| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A caixinha magica – Luiza Trigo

ACORDEI EM SOBRESSALTO , como se tivesse saído de um pesadelo. Graças a Deus eu estava enrolada na minha velha colcha de retalhos, senão teria batido o rosto no teto e essa não seria a melhor forma de começar a celebrar o Natal. Eu estava tão animada que acabei rindo de mim mesma imaginando quão horrível eu teria ficado com um galo na testa – e da ironia de se levantar feliz da vida e a própria vida te mandar deitar novamente. Já que uma força maior havia me prendido ali, decidi ficar quieta por mais um tempinho. Olhei para os lados e vi que o dormitório ainda estava quase todo ocupado. Vanessa, minha companheira de beliche, roncava como um trator; não sei como eu conseguia dormir com aquele barulho. Como uma pessoa tão pequena conseguia produzir um ruído tão medonho? Da minha cama, contemplei o teto. Vi as estrelinhas brilhantes coladas por mim no meu primeiro ano aqui. Fechei os olhos tentando me lembrar… fazia tanto tempo… * * * Eu estava muito assustada, com o rosto inchado e melado de tanto choro. O que estou fazendo aqui? Eu quero a minha mãe!, era só o que eu pensava, apesar de saber que não podia mais tê-la. Eu nemtive tempo de me despedir. Fui retirada de casa às pressas. Eles me levaram para diferentes salas em diferentes prédios, onde me fizeram muitas perguntas e me deixaram esperando uma eternidade. Depois, me colocaram em um carro e dirigiram por horas – pelo menos é como me recordo –, até pegarmos uma estrada de terra e chegarmos a este casarão antigo, que parecia um castelo de tão grande. Qualquer criança se encantaria facilmente. Eu, ao contrário, não quis sair da cama. Durante uma semana inteira, as cuidadoras me trouxeram comida e me obrigaram a ir me arrastando ao banheiro, o que me fez odiá-las por um tempo. Quando, enfim, eu resolvi me levantar, percebi pela primeira vez o tamanho daquele quarto e a imensa quantidade de beliches ao meu redor. Que lugar era esse? Onde eu estava? Uma cuidadora sorriu, feliz da vida, ao me ver de pé. Ela caminhou em minha direção, me pegou pela mão e saímos do quarto. Andamos pelo casarão em silêncio até entrarmos num escritório. Não me lembro de ter ficado assustada, estava triste demais para esboçar qualquer reação. A cuidadora sentou-se numa poltrona, segurou meus braços com delicadeza e olhou bem nos meus olhos. Ela é boa, pensei. Logo em seguida, a mulher sorriu para mim.


– Oi, Pri! Posso te chamar assim? – perguntou ela. Fiz que sim com a cabeça. – Você sabe onde está? Permaneci em silêncio. Apenas balancei a cabeça numa negativa. – Bem… Aqui é um orfanato. Uma casa onde recebemos as crianças que perderam os pais ou as que por algum motivo os pais não podem mais cuidar delas – explicou ela da maneira mais doce possível. – Você sabe por que está aqui, não sabe? Eu não tinha muita certeza do porquê, então dei de ombros. – Infelizmente a mamãe da Pri não pode mais ficar com ela… Um frio subiu pela minha espinha e meus olhos se encheram de lágrimas. – Mas sua mãe está bem. Está lá em cima com o papai do céu. Não precisa ficar triste. Esta casa é sua agora. Eu e as outras cuidadoras vamos cuidar de você com todo o amor e carinho que sua mãe te dava. A cuidadora percebeu que eu estava prestes a desabar num choro doído. Rapidamente, ela se levantou, foi para trás da escrivaninha e voltou com uma caixa de papelão. – Aqui está tudo o que a sua vizinha achou que você fosse gostar de guardar. – Tia Rita! – balbuciei, lembrando-me de uma das únicas amigas da mamãe, que por sorte era nossa vizinha. Tia Rita era mais que querida, sempre cuidava de mim quando mamãe precisava. Ela me tratava como se fosse sua filha. Eu amava escutá-la cantar. Sua voz era incrivelmente maravilhosa… Ela costumava cantar uma canção em inglês e sair dançando comigo pela sala fingindo saber tudo de balé. Eu adorava essa brincadeira, era muito divertida. Outro programa legal era a hora do chá. Toda vez que ficávamos sozinhas, à tarde, ela servia chá com bolachas, que ela mesma fazia, e me contava histórias sobre fadas e duendes tiradas de um livro enorme e antigo. Ao rever a caixa, meu pequeno coração se apertou… – Por que não posso ficar com a tia Rita? – Bem, Priscila… Não é possível adotar uma criança de repente.

A casa pode estar cheia ou a rotina da pessoa ser impeditiva… Cuidar de uma criança não é simples, requer tempo e dedicação. Mas saiba que ela te ama muito e guardou todos estes pertences para você. Uma lágrima escorreu dos meus olhos. Até a tia Rita eu tinha perdido. – Vamos, não chore. Você não quer saber o que tem aqui dentro? – perguntou ela, secando o meu rosto e em seguida abrindo a caixa. Olhei para o interior e senti meu corpo pender, quase caindo lá dentro do meu mundinho particular. A máquina de escrever do meu pai – a única coisa que eu tinha dele –, uma fotografia dos meus pais juntos: mamãe com um barrigão enorme e ele com cara de bobo. Eu não cheguei a conhecê-lo. Faleceu antes de eu nascer, mas mamãe sempre me contou muitas histórias sobre ele. Hoje, eu me lembro de poucas, mas guardo na memória com muito carinho. Segurei o porta-retratos com força. Agora eu não tinha nenhum dos dois. Voltei a olhar a caixa e tirei de dentro a colcha de retalhos que mamãe costurou quando estava grávida. Eu era muito apegada a essa colcha, dormia com ela desde que nasci. Agradeci, na minha cabeça, a tia Rita por tê-la colocado dentro da caixa. Peguei a coleção de CDs do Ray que mamãe sempre escutava. Para mim, naquela época, eram apenas músicas. Hoje, são uma máquina do tempo. É só escutar que volto à sala da nossa casa e vejo mamãe dançando com um cabo de vassoura. Achei meu álbum de adesivos que mamãe me ajudava a colecionar. Ela sempre comprava uma nova cartela na volta do trabalho e as minhas favoritas eram as estrelas brilhantes, que eu adorava colar no teto. Por último, havia uma caixinha que eu nunca tinha visto e que me deixou bastante intrigada. A cuidadora retirou-a com cuidado, colocando-a entre as minhas mãos. – Deixarei você um pouco a sós.

– Ela saiu da sala. Eu olhei para a porta sem entender nada. Por que ela saiu? Que caixinha era aquela? Analiseia e tentei lembrar se já a tinha visto em algum canto da casa, mas não tinha memória alguma dela. Era pesada e fria, muito bonita. Arrastei o trinco para o lado e ela se abriu. Lá dentro, uma linda fadinha girava ao som de uma música que me soava familiar, mas eu não consegui identificar de onde a conhecia. Reparei que havia um pequeno buraco na mão da fada, como se faltasse algo que se encaixasse ali. No entanto, no fundo da caixa só havia um bilhete velho e dobrado. Curiosa, peguei o pequeno pedaço de papel e o abri na mesma hora. Nele estava escrito:“Aos doze você terá uma surpresa.” O que aquilo queria dizer? Doze? Doze anos? Por que mamãe tinha escrito isso? Eram tantas as perguntas que pulavam na minha cabeça que eu agarrei aquele bilhete, e a caixinha, e apertei contra o meu peito como se estivesse abraçando a minha própria mãe. Não sei o que significavamaquelas palavras, mas eu certamente iria descobrir. * * * Ainda mergulhada em pensamentos, eu me virei de bruços e olhei por alguns segundos para a cabeceira. A minha cama era o pedacinho da minha casa que eu consegui guardar comigo. Aquele era o meu cantinho favorito. Lembrei-me da caixa e sorri. Ela foi o melhor presente de todos os tempos. Fiquei radiante ao recebê-la. Não que a dor tivesse passado, mas aquela descoberta funcionou como um antídoto à tristeza e mudou completamente o meu comportamento. E eu sequer desconfiava que aquele bilhete não havia sido escrito pela mamãe.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |