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A Cama Celestial – Irving Wallace

Enquanto seguia para casa em seu carro, depois de se despedir do último visitante e trancar a clínica, o doutor Arnold Freeberg concluiu que aquele fora um dos melhores dias — talvez mesmo o melhor dia — que desfrutara desde que se estabelecera em Tucson, Arizona, depois de deixar Nova York, havia seis anos. Tudo por causa daquele último visitante, Ben Hebble, o mais bem-sucedido banqueiro de Tucson, e seu anúncio de um presente extraordinário para ele. Freeberg recordou a essência da visita do corpulento banqueiro. — Meu filho ficou curado graças à sua terapia sexual. Timothy era muito infeliz e ambos sabíamos disso. Tinha medo da companhia de garotas porque não conseguia ter uma ereção, até que seu psiquiatra encaminhou-o para o senhor. Fez um bom trabalho. Em apenas dois meses, conseguiu transformá-lo. Depois disso, Timothy andou se divertindo por aí durante algum tempo, até que se apaixonou por uma garota do Texas. Resolveram viver juntos e foi um sucesso tão grande que agora vão casar. Por sua causa, eu ainda espero ser avô! — Meus parabéns! — exclamara Freeberg, recordando como ele e sua suplente sexual, Gayle Miller, haviam trabalhado com paciência para conduzir o filho do banqueiro, que sofria de disfunção sexual, à cura. — Não, doutor Freeberg, o senhor é que merece os parabéns! — protestara Hebble. — E estou aqui para lhe agradecer de uma maneira prática. Vim lhe comunicar que estou criando uma fundação para complementar sua clínica, e que permitirá ao senhor e à sua equipe ajudar a curar pacientes comdisfunção sexual que não tiverem condições de contratar seus serviços. Quero lhe garantir cem mil dólares por ano com essa finalidade, durante dez anos, perfazendo um milhão de dólares que lhe proporcionarão a oportunidade de ampliar seu trabalho e ajudar a outras infelizes vítimas da impotência. Freeberg recordou que se sentira atordoado. — Eu… não sei o que dizer. Estou muito confuso. — Só há uma condição — acrescentara Hebble, em tom incisivo. — Quero que a fundação seja em Tucson, com todo o seu trabalho realizado aqui. Esta cidade tem sido boa para mim, e lhe devo alguma coisa. O que me responde? — Não há problema. Absolutamente nenhum. Está sendo muito generoso, senhor Hebble. Freeberg despedira-se do seu benfeitor, ainda atordoado.


Ao chegar em casa, assim que abriu a porta cantarolando para si mesmo, deparou com a esposa rechonchuda, Miriam, que estava à sua espera no vestíbulo. Ele beijou-a, alegre. Antes que pudesse falar qualquer coisa, no entanto, ela sussurrou-lhe: — Arnie, há alguém à sua espera na sala de estar. É o promotor municipal, Thomas O’Neil. — Ele pode esperar um minuto — disse Freeberg, enlaçando a esposa. Freeberg e O’Neil eram amigos casuais; participavam juntos de diversos comitês a fim de levantar recursos para obras de caridade locais. — Provavelmente veio conversar sobre algum trabalho comunitário. Agora ouça o que acaba de acontecer na clínica. Rapidamente, ele relatou a oferta de Hebble. Miriam ficou excitada; abraçou o marido e beijouo várias vezes. — Isso é maravilhoso, Arnie! Agora você pode realizar seus sonhos! — E mais alguma coisa! Pegando o marido pelo braço, ela levou-o para a sala de estar. — É melhor você descobrir logo o que o senhor O’Neil está querendo. Ele chegou há dez minutos. Não deve deixá-lo esperar por muito tempo. Freeberg entrou na sala, cumprimentou o promotor e sentou-se à sua frente. Ficou surpreso ao perceber que O’Neil parecia constrangido. — Detesto incomodá-lo na hora do jantar, Arnold, mas tenho vários compromissos esta noite e achei que deveria lhe falar o mais depressa possível a respeito de… a respeito de um problema urgente. Freeberg ficou ainda mais desconcertado. Não parecia a conversa habitual sobre levantamento de recursos para obras de caridade. — O que aconteceu, Tom? — Refere-se ao seu trabalho, Arnold. — O que há com meu trabalho? — Bem… fui oficialmente informado por… por diversos terapeutas que você usa uma suplente sexual para curar seus pacientes. Isso é verdade? Freeberg contorceu-se na cadeira, apreensivo. — Hã… é, sim, é verdade. Descobri que é a única coisa que funciona com muitos pacientes que sofrem de disfunção sexual. O’Neil meneou a cabeça.

— É ilegal no Arizona, Arnold. — Sei disso, mas pensei que poderia fazer tudo com discrição, conseguindo curar os pacientes em estado mais drástico. O’Neil permaneceu intransigente. — É ilegal, Tom. Significa que você está agindo como proxeneta e a mulher que usa é uma prostituta. Eu bem que gostaria de fechar os olhos ao que está fazendo, pois somos amigos. Mas não posso. A pressão é cada vez maior. Não posso continuar a ignorar. — Ele empertigou-se e, ao tornar a falar, deu a impressão de pronunciar as palavras com o maior esforço. — O resultado final é que você perde o seu emprego ou eu perco o meu. O problema tem de ser resolvido o mais rápido possível e rigorosamente nos termos da lei. Quero lhe dizer o que deve fazer. É a melhor proposta que posso apresentar, Arnold. Está disposto a ouvir? Muito pálido, o doutor Arnold Freeberg assentiu com a cabeça e ouviu… Mais tarde, depois que O’Neil se foi, Freeberg manteve-se em silêncio durante o jantar, comendo devagar, sem ter a menor idéia do que punha na boca, absorto em seus pensamentos. Estava consciente e grato porque Miriam distraía o filho de quatro anos, Jonny, enquanto ele procurava se recuperar do golpe e avaliar as conseqüências. Freeberg trabalhara bastante e por um longo tempo, enfrentando uma oposição constante, até alcançar o sucesso em Tucson e receber a magnífica oferta de Hebble. E então, abruptamente, o edifício do sucesso desmoronava e se transformava em pó. Ele recordou o início. Acontecera logo depois que se formara na Universidade de Columbia, em Nova York, como psicólogo. Abrira um consultório e os resultados não haviam sido satisfatórios. A maioria dos casos envolvia relacionamentos humanos íntimos, quase sempre com problemas sexuais; por muitos motivos, o tratamento psicológico não funcionara de maneira eficaz, pelo menos não para ele. Os pacientes chegavam e partiam, talvez com uma compreensão maior dos próprios problemas, mas compouco aproveitamento em termos de soluções práticas. Mais e mais, Freeberg começara a investigar outras formas de terapia sexual, passando da hipnose ao condicionamento positivo e terapia de grupo. Nada o impressionara bastante, até que assistira a uma série de conferências em que um certo doutor Lauterbach demonstrara o uso das suplentes sexuais na terapia.

O método e os resultados favoráveis atraíram Freeberg de imediato. Depois de um estudo profundo, Freeberg passara a endossar incondicionalmente a idéia de usar suplentes sexuais. Numa das conferências conhecera uma jovem exuberante e encantadora chamada Miriam Cohen, uma bem-sucedida gerente de compras de uma loja de departamentos, que estava à procura de respostas para seus próprios problemas e fora uma das poucas mulheres que havia na sala a concordar com ele a respeito do valor da suplente sexual na terapia. Não demorara muito para que Freeberg descobrisse que tinha várias coisas em comum com ela. Começaram a sair juntos e acabaram casando. Ele continuara a trabalhar como psicólogo, planejando então utilizar suplentes sexuais sempre que necessário, ansioso para aplicar esse novo e promissor tratamento. Miriam adoecera; tivera insuficiência respiratória; o diagnóstico fora bronquite aguda. O médico de Miriam, apoiado por um especialista, aconselhara uma mudança imediata para o Arizona. Freeberg não hesitara em encerrar suas atividades em Nova York e se instalar em Tucson. Miriam ficara muito bem com a mudança. O que já não acontecera com Freeberg. O uso de suplentes sexuais era rigorosamente proibido no Arizona. Freeberg abrira seu consultório. Mas o tratamento convencional como psicólogo demonstrara mais uma vez não ser eficaz na cura de pacientes que sofriam de graves disfunções sexuais. Desesperado, Freeberg resolvera se arriscar. Sem divulgar, treinara e contratara uma suplente sexual, passando a usá-la com toda a discrição. Quando cinco em cinco pacientes com disfunções sexuais ficaram plenamente curados, ele experimentara uma autêntica satisfação profissional. E então, abruptamente, naquela noite, os meios de que dispunha para ajudar tais pacientes lhe foram tirados. A lei o deixava algemado, impotente. Parecia não haver alternativa a não ser voltar à terapia da palavra, limitada e muitas vezes ineficaz. Podia continuar a ganhar a vida em Tucson. Mas não podia mais curar. Era um absurdo, mas não havia opção. De repente, ocorreu-lhe que estava enganado, talvez houvesse uma saída, no final das contas. Antes de mais nada, precisaria dar dois telefonemas.

E torcer para que a sorte estivesse do seu lado. Freeberg ergueu os olhos do prato que mal tocara e empurrou a cadeira para trás. — Miriam… Jonny… vocês podem se distrair um pouco vendo televisão… acho que haverá um programa especial de circo… enquanto vou à biblioteca para dar dois telefonemas muito importantes. Virei me encontrar com vocês daqui a pouco. Fechando a porta da biblioteca, ele sentou-se e pegou o telefone. Ligou primeiro para o médico de sua esposa que vivia em Tucson. Tinha uma pergunta a fazer-lhe. Ficou esperando pela resposta. Depois, ligou para seu velho amigo e antigo colega de quarto na Universidade de Columbia, Roger Kile, que era advogado em Los Angeles, Califórnia. Freeberg esperava que Kile estivesse em casa. Estava. Depois de uma rápida troca de cortesias, ele foi direto ao assunto, dizendo, sem conseguir disfarçar o tom de urgência em sua voz: — Estou numa encrenca, Roger. Uma situação realmente crítica. Eles querem me expulsar da cidade. — Mas que história é essa? — murmurou Kile, confuso. — Eles… quem são eles? A polícia? — Sim e não. Para ser mais exato, não. É o promotor municipal e sua equipe. Estão querendo me impedir de exercer minhas atividades profissionais. — Mas que loucura! Por quê? Você fez alguma coisa errada? Está envolvido em algum crime? — Bem… — Freeberg hesitou. — Na opinião deles, é bem possível. — Ele tornou a hesitar e depois acrescentou, de súbito: — Roger, estou usando uma suplente sexual. — Uma suplente sexual? — Não se lembra? Eu lhe expliquei em certa ocasião. Obviamente Kile estava aturdido. — Não estou lembrando… Freeberg fez um esforço para conter sua impaciência.

— Você sabe o que é uma suplente. Uma pessoa designada ou contratada para agir no lugar de outra. Uma substituta. Uma suplente é uma substituta. — Uma pausa e ele acrescentou, mais enfático: — Uma suplente sexual é uma parceira sexual substituta geralmente indicada para um homem sozinho — que não tem uma esposa ou uma namorada que se proponha a cooperar — um homem que está sofrendo de uma disfunção, que tem um problema sexual… e por isso ele usa uma parceira para ajudá-lo, uma mulher supervisionada por um terapeuta sexual. A equipe de Masters e Johnson iniciou esse tipo de tratamento, em Saint Louis, em 1958… — Estou lembrando agora — interrompeu-o Kile. — Já li algo a respeito. Recordo também que você estava cogitando em usar suplentes sexuais em Tucson. O que há de errado nisso? — Para começar, Roger, é contra a lei. O uso de suplentes é admitido em Nova York, Illinois, Califórnia e em outros poucos estados, mas é ilegal no resto do país. Inclusive no Arizona. As suplentes sexuais são consideradas prostitutas. — Estou entendendo — murmurou Kile. — E você as usou? — Apenas uma, Roger… usei apenas uma. Mas, ao que parece, uma já é demais. Deixe-me explicar. — Freeberg parecia ter recuperado algum controle sobre a voz. — Já disse que é ilegal aqui. Por isso, comecei a operar em segredo, com toda a discrição. Não havia outro jeito, Roger. A terapia verbal não funciona em determinados casos, os piores, como impotência e às vezes até na ejaculação precoce. E essencial usar uma parceira bem treinada para ensinar, demonstrar, orientar. Encontrei uma pessoa assim, uma jovem extraordinária. Usei-a em cinco casos muito difíceis. Todos os cinco pacientes ficaram curados.

Cem por cento de cura. Mas, não sei como, a notícia espalhou-se… os terapeutas locais são muito conservadores ou mesmo invejosos… talvez tenham ficado ressentidos com o meu sucesso. Seja como for, a história chegou ao conhecimento do promotor municipal, e ele veio à minha casa; deve ter saído daqui há cerca de uma hora. Ele disse que eu estava agindo como proxeneta e usando uma prostituta, o que era contra a lei. Em vez de me prender e me levar a julgamento, ele ofereceu uma alternativa. Para não perder tempo e dinheiro com um processo, aconselhou-me a suspender a operação com a suplente sexual. E me deixaria continuar a clinicar como um terapeuta comum. — E você vai aceitar? — Não posso, Roger. Não poderia ajudar certos pacientes sem o auxílio de uma suplente. Pense no que aconteceu com Masters e Johnson quando foram obrigados a desistir do uso de suplentes sexuais em 1970. Até então, usando suplentes, eles tinham um índice de sucesso de setenta e cinco por cento. Depois que renunciaram ao uso das suplentes, o índice de cura caiu para vinte e cinco por cento. Não posso permitir que isso aconteça. Se o fizesse, não deveria estar nesta profissão. E quero permanecer nela. Não é uma simples questão de ganhar a vida. É muito mais. E ajudar pessoas deficientes sexuais a se tornarem saudáveis e viris. Não estou querendo parecer o bom samaritano, mas é justamente isso. E é esse o motivo pelo qual, por mais que deteste incomodá-lo, resolvi telefonar para você esta noite. — Estou contente por ter me procurado, Arnie. Mas o que eu poderia fazer por você aí em Tucson? — Pode me tirar daqui. Lembrei de uma coisa que você me informou, quando eu estava de partida para o Arizona. Perguntou por que eu não ia para o sul da Califórnia. Disse que era uma terra em que havia mais liberdade individual do que em qualquer outra.

E acrescentou que ouvira comentários sobre vários terapeutas de Los Angeles e San Francisco que usavam suplentes sexuais. — Eu disse tudo isso? É bem possível. Seja como for, é tudo verdade. — Só resisti porque o médico de Miriam em Nova York foi intransigente ao proclamar que o Arizona era o melhor lugar para seu problema de bronquite. Isso aconteceu há cinco anos. Agora, o atual médico de minha esposa, aqui em Tucson… acabei de telefonar para ele… acha que ela está muito melhor e não teria problemas se vivesse no sul da Califórnia. — Está querendo dizer que pretende se mudar para cá? — Isso mesmo, Roger. Não há outro jeito. — Freeberg engoliu em seco. — Roger, a Califórnia é um território desconhecido para mim. Preciso de sua ajuda. Você é agora um californiano. Conhece tudo por aí. Poderia me prestar umenorme favor, se não for pedir demais. — É pedir muito pouco. Sabe muito bem que farei qualquer coisa que puder por você, Arnie. — Não sou rico. Investi tudo o que tinha na clínica de Tucson. Não haverá grande problema, basta contratar um corretor para oferecê-la no mercado. É uma propriedade valiosa. Tenho certeza de que poderia vendê-la rápido e conseguir dinheiro suficiente para instalar outra clínica no sul da Califórnia. — Freeberg tornou a engolir em seco, nervosamente. — Mas preciso de sua ajuda. E pagarei por seu tempo, é claro. — Pare com isso, Arnie — protestou Kile, simulando contrariedade.

— É uma questão de amizade. Afinal, para que servem os amigos? Vamos fazer uma coisa. Se algum dia eu me descobrir numa situação crítica… se não conseguir levantar, por exemplo… você pode retribuir com seus serviços, emprestando-me uma de suas suplentes sexuais. Negócio fechado. O que você quer que eu faça? — Preciso que me arrume um bom lugar em Los Angeles ou arredores. Um prédio que eu tenha condições de comprar e possa reformar para servir como uma clínica. Eu lhe mandarei todos os detalhes amanhã, junto com fotografias do prédio de dois andares que estou ocupando agora. E também informarei, em números exatos, quanto posso pagar. — Não precisa se preocupar mais. Começarei a fazer algumas indagações imediatamente. E assim que tiver suas especificações e limitações… terá de me dar duas semanas depois disso, Arnie. Telefonarei logo que descobrir alguma coisa para você ver. Até lá, dê minhas lembranças a Miriam e diga a Jonny que estou ansioso para conhecê-lo. Será um prazer revê-lo, Arnie. Freeberg hesitava em desligar. — Tem certeza de que serei bem recebido aí, Roger? Com as suplentes sexuais e tudo mais? — Não se preocupe com isso. Posso verificar no código penal, mas tenho certeza absoluta de que não é contra a lei. Esta é a terra da liberdade, Arnie. Isso posso garantir. E agora vamos começar a providenciar tudo. Tudo deu certo, sem contratempos. Não houve nenhuma dificuldade. Quatro meses depois, o doutor Arnold Freeberg podia sentar-se confortavelmente em sua cadeira giratória de couro, de espaldar alto, por trás da escrivaninha de carvalho, coberta com umfeltro preto, ouvindo os sons abafados das marteladas que vinham lá de baixo. Os operários estavampondo no lugar a placa azul e branca que anunciava, em letras de fôrma: CLÍNICA FREEBERG. A placa ficaria acima de duas portas de vidro que davam para a recepção.

Também naquele dia, no início da tarde, Freeberg estaria dando instruções a cinco novos suplentes sexuais que selecionara para os seis que iria usar. Gostaria que a sexta pessoa, a mais experiente, a que empregara em Tucson, pudesse estar presente. Gayle Miller concordara em acompanhá-lo na mudança para a Califórnia, mas só poderia vir dentro de algumas semanas, assim que se formasse na Universidade do Arizona. Ela pretendia fazer pós-graduação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, concluindo o mestrado e o doutorado em psicologia. A vinda iminente de Gayle Miller proporcionava maior confiança em Freeberg. Tinha certeza de que os novos suplentes sexuais seriam competentes, mas Gayle era muito valiosa, jovem, bonita, atraente, séria e experiente. Atuara como suplente sexual em todos os cinco casos bemsucedidos que ele tratara em Tucson e fora irrepreensível. Todos os homens problemáticos haviam recebido alta para terem vidas sexuais normais. Reunindo distraidamente suas anotações, que escrevera nos últimos dias para não esquecer os pontos que queria destacar nas primeiras instruções para os novos suplentes sexuais, Freeberg correu os olhos pelas paredes de sua sala espaçosa. Ainda se podia sentir o cheiro forte da tinta fresca das paredes. Os lambris de carvalho eram envernizados. Nas paredes, em molduras de esteira creme, estava pendurada a impressiva panóplia de ídolos de Freeberg: Sigmund Freud, R. V. Krafft-Ebing, Havelock Ellis, Theodor H. van de Velde, Marie Stopes, Alfred Kinsey, William Masters e Virgínia Johnson. Na parede mais próxima havia um espelho ornamentado e o doutor Arnold Freeberg contemplou seu reflexo. Timidamente, ele se examinou — cabelos pretos abundantes, um tanto desgrenhados, óculos de aros grossos emoldurando olhos pequenos e míopes, nariz adunco, bigode escuro e cheio, barba aparada emoldurando os lábios carnudos. Por um instante, sentiu-se embaraçado na presença de seus antecessores. Não estava à altura deles. Ainda não, ainda não. Mas um dia, muito em breve, talvez… Ele acreditava e tentaria. Seus olhos se deslocaram para uma fotografia recente, em moldura de prata, que se encontrava num canto da mesa. A esposa, Miriam, atraente em seus trinta e poucos anos, o filho risonho, Jonny, uma fonte de alegria. Freeberg pensou em sua idade; já se aproximava dos cinqüenta anos, um pouco tarde para o primeiro filho… mas nem tanto assim. Meneando a cabeça, ele pegou as anotações e tentou se concentrar no que escrevera.

Reviu tudo depressa, depois largou os papéis. Já sabia tudo de cor e não precisaria consultar as anotações quando se dirigisse aos novos suplentes sexuais. Tinha ainda quinze minutos de espera antes que os cinco aparecessem. Quase como um relaxamento, pôs-se a reconstituir os acontecimentos dos últimos quatro meses, que o haviam levado àqueles momentos. Reviveu-os no presente. Duas semanas após o telefonema inicial de Freeberg, Roger Kile concluíra suas investigações em Los Angeles, encontrando o local ideal. Só que não exatamente em Los Angeles. Kile fora informado de que nessa cidade já havia muitos terapeutas sexuais, e os lugares mais apropriados estavam sendo vendidos a preços exorbitantes. Mas seguindo os conselhos de especialistas — Kile sempre fora um investigador sagaz, mesmo na faculdade de direito, em Columbia, com umconhecimento e interesses amplos, embora fosse um advogado fiscal — encontrara a comunidade emque o amigo poderia prosperar, a uma hora de carro de Los Angeles, ao norte. O lugar chamava-se Hillsdale, uma cidade em expansão, junto à estrada litorânea, perto do oceano Pacífico, com 360 mil habitantes. Havia muitos psiquiatras e psicólogos, mas nenhumterapeuta sexual. Contatos bem informados garantiram a Roger Kile que uma clínica instalada por umterapeuta sexual respeitável em Hillsdale, com uma equipe de suplentes sexuais bem treinados e profissionais, haveria de prosperar. Kile fora informado por diversos médicos que em Hillsdale havia muitas pessoas perturbadas, com disfunções sexuais. Kile procurara dois corretores bem recomendados, que logo o levaram a quatro prédios de escritórios pequenos, que pareciam ser boas possibilidades. Freeberg reconhecera o prédio perfeito de imediato, com dois andares, vazio, desocupado pouco antes por uma cadeia de lojas de roupas, no meio da Market Avenue, perto da Main Street. Tudo fora se ajustando rapidamente. Freeberg contratara um jovem e excelente arquiteto para reformar o prédio nas linhas de sua clínica de Tucson. Depois, Freeberg voltara de avião a Tucson para liquidar a antiga clínica. Miriam cuidara da venda da casa de adobe, em estilo de rancho, conseguindo um preço igual ao que haviam pago. Foram a Hillsdale quatro vezes no período subseqüente. Enquanto Freeberg supervisionava a reforma do prédio da clínica, Miriam procurava uma nova casa. Encontrara uma residência maravilhosa, de um só andar, a aproximadamente cinco quilômetros da nova clínica do marido. Freeberg começara a recrutar o pessoal necessário para a clínica. Por intermédio de um médico que tinha um consultório próximo, doutor Stan Lopez, um clínico que lhe inspirara o maior respeito, Freeberg contratara Suzy Edwards para sua secretária pessoal. Lopez vinha usando Suzy como segunda secretária em meio expediente, e sabia que ela desejava um emprego em horário integral.

Freeberg entrevistara Suzy, uma ruiva séria e interessada, com cerca de trinta anos. Ela se mostrara ansiosa pelo emprego, e Freeberg já fora informado de que era uma pessoa de confiança. Depois, ele contratara Norah Ames como enfermeira e Tess Wilbur como recepcionista. Em seguida, Freeberg enviara cartas pessoais a todos os médicos e psicólogos da região que conhecera em convenções e seminários, comunicando a abertura da Clínica Freeberg, em Hillsdale, Califórnia, oferecendo tratamento intensivo e o uso de suplentes sexuais femininos e masculinos, quando houvesse necessidade. Enquanto aguardava respostas, Freeberg iniciara a busca de suplentes sexuais. A fim de encontrar candidatos, escrevera cartas pessoais para psicanalistas em Hillsdale e terapeutas sexuais em Los Angeles, Santa Barbara, San Francisco, Chicago e Nova York. Em poucas semanas recebera vinte e três solicitações de pessoas que desejavam ser suplentes sexuais. Enquanto isso, recolhera informações a respeito de pacientes que precisavam desesperadamente daquele tipo de terapia. Com base nessas informações, concluíra que precisaria de cinco suplentes sexuais, quatro mulheres e um homem, além dos serviços de Gayle Miller, que em breve deixaria Tucson e viria para Hillsdale. À medida que as candidatas a suplente se apresentavam, Freeberg examinava-as, entrevistando cada uma pessoalmente. Muitas entrevistas foram bem curtas, porque as candidatas não apresentavam as condições exigidas. Se alguma alegava, como sua motivação, a idéia de que o trabalho seria interessante, era no mesmo instante eliminada. A perspectiva de um trabalho interessante não bastava, não era motivação suficiente. Se alguma demonstrava a menor preocupação por ser uma candidata ou qualquer hesitação, também era eliminada. As entrevistas mais longas se deram com as candidatas que estavam bem motivadas. Umas eramdivorciadas, sem filhos em casa, e que tiveram maridos sexualmente inadequados. Outras haviamtido problemas com amantes que sofriam de disfunções sexuais. E também havia mulheres que tinhamtestemunhado problemas sexuais em relação aos pais, irmãos ou outros parentes. Todas elas, independentemente de suas vocações anteriores, estavam unidas pelo desejo comum de ajudar homens deficientes sexuais a se tornarem normais. Em suas entrevistas, Freeberg sempre se lembrava de um comentário de um colega: — Uma boa suplente é sensível, compassiva e emocionalmente madura. Uma suplente qualificada devia se sentir à vontade com o próprio corpo e com sua sexualidade. Cada candidata que Freeberg considerara como uma possibilidade devia ter tido, caso estivesse sozinha no momento, um relacionamento sexual normal, tinha de saber que era sexualmente sensível e precisava confiar na própria feminilidade. Acima de tudo, devia sentir um desejo intenso de ajudar os homens sexualmente incapacitados. Ao final, Freeberg selecionara quatro candidatas a suplentes sexuais femininas altamente promissoras: — Lila Van Patten, Elaine Oakes, Beth Brant e Janet Schneider. Depois de treinadas, formariam uma equipe perfeita para trabalhar com Gayle Miller, que chegaria em breve.

Freeberg só precisara de um suplente sexual masculino. Não havia demanda de suplentes masculinos para trabalhar com mulheres que tinham disfunção sexual. Freeberg descobrira que umsuplente masculino não se ajustava ao sistema de valores da maioria das mulheres. Era o absurdo antigo que ainda perdurava em plena década de 80: se um homem tinha várias mulheres, não havia nenhum problema, ele era considerado um garanhão. Se uma mulher tinha sexo fortuito com vários homens, era tola e volúvel. De um modo geral, o sexo com um estranho, nesse caso um suplente masculino, era inadmissível pelos padrões sociais americanos. As mulheres — muito mais do que os homens — precisavam de tempo para desenvolver um relacionamento satisfatório. Mas ali era a Califórnia; os tempos estavam mudando, embora apenas um pouco. Freeberg podia prever que de vez em quando teria uma mulher como paciente e precisaria pelo menos de um suplente sexual masculino. Em suas entrevistas, apenas um candidato sobressaíra. Era um jovem do Oregon, experiente, interessado emseu crescimento pessoal, ponderado, afetuoso, com o desejo sincero de ajudar mulheres perturbadas e sofredoras a se tornarem normais e se ajustarem à vida. Seu nome era Paul Brandon. Entre os vários candidatos masculinos, Brandon fora o único que Freeberg selecionara para treinamento. A porta de sua sala foi aberta, e Freeberg despertou de seu devaneio. — Todos estão aqui, doutor Freeberg — comunicou sua secretária pessoal, a ruiva Suzy Edwards. — Foram para a sala de assuntos gerais e aguardam sua presença. Freeberg sorriu e levantou toda a sua corpulência. — Obrigado, Suzy. Está na hora de a cortina levantar. O doutor Arnold Freeberg interrompeu a música, deixou sua sala e encaminhou-se apressado para a sala de assuntos gerais, que era espaçosa e parecia uma sala de estar pouco mobiliada. Havia colchões espalhados pelo chão, e, encostado a uma parede, havia um sofá, de frente para os suplentes, cujas idades variavam de vinte e oito a quarenta e dois anos. Estavam sentados numsemicírculo, em cadeiras dobráveis. Freeberg acenou-lhes com a cabeça, sorrindo, satisfeito em constatar que todos estavamvestidos de maneira impecável e alertas. Sabia que se sentiam à vontade — sua enfermeira, Norah, já os apresentara — mas havia expressão de expectativa em cada rosto. Freeberg sentou-se no sofá, recostou-se, cruzou as pernas, e disse, como se lesse uma lista de chamada: — Janet Schneider, Paul Brandon, Lila Van Patten, Beth Brant, Elaine Oakes… estou muito satisfeito em tê-los aqui.

Sejam bem-vindos à Clínica Freeberg. E com prazer que lhes comunico que estão todos, sem exceção, altamente qualificados para se tornarem valiosos e úteis suplentes sexuais. Ele registrou a satisfação imediata e unânime pelo comentário, enquanto continuava a falar: — Vou expor hoje como será o programa de treinamento, que começará nesta sala amanhã de manhã, às nove horas. Será realizado inteiramente sob a minha supervisão, cinco dias por semana, durante seis semanas. Só nos estágios finais é que trarei pessoas de fora. Quando chegarmos ao contato pênis-vagina, precisarei da assistência de quatro homens e uma mulher, recomendados pela Associação Internacional de Suplentes Sexuais Profissionais, com sede em Los Angeles. Serão antigos pacientes… ou clientes, como alguns dizem hoje em dia… que já tiveram problemas sexuais, passaram por cursos completos com terapeutas respeitáveis e suplentes experientes, e foramdeclarados curados e aptos a cuidar de sua própria vida íntima. “Agora, farei um relato sobre o período de treinamento que terão pela frente, a fim de que saibam o que os espera. Será um monólogo. Falarei sem nenhuma pausa. Se tiverem perguntas, prefiro que guardem para o final, depois que eu terminar. Claro que vou resumir todo o processo, referindo-me apenas aos pontos principais, já que tomarão conhecimento de tudo durante o período de treinamento. Não precisam se preocupar com as perguntas que por acaso não puderem me fazer hoje. Poderão fazê-las enquanto trabalhamos, a partir de amanhã. Mais uma coisa. Ele fez uma pausa, olhando para Paul Brandon. —… senhor Brandon, como teremos uma maioria de homens entre os pacientes sob terapia, falarei sobre as atividades das suplentes femininas que trabalharão com eles. Mas quase todos os procedimentos que vou descrever também se aplicarão a você, como suplente masculino que vai trabalhar com mulheres. Mais tarde, poderemos conversar em particular, sobre as exceções que vai aplicar em seu tratamento com as pacientes que precisam de ajuda. Enfiando a mão no bolso e tirando a caixa de cigarrilhas, Freeberg acrescentou: — Não faço objeções se alguém quiser mascar chicletes, chupar uma bala ou fumar, desde que os outros não se importem. Acendendo uma cigarrilha, ele observou Brandon tirar do bolso do paletó um velho cachimbo de urze e uma bolsa de fumo, enquanto Lila Van Patten abria a bolsa e apanhava um maço de cigarros. — Vamos começar com as noções básicas — continuou Freeberg. — Por que vocês foram selecionados para parceiros ou suplentes sexuais? Não foramselecionados em razão da boa aparência, atributos físicos ou atração sexual. Escolhi-os por qualidades globais muito mais importantes… porque vi em cada um de vocês as qualidades de conhecimento, compaixão, afeto e preocupação sincera por outras pessoas que não são tão saudáveis. Todos têm em comum a compreensão da importância de dar, receber, acariciar e se preocupar com o próximo, bem como o desejo de partilhar o que possuem.

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