktor protegernos-á de intrusos imperialistas. Realizaremos um exercício de quatro dias, de perseguição, com ele atrás de nós… se puder. — Ramius riu por entre dentes. — Os camaradas do comando de submarinos de ataque ainda não descobriram como nos seguir com o nosso novo sistema de propulsão. E os americanos também não. Confinaremos as nossas operações à grelha 54-90 e às grelhas imediatamente circundantes. Viktor verá assim facilitada a sua tarefa. — Mas não vai deixar que nos encontre? — Claro que não — resmungou Ramius. — Deixar? Viktor foi meu aluno. Não se dá nada a um inimigo, Ivan, nem mesmo num exercício. Os imperialistas certamente não dão! Procurando encontrar-nos, também praticará na missão de encontrar os submarinos nucleares deles. Mas acho que vai ter uma razoável possibilidade de nos localizar. O exercício confina-se a nove grelhas, quarenta mil quilómetros quadrados. Veremos o que aprendeu desde que serviu connosco… Oh, sim, você não estava comigo então. Foi quando eu comandei o Suslov. — Será que o vejo desapontado?

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