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A Casa da Paixao – Nelida Pinon

Da terra, Marta escolhia qualquer recanto. Fechava os olhos, tropeçando contra pedras, galhos livres, perdendo às vezes a esperança. Até não suportar o próprio suor e exclamava: — Aqui conhecerei o repouso. Amava o sol, sob sua luz imitava lagarto, passividade que os da própria casa jamais compreenderam, parecendo-lhes proibido que se amasse tanto o que ninguém jamais amara tão devotada. Mal se sentava, as pernas abriam-se escorregadias sobre o solo, exigindo o esforço da pele ressentida, extraía da areia, da grama, o que fosse — sua aspereza. Dava-lhe gosto olhar as pernas escancaradas sem que o homem ocupasse suas coxas, a obrigasse tombar sentindo mágicas contorções. O exercício de usufruir alguma coisa próxima ao prazer distinguia-a. O sol como que amorenava a pele e aquela dor intuída desde menina deixava-a perplexa, vinha. Pela identidade que descobriu e a certeza de evoluir sempre que se entregasse exaltada à sua paixão. A ardência e sua jornada de dor tomando-lhe os dedos dos pós primeiro, uma delicadeza de sombra. De tal modo que chegava a pensar se não era frio o que sentía então. Até que avançando o ealor pelas pernas afora, a cada pele palmilhava, e bem valente, parecia-lhe absurdo que o precipicio para tantas andanças viesse a ser o próprio sexo, dourado e suas penugens trevas projetadas para a frente, como 1he ordenavam os mandamentos. Proclamava: o triunfo do sol, e tombou colorida, pele de ordénelas na grama, não era o gozo exatamente que palpitava o corpo, certa luz poderosa obrigando a cerrar os olhos, sob a ameaça da cegueira, para que pudesse e sempre enxergar objetos a que indicasse nomes, folhas, frutas, e as mastigaria galgando árvores, algumas arrancando com a boca, através da mor-dida simples avaliando o imperio da sua mandíbula nervosa trabalhando a fruta, e a deixaria perdida na árvore, com sua ferida aberta — era sim a descoberta do nascimento, uma longa visita ao útero da terra, seu sexo, como que o ungindo. O pai fingia não ver a rapidez com que fechava as pernas, escondendo tesouros, sabedorias raras, embora não coubesse a ele fecundar sua grata beleza. Ela escondia daquele homem seu precioso segredo. Apenas seu corpo conhecia a estranha exaltação, pertencer aos adoradores do sol. Sempre inventara atrativos, ainda que a própria mão jamais escavasse o sexo em busca dos canais nobres, lábios minúsculos entreabertos expondo o grão maior, do qual partiam ondas sonoras, zonas de detecção proibida. Seus dedos mágicos trabalhavam em torno apenas e nos momentos penosos consentiu, por misericórdia e fidelidade ao sol, que os dedos, imitando garras, se ampliassem cobrindo-lhe o sexo como o tecido branco do casulo. Exijo coragem e a natureza consente. Sem a imagem, cederia a qualquer galho, consen-tindo a ruptura desleal. Deixava então que a proteção bendis-sesse a sua casa, chamava de casa ao recanto difícil, impregnado de líquidos, também águas de um rio chinês. Imaginava o homem auscultando o seu corpo. Primeiro com a boca, seus outros instrumentos haveriam de trabalhar com a precisão da agulha injetando alento nas artérias. Não o queria ainda, antes devia selecioná-lo livre, também ela o peixe que se alimentava da agonia de sua raça. Sempre se destinou às raízes do homem.


Às mais profundas, acrescentava sem pressa. Teimosia estimulando as manhãs, ao levantar-se. Cederia sim, antes a resistência, e sorria compadecida, sua promessa de selvagem. Os adventos. — Então, quando se casa, dizia-lhe o pai após a comida. Marta olhava-o como se tivesse poder de dar sumiço a coisas, pessoas mesmo, o que se incluísse no círculo mágico. Enfrenta-ria a arrogância que o pai criava para momentos como aqueles. Desde sempre lutaram. Quando ela nasceu e Antônia anunciou menina, o pai sentira o soco no peito, a mulher aos gritos reclamava da dor, o suor ocupando as nádegas, não havia lençol que aliviasse o exercício de projetar à vida uma coisa pequena e exclamativa e que já durara horas. Ainda olhara o rosto da criatura feia e esmagada pela passagem por uma vagina acanhada, que ele, e só Deus o perdoaria pela audácia, buscara dilatar, não visando à passagem da criança, mas ao prazer que não dispensava, e tanto que logo nascendo a criança poucos dias depois procurou a mulher, ela soluçando pela carga que se desferia em seu corpo tão recentemente castigado, sem que o homementão subindo e galgando montanhas se desse conta do que praticava, ainda que a filha no mesmo quarto aos gritos cobrisse os lamentos abafados da mulher e ele confundisse o prazer com a aspcrcza que a filha lhe jogava na cara e ele aceitou, porque o soco que recebeu no peito quando a viu parida no mundo não foi de alegria, algo mais grave espetava-se nos seus músculos, na vida que a inocência da criança realçava, mas sem prazer. Desde pequena, a luta foi o rosto risonho que ambos possuíam, como linhagem familiar. Aprendeu ele com a filha a do-mar o gênio para não ofendê-Ia mais ainda como quando con-sentira em seu nascimento, pois não lhe abandonava o sonho a aflição da criança ungida em sangue, após vencer os corredores escuros do ventre da mulher e trazer seu nítido aspecto humano à terra, era vencedora. Marta adivinhava o pai contrariado com sua dureza escondida tocando piano, gestos de tradição para que a ele quisesse mais ainda e dissesse: eis a filha do coração, com toda a dor da terra. Erguia-se e Marta o sabia seguindo seu cheiro, rastro deixa-do atrás, para que ele não se enganasse. O pai vinha obediente, depois da morte da mãe, além do poder da terra, dedicava-se à filha, quem mais o surpreendia senão aquela certeza de carne, fibra que lhe despertava sentimentos raros, trono enfim de pétalas e pedras, faculdades feridas. Ao piano ela começava devagar, até que o pai se instalasse ao seu lado. Interrompendo para cuidar das plantas em vasos de barro com terra de preferencia próxima ao rio, embora lhe dissessem: Marta, por que escolher a mais fraca das terras? A todas plantara, espalhando vasos pela casa, árvores postiças, sobre o piano especialmente, alterando o som sempre que machucava as teclas. Não lhe importava a imperfeição. Há muito a natureza substituíra a inteligência, o bom gosto, o que lhe ensinaram acrescentando, com estes elementos, Marta, o solo lhe será favorável. Ria tão discreta que os nobres lhe agradeciam a extrema graça em quem parece inóspita. Ela afagava as plantas inúmeras vezes, o pai identificando o número de carícias que cada vegetal lhe merecia durante uma única execução, raramente seu coração pulava no abismo, pelos equívocos. Sabia o coração de Marta enrugando como caramelo, pelo brilho do olhar. Nenhuma fala impulsiva, ou resposta tardia, ao que perguntara à mesa. Perguntou reconhecendo que jamais ela desvendaria sua verdade. Amor era a incerteza, ele concluiu numa das noites ásperas da sua vida, anos após a perda da mulher.

O homem disfarçava então acompanhando com os pés a música daquela filha grata ao seu próprio mistério. Fumava o charuto molhando a ponta no conhaque, até que Marta esquecesse que ele a amava, e ao seu lado ainda buscava brilhos e que a inabilidade de sua pergunta perdoava-se porque decerto ninguém senão ele assegurou-lhe tanta liberdade. Que Marta exigiu e mantinha como flor descascada, ferida, mas de frente para o sol. Pequena, o pai não a quis assim. Buscou modificá-la, ainda que rumos não tivesse para aquela vigília incessante, olhos ne-gros e abertos, tantas vezes a surpreendera em andanças pelos corredores, pulando janelas, perdendo-se nos jardins, ele então a seguia, para protegê-la, ou obedecer à tradição estabelecida entre eles, um ser a sombra do outro, quando os grandes feitos abatessem aquela casa. Marta reconhecia-o sua sombra e construiu aquela silhueta como quem levanta uma casa, projeção de sua vontade, iam crescendo portas, paredes, telhados mil, disfarçados em outros teIhados, enigmas soltos, todos abrigando intimidados. O pai apren-dera a deslizar como índio, embora algumas vezes perdesse Marta e aquela perda, ainda por horas, doía-Ihe pelo corpo, temor de que a arrebatassem, ou a ferissem, inadequado para jovens ingressarem na noite, tudo solto, os gatos miando e ela em oferta, sobre altares que o pai não construíra mas respeitava, do mesmo modo que árvores, pedras, o que acompanha a criação do homem, seu tempo então por que existia, indagava ferido pela imperfeição da sua busca malograda. Escondendo o rosto uma vez que o enigma de Marta não era o seu enigma. Então a fronteira, dizia ele dentro da noite, para que seu sussurro afinal atingindo a filha a comovesse, ela regressaria. Marta surgia horas mais tarde, até o pai compreender com os anos que antes da filha criar novos caminhos, devia ele inventar outros que fatalmente ela percorreria, sendo ela filha da sua carne. Dedicava longos prazos do seu dia a percorrer atalhos, desvendar árvores, a nada ignorar. Imaginava: Marta há de prosseguir por aqui, ou: Marta há de converter-se a este pequeno deus erguido pela natureza e que lhe competirá descobrir numa destas noites. Sua técnica crescendo de tal modo que ao perder Marta de vista, não se tornava difícil reencontrá-la, Marta pretendendo que aquele homem sob a proteção de um galho não era seu pai, umassaltante antes, ao seu encalço, prestes a matá-la, ansioso pelo seu sangue. Mas protegida pela invenção do amor, via o homem cumprir suas determinações, até ela regressar a casa, ia para seu quarto, talvez transmitisse à distância para o pai: somos do mesmo sangue, pai, e eu não duvido. Aproximava-se ela nas manhãs seguintes pedindo trégua, sua força exigia tempo para restaurarse. O pai reconhecia que o gigante formava nela a ordem de que sempre dependeu para enfrentar o mundo. Mansa, a filha passava os dias ao sol, explicou ao médico chamado num momento de fraqueza e perdido entre orações. Mas exigindo esclarecimentos. — De que modo os filhos procedem diferente dos pais, é normal o jeito livre que na filha instalou-se feio e duradouro? Exame quando exigido, ela riu. Deixou a casa de cabeça erguida, nunca o orgulho lhe pareceu tão arma de homem. Até que o médico compreendesse que os caprichos assim tinham seu modo peculiar de se constituir. E sondando o pai naquele sorriso perdido, descobriu aquela filha copiando o que o pai escondia como um escravo acorrentado ao seu navio negreiro. O médico recusou a bebida do homem, o dinheiro do homem, a cortesia do homem. Asseguroulhe que a sua filha era igual a um rio, suas águas prolongavam-se porque outras das montanhas mais tímidas defenderam seus primeiros recursos, querendo insinuar que Marta era do mesmo reino do pai. O homem compreendeu que a lança que pretendera enfiar no coração do médico destinava-se ao seu próprio.

E por orgulho familiar aceitou a desavença do estranho. Nunca lhe pareceu tão fecunda a paternidade, ter levantado ao nível da vida uma criatura estranha porque numa das suas ereções mais exaltadas enfiara-se carne adentro da mulher e ela concebera. Aquele mistério a que assistira distraído pela carne, a que deveria ter entregue uma atenção fecunda, não perder-se em gritos de gozo, mas de amor, já podendo dizer, Marta, então você existe, eu te inicio introduzindo-me na vagina da tua mãe, para que venhas ao mundo rainha, com teus graves defeitos que não entendo mas enfeito de pétalas para que te faças bela e eu te perdoe porque não entendo a quem criei e porque criei respondo pela criação diante de Deus e sou bastardo, sou bastardo por forjar bastardos? O pai trancava-se ao espelho. — Desgraçada. E chorava temendo a imprecação. O perdão sempre a conseqüência da sua ira. Atirava-se à cama, perdido em chamas, tomava do terço e dizia: — Não é pelo desejo, eu sei bem, é pelo medo, gente como ela salva nossa alma. Ou nunca se chega a conhecer Deus. E o surpreendia que da filha surgissem os testemunhos maiores, de quem mais senão dele haveria ela de herdar aquele sangue feito de pasta negra e triunfo de cobra, rastejante, discreto, mas apegado ao solo.

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