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A Camara Escura – Minette Walters

Com a pequena cara angulosa, onde era visível o descontentamento, a rapariga, de doze anos, sentou—se e procurou as cuecas entre as folhas da floresta. Finalmente começava a entender que ter sexo com Bobby Franklyn não era assim tão bom. Calçou os sapatos e deu—lhe um pontapé comforça. — Levanta—te Bobby — disse ela com rispidez. — É a tua vez de encontrares o maldito cão. Ele rebolou e ficou deitado de costas. — Daqui a um minuto — murmurou ele sonolento. — Não, agora. A mãe esfola—me viva se o Rex chegar a casa antes de mim. Ela não é estúpida, sabes. — Levantou—se e enterrou o salto do sapato na coxa nua do rapaz fazendo—o girar de umlado para o outro, num desejo infantil de magoar. — Levanta—te. — Está bem, está bem. Pôs—se de pé amuado, puxando as calças para cima. — Sabes que isto já está a chatear—me. Não vale a pena estarmos juntos, se de cada vez que isso acontece temos de ir à procura do cão. Ela afastou—se dele. — Não é por causa do Rex que quase não vale a pena estarmos juntos. —Havia lágrimas de humilhação nos olhos dela. — Devia ter dado ouvidos à minha mãe. Ela diz sempre que é preciso um verdadeiro homem para o fazer como deve ser. — Sim, bem — disse ele puxando o fecho das calças —, seria muito mais fácil se eu não tivesse de fingir que tu és a Júlia Roberts. E de qualquer maneira o que é que a tua maldita mãe sabe sobre o assunto? Há anos que ninguém lhe dá uma boa queca. Nutria, em relação a estas raparigas, poucos sentimentos que não fossem puramente animais, mas começava a odiá—las rapidamente quando criticavam a sua performance. A necessidade de bater nas suas pequenas caras trocistas tornava—se irresistível.


A rapariga começou a afastar—se. — Odeio—te, Bobby. Realmente odeio—te e vou fazer queixa de ti. — Deu umas pancadinhas no relógio. — Três minutos. É o máximo de tempo que consegues mantê—lo erecto. Três minutos nojentos. É isso que tu chamas uma boa foda? Olhou triunfantemente por cima do ombro, viu qualquer coisa na expressão dele que a alertou para o perigo em que se encontrava, e desatou a fugir cheia de um medo repentino. — Rex! — gritou ela. — Rex! Ele mata—te se me tocares, soluçava ela, o pequeno corpo magro voando através das árvores. Mas era Bobby que ia cometer a matança. Estava totalmente descontrolado. Atirou—se a ela, deitando—a ao chão, respirando intensamente ao tentar separar as pernas dela, que se moviamagitadamente. — Puta — grunhiu ele. — Sua grande puta! O medo deu—lhe força. Com dificuldade, a rapariga libertou—se dele, chamando o cão, escorregou num monte de folhas podres e resvalou para uma vala larga, que sulcava o leito da floresta. Caiu de pé, apenas a alguns centímetros do corpulento lobo—de—alsácia, que rosnava pronto para atacar. — Vou mandá—lo atirar—se a ti e desfazer—te em pedaços. E não me vou importar nem o vou mandar parar. — Viu, com satisfação, que Bobby estava branco. — És mesmo um TARADO! — gritou ela. Foi então que reparou que o Rex estava a rosnar—lhe a ela e não a Bobby e que o que fizera empalidecer o namorado não era o medo do cão, mas o horror atordoado perante o que o cão estava a guardar. Viu rapidamente qualquer coisa meio desenterrada e repugnantemente humana, antes que o pânico a fizesse subir de novo a encosta, soluçando espavorida. 1 Agarrou—se com tenacidade ao sono, envolvida em sonhos ilusórios. Mais tarde explicaram—lhe que não eram nada sonhos, apenas a realidade penetrando através da confusão à medida que ia emergindo da profunda inconsciência até ficar completamente consciente, o que ela achava difícil de aceitar.

A realidade era demasiado deprimente para dar lugar a qualquer tipo de contentamento. O seu acordar foi penoso. Apoiaram—na em almofadas e, de vez em quando, via—se reflectida no espelho da mesa—de—cabeceira, uma imagem pálida, de cabeça rapada e com um olho tapado —quase irreconhecível — e tinha então um desejo instintivo de se afastar dela e deixar que representasse o seu papel sozinha. Não era ela. Um homem enorme e rude debruçou—se sobre ela e disse—lhe que ela tinha tido um acidente de carro. Mas não lhe explicou nem onde nem quando. — Você é uma mulher cheia de sorte — disse ele. Ela lembrava—se disso. Esquecera—se de tudo o resto. Sentia o tempo a passar, ouvia as pessoas falarem—lhe, mas preferia continuar a dormitar e ter sonhos ilusórios. Estava acordada. Via. Ouvia. E sentia—se segura com as agradáveis vozes femininas, que suavizavam, acalmavam e a mimavam. Respondia—lhes interiormente, mas nunca em voz alta, pois agarrava—se à falsa protecção da ausência intelectual. — Então hoje está connosco? — perguntavam as enfermeiras aproximando o rosto do dela. Sempre estive. — Está aqui a sua mãe para a ver. Eu não tenho mãe. Tenho uma madrasta. — Vá lá, querida. Tem os olhos abertos. Sabemos que consegue ouvir—nos. Quando vai começar a falar connosco? — Quando estiver preparada… quando estiver preparada… quando eu quiser lembrar—me. ACIDENTE DE TRÂNSITO Comunicado cerca das 21.

45 h a 13.6.94. Os polícias Gregg e Hardy chegaram ao local às 22.04 h. Local: Aeródromo em desuso, Stoney Bassett, Hants. Um veículo envolvido. Rover Cabriolei preto automático Matrícula número JIN IX — veículo para a sucata. Condutor: Jane Imogen Nicola Kingsley Inconsciente e a precisar de tratamento de emergência. Segundo a carta de condução nasceu a 26.09.59 e a morada é 12 Gienavon Gdns, Richmond, Surrey. Filha de magnate envolvida em acidente misterioso Foi comunicado ontem, ao fim da noite, que Jane Kingsley, de 34 anos de idade, fotógrafa de moda e única filha de Adam Kingsley de 66 anos, presidente milionário da Franchise Holdings Ltd., foi encontrada inconsciente na sequência de um misterioso acidente no aeródromo abandonado, de Stoney Bas—sett, 15 quilómetros a sul de Salisbúria. O senhor Andicw Wilson, de 23 anos de idade e a sua namorada, Jenny Ragg de 19, que se encontravam por acaso no local às 21.45 h, pediram imediatamente socorros. «O carro estava desfeito» disse o senhor Wilson. «A menina Kingsley teve muita sorte. Se ela estivesse dentro do carro, quando este embateu no pilar de cimento, teria morrido esmagada. Estou contente por termos podido ajudar.» A polícia descreve o facto de Jane Kingsley ter escapado como um verdadeiro milagre. O carro, um Rover Cabriolei preto e automático, tinha colidido de frente com um pilar de cimento, que em tempos foi o suporte de canto de um hangar. A polícia acha que a menina Kingsley foi projectada através da porta aberta segundos antes do embate. «Aquele pilar é a única estrutura daquele aeródromo que ainda se mantém de pé» declarou o polícia Gavin Hardy «e ainda não percebemos como ela embateu nele». Não estava mais ninguém no carro e aparentemente não há mais nenhum veículo envolvido no acidente.

A madrasta de Jane, a senhora Betty Kingsley de 65 anos, ficou chocada com as notícias, que surgiram poucos dias depois do casamento da enteada ter sido subitamente cancelado. Esta manhã, na sua casa em Hellingdon Hall, onde ela e o senhor Kingsley vivem há quinze anos, chorou amargamente e disse que responsabilizaria o noivo da menina Kingsley, Leo Wallader de 35 anos de idade, se esta não recuperassse: «Ele tratou—a tão mal.» Foram as suas palavras. A polícia admitiu esta manhã que a menina Kingsley tinha estado a beber antes do acidente. «Tinha uma elevada percentagem de álcool no sangue» informou um porta—voz. A menina Kingsley encontra—se inconsciente no hospital Odstock em Salisbúria. Wessex Post — 14 de Junho 2 Acordou uma noite com o medo a sugar—lhe o ar dos pulmões. Abriu os olhos, esforçando—se por ver na escuridão. Estava num quarto escuro — a sua câmara escura, e não estava sozinha. Alguém ou alguma coisa rondava na sombra sem que ela o pudesse vislumbrar. O QUÊ? Medo… medo… MEDO… Sentou—se bruscamente, o suor a escorrer—lhe pelas costas enquanto os gritos saíam, tumultuosamente, da sua boca aberta. A luz inundou o quarto. Foi reconfortada por uma mulher com um peito macio, braços fortes e uma voz doce. — Vá lá, Jane, vá lá. Está tudo bem. Acalme—se minha querida. Teve um pesadelo. Mas ela sabia que não era verdade. O seu terror era real. Estava qualquer coisa na câmara escura. — O meu nome é Jinx — murmurou ela. — Sou fotógrafa e este quarto não é o meu. —Encostou a cabeça rapada ao uniforme branco e engomado e sentiu a amargura da derrota. Não haveria mais sonhos doces. — Onde estou? Quem é você? Porque estou aqui? — Está na Clínica Nightingale em Salisbúria — respondeu—lhe a enfermeira — e eu sou a irmã Gordon.

Teve um acidente de carro, mas agora está bem. Vamos ver se conseguimos que volte a adormecer. Jinx permitiu que mãos firmes lhe entalassem os lençóis. — Não vai apagar a luz, pois não? — pediu ela. — Não consigo ver na escuridão. Processo de inquérito à condução da menina Kingsley por alcoolemia Data: 22 de Junho de 1994 De: Sargento Geof Halliwell A menina Kingsley foi projectada do seu veículo antes de este embater num pilar de cimento num dos cantos do aeródromo. Estava inconsciente quando foi encontrada, às 21.45 de segunda— feira, dia 13 de Junho, pelo senhor Andrew Wilson e a menina Jenny Ragg. A menina Kingsley sofreu vários traumatismos graves e várias contusões nos braços e na cara quando foi projectada do carro. Permaneceu inconsciente durante três dias e estava muito confusa quando finalmente voltou a si. Não se lembrava do acidente e diz que não sabe por que razão se encontrava no aeródromo. Análises de sangue realizadas às 00.23 (14.6.94) mostraram que tinha 150 mg de álcool por 100 ml de sangue. Foram encontradas duas garrafas de vinho, vazias, no carro quando este foi examinado no dia seguinte. Os polícias Gregg e Hardy tiveram uma curta entrevista com a menina Kingsley pouco tempo depois de esta ter recuperado a consciência, mas ela estava demasiado confusa para lhes dizer alguma coisa além de que julgava ser sábado, dia 4 de Junho (isto é, 9 dias antes do incidente, no dia 13.6.94) e que ia a caminho de Londres para o Hampshire. Desde esta entrevista (cinco dias) continua num estado de torpor e incomunicável. As visitas foram proibidas por ordem dos médicos assistentes. Foi—lhe diagnosticada amnésia pós—traumática, em consequência do embate. Os pais comunicaram que ela passou a semana de 4 a 10 de Junho com eles (embora a menina Kingsley não se lembre disto) antes de voltar para Richmond, na tarde de sexta—feira, 10 de Junho, a seguir a uma chamada telefónica. Afirmaram que ela estava de bom humor e que esperava, com alegria, o seu casamento a 2 de Julho. Esperavam—na no trabalho, na segunda—feira dia 13 de Junho, mas não apareceu.

Dirige o seu próprio estúdio fotográfico em Pimlico e os seus empregados declararam que ficaram preocupados por ela não ter aparecido. Deixaram várias mensagens no atendedor de chamadas, no dia 13 de Junho, mas não receberam qualquer resposta. Em entrevistas feitas pela polícia de Richmond aos vizinhos, em Glenavon Gdns, o coronel e a senhora Clancey revelaram que ela tinha tentado suicidar—se no domingo, dia 12 de Junho. O coronel Clancey, cuja garagem fica contígua à da menina Kingsley, ouviu o motor do carro a trabalhar com a porta fechada. Quando foi tentar ver o que se passava, encontrou a garagem dela cheia de fumo e a menina Kingsley meio adormecida ao volante. Puxou—a para fora e conseguiu reanimá—la, não comunicando no entanto este incidente a pedido da menina Kingsley. Ele e a sua mulher estão profundamente consternados por ela ter tentado suicidar—se novamente. Tanto o coronel e a senhora Clancey, como o senhor e a senhora Adam Kingsley referiram— se ao senhor Leo Wallader que até há pouco tempo era o noivo da menina Kingsley. Parece que partiu de Glenavon Gdns na sexta—feira, dia 10 de Junho, depois de dizer à menina Kingsley que não podia casar com ela porque tencionava casar com a sua melhor amiga, Meg Harris. O senhor Wallader e a menina Harris não estão disponíveis para uma entrevista neste momento. De acordo com Sir Anthony Wallader (o pai) estão a viajar em França, planeando voltar em Julho. Tendo em vista um certificado da inspecção do carro da menina Kingsley, que põe de parte qualquer falha mecânica e o facto de as hipóteses de o veículo ter embatido no pilar de betão por acaso serem quase nulas, parece claro que ela provocou o embate intencionalmente. Por isso, e a não ser que recupere a memória para poder explicar os acontecimentos que levaram a este incidente, Gregg e Hardy pensam que esta foi uma segunda tentativa de suicídio, em estado de alcoolemia. O senhor Adam Kingsley, o pai, ofereceu—se para pagar os custos dos serviços de emergência. Entretanto a menina Kingsley foi transferida para a Clínica Nightingale, onde está a ser tratada pelo doutor Protheroe. O advogado do senhor Kingsley está a pressionar—nos para que tomemos uma decisão sobre a instauração de um processo contra a menina Kingsley. A minha opinião é que o melhor é não fazer nada, uma vez que o pai está disposto a pagar a conta, por ela se encontrar perturbada e por ter escolhido um local tão deserto. Por favor, dê—nos a sua opinião. 3 Quarta—feira, 22 de Junho, Clínica Nightingale, Salisbúria, Wiltshire — 8.30 h COMO A REALIDADF ERA MONÓTONA. Mesmo o sol que brilhava, através das janelas, era menos intenso do que os seus sonhos. Talvez tivesse qualquer coisa a ver com a ligadura sobre o olho direito, mas ela achava que não. Estar consciente era pesado e enfadonho e tão limitativo que sentia apenas uma depressão terrível. Um médico grandalhão entrou enquanto brincava com o pequeno—almoço, disse—lhe uma vez mais que ela tinha tido um acidente e que a polícia gostaria de falar com ela. Ela encolheu os ombros.

— Eu não vou a lado nenhum. Teria acrescentado que desprezava os polícias se ele tivesse ficado para a ouvir, mas ele desaparecera novamente antes de ela ter tido tempo de verbalizar o seu pensamento. Não se lembrava da primeira entrevista com a polícia, no Hospital Odstock e, delicadamente, negou ter estado com os dois polícias de uniforme que tinham ido ao seu quarto. Explicou que não conseguia lembrar—se do acidente e que, na verdade, não conseguia lembrar—se de nada desde o momento em que deixara a sua casa e o noivo em Londres na manhã anterior. Os polícias eram parecidos um com o outro, homens altos e impassíveis, cabelos loiros e faces rosadas, que mostravam o seu desconforto ao ouvir as respostas dela, girando os bonés, ao mesmo tempo, entre os dedos. Chamou—lhes Tweedledum e Tweedledee e riu—se para dentro porque eram muito mais divertidos do que a cabeça dorida o olho ligado e os braços terrivelmente pisados. Perguntaram—lhe para onde é que ela ia, ao que ela respondeu que se dirigia a casa dos pais, em Hellington Hall. — Tenho que ajudar a minha madrasta nos preparativos para o casamento — explicou ela. Ouviu—se a si própria anunciar o facto com prazer, enquanto a voz do cinismo murmurava na sua cabeça. Leo vai fugir antes de se casar com uma noiva careca e zarolha. Agradeceram—lhe e foram—se embora. Duas horas mais tarde, a madrasta desfazia—se em lágrimas junto à cama dela, deixando escapar que o casamento tinha sido cancelado, que era quarta—feira, vinte e dois de Junho, que Leo a deixara por Meg há doze dias e que, na verdade, ela tinha batido com o carro num pilar de cimento numa tentativa deliberada de se matar. Jinx olhou fixamente para as suas mãos desfiguradas pelas cicatrizes. — Eu não me despedi ontem de Leo? — Ficaste inconsciente durante três dias e depois estavas muito confusa. Estiveste no hospital até sexta—feira e eu fui ver—te, mas não sabias quem eu era. Já cá vim duas vezes e olhavas para mim, mas não querias falar comigo. Esta é a primeira vez que me reconheces. O pai está muito perturbado com tudo isto. — A boca dela tremia pateticamente. — Estávamos com tanto medo de te perder. — Vim para ficar contigo. É por isso que estou aqui. Tu e eu vamos confirmar o que foi combinado para o casamento. — Se ela o dissesse devagar e com clareza, Betty teria de acreditar nela. Mas não, Betty era uma idiota.

Sempre o tinha sido. — A semana que começa a quatro de Junho. Está na agenda há meses… As lágrimas da senhora Kingsley escorriam—lhe pelas faces rechonchudas, formando pequenos riachos rosados, na cara demasiado empoada. — Minha querida, já cá estás…Vieste para baixo há uma semana e meia e passaste a semana com o pai e comigo, fizeste tudo o que era suposto fazer e depois voltaste para casa e encontraste o Leo a fazer as malas. Não te lembras? Ele foi viver com a Meg. Ai, era capaz de matá—lo Jinx, realmente era. — Torcia as mãos. — Sempre te disse que ele não prestava, mas tu não me deste ouvidos. E o teu pai achava a mesma coisa. «Ele é um Wallader, Elizabeth…» — Continuou a falar, com o peito enorme a arfar tragicamente dentro de um vestido de malha demasiado apertado. A ideia de que tinham passado quase três semanas, sem que ela se lembrasse de um único dia, estava tão longe da sua compreensão que resolveu fixar a atenção no que era real. Cravos encarnados e lírios brancos numa jarra na sua mesa—de—cabeceira. Janelas francesas que davam para umterraço com um pavimento de lajes e, mais além, um jardim bem cuidado. A televisão num canto. Cadeirões de couro de cada lado de uma mesinha de nogueira, achava ela, e um toucador também de nogueira. A casa de banho à esquerda. A porta para o corredor à direita. Para onde é que Adam a tinha mandado desta vez? Para um lugar muito caro, pensou ela. A Clínica Nightingale, dissera —lhe a enfermeira. Em Salisbúria. Mas porquê Salisbúria se ela vivia em Londres? O choro lamuriento de Betty veio interromper—lhe os pensamentos. — Queria que não te tivesses incomodado tanto. Não fazes ideia como o teu pai reagiu mal. Ele acha que foi um insulto para ele. Nunca pensou que alguém pudesse levar a sua filhinha a fazer uma coisa tão — procurou uma palavra — pateta.

Filhinha? De que estava Betty a falar? Ela nunca tinha sido a filhinha de Adam — o seu cãozinho amestrado talvez — mas nunca a sua filhinha. De repente sentiu—se muito cansada. — Não percebo. — Embebedaste—te e tentaste suicidar—te, minha querida. O teu carro foi para a sucata. — A senhora Kingsley tirou uma fotografia de um jornal, da sua carteira, e colocou—a no colo da enteada. — Foi assim que ficou. É uma bênção que tu tenhas sobrevivido, de facto é. Apontou a data no canto superior esquerdo do recorte. — Dia 14 de Junho, o dia a seguir ao acidente. E a data de hoje —disse ela apresentando outro jornal — estás a ver, dia vinte e dois, uma semana depois. Jinx examinou a fotografia com curiosidade. A massa distorcida de metal, iluminada por focos da polícia, tinha a qualidade fantástica da arte surrealista. Era uma silhueta rígida e, olhando para as distorções do chassis e do ângulo oblíquo em que o fotógrafo tinha tirado a fotografia, parecia retratar um punho brilhante de metal agarrado à espada erguida do pilar. Era uma boa fotografia, pensou ela, imaginando quem a teria tirado. — Isto não é o meu carro. A madrasta pegou na mão dela e fez—lhe festas. — O Leo não vai casar contigo, Jinx. O teu pai e eu tivemos de mandar cartões a toda a gente explicando que o casamento tinha sido cancelado. Ele quer casar com a Meg. Ela observou uma lágrima a pingar do queixo empoado para a sua própria palma da mão. — Meg? — repetiu ela. — Está a falar da Meg Harris? Porque quereria Leo casar com Meg? Meg era uma puta. Sua puta… sua puta… sua PUTA! O horror, apoderou—se do seu espírito e com a mão apertou a boca, sentindo a bílis a subir na garganta.

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