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A casa assombrada – John Boyne

Culpo Charles Dickens pela morte do meu pai. Ao relembrar o momento em que minha vida passou da serenidade ao horror, distorcendo a realidade até transformá-la no indizível, me vejo sentada na sala de estar da nossa pequena casa comvaranda, próxima ao Hyde Park, observando as bordas gastas do tapete à frente da lareira e me perguntando se seria hora de investir em um novo ou de tentar consertá-lo eu mesma. Pensamentos triviais, caseiros. Chovia naquela manhã, um chuvisco indeciso, mas constante. Quando desviei o olhar da janela para ver meu reflexo no espelho acima da lareira, fiquei triste com minha aparência. É verdade que nunca fui atraente, mas minha pele aparentava mais palidez do que o normal; meus cabelos escuros estavam armados e despenteados. Sentada, com os cotovelos apoiados na mesa e uma xícara de chá nas mãos, meus ombros pareciam encurvados; tentei relaxar, em uma tentativa de corrigir a postura. Em seguida, fiz uma tolice: sorri para mim mesma, esperando que uma manifestação de alegria melhorasse a imagem, e me assustei quando vi um segundo rosto, muito menor do que o meu, me encarando pelo canto inferior do espelho. Perdi o ar, pus a mão no peito e então ri do meu engano, pois a figura que vi não passava do reflexo de um retrato da minha falecida mãe, pendurado na parede atrás da minha cadeira. O espelho capturava nossas fisionomias lado a lado, e a comparação não me beneficiava, pois mamãe foi uma mulher belíssima, com olhos grandes e luminosos, enquanto os meus eram pequenos e opacos; ela tinha um maxilar com delicadeza feminina, o meu tendia à severidade masculina, e uma constituição esbelta, já a minha sempre me pareceu rechonchuda e ridícula. O retrato me era muito familiar, claro. Estava pendurado naquela parede havia tanto tempo que eu talvez tivesse deixado de notá-lo, do mesmo jeito que muitas vezes ignoramos coisas familiares, como almofadas ou parentes. Entretanto, naquela manhã a expressão em seu rosto chamou minha atenção, e me descobri revivendo o luto por sua perda, apesar de ela ter partido deste mundo havia mais de uma década, quando eu não passava de uma criança. Naquele instante, me questionei sobre a vida após a morte, sobre o destino de seu espírito; se ela tinha tomado conta de mim por todos aqueles anos, deleitando-se com meus pequenos triunfos e lamentando meus inúmeros equívocos. A névoa matinal começava a baixar lá fora e um vento insistente forçava entrada pela chaminé, criando uma corrente através das pedras irregulares e quase não se atenuando ao invadir o aposento, forçando-me a cobrir os ombros com o xale. Senti um arrepio e quis voltar ao conforto da minha cama. Fui tirada do meu devaneio por uma exclamação de alegria de papai, sentado à minha frente, os filés de arenque e ovos pela metade, passando os olhos pelas páginas do Illustrated London News. Aquela edição estivera largada desde o último sábado em uma pequena mesa na sala, não lida, e eu pretendia descartá-la naquela manhã, mas algum impulso fez papai folhear as páginas durante o desjejum. Olhei para ele, surpresa. Um som fez parecer que alguma coisa lhe tinha descido de mau jeito pela garganta, mas seu rosto estava tomado por entusiasmo. Papai dobrou o jornal em dois, batendo o dedo no papel diversas vezes ao estendê-lo para mim. “Veja, querida”, ele disse. “Que coisa maravilhosa!” Peguei o jornal e passei os olhos pela página que ele indicou. O artigo parecia ter alguma relação com uma grande conferência a ser sediada em Londres antes do Natal, para que fossem discutidas questões relacionadas ao continente norte-americano. Li alguns parágrafos, mas logo me perdi no linguajar político, que parecia feito para insultar e instigar o leitor ao mesmo tempo.


Então olhei mais uma vez para papai, confusa. Ele nunca tinha demonstrado interesse pelos assuntos americanos. Pelo contrário; em mais de uma ocasião professara sua crença de que aqueles que viviam do outro lado do Atlântico não passavam de ignóbeis grosseiros e hostis que nunca deveriam ter conquistado a independência, num ato de deslealdade contra a Coroa pelo qual Portland deveria ser amaldiçoado para todo o sempre. “Sim? O que tem?”, perguntei. “O senhor decerto não planeja estar lá para protestar, não é? Creio que o museu não veria seu envolvimento em assuntos políticos com bons olhos.” “Quê?”, ele disse, sem me entender, antes de negar com a cabeça, resoluto. “Não, não”, continuou. “Não o artigo sobre aqueles miseráveis. Não perca tempo com essa gente; foram eles que criaramessa situação, agora que lidem com isso. Por mim, podem ir todos para o inferno. Veja do lado esquerdo. A propaganda na lateral da página.” Peguei o jornal outra vez e vi de imediato ao que ele se referia. Anunciava-se que Charles Dickens, o renomado romancista, faria uma leitura de seu trabalho na noite seguinte, sexta-feira, na galeria Knightsbridge, que ficava a menos de meia hora de caminhada de onde morávamos. Era recomendado que os interessados chegassem cedo, pois, como todos sabiam, o sr. Dickens atraía um público considerável e muito entusiasmado. “Precisamos ir, Eliza!”, papai se exaltou, irradiando felicidade e abocanhando um grande pedaço de arenque para comemorar. Lá fora, uma telha despencou do telhado, arrancada pelo vento, e se espatifou no quintal. Eu podia ouvir outros deslocamentos nos beirais da casa. Mordi meu lábio e li o anúncio mais uma vez. Papai vinha sofrendo de uma tosse persistente que pesava em seu peito havia mais de uma semana e que não demonstrava sinal de melhora. Ele estivera no médico dois dias antes e lhe foi receitado um frasco de um líquido verde e pegajoso que precisei forçá-lo a tomar, mas que, na minha opinião, não aparentava surtir muito efeito. Na verdade, ele parecia estar piorando. “O senhor acha mesmo uma boa ideia?”, perguntei. “Ainda está doente, e com esse clima impiedoso… Seria mais sensato ficar em casa, na frente da lareira, por mais alguns dias, não concorda?” “Bobagem, minha querida”, ele respondeu, sacudindo a cabeça, com uma expressão desolada por eu querer lhe recusar um grande deleite.

“Estou quase curado, posso garantir. Amanhã à noite, serei eu mesmo de novo.” Em seguida, como se para desmentir a afirmação, ele teve um acesso profundo e demorado de tosse que o forçou a virar para o lado, o rosto vermelho, os olhos lacrimejando. Corri para a cozinha, enchi um copo d’água e o coloquei diante dele, que bebeu em um gole só, até que pôde, enfim, sorrir para mim com uma expressão que sugeria travessura. “É a doença saindo do meu corpo”, ele disse. “Garanto que estou melhorando a cada minuto.” Olhei pela janela. Se fosse primavera, se o sol estivesse brilhando entre os galhos das árvores emflor, eu talvez fosse persuadida com mais facilidade. Mas era outono. E me parecia imprudente que ele arriscasse agravar seu estado de saúde para ouvir o sr. Dickens se apresentar em público, quando as palavras do escritor podiam ser encontradas entre as capas de seus romances — e talvez fossematé mais honestas ali. “Vejamos como o senhor estará amanhã”, respondi, tentando uma resposta conciliatória, pois nenhuma decisão precisava ser tomada naquele instante. “Não, vamos decidir agora e pronto”, ele insistiu, deixando o copo de lado e estendendo o braço para pegar o cachimbo. Bateu os restos de fumo da noite anterior em um pires antes de reabastecê-lo com a marca de tabaco que era sua preferida desde a juventude. Um aroma familiar de canela e castanhas veio até mim; o tabaco de papai tinha uma presença forte da especiaria e, toda vez que sentia aquele cheiro em outros lugares, me lembrava da ternura e do conforto de casa. “O museu permitiu que eu ficasse longe do meu posto até o fim da semana. Ficarei em casa hoje e amanhã o dia todo, e então, de noite, vamos vestir nossos sobretudos e vamos juntos ouvir a leitura do sr. Dickens. Eu não perderia por nada neste mundo.” Suspirei e concordei com a cabeça, sabendo que, por mais que escutasse meus conselhos, aquela era uma decisão que ele estava determinado a tomar por conta própria. “Extraordinário!”, ele exclamou, acendendo um fósforo e permitindo que queimasse por alguns segundos para dispersar o enxofre antes de encostá-lo no fornilho e puxar a fumaça pela piteira, o que fez com tanto prazer que não pude evitar um sorriso pela satisfação que aquilo lhe proporcionava. A escuridão do aposento, combinada com as luzes das velas, da lareira e do cachimbo, fazia com que sua pele parecesse fantasmagoricamente frágil, e meu sorriso cedeu umpouco ao reconhecer quão rápido ele envelhecia. Em que momento, perguntei-me, nossos papéis se inverteram a ponto de eu, a filha, ser quem dava autorização para ele, o pai, sair de casa? 2 Papai sempre foi um leitor ávido. Ele mantinha uma biblioteca cuidadosamente seleta no escritório do térreo, aposento para o qual se retirava quando queria ficar sozinho com seus pensamentos e suas memórias. Uma das paredes abrigava inúmeros volumes dedicados a estudos em sua área, entomologia, assunto que o fascinava desde a infância.

Quando era menino, ele me contou, horrorizava os pais ao criar dezenas de insetos em uma caixa de vidro no canto do quarto. No lado oposto havia outra caixa transparente, que exibia os restos post mortem. A progressão natural dos insetos de um lado do quarto para o outro era fonte de muita satisfação para ele. Não que ele quisesse vê-los morrer, é claro; preferia estudar seus hábitos e interações enquanto ainda estavam vivos. Escrevia com diligência uma série de diários relacionados aos seus comportamentos durante o crescimento, a maturidade e a decomposição. Como se pode imaginar, as criadas reclamavam da obrigação de limpar o quarto — uma delas chegou a pedir demissão por receber tal ordem —, e a mãe dele se recusava até mesmo a entrar ali. (Sua família tinha dinheiro na época, o que explica a presença de criadas. Depois, um irmão mais velho, morto há muitos anos, esbanjara toda a herança; por isso, tivemos poucas extravagâncias desse tipo.) Acumulada perto dos volumes que descreviam os ciclos de vida dos cupins, os tubos digestivos dos besouros longicórneos e os hábitos de acasalamento dos estrepsípteros estava um conjunto de pastas que abrigavam sua correspondência de anos com o sr. William Kirby, seu mentor, que, em 1832, quando papai acabara de chegar à maioridade, lhe ofereceu seu primeiro emprego remunerado, como assistente em um novo museu em Norwich. Depois, o sr. Kirby levou papai a Londres para ajudar na fundação da Sociedade Entomológica, atividade que, com o tempo, o levaria a se tornar curador de insetos no Museu Britânico, cargo que ele amava. Eu não compartilhava sua paixão. Considerava insetos um tanto repugnantes. O sr. Kirby falecera havia cerca de dezesseis anos, mas papai gostava de reler suas cartas e seus bilhetes, deleitando-se em acompanhar o progresso de aquisições que tinha levado a sociedade e, por fim, o museu a possuir aquela coleção admirável. Todos aqueles livros, os “livros de insetos”, como eu me referia a eles com ironia, ficavam cuidadosamente organizados na estante perto de sua mesa, em uma ordem inusitada que apenas papai entendia por completo. Guardada na parede oposta, próxima a uma janela e a uma poltrona para leitura — onde a luz era muito melhor —, havia uma coleção mais diminuta de livros, todos romances, e o autor que dominava aquelas prateleiras era, claro, o sr. Dickens, que, na mente de papai, era inigualável. “Se ele escrevesse um romance sobre uma cigarra ou um gafanhoto em vez de um órfão”, comentei certa vez, “o senhor estaria no paraíso.” “Minha querida, está se esquecendo de O grilo da lareira”, respondeu papai, cujo conhecimento sobre o trabalho do romancista não podia ser superado. “Sem contar aquela pequena família de aranhas que passa a morar no bolo de casamento não comido da sra. Havisham. Ou os cílios de Bitzer em Tempos difíceis. Como é mesmo que ele os descreve? ‘Como as antenas de insetos atarefados’, se não me falha a memória.

Insetos aparecem com regularidade na obra de Dickens. É apenas uma questão de tempo até que ele dedique uma quantidade mais substancial de páginas a eles. É um verdadeiro entomologista, creio eu.” Também li a maioria desses romances e não tenho tanta certeza se aquilo era verdade, mas não era por causa dos insetos que papai lia Dickens; era pelas histórias. Aliás, a primeira vez que me lembro dele sorrindo de novo depois do falecimento de mamãe, assim que voltei da casa das minhas tias na Cornualha, foi quando ele relia As aventuras do sr. Pickwick, cujo protagonista conseguia sempre reduzi-lo a risos que levavam a lágrimas. “Eliza, você precisa ler isso”, ele me disse quando eu tinha catorze anos, depositando uma cópia de A casa soturna em minhas mãos. “É uma obra de mérito extraordinário e muito mais atual do que aqueles livros baratos que você gosta.” Abri o volume com pesar, e meu desalento ficou ainda maior conforme tentei entender o significado e a moral do processo de Jarndyce contra Jarndyce, mas é claro que papai estava certo, pois, uma vez que eu venci aqueles primeiros capítulos, a história se abriu para mim e passei a sentir profunda empatia pelas experiências de Esther Summerson, e fui completamente arrebatada pelo amor entre ela e o dr. Woodcourt, um homem honesto que a amava, apesar da desafortunada aparência da moça. (Nisso, me identifiquei bastante com Esther, apesar de ela ter perdido a beleza por causa da varíola; eu nunca cheguei a ter a doença.) Antes da batalha contra problemas de saúde, papai era um homem vigoroso. Independentemente do clima, ele ia e voltava do trabalho todos os dias a pé, desconsiderando o ônibus que o levaria quase direto da nossa porta até o museu. Quando, durante uns poucos anos, tomamos conta de um vira-lata chamado Bull’s Eye, uma criatura muito mais dócil e tranquila do que o maltratado companheiro de Bill Sikes, ele fazia exercícios complementares duas vezes por dia, levando o cachorro até o Hyde Park para uma caminhada, jogando um graveto para ele em Kensington Gardens ou permitindo que o animal corresse sem coleira pelas margens do Serpentine — onde papai disse ter visto, certa vez, a princesa Helena sentada à beira da água, chorando. (Por quê? Eu não sei. Ele a abordou, perguntando se ela passava mal, mas a princesa apenas fez um gesto pedindo que ele se afastasse.) Papai nunca deitava tarde e dormia um sono profundo ao longo de toda a noite. Controlava a comida, não bebia em excesso, não era magro ou gordo demais. Não havia nenhum motivo para acreditar que ele não viveria até uma idade avançada. Mas não viveu. Eu talvez devesse ter sido mais enfática quando tentei dissuadi-lo de ir à palestra do sr. Dickens, mas no fundo sabia que, mesmo que ele gostasse de dar a impressão de que me escutava nos assuntos domésticos, não havia nada que eu dissesse que o impediria de cruzar o parque até chegar a Knightsbridge. Apesar de sua paixão por leitura, ele ainda não tivera o prazer de ouvir o grande autor falar em público, e todo mundo sabia que suas performances no palco eram equivalentes, senão superiores, a qualquer coisa que pudesse ser encontrada nos teatros de Drury Lane ou da Shaftesbury Avenue. Por conta disso, fiquei calada; submeti-me à sua autoridade e concordei que fôssemos ao evento. “Não exagere, Eliza”, ele disse quando íamos sair de casa naquela noite de sexta-feira e eu sugeri que ele devia, no mínimo, usar mais um cachecol, pois estava um frio surpreendente lá fora e, apesar de não ter chovido o dia todo, o céu assumia uma coloração acinzentada.

Mas papai não gostava de ser tratado como criança e optou por ignorar meu conselho. Caminhamos de braços dados até Lancaster Gate, passando pelos Italian Gardens à nossa esquerda conforme cruzamos o Hyde Park pelo caminho central. Vinte minutos depois, ao passarmos pelo Queen’s Gate, pensei ter visto um rosto familiar surgindo na neblina e, quando forcei a vista para enxergar melhor a figura, perdi o fôlego — não seria aquele o mesmo semblante que eu tinha visto no espelho na manhã do dia anterior, o reflexo de minha mãe falecida? Puxei papai para mais perto e parei no meio da rua, incrédula. Ele se virou para me olhar, surpreso, no mesmo instante em que a senhora em questão emergiu das brumas e meneou um cumprimento. Não se tratava de mamãe, claro — como poderia? —, e sim de uma moça que poderia ser irmã dela, ou prima, pois a semelhança dos olhos e das sobrancelhas era espantosa. E então, de repente, a chuva começou, caindo com intensidade, gotas imensas despencando sobre nossa cabeça e nosso casaco enquanto as pessoas corriam em busca de abrigo. Fui tomada por umcalafrio. Um grande carvalho na beira da calçada um pouco à frente oferecia cobertura e apontei naquela direção, mas papai negou com a cabeça, batendo o dedo no relógio de bolso. “Chegaremos em cinco minutos, se nos apressarmos”, ele disse, andando com mais pressa pela rua. “Acho que perderíamos a leitura se buscássemos abrigo.” Amaldiçoei a mim mesma por ter esquecido meu guarda-chuva, que deixei perto da porta da frente durante a conversa sobre o cachecol, e por isso corremos pelas poças que se formavam até nosso destino, sem nada para nos proteger. Quando chegamos, estávamos encharcados. Senti arrepios no vestíbulo, despindo as luvas empapadas, e desejei estar no conforto de casa, diante da lareira. Ao meu lado, papai teve um acesso de tosse que pareceu subir das profundezas de sua alma, e detestei os outros visitantes que olharam para ele com desprezo ao passar. Foram necessários alguns minutos para ele se recuperar. Eu já estava chamando uma charrete de aluguel para nos levar de volta para casa, mas ele não queria saber daquilo e foi em frente, para dentro da galeria. Considerando as circunstâncias, o que eu poderia fazer senão segui-lo? Lá dentro havia talvez mil pessoas amontoadas, todas ensopadas e desconfortáveis, um fedor de lã molhada e suor permeando o ar. Olhei à volta, esperando encontrar um canto mais calmo do aposento para nos sentarmos, mas àquela altura quase todas as cadeiras estavam ocupadas e não tivemos escolha além de dois assentos vagos no meio de uma fileira, cercados pelo público que tremia de frio e espirrava em abundância. Felizmente, não tivemos que esperar por muito tempo, pois dentro de poucos minutos o sr. Dickens em pessoa surgiu e foi recebido por aplausos ruidosos. Todos levantaram para recebê-lo, aclamando-o com vivas e gritos, para seu evidente deleite; ele abriu bemos braços, como se quisesse abraçar a todos nós, reconhecendo a recepção enérgica como se não merecesse nada menos do que aquilo. O sr. Dickens não demonstrou nenhum sinal de querer que a ovação diminuísse e passaram-se talvez cinco minutos antes de ele enfim ir para o centro do palco, fazendo gestos com as mãos para indicar que poderíamos suspender nossa admiração por alguns instantes e sentar outra vez. Sua feição era desbotada e seus cabelos e sua barba estavam deveras desgrenhados, mas seu terno e colete eram de um tecido tão sofisticado que tive um curioso impulso de sentir a textura com a ponta dos dedos. Perguntei-me como seria sua vida.

Era verdade que ele explorava com a mesma facilidade os becos escuros do East End de Londres e os corredores privilegiados do Castelo de Balmoral, no qual a rainha em luto o teria convidado a se apresentar? Será que ele ficava mesmo tão confortável na presença de ladrões, marginais e prostitutas quanto na sociedade, com bispos, ministros e industriais? Em minha inocência, não consegui imaginar como seria viver a vida daquele homem tão conhecedor do mundo, famoso nos dois lados do oceano, amado por todos. Ele encarou todos nós com um traço de sorriso no rosto.

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