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A Cancao de Troia – Colleen McCullough

Nunca houve uma cidade como Tróia. O jovem sacerdote Calcas, enviado à egípcia Tebas durante o seu noviciado, regressou indiferente às pirâmides construídas ao longo da margemocidental do Rio da Vida. Tróia, disse ele, era mais imponente, pois toda ela se erguia mais alto e os seus edifícios albergavam os vivos e não os mortos. No entanto, acrescentou, havia uma circunstância atenuante: os Egípcios possuíam deuses inferiores. Os Egípcios tinham movido as suas pedras com mãos mortais, ao passo que as poderosas muralhas de Tróia haviam sido erigidas pelos próprios deuses. Aplana Babilônia, disse ainda Calcas, também não podia competir com Tróia, pois tinha apenas a altura que era permitida pela lama do rio e as suas muralhas assemelhavam-se a uma obra de crianças. Não se lembra homem nenhum de quando foram construídas as nossas muralhas, pois isso sucedeu há muito, muito tempo. Contudo, todos os homens conhecem a história. Dárdano (filho do rei dos nossos deuses, Zeus) apossou-se da península que existe na ponta extrema da Ásia Menor, onde, a norte, o mar Euxino derrama as suas águas no mar Egeu, através do exíguo estreito do Helesponto. Dárdano dividiu este novo reino em duas partes. Deu a parte sul ao seu segundo filho, que chamou Dardânia ao seu domínio e instalou a capital na cidade de Lirnesso. Embora menor, a parte norte é muitíssimo mais rica; foram-lhe conferidos a tutela sobre o Helesponto e o direito de impor tributos a todos os mercadores que entrem ou saiam do mar Euxino. A esta parte chamamos Tróada. A sua capital, Tróia, ergue-se sobre o monte do mesmo nome. Zeus amava o seu filho mortal. Por isso, quando Dárdano pediu ao seu divino pai que desse a Tróia muralhas indestrutíveis, foi com grande prazer que Zeus satisfez o seu desejo. Por essa altura, havia dois deuses que não estavam nas boas graças de Zeus: Poseidon, senhor do mar, e Apolo, senhor da luz. Ordenou-lhes Zeus que seguissem para Tróia e construíssem muralhas mais altas, mais grossas e mais fortes do que todas as outras. Era um trabalho muito pouco indicado para o delicado e enfastiado Apolo, que preferia pegar na sua lira a ficar todo sujo e transpirado—uma maneira, explicou ele ao ingênuo Poseidon, de ajudar a passar o tempo enquanto as muralhas iam subindo. E foi assim que Poseidon empilhou pedras atrás de pedras, enquanto Apolo lhe cantava as suas canções. Poseidon, no entanto, não trabalhava de graça: com efeito, todos os anos, deveria ser depositada a soma de cem talentos de ouro no seu templo em Lirnesso. O rei Dárdano concordou; desde tempos imemoriais que os cem talentos de ouro são pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso. O problema é que, precisamente na altura em que o meu pai, Laomedonte, subiu ao trono troiano, um terremoto devastador destruiu a Casa de Minos em Creta e arrasou o império da ilha de Tera. A nossa muralha ocidental ruiu e o meu pai contratou o engenheiro grego Éaco para a reconstruir. Éaco fez um bom trabalho, ainda que a nova muralha não tivesse nem as linhas suaves nem a beleza do resto da grandiosa cintura de pedra erigida pelos deuses.


O contrato com Poseidon (pelos vistos, Apolo não se dignou sequer pedir o seu salário de músico), disse então o meu pai, deixara de ter validade. As muralhas, afinal de contas, não eram indestrutíveis. Portanto, os cem talentos de ouro pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso não voltariam a ser pagos. Nunca mais. Superficialmente, este argumento parecia válido—só que os deuses sabiam, com toda certeza, aquilo que eu, então um rapaz, estava farto de saber: o rei Laomedonte era um sovina incurável e odiava ter de pagar o precioso ouro de Tróia a um templo situado numa cidade rival que era governada por uma dinastia rival, apesar de ligada à nossa pelo sangue. Fosse qual fosse a verdadeira razão, o certo é que o ouro deixou de ser pago e nada de invulgar aconteceu durante aqueles anos em que eu, da criança que era, passei ao homem que sou. Quando o leão apareceu, a ninguém passou pela cabeça que um tal sucesso pudesse estar relacionado com deuses ofendidos ou com as muralhas da cidade. Nas verdejantes planícies a sul de Tróia, ficava a quinta onde o meu pai criava os seus cavalos, o único prazer que ele se permitia—embora, para o rei Laomedonte, até mesmo o prazer tivesse de dar lucro. Pouco tempo depois de Éaco, o Grego, ter concluído a construção da muralha ocidental, chegou a Tróia um homem vindo de uma terra longínqua—tão longínqua que, dela, só sabíamos que as suas montanhas suportavam o céu e que a sua erva era mais tenra e viçosa do que todas as outras ervas do mundo. O refugiado trazia consigo dez cavalos: três garanhões e sete éguas. Nunca tínhamos visto cavalos assim – corpulentos, velozes, graciosos, com abundantes crinas e compridas caudas e bonitos focinhos, bem comportados e dóceis. Esplêndidos para puxarem bigas! No instante em que o rei os viu, o destino do estrangeiro ficou traçado: morreu. Quanto aos seus cavalos, passaram a ser propriedade privada do rei de Tróia. O qual, graças a esses dez belos exemplares, criou uma raça tão famosa que mercadores de todo o mundo começaram a aparecer em Tróia, desejosos de comprarem éguas e machos castrados; sim, porque o meu pai era demasiado astuto para cair no erro de lhes vender um garanhão. Pelo meio da quinta, passava um velho e sinistro caminho, outrora usado pelos leões que, no Verão, atravessavam a Ásia Menor rumo à Cítia, no norte, e que, no Inverno, seguiam para sul, para a Cária e a Lícia, onde o sol conservava o poder de aquecer as suas fulvas peles. As caçadas tinhamnos dizimado; o caminho dos leões transformara-se num rego por onde corriam as águas de umriacho. Há seis anos, os camponeses acorreram ao palácio de meu pai, lívidos de medo. Não esquecerei nunca a calma do rei, quando lhe disseram que três das suas melhores éguas estavammortas e que um garanhão fora gravemente mutilado e que tudo fora obra de um leão. Laomedonte não era, de seu natural, propenso a acessos de cólera. Com uma voz rigorosamente controlada, ordenou a um destacamento dos Guardas Reais que se postasse no caminho em causa na Primavera seguinte e que matasse o animal. Mas não era um leão vulgar, aquele leão! Aparecia todos os Outonos e Primaveras, mas tão furtivamente que ninguém o via, e matava muito mais do que a sua barriga precisava. Matava porque gostava de matar. Dois anos após o seu aparecimento, os Guardas Reais surpreenderam-no a atacar um garanhão. Avançaram para ele, batendo com as espadas nos escudos, com o que pretendiam encostá-lo a um canto a fim de poderem usar as suas lanças. Em vez disso, o leão rugiu o seu grito de guerra, correu na direção dos soldados e passou por eles como umpedregulho deslizando por uma encosta.

Os soldados dispersaram, mas o rei dos animais teve ainda tempo para matar sete homens antes de seguir o seu caminho sem um único arranhão. Deste desastre resultou uma coisa boa. Um homem dilacerado pelas garras do animal sobreviveu e foi contar aos sacerdotes, e em particular a Calcas, que o leão tinha a marca de Poseidon; no seu pálido flanco, via-se claramente o tridente negro do deus. Calcas consultou imediatamente o Oráculo e anunciou que o leão pertencia a Poseidon. Que nenhuma mão troiana tocasse no animal!, exclamou Calcas, pois este era um castigo infligido a Tróia por ter se furtado ao pagamento dos cem talentos anuais ao senhor dos mares. E mais: o leão só se iria embora quando Tróia retomasse o devido pagamento. De início, o meu pai ignorou Calcas e o Oráculo. No Outono seguinte, ordenou de novo aos Guardas Reais que matassem o leão. Mas Laomedonte tinha subestimado o medo que todos os homens comuns têm aos deuses: mesmo quando ameaçou os guardas com a morte, estes recusaram-se a obedecer. Furioso, mas decidido a não ceder, o meu pai informou Calcas de que se recusava a pagar ouro troiano a Lirnesso—os sacerdotes que pensassem numa alternativa. Calcas voltou a consultar o Oráculo, que anunciou, de uma forma muito clara, que havia realmente uma alternativa. Se, todos os Outonos e Primaveras, seis moças virgens escolhidas à sorte fossem acorrentadas e deixadas nos campos onde os cavalos pastavam para que o leão delas fizesse banquete, Poseidon ficaria satisfeito pelo menos por uns tempos. Claro que o rei preferia dar virgens ao leão a perder ouro; e foi assim que o novo plano foi posto em prática. O problema é que o meu pai nunca confiou efetivamente nos sacerdotes nesta matéria particular, não por ser um homem sacrílego—dava aos deuses aquilo que achava que os deuses tinham direito—,mas porque detestava que outras pessoas ficassem com o ouro que, afinal, era só dele. Assim, todos os Outonos e Primaveras, todas as virgens de Tróia, meninas de não mais do que quinze anos, eram cobertas da cabeça aos pés com um pesado manto branco, de molde a que não fosse possível identificá-las, e levadas para o pátio de Poseidon, o Construtor de Muralhas, onde os sacerdotes escolhiam seis daqueles embrulhos tão brancos quanto anônimos para o sacrifício. A manobra resultou. Duas vezes ao ano, o leão passava pelo seu caminho, matava as moças acorrentadas e deixava os cavalos incólumes. Para o rei Laomedonte, era um preço insignificante a pagar para que nem o seu orgulho, nem o seu comércio, saíssem molestados. Há apenas quatro dias, foram escolhidas as seis virgens deste Outono. Cinco delas eram moças da cidade; a sexta era da cidadela, o palácio real. A mais amada das filhas do meu pai, Hesíona. Quando Calcas surgiu com a triste notícia, o rei nem queria acreditar. — O quê? Então tu foste idiota ao ponto de não deixares nenhuma marca no manto dela?—replicou o meu pai.—A minha filha—a minha filha!—tratada do mesmo modo que todas as outras moças da cidade? — Limito-me a obedecer às ordens de Poseidon—retorquiu calmamente Calcas. — Não! Poseidon não ordenou que a minha filha fosse escolhida! O que ele ordenou foi que lhe dessem seis moças virgens—foi isso, apenas isso! Por isso, Calcas, trata de escolher outra vítima! — Não posso, Grande Rei.

E não havia maneira de convencer Calcas do contrário. Uma mão divina presidia à escolha: portanto, se Hesíona fora escolhida, só ela poderia satisfazer os termos do contrato. Ainda que nenhum membro da corte tivesse assistido a este tenso e irado encontro, o certo é que, ao fim de pouco tempo, as novidades corriam soltas pela cidadela. Bajuladores como Antenor condenavam energicamente o sacerdote, ao passo que os muitos filhos do rei—incluindo eu, o seu herdeiro—pensavam que Laomedonte teria finalmente de ceder e pagar a Poseidon os cem talentos de ouro anuais. No dia seguinte, o rei convocou o seu Conselho. Participei, evidentemente, na reunião; o herdeiro tem de estar presente sempre que o rei toma uma decisão. O rei Laomedonte parecia calmo; não havia nele nada que denunciasse a agitação que dentro dele fervia. Era um homem pequeno, o meu pai, já longe do vigor da juventude; eram da cor da prata os seus longos cabelos e da cor do ouro o comprido manto. A sua voz sempre nos surpreendeu; agora, era com uma voz grave, nobre, melódica, forte, que se dirigia aos seus conselheiros. — A minha filha Hesíona—disse ele aos filhos, primos direitos e primos mais afastados— concordou em submeter-se ao sacrifício. Obedece assim à vontade do deus. Talvez Antenor tivesse adivinhado o que o rei iria dizer a seguir; eu não adivinhei, e os meus irmãos também não. — Meu pai!—exclamei, sem conseguir controlar-me.—Não podes permitir que isso aconteça! Quando Tróia vive tempos difíceis, o rei pode sacrificar-se para salvar o seu povo, mas as suas filhas virgens pertencem à virgem Ártemis e não a Poseidon! O meu pai pouco se preocupava com o fato de o seu filho mais velho o repreender diante de toda a corte; os seus lábios franziram-se, o seu peito inchou, e logo veio a resposta: — A minha filha foi escolhida, Príamo Podarkesl! Escolhida por Poseidon! — Poseidon ficaria mais contente—repliquei, furioso—se pagasses os cem talentos de ouro ao templo de Lirnesso. Nesse preciso momento, dei-me conta do sorriso satisfeito de Antenor. Ah, o que ele adorava as desavenças entre o rei e o seu herdeiro! — Recuso-me—disse o rei Laomedonte—a pagar ouro que tanto nos custou a obter, a um deus que não conseguiu construir uma muralha capaz de resistir a um dos seus próprios terremotos! — Não podes condenar Hesíona à morte! — Eu não estou a condená-la à morte! A decisão foi de Poseidon! O sacerdote Calcas mexeu-se um nada para logo ficar quieto. — Um homem mortal como tu—disse eu—não deveria responsabilizar os deuses pelas suas próprias fraquezas! Nota do tradutor: Podarkes é um termo do Grego antigo que significa de pés ligeiros», «veloz. — Estás a dizer que eu tenho… fraquezas? — Todos os homens mortais as têm—respondi.—Até mesmo o rei da Tróada! — Podes retirar-te, Príamo Podarkes! Desaparece! Quem sabe? Pode ser que, no próximo ano, Poseidon exija que os herdeiros ao trono se submetam ao sacrifício! Antenor continuava a sorrir. Obedeci a meu pai; saí e procurei consolo na cidade e no vento. Um vento frio e úmido vindo do distante pico do monte Ida esfriou a minha raiva, enquanto atravessava o pátio lajeado à saída da Sala do Trono, a caminho dos degraus—duzentos, ao todo— que conduzem ao ponto mais alto da cidadela. Aí, muito acima da distante planície, cravei as minhas mãos em pedras que homens haviam moldado; sim, porque a cidadela não fora construída pelos deuses, mas sim pelos homens de Dárdano. Aqueles ossos da Mãe Terra, cuidadosamente trabalhados por mãos humanas, como que penetraram no mais íntimo do meu ser; com efeito, senti, nesse preciso instante, todo o poder que ao rei era inerente. Quantos anos, perguntei-me, quantos anos teria ainda de esperar até poder usar a tiara de ouro e sentar-me na cadeira de marfim que era o trono de Tróia? Os homens da Casa de Dárdano costumavam morrer muito velhos e Laomedonte não chegara ainda aos setenta. Durante um longo tempo, observei o vaivém constante de homens e mulheres lá em baixo na cidade; depois, os meus olhos procuraram paragens mais distantes, as verdejantes planícies onde os preciosos cavalos do rei Laomedonte esticavam os seus longos pescoços para se alimentarem das tenras ervas.

Mas essa era uma visão que contribuía apenas para agravar o meu sofrimento. Olhei então para oeste, para a ilha de Ténedo, e para o fumo das fogueiras com que os habitantes da pequena aldeia portuária de Sigeu combatiam o frio. Para norte, as águas azuis do Helesponto imitavam o céu; vi a longa curva acinzentada da praia, entre os estuários dos rios Escamandro e Simoente, os dois rios que irrigavam a Tróada e alimentavam os campos de trigo e cevada que ondulavam ao sabor de um vento que nunca se cansava de zumbir. Por fim, o vento fez-me regressar ao grande pátio diante da entrada dos palácios, onde esperei que um criado me trouxesse o meu carro. — Para a cidade—disse eu para o condutor.—Deixa que os cavalos te conduzam. A estrada principal descia da cidadela para se juntar à curva da avenida que corria à volta das muralhas da cidade. As muralhas construídas por Poseidon. Na junção das duas ruas, erguia-se uma das três portas das muralhas, a Porta Ceia. Não me lembrava de alguma vez a ver fechada; dizia-se que isso só aconteceria em tempos de guerra e não havia no mundo uma nação que fosse forte o bastante para declarar guerra a Tróia. A Porta Ceia tinha uma altura de vinte cúbitos e era feita de enormes toras de madeira unidas umas as outras com pregos e chapas de bronze; tão pesada era que nem as maiores dobradiças do mundo poderiam movê-la. A Porta Ceia abria-se segundo um princípio que teria sido concebido pelo arqueiro Apolo, enquanto descansava ao sol vendo Poseidon trabalhar. O fundo da porta assentava numa grande pedra redonda inserida numa cova funda e curva e envolvida por maciças correntes de bronze. Se a porta tivesse de ser fechada, trinta bois atrelados às correntes puxariam lentamente a porta, pois a enorme pedra redonda só assim giraria no fundo da sua cova. Em menino, desejoso de assistir a um tal espetáculo, suplicara ao meu pai que mandasse atrelar os bois às correntes da pedra. O meu pai rira-se e recusara. No entanto, agora, ali estava eu, um homem de quarenta anos, marido de dez esposas e possuidor de cinqüenta concubinas, desejoso ainda de ver a Porta Ceia fechar-se. Por sobre a porta, um arco ligava as muralhas, permitindo assim que não houvesse nenhuma interrupção no caminho que, no topo das muralhas, percorria todo o perímetro da cidade. A Praça Ceia permanecia permanentemente na sombra, graças àquelas fantásticas muralhas de construção divina; estas erguiam-se a uma altura de trinta cúbitos acima de mim, suaves e elegantes, brilhantes quando o sol as banhava. Acenei para que o condutor seguisse em frente, mas, antes que ele pudesse dar o necessário movimento às rédeas, mudei de idéia e mandei-o parar. Um grupo de homens entrara pela Porta Ceia e encontrava-se agora na praça. Gregos. Isso era manifesto nos seus modos e vestuário. Usavam saiotes de cabedal ou calções também de cabedal, muito justos, que iam até ao joelho; alguns estavam nus da cintura para cima e outros envergavam blusas de cabedal abertas, deixando a descoberto o peito. Não faltavam os adornos na sua indumentária; algumas peças de roupa eram enfeitadas com desenhos de ouro, outras com borlas ou fitas de cabedal tingido; as suas cinturas eram estreitadas por amplos cintos de ouro e bronze cravejado de lápis-lazúli; contas de cristal polido pendiam dos lóbulos das suas orelhas; cada pescoço era cingido por um grande colar incrustado de pedras preciosas; e as suas cabeleiras, muito compridas, caíam livres em caracóis cuidadosamente moldados.

Os Gregos eram mais altos e mais esbeltos do que os Troianos, mas aqueles Gregos eram mais altos e mais esbeltos e tinham um ar mais violento e perigoso do que todos os homens que vi na minha vida. Só a riqueza das suas roupas e armas me permitiu concluir que não eram vulgares bandidos, já que traziam consigo lanças e espadas. À sua frente, seguia um homem que era seguramente uma criatura única: um gigante que suplantava em estatura todos os outros membros do grupo. Devia ter seis cúbitos de altura e tinha uns ombros que mais pareciam montanhas negras. Negra como breu e pontiaguda, uma barba cobria o seu queixo poderoso e saliente, e o seu cabelo negro, embora cortado curto, erguia-se desgrenhado sobre a testa que se projetava sobre as órbitas como se fosse um toldo. A sua única peça de roupa era uma enorme pele de leão sustentada por uma alça sobre o ombro esquerdo e que descaía depois sob o braço direito; a cabeça do leão era como um capuz que trazia às costas, com a temível bocarra aberta, exibindo as poderosas presas. O gigante virou-se e surpreendeu-me a olhar para ele. Subjugado, olhei-o nos olhos, uns olhos tão grandes quanto serenos—uns olhos que já tinham visto tudo, suportado tudo, vivido todas as degradações que os deuses poderiam impor a um homem. Olhos que faiscavam de inteligência. Sentime mentalmente encostado à parede da casa que estava atrás de mim, o meu espírito completamente posto a nu, a minha mente um brinquedo nas mãos dele. Apesar disso, consegui incutir algum vigor à minha débil coragem e, enchendo-me de brios, recompus-me do choque e assumi uma postura tão direita quanto possível; afinal de contas, era eu quem possuía um título grandioso, mais aquele carro ornamentado a ouro, mais aqueles cavalos brancos, melhores do que todos os que ele jamais vira. Afinal de contas, era eu o herdeiro deste reino, o mais poderoso de todos os reinos do mundo. O gigante avançou por entre o tumulto da praça do mercado como se não houvesse tumulto nenhum e veio direito a mim com dois dos seus companheiros imediatamente atrás; então, com uma mão do tamanho de um presunto, afagou delicadamente os focinhos negros dos meus cavalos brancos. — Diz-me: tu és do palácio? Da Casa Real?—perguntou-me ele com uma voz ressoante, ainda que sem sombra de arrogância. — Eu sou Príamo Podarkes, filho e herdeiro de Laomedonte, rei de Tróia respondi. — Eu sou Héracles—disse ele. Fitei-o boquiaberto. Héracles! Héracles estava em Tróia! Molhei os lábios secos. — É uma grande honra para Tróia poder receber-te, Héracles. Gostaria de te convidar para casa de meu pai Havia uma doçura surpreendente no seu sorriso. — Agradeço-te muito, príncipe. O convite inclui todos os meus homens? Todos eles pertencem a casas nobres gregas: não envergonharão a tua corte, nem me deixarão envergonhado a mim. — Claro, Héracles. Acenou para os dois homens que estavam na sua sombra, um sinal de que deveriam avançar. — Posso apresentar-te os meus amigos? Este é Teseu, rei supremo da Ática, e este é Télamon, filho de Éaco, rei de Salamina.

Engoli em seco. O mundo inteiro conhecia Héracles e Teseu; os bardos cantavam incessantemente os seus feitos. Éaco, o pai do adolescente Télamon, reconstruíra a nossa muralha ocidental. Quantos outros nomes famosos haveria naquele pequeno grupo de Gregos? Tal era o poder daquele nome que até mesmo o avarento do meu pai decidiu abrir os cordões à bolsa e oferecer ao famoso Héracles uma régia recepção. Assim, naquela mesma noite, o rei Laomedonte deu um banquete em honra de Héracles no salão do palácio, com muitas e variadas iguarias e bebidas servidas em baixela de ouro e com harpistas, bailarinas e acrobatas para entreter os convidados. Se eu sentira um temor reverente ao ver Héracles, também o meu pai experimentava agora esse sentimento; todos os gregos que faziam parte do grupo de Héracles eram reis pelos seus próprios méritos. Assim sendo, perguntei-me por que razão aceitavam seguir um homem que não reivindicava nenhum trono? Um homem que limpara estábulos? Que fora arranhado, mordido, dilacerado por todo tipo de animais, desde o mosquito ao leão? Sentei-me na mesa régia com Héracles à minha esquerda e Télamon à minha direita; o meu pai ficou sentado entre Héracles e Teseu. Embora a iminência da morte sacrificial de Hesíona ensombrasse a nossa hospitalidade, ocultávamos tão bem esse fato que disse para mim mesmo que os nossos convidados gregos não tinham dado por nada. A conversa fluía ligeira e fácil, pois eles eram homens cultos, adequadamente instruídos em tudo, desde a aritmética mental às palavras dos poetas que, como nós, sabiam de cor. Restava saber uma coisa—por debaixo dessa capa, que gênero de homens eram os Gregos? Eram poucos os contatos entre as nações da Grécia e as nações da Ásia Menor, entre as quais Tróia. De uma maneira geral, nós, os que vivíamos na Ásia Menor, pouca importância dávamos aos Gregos. Eram homens notoriamente sinuosos, famosos pela sua curiosidade insaciável—isso sabíamos nós; mas aqueles homens que estavam conosco deviam ser os melhores entre os Gregos, já que os Gregos escolhiam os seus reis por razões estranhas ao sangue. O meu pai, em particular, não atribuía importância nenhuma aos Gregos. Nos últimos anos, tinha firmado tratados com os diversos reinos da Ásia Menor, dando-lhes a maior parte do comércio entre o Euxino e os mares Egeus, o que significava que havia restringido severamente o número de navios mercantes gregos autorizados a passar pelo Helesponto. A Mísia e a Lídia, a Dardânia e a Cária, a Lícia e a Cilícia, não queriam partilhar o comércio com os Gregos, e por uma razão muito simples: de algum modo, os Gregos superavam-nos sempre, os Gregos obtinham sempre os melhores negócios, E o meu pai cumpriu a sua parte, mantendo os mercadores gregos o mais longe possível das águas negras do Euxino. Todas as esmeraldas e safiras, todos os rubis, todo o ouro e prata da Cólquida e da Cítia iam para as nações da Ásia Menor; os poucos mercadores gregos que haviam recebido a necessária autorização do meu pai tinham de concentrar os seus esforços no estanho e no cobre da Cítia. No entanto, Héracles e os seus companheiros eram criaturas demasiado bem educadas para se porem a discutir temas tão controversos como embargos comerciais. Limitaram a sua conversa a observações elogiosas sobre a nossa cidade e as suas imponentes muralhas, sobre o tamanho da cidadela e a beleza das nossas mulheres—embora, no que tocava a mulheres, apenas conhecessem as escravas que iam de mesa em mesa, servindo guisados, distribuindo pães e carnes várias, enchendo de vinho as taças.

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