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A casa cai – Marcelo Backes

Parecia mesmo que eu não ia conseguir voar. Andar já era difícil pra mim, eu saía tropeçando a esmo, encontrava todos os estorvos de costume no caminho e os que ainda surgiam sem anúncio algum apenas no meio do meu. Na verdade, eu tinha a sensação de nadar de arrasto por aí, de me debater dando braçadas num lago de cascalho, mas sema segurança do solo por baixo da barriga, ainda assim esfolada. E seguindo sem força nem bússola o acaso da correnteza. Não que eu entendesse alguma coisa, eu não entendia nada, mas aquilo não tinha a menor cara de aeroporto. O que eu sabia é que o avião era pequeno, e talvez isso explicasse tudo, se é que havia explicação pra alguma coisa, naquela situação e na vida. Foi só a insistência de Lívia que me fez aceitar a ideia de percorrer por via aérea o trecho que nos separava de Porto Alegre, onde pegaríamos o avião que apesar de voar carregando o peso de tanto aço era bem mais habitual em seu tamanho, e certamente nos levaria em segurança de volta ao Rio de Janeiro. Na vinda, ainda havíamos feito o caminho de ônibus, um assim chamado semidireto que parava em todas as cidades da rota pra botar seus ovos no poleiro sem luxo de uma dúzia de estações rodoviárias municipais. Pelo menos seríamos poupados de encarar de novo tudo aquilo, e inclusive o restaurante de beira de estrada cujo bufê ficaria pra sempre marcado no cantinho mais sujo das minhas lembranças pelos dois cartazes manuscritos que diziam: “proibido comer na fila” e “proibido pegar duas carnes”. Mas mesmo naquele lugar tolhido o garçom poderia ensinar gentilezas a umpunhado de supostos cosmopolitas de avental, que empinavam seus narizes nos botecos da Zona Sul do Rio de Janeiro. No dialeto diligente que eu mal compreendia, o garçom se portava como umlorde, sobretudo ao se dirigir a Lívia pra oferecer bebidas, o café e o chimarrão eram de graça. Até sua demora não chegava a chutar a canela sempre escondida da minha paciência, e parecia apenas aumentar bucolicamente a extensão da vida. Eu não conseguia entender muita coisa, porque tudo o que ele dizia começava num erre rolante e suave e acabava numa espécie de “om” bem aberto de buzina, que nunca conheceu a existência das nasais, “refeiçom”, mas com erre de pereba. Só acostumei o ouvido depois, ao escutar mais de perto os cavacos dos gaúchos estranhos que viemos a conhecer. O abandono daquele descampado ao qual agora chegávamos parecia total, no entanto, e o pouso de um avião, mesmo pequeno, bastante improvável. Alcancei Lívia que seguia alguns passos à minha frente com a desenvoltura de quem estava em casa até mesmo naquelas bandas cinzentas, rodeadas de pastos verdes, e botei minhas dúvidas pra fora na pergunta ao primeiro, e aliás único, que apareceu na minha frente, estendendo um bilhete em que estava registrado a lápis um inútil código identificador: Cadê o nosso avião? Não operamos há três meses com voos comerciais, disse o bombachudo de tez morena, escandindo as sílabas no mais perfeito português, sentado num tamborete à porta do galpão que era o único edifício mais regular naquele arremedo de pista de pouso. Não sei por quê, mas achei que por sua pele tisnada e seu rosto que cortejava traços indiáticos o homem falaria espanhol, cuspindo algumidioma que, eu tinha certeza, nada teria a ver com o linguajar loiro do qual estávamos voltando, embora continuássemos do lado brasileiro das missões. Eu retruquei que tínhamos o e-mail confirmando a passagem, e o mostrei, dizendo que a companhia aérea até comunicara em mensagem de texto que havia um problema com o voo, que inclusive havíamos tentado ligar daquele interior distante pro 0800 sem sucesso, talvez porque o telefone usado fosse um PABX, eu achava, já que o celular não pegava, a não ser por um torpedo que chegava de quando em vez pra anunciar desgraças como a do referido problema. Mas daí a não existir mais aeroporto era um pouco demais, afinal de contas eu comprara a passagem, na verdade Lívia a comprara, no próprio site da empresa. Pois é, chê, o aeroporto até que ainda existe, é só dar uma olhada em volta, os aviões é que não batem mais as asas por aqui, foi a única resposta, civilizada, embora um pouco arrogante, que ele me deu, num tom que já estava bem mais próximo da minha fantasiosa expectativa inicial em relação à oralidade platina de seus dotes. E enquanto abria a boca, ele ainda equilibrava algo que dançava ao sabor das sílabas, só agora eu via, no canto de sua boca. Eu me debati mais um pouco, esperneei por dentro e olhei pra Lívia com cara de e agora, incapaz até de fazer o óbvio e voltar pro Golzinho onde o velho Vassili, que nos trouxera até ali, esperava por nós, e lhe explicar que havíamos sido deixados na mão. O bombachudo mascava o graveto, mais que um talo de relva era um graveto que ele tinha na boca, e depois de meia eternidade ainda disse, se metendo serviçalmente onde não era chamado, que o jeito talvez fosse pegar o ônibus pra capital, enquanto Lívia já falava com alguém no celular, invocando ajuda. Catei umas duas dúzias de estrelas enquanto respeitava o sinal erguido do braço de Lívia que me pedia pra esperar, e, depois de mais ou menos meia hora, eu acho, ela veio até mim dizendo que sua mãe, pra quem ela ligara implorando por auxílio, havia lhe dito que a companhia aérea sugerira pegarmos um voo em Passo Fundo, onde ficava o aeroporto mais próximo. Afetando uma repentina objetividade, eu perguntei ao bombachudo a que distância ficava Passo Fundo.


Estamos em Santa Rosa, meu filho, ele disse. E depois explicou que Passo Fundo devia ficar a uns trezentos quilômetros, e logo repetiu que não pegaríamos mais o avião das oito e meia da noite em Porto Alegre se não fôssemos logo pra rodoviária, torcendo pro ônibus do meio-dia não estar lotado. Dada estava a solução, e eu fui até o velho Vassili pra lhe pedir que nos levasse até a estação rodoviária central, a uns oito quilômetros dali, embora dona Maria tivesse suspirado de alívio ao saber que o aeroporto ficava antes da entrada da cidade, e que o velho marido portanto não precisaria encarar o trânsito mais urbano daquela cosmópole de uns cinquenta mil habitantes. Mas agora precisaria. Pobre Vassili, fora obrigado a pegar o carro de madrugada, praticamente, e fazer, por dever de hospitalidade e apesar do receio, as vezes de nosso improvável automedonte, percorrendo o asfalto a uns quarenta quilômetros por hora, os olhos grudados no para-brisa embaçado, que ele esfregava de vez em quando com a mão porque o ventilador não dava conta, ar condicionado nem pensar, o peito quase amassando o volante segurado com as mãos contraídas, o que o fazia apontar o cotovelo direito quase pro meio da minha cara, como se estivesse me acusando. Eu sentara na frente, Lívia ia toda encolhida no banco de trás, o teto do Gol era baixo, ela era alta, mas o velho ficaria constrangido se ela sentasse na frente com ele, e eu nem pude bancar o cavalheiro, aceitando sobre o destino das minhas costas o torcicolo inevitável daquela breve viagem nem de longe tão breve assim. O farol de um dos lados, acho que era o meu, estava queimado, mal dava pra ver o asfalto, e fiquei com vontade de esticar o braço pra fora da janela a fim de pelo menos avisar quando estivéssemos prestes a tocar o barranco da estrada, evitando um acidente que eu já considerava bem provável. Setenta e cinco quilômetros em três horas e meia. Nos dezoito iniciais da estrada de chão, a velocidade não foi menor do que no asfalto, mas talvez a cavalo tivéssemos chegado em menos tempo, se eu pelo menos soubesse montar. Só quando eu já estava onde antes se encontrava o carro, olhando por uns dez segundos à minha volta, foi que percebi que não havia nem sinal da metálica poça d’água que eu esperava encontrar no meio de toda aquela terra vermelha do estacionamento. O Golzinho esverdeado, ainda dos quadrados, e portanto bem antigo, simplesmente desaparecera. Claro, o velho Vassili devia ter ido embora depois de nos trazer com tanto sucesso até ali. A despedida estava dada no cumprimento sisudo e objetivo da obrigação, e isso de abraços e derramamentos eu já sabia desde o princípio que não tinha muita coisa a ver com ele. Entendi mais uma vez o que era estar num mato sem cachorro ao me encontrar no mato de verdade, e quando disse a Lívia o que eu achava que acontecera, ela foi até o bombachudo e lhe perguntou se havia algum jeito de ele nos conduzir à rodoviária, de chamar umtáxi ou algo assim. O bombachudo a mediu de alto a baixo sem se preocupar com sutilezas nem respeitos, e disse que não podia sair dali de jeito nenhum, mas tirou um celular tinindo de novo do bolso, por um momento até achei que via o brilho de um punhal me ameaçando, trocou umas duas palavras com alguém emtom bastante imperativo, e uns cinco minutos depois apareceu aquilo que ele ainda havia pouco chamara de guri, pedalando com vontade uma bicicleta das mais chinesas, tipo BMX das antigas, só que sem uma marquinha sequer de velhice ou ferrugem nos aros niquelados. Tu fica aqui cuidando, enquanto levo esses dois pra rodoviária, ele disse ao moleque, e foi caminhando pro fundo escuro do galpão, de onde apareceu alguns instantes mais tarde nummatusalêmico Toyota Bandeirante, oliváceo como um tanque de guerra, cujo ronco chegou até nós bem antes da lata ancestral, evitando parcialmente o susto. Lívia me fez um sinal pra que eu pelo menos pegasse as malas, que joguei na carroceria coberta de entulhos e palha de milho, meio preocupado com a fumaça preta que saía do escapamento, entrando depois pelo lado do carona pra ficar no meio, enquanto Lívia se espremia entre mim e a porta capenga. Olhei várias vezes pra ela pedindo desculpas, mas por incrível que pareça ela não se mostrava aborrecida, enquanto o bombachudo mudava as marchas em movimentos de mais ou menos um metro cada um, socando de vez em quando com boa força o lado da minha perna esquerda. E assim sacolejamos até a rodoviária, onde conseguimos comprar dois dos três bilhetes restantes, e encaramos a viagem de sete horas, dessa vez sem paradas, até Porto Alegre, onde chegamos em cima do laço, por assim dizer, e descobrimos que nossas passagens aéreas haviam sido canceladas por não termos pegado o voo programado no local de origem. Eu me exercitara um bom tempo na paciência cristã, tentara me educar na tolerância, aprendera a meditar à força durante alguns anos nas melancólicas colinas de Petrópolis, no seminário não havia espaço para a violência em seus aspectos mais óbvios, mas aquilo era um pouco demais. Moça, não pegamos o avião porque até o aeroporto deixou de existir, eu disse, e contei com calma irônica a história da nossa chegada até ali. Ela disse que lamentavelmente não podia fazer nada, que as nossas passagens haviam sido mesmo canceladas, e perguntou se não queríamos comprar dois novos bilhetes pra ir ao Rio, já que ainda havia lugar no voo. Subi em trezentos e cinquenta tamancos e mostrei que pagara quase dois mil reais por aquela passagem que já nem aproveitaria toda, e disse que ou ela nos botava naquele avião imediatamente ou eu iria direto até a Anac, mas não sem antes ligar pro meu advogado, que por acaso também era o advogado deste e daquele jornal, desta e daquela televisão. Enquanto Lívia olhava estupefata pra mim, a moça pediu nossas passagens, deu um telefonema e depois de algum tempo disse que a companhia aérea faria a especial concessão de permitir que pegássemos aquele voo, embora o embarque já estivesse quase acabando. Eu disse que tudo bem, e que sobre concessões especiais ainda falaríamos mais tarde, mas que ela se lembrasse por favor de que, se não fosse a nossa diligência, e olhei pra Lívia pedindo desculpas por me incluir no plural majestático, possivelmente ainda estivéssemos esperando por nosso avião em Santa Rosa àquela hora, e até o dia de são nunca.

Consta aqui que houve comunicação do problema por mensagem de celular, a moça disse, mostrando outra vez que falar muito é a defesa mais usada por aqueles que não sabem o que dizer. Quando, eu perguntei enfurecido. Ontem, às catorze horas e trinta e seis minutos. Maravilha, bem menos de vinte e quatro horas antes do voo. E por e-mail há dois dias. É mesmo? Então expliquei que não víramos nada e, exagerando um pouco, disse que já fazia semanas que nos virávamos sem internet no lugarejo, porque a antena de rádio localizada na escola daquele interior era desligada a qualquer mijo de égua, eu disse mijo de égua, deixando Lívia ainda mais espantada. Mas mesmo que tivéssemos visto o e-mail, o problema não poderia ser resolvido, pois quais seriamas alternativas oferecidas? Víramos, sim, o torpedo, e isso também não mudara nada na situação, conforme constatamos ao tentar ligar já de Santa Rosa. Mas era o que dava, confiar na jactanciosa companhia aérea, ah, temos o melhor serviço do mundo, acreditar piamente que ela nos levaria bemtranquilinhos, eu disse bem tranquilinhos, de volta pra casa. Ao ver que a moça do guichê nem se encolhia, apesar do temor que fulgurou em seus olhos, revelando toda a verdade daquilo que ela sentia e logo seria encoberto por mais duas ou três palavras mentirosas, me limitei a aviar as malas pra que elas chegassem ao Rio conosco, pelo menos. E assim pudéssemos começar de um jeito mais ou menos normal a vida verdadeiramente cotidiana, a vida de verdade, que só principiaria pra mim, pra nós, no dia seguinte. Se é que a dor de cabeça que eu já sentia estar me achacando, localizada mais ou menos a dois centímetros do meu crânio e já pronta a pedir passagem pra entrar, permitisse. Agora o principal era beber água, fechar os olhos e não me mexer muito. Respirando fundo, bem fundo. Minha sensação nessas horas já bem conhecidas era a de que eu tinha de levar minha cabeça adiante com todo o cuidado, mantendo longe dela as dores que a rodeavam e que, a qualquer movimento brusco, abandonariam a aura elíptica em torno da cachola pra adentrar os ossos. E me despedaçar por dentro. 2. Será que algum dia eu pisaria de novo ali? Havia sido difícil deixar aquele interior, se bem que tudo era complicado pra mim, mas ali o clima tinha o visgo sinistro de um pague pra entrar e reze pra sair, parece que os caminhos que levavam pra fora do lugarejo iam sendo trancados aos poucos, enquanto o mundo em torno, fora dali, se abria cada vez mais, e até demais. E, não contados os novos afetos que eu admitia sentir, não haveria realmente grandes motivos pra voltar. Além disso eu só fora até ali pra participar do enterro de João, o Vermelho, cujos últimos dias acompanhei de perto na cela daquela penitenciária carioca, e que me contou toda a sua história, me ajudou a ver com três pitadas de sentimento a mais o que era amar, e agora iria descansar eternamente, se é que existia mesmo isso de descansar eternamente, na terra missioneira que o viu nascer. O velho Vassili, pai de João, o Vermelho, o primeiro avô que acabei herdando depois do segundo pai que perdi, até prometeu escrever, escrever cartas, já que com a internet não aprenderia mais a lidar naquela idade. Olhei pros seus dedos grossos e cheios de ranhuras como as raízes da mandiocabrava, lavada, mas não descascada, que eu conhecera ainda no dia anterior, e tive a impressão de que eles seriam incapazes de tocar apenas uma tecla a cada golpe. Meus e-mails eu poderia mandar, segundo o velho Vassili, pro endereço do colégio local, que o diretor com quem tudo já fora devidamente combinado os imprimiria e mandaria por um vizinho pra que ele pudesse lê-los junto com dona Maria, sua alemoa, ao aconchego do fogo, tomando um chimarrão. E quando sentirem saudades de uma borsch, podem voltar, dona Maria ainda disse à despedida, prometendo mais uma vez a fartura da descendência eslava de seu esposo. Eu prometi visitá-los de vez em quando, garantindo inclusive aos velhos, mais pra mostrar carinho do que por pensar que algum dia o fizesse de fato, que contaria ao mundo a história de seu filho, aquele pai que acabei encontrando depois de perder meu próprio pai, e com quem convivi por tão pouco tempo na minha pastoral de presídio e logo em seguida também perdi. Mas interiormente já me contentava com a promessa das cartas, o Rio de Janeiro era longe demais daquela colônia russa encravada no fim do mundo brasileiro.

Se eles pelo menos morassem em Porto Alegre? Mas havia aquela distância toda a percorrer. Seiscentos quilômetros de estrada. A linha aérea regular não existia mais, como acabáramos de aprender na marra, e um realismo analítico que eu apenas estava começando a conhecer mais de perto, misturado à acomodação de sempre, me fazia pensar que um reencontro, pelo menos em breve, seria bem complicado. De resto, havia tanta coisa a fazer, tantos problemas a resolver, eu estava sozinho no mundo, completamente sozinho, pois, antes do segundo, perdera também meu primeiro pai, aquele que a biologia me deu e me arrancou, João como o segundo, não Vermelho mas Pedro, João Pedro. Não fossem aqueles distantes avós postiços, os únicos que conheci, não fosse sobretudo Lívia, que eu ainda não sabia se devia ou não inserir na categoria dos referidos problemas a resolver, e eu estaria de fato sozinho. Eu reconhecia desde já que agora veria o que era bom pra tosse. O mundo que eu sempre encontrara de portas abertas à minha frente mesmo sem fazer o menor esforço pra baixar algum trinco ou desemperrar fechaduras, caíra em cima de mim de uma hora pra outra. E sem dar o menor aviso. Eu até fugira às questões da herança por algum tempo, voltando a me esconder no seminário depois da morte do meu primeiro pai, me escafedendo como aliás já fazia desde os catorze anos. Embora já quase no fim do curso de teologia, acabei desistindo da batina, no entanto, e com isso deixei estupefatos meu padre confessor, nem pra ele eu contara toda a verdade, meu reitor e meu bispo, que apostavam todas as suas fichas em mim pra ajudar a ressuscitar, se não pastoralmente pelo menos culturalmente, a Igreja católica do Rio de Janeiro. Eu gostava de música, entendia de pintura, lera todos os livros, conforme eles sempre diziam, podia provar ao mundo que a hoje tão propalada penúria erudita, a carência de cabeças doutas dos católicos, usada às vezes até mesmo pelos próprios pra esconder sua indigência moral, certamente pior, não passava de uma falácia. Se eu entrara no seminário me esgueirando no limiar entre o desejo de minha mãe e a vontade de ofender meu pai, que eu nem sei se era minha ou também vinha da minha mãe, nada mais justo do que abandoná-lo depois que meu pai morrera. Até porque eu não precisaria mais continuar me vingando dele com minha vida celibatária, nem prestar justificativas à minha mãe, que aliás já se fora desta pra melhor bem antes, fazendo questão de dizer e repetir, antes de ir, que era de desgosto que ia, que o culpado de tudo e inclusive de sua morte era meu pai. Até agora as coisas haviam ficado nas mãos do advogado, que seguira tocando os negócios do falecido João Pedro a partir da vaga orientação dada por mim de que tudo deveria continuar como era antes. Quando não se sabe o que fazer, e, se eu não sabia de muita coisa, sabia pelo menos disso, o melhor era continuar fazendo o que se estava fazendo até então. No caso, nada, o que era ainda melhor. Mudar exigia um expediente que eu não tinha e não sabia como alcançar. Mas tudo acaba um dia, inclusive a inércia, mesmo sendo a minha. E a morte seguinte de João, o Vermelho, terminou me ajudando muito nisso, e me fazendo abrir mão de uma vez por todas de sacristias, cibórios e turíbulos. Comecei a passear pelo meu bairro de Ipanema como um explorador, eu precisava desvendar aquele mundo que, apesar de ter me visto nascer, era absolutamente novo pra mim, já que eu não sabia nem da existência da Casa Nelson, que até mesmo Lívia, moradora do Leblon, conhecia. Padarias não faltavam e era bom parar aqui e ali pra entrar numa farmácia, desde pequeno eu adorava o cheiro das farmácias, mais do que o das padarias, nas quais entrava sem jamais saber conscientemente onde ficavam. Mas eu logo esquecia meus propósitos de mapear o terreno e acabava seguindo o velho de óculos fundo de garrafa, um homem rosado de tão branco, que abria sua caixa ordinária e melancólica, pronunciando num português perfeito e sem sotaque carioca, diante de mime de todos os que passavam: doces especiais. Será que era algum professor vindo de fora, talvez universitário, tentando complementar a renda da aposentadoria pra não ser expulso de Ipanema pelo aumento desvairado do aluguel?

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