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A Cancao do Lobo Branco – Michael Moorcock

O cavaleiro era magro, quase estiolado, mas sutilmente musculoso. As suas feições ascéticas eram delicadas, a pele, branca como o leite. Nas cavidades fundas daquele rosto famélico ardiammelancólicos olhos vermelhos, como flores infernais. Uma vez por outra, voltava-se na sela para olhar para trás. Com uma tribo de hermafroditas alofianos no seu encalço, galopava em direção ao oriente pela Estepe de Dakwinsi, esperando alcançar a mítica Xanardwys antes que as neves obstruíssem o desfiladeiro. A sua égua prateada, a mais destemida das bastãs, tinha sido criada para aquele terreno e agarrava-se tanto à vida quanto o enfermiço albino, que precisava de se suster com drogas ou com a vitalidade dos companheiros. Aconchegando-se na negra capa de pele de foca, o homem opôs-se aos elementos. Chamava-se Elric e era príncipe no seu país, último de uma extensa linhagem e sem sucessão legítima, pária em quase todo o lado num mundo que aprendera a odiar e ressentir-se com os da sua estranha espécie, ao mesmo tempo que declinava o poder de Melniboné e crescia a força dos Reinos Jovens. Não se preocupava muito com a própria segurança, mas estava determinado a viver, para regressar ao seu reino insular e reconciliar-se com a doce prima Cymoril, que desposaria mais tarde. Era esta ambição apenas que o impelia pela tempestade de neve. Agarrando-se às crinas da égua enquanto o robusto animal prosseguia contra os vendavais cada vez mais intensos que ameaçavam enterrar o mundo em neve, os sentidos de Elric ficaram tão entorpecidos quanto o corpo. A égua avançava devagar pelas serranias, mantendo-se em terreno elevado, afastando-se sempre do sol da tarde. À noite, Elric cavava para ambos um buraco na neve e embrulhava-se em lonas forradas. Transportava o equipamento dos kardiks, a quem pertenciam aqueles terrenos de caça. Elric já não sonhava. Quase não tinha pensamento consciente. Ainda assim, a égua avançava a passo firme em direção a Xanardwys, onde as termas traziam o Verão eterno e rosas escarlates desabrochavam apesar da neve. Ao entardecer do quinto dia de viagem, Elric notou um frio mais intenso no ar. Muito embora o grande disco carmim do sol-posto projetasse grandes sombras na paisagem branca, a luz não penetrava longe. Elric teve a impressão de ver uma vasta muralha de gelo elevar-se adiante, como os lados de uma gigantesca fortaleza sobrenatural. Tinha um tanto de insubstancial. Talvez tivesse descoberto uma das monumentais miragens que, segundo os kardiks, prenunciavam a morte inevitável da testemunha. Elric enfrentara já outras mortes inevitáveis e não receou aquela, mas a curiosidade despertou-o da semi-letargia em que tinha caído. Ao aproximarem-se do gelo altaneiro, viu-se e à égua num reflexo perfeito. Forçou um sorriso, chocado com a própria magreza.


Parecia o dobro da idade e sentia-se cem vezes mais velho. Os encontros com o sobrenatural tinham por hábito enfraquecer-lhe o espírito, como outros que encontrara poderiam prontamente atestar … O reflexo cresceu a ritmo constante até que, sem aviso, Elric foi por ele tragado—de súbito unido com a própria imagem! Deu então por si a cavalgar através de um pequeno vale pacato e verdejante que, esperou sinceramente, fosse o Vale de Xanardwys. Olhou para trás e viu uma nuvem azul rolar encosta abaixo e desaparecer. Talvez o efeito especular tivesse algo a ver com o clima bizarro da região? Ficou profundamente aliviado ao constatar que Xanardwys—ou, no mínimo, o vale—se revelava uma lenda um tanto ou quanto substancial. Pôs de parte todas as dúvidas relacionadas com o fenómeno que ali o trouxera e prosseguiu, bem-disposto. Por todo o lado se viam os sinais da Primavera—o ar quente e perfumado, as flores silvestres de cores vivas, as árvores e arbustos em botão, a erva viçosa—e Elric espantouse com o maravilhoso paradoxo geográfico que, segundo as histórias que escutara, teria salvo inúmeros fugitivos e viajantes. Logo chegaria aos pináculos de marfim e telhados de ébano da cidade, onde poderia enfim descansar, comprar mantimentos, procurar albergue e prosseguir então para Elwher, que se achava para lá de todos os mapas do mundo. O vale era estreito com vertentes íngremes, como um túnel, com as raízes e os ramos das árvores verde-escuras entrelaçando-se ao alto na terra macia. Elric experimentou uma agradável sensação de segurança e respirou fundo, saboreando a doce fecundidade que o rodeava. Encontrar aquela abundância natural depois do gelo inclemente enchia-o de vitalidade e esperança renovadas. Até a égua desenvolvera um trote mais animado. No entanto, quando ao cabo de uma ou duas horas, as vertentes se tornaram mais íngremes e apertadas, o príncipe albino começou a ter dúvidas. Nunca tinha encontrado um fenómeno natural daqueles e começava até a crer que toda aquela deslumbrante riqueza primaveril podia, afinal de contas, ter uma origem sobrenatural. Mas, naquele instante, enquanto contemplava arrepiar caminho e dar ouvidos à prudência que tinha por hábito ignorar, as encostas do vale começaram a cair na ondulação de montes mais suaves, alargando-se para revelar ao longe os contornos enevoados do que só podia ser Xanardwys. Depois de uma pausa para beber água de um regato cintilante, Elric e a égua prosseguiram. Atravessavam agora uma vasta extensão coberta de erva, flanqueada por montanhas distantes e pontilhada de árvores, prados floridos, lagos e rios. Aos poucos, aproximaram-se da tranquilidade doméstica dos telhados rurais de Xanardwys. Elric soltou um suspiro profundo e satisfeito. Um rugido enorme explodiu subitamente nos ouvidos de Elric, que cegou quando um novo sol ascendeu, veloz, o céu do poente, gritando e vagindo como uma alma fugida do inferno, com uma aura pulsante de chamas multicolores. O som converteu-se então num acorde único, profundo e sonoro, que enfraqueceu aos poucos. A égua de Elric encontrava-se hipnotizada, como que transformada em gelo. O albino apeou-se, praguejando e levantando o braço para proteger os olhos. Os raios de claridade abraçavam quilômetros de paisagem, projetados do globo pulsante e transportando em si grandes formas, negras e retorcidas, que pareciam debater-se e lutar ao mesmo tempo que caíam. O ar enchia-se agora de umbarulho absolutamente horripilante, como o bater de milhões de monstruosas asas. Soaram trombetas, as vozes brônzeas de um exército, anunciando um som ainda mais horrível—o lamento desesperado de todas as almas de um mundo expressando a sua agonia, os gritos enfraquecidos e moribundos de guerreiros nos últimos e penosos estádios da batalha.

Perscrutando a vivacidade agitada daquela poderosa luz, Elric sentiu formas pesadas, musculosas e gigantescas, com um cheiro doce, bestial e quase avassalador, cair com grandes ruídos surdos, fazendo o chão tremer com tal força que todo o terreno ameaçou desabar. Esta chuva de monstros era incessante. Foi graças à mais pura das sortes que Elric não acabou esmagado por um dos corpos emqueda. Ficou com a impressão de ter ouvido metal retinir e entrechocar-se, vozes aos gritos, e asas a bater, a bater, a bater, como as asas de uma traça de encontro ao vidro, numa espécie de desespero frenético. Apesar disso, os monstros continuaram a cair do céu, cuja luz se transformava agora, sutilmente, numa mais profunda e estável, até todo o mundo ficar iluminado por um clarão uniforme e escarlate onde se recortavam as silhuetas negras de criaturas voadoras em queda—asas, elmos, armadura, espadas— contorcidas em poses de derrota. O cheiro que predominava recordava agora Elric do Outono e do cheiro adocicado da putrefação, das riquezas estivais regressando às origens, e misturado ainda com isto, o fedor de selvagens irados. Com o suavizar da luz e o esmorecer do grande disco, Elric apercebeu-se de outras cores e pormenores. Só o cheiro ameaçava roubar-lhe os sentidos—o bafo acre e resfolegante de bestas titânicas, ameaçando morte súbita e alarmando cada fibra revitalizada do seu ser. Elric teve um vislumbre de escamas brônzeas, enormes penas prateadas, bocas e olhos de inseto hediondamente belos, maravilhosamente distorcidos, corpos e faces semi-cristalinos, como Leviatã e afins, surgindo ao cabo de milhões de anos das profundezas do mar que os incrustara com uma miríade de cores e formas assimétricas, que os transformara em monumentos ambulantes de coral, com olhos facetados que fitavam, em angústia cega, um céu pelo qual se precipitavam ainda, com asas batentes, agitadas, recolhidas ou demasiado estropiadas para lhes sustentar o peso, as formas divinas da sua espécie sobrenatural. Com ruidosas fileiras de presas enormes e elocuções cuja profundidade e força bastavam para abalar todo o vale, demolir as torres de Xanardwys, abrir-lhe as muralhas e pôr os seus habitantes em fuga com sangue negro a irromper de cada orifício, os monstros continuaram a cair. Só Elric, habituado ao sobrenatural, de corpo e sentidos em sintonia com orquestrações mais adventícias, não sofreu o destino daqueles pobres diabos. Num raio de quilômetros e quilômetros, à luz que se tornava agora um rosa sanguíneo salpicado de estanho e cobre, a paisagem encontrava-se eivada de titãs caídos: uns de joelhos; outros amparados nas espadas, lanças ou escudos; outros cambaleando às cegas antes de tombarem sobre os cadáveres dos companheiros; outros permanecendo deitados e respirando devagar, repousando com alívio prudente enquanto os olhos percorriam os céus. E, não obstante, os poderosos anjos continuavam a cair. Elric, apesar de toda a experiência adquirida, de todos os anos de estudos místicos, foi incapaz de imaginar a imensidão da batalha de onde fugiam. O albino, cujo próprio padroeiro do Caos tinha o poder de destruir todos os inimigos mortais, tentou imaginar o poder coletivo daquele exército inumerável, do qual cada vulgar soldado podia ombrear com a aristocracia do Inferno. Isto porque se tratavam dos Duques do Caos em pessoa, cada qual senhor de um grupo vasto e complexo. Disso estava Elric certo. Apercebeu-se de que tinha o coração aos saltos e a respiração ofegante e penosa. Fez por se controlar, convencido de que a simples presença daquele exército batido acabaria por matá-lo. Determinado a, no mínimo, experimentar tudo ao seu alcance antes de ser consumido pelo poder impensado dos monstros, preparava-se para dar um passo em frente quando ouviu uma voz vinda do fundo. Era humana, era sardônica, e tinha uma estranheza sutil na pronúncia, mas usava o idioma-mor da Antiga Melniboné. — Saiba o senhor que já vi uns quantos milagres nas minhas viagens, mas céus, deve ter sido a primeira vez que assisti a uma chuva de anjos. O senhor consegue explicá-la? Ou está tão baralhado quanto eu?

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