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A CASA DA RUSSIA – John le Carre

Agradecimentos em romances arriscam-se a ser tão entediantes como créditos no cinema. No entanto, é comovente a presteza com que pessoas habitualmente tão ocupadas me oferecem seu tempo e seu saber para me ajudar a levar a cabo um empreendimento tão frívolo como o meu. Por isso, não posso deixar de aproveitar esta oportunidade para agradecer. Lembro com especial gratidão a ajuda de Strobe Talbott, ilustre jornalista de Washington, sovietólogo e autor de várias obras sobre defesa nuclear. Se há erros neste livro, não são decerto de sua responsabilidade, e muitos mais haveria sem a sua colaboração. O professor Lawrence Freedman, autor de várias obras modelares sobre a guerra moderna, honrou-me também com a sua assistência, mas o meu simplismo não é obviamente culpa sua. Frank Geritty, durante muitos anos agente do Federal Bureau of Investigation, iniciou-me nos mistérios do detector de mentiras, agora tristemente denominado polígrafo, e se minhas personagens não valorizam tanto quanto ele os poderes dessa máquina, são elas que merecem a censura do leitor, e não meu precioso colaborador. Devo ainda uma retratação a John Roberts e a sua equipe da Associação Grã-BretanhaURSS, que ele preside. Foi John Roberts que me acompanhou em minha primeira visita à URSS, abrindo-me todas as portas que, de outro modo, teriam se mantido fechadas. Mas ele nada sabia —nem me fez qualquer pergunta nesse sentido — sobre minhas negras intenções. De sua equipe, permitam-me mencionar em particular Anne Vaughan. Meus anfitriões soviéticos da União de Escritores revelaram idêntica discrição e largueza de espírito que não deixaram de me surpreender. Qualquer pessoa que visite a União Soviética nestes anos extraordinários e que tenha o privilégio de manter as conversas que eu pude manter terá forçosamente que regressar com um duradouro amor por seu povo e um sentimento de respeito pela grandiosidade dos problemas que enfrenta. Espero que meus amigos soviéticos vejam refletido nesta fábula um pouco do calor que senti em sua companhia, e um pouco da esperança que partilhamos no sentido de um futuro mais sadio e amistoso. O jazz é um grande unificador e não me faltou o apoio de amigos quando apareceu o saxofone de Barley. Wally Fawkes, o celebrado autor de comics e músico de jazz, emprestou-me seu ouvido, e John Calley, seu perfeito conhecimento tanto de letras como de músicas. Se tais homens pudessem umdia governar este mundo, talvez acabassem todos os conflitos que me têm inspirado. JOHN LE CARRÉ 1 Numa movimentada rua de Moscou, a menos de duzentos metros da estação Leningrado, no último piso de um hotel ornamentado e horrendo construído por Stalin no estilo que os moscovitas denominam de Império durante a Peste, a primeira feira de áudio do British Council para ensino de inglês e divulgação da cultura britânica aproximava-se de seu penoso fim. Eram cinco e meia da tarde, e o tempo era de verão instável. Depois de uma série de violentos aguaceiros durante todo o dia, um sol enganador reluzia nos charcos e fazia fumegar as calçadas. Quanto aos transeuntes, os mais jovens usavam jeans e tênis, mas os mais velhos ainda se aconchegavam em seus casacos. O salão que o British Council tinha alugado não era caro, mas também não era apropriado para o evento. Tive oportunidade de ver esse salão há não muito tempo numa missão inteiramente diferente. Subi nas pontas dos pés a grande escadaria vazia e, com um passaporte diplomático no bolso, deixei-me ficar no meio do salão, naquela obscuridade eterna que envolve todos os velhos salões de baile quando bate o sono. Com suas rotundas pilastras marrons e seus espelhos dourados, mais parecia o salão de um navio prestes a naufragar, e não propriamente o local ideal para uma grande iniciativa.


No teto, russos ameaçadores, com bonés proletários, erguiam punhos fechados junto a Lênin. Seu vigor contrastava dramaticamente com as prateleiras em tinta verde já lascada, cheias de fitas, que ocupavam as paredes de uma ponta à outra, com títulos tão diversos como Winnie-the-Pooh e Advanced Computer English in Three Hours. As cabines de som, revestidas de tecido grosseiro de fabricação local e sem muitas qualidades que seriam desejáveis, tinham a tristeza de cadeiras de praia em dia de chuva. Os stands dos exibidores, aglomerados sob a vasta galeria, pareciam tão blasfemos como lojas de apostas numa igreja. Apesar de tudo decorrera ali uma feira, ainda que de duvidosa qualidade. Os visitantes tinham vindo, como é habitual entre os moscovitas, desde que tenham documentos e estatuto que satisfaçam os rapazes de blusões de couro e olhar duro que os esperam na porta. Vêm porque é de bom tom. Por curiosidade. Porque querem falar com ocidentais. Porque é um acontecimento. E agora, na quinta e última noite da feira, a grande festa de despedida de exibidores e convidados começava a ficar animada. Um punhado de representantes pouco importantes da nomenclatura burocrática cultural soviética agrupava-se sob o candelabro, as mulheres nos penteados em forma de colmeia e vestidos de flores, os homens apertados em ternos reluzentes de produção francesa, o que significava acesso às lojas de roupas especiais. Apenas os anfitriões britânicos, em tons tristemente cinzentos, cumpriam a monotonia da austeridade socialista. O tumulto cresceu quando uma brigada de copeiras de avental começou a distribuir sanduíches de salame em forma de anel e vinho branco quente. Umdiplomata britânico de alto nível, que não era propriamente o embaixador, distribuía cumprimentos efusivos e se dizia encantado. Entre toda aquela gente, apenas Niki Landau se afastara das celebrações. Curvado sobre sua mesa no stand vazio, somava as últimas encomendas e verificava as cópias dos recibos e as despesas, porque uma de suas máximas era procurar diversão só depois de concluído o trabalho. Pelo canto do olho, via uma mulher soviética que deliberadamente ignorava — uma mulher que, naquele momento, não passava de uma mancha azul e ansiosa. Encrenca, pensava ele enquanto trabalhava. A evitar. O ambiente de festa não afetara Landau, não obstante seu temperamento festeiro. Uma das razões era que tinha aversão indestrutível por todo e qualquer funcionário britânico, sentimento que vinha dos tempos em que o pai fora obrigado a regressar à Polônia. Quanto aos britânicos em geral, disse mais tarde, nada tinha a reclamar. Era um deles por adoção e exibia a reverência formal dos convertidos. Mas os lambe-botas do Foreign Office eram outra coisa.

E quanto mais se davam ares superiores, olhando-o do alto com desprezo e sorriso afetado, tanto mais ele os odiava, tanto mais ele pensava no pai. Por outro lado, por sua vontade nunca teria participado na feira. Teria antes ficado em Brighton, com uma namorada especialmente simpática chamada Lydia, que conhecera recentemente, num pequeno hotel privado não menos simpático, ideal para levar namoradas. — É preferível nos prepararmos para a feira do livro de Moscou em setembro —, dissera Landau aos clientes na sede da empresa em Londres. — Não sei se compreende, Bernard, os russos gostam de livros, mas uma feira de áudio vai assustá-los, eles ainda não estão preparados para isso. Com a feira do livro, é dinheiro em caixa. Com a feira de áudio, é morte certa. Mas os clientes de Landau eram jovens e ricos e não acreditavam na morte. — Meu rapaz —, disse Bernard, aproximando-se dele e pondo a mão em seu ombro, coisa de que Landau não gostava —, no mundo de hoje, temos de exibir bem a bandeira. Somos patriotas, Niki, entende? Como você. É por isso que somos uma companhia internacional. Hoje, com a glasnost, a União Soviética é o Everest do comércio audiovisual. E você, Niki, vai nos levar ao topo. Porque se você não o fizer encontraremos quem faça. Alguém mais jovem, certo, Niki? Alguém com a energia e a classe necessárias. Energia Landau ainda tinha. Mas a classe, como ele era o primeiro a confessar, a classe… era melhor não falar disso. Era engraçado e gostava de ser. Era um polonês engraçado, enérgico e baixinho, e tinha orgulho disso. Era o bom Niki, o camaradinha malcriado das vendas para o Leste, capaz, como ele gostava de se vangloriar, de vender fotografias porcas a um convento georgiano ou tônico capilar a uma bola de bilhar romena. Era Landau, o atleta raquítico, que usava saltos mais altos que o normal para dar ao corpo eslavo a escala inglesa que tanto admirava, e que vestia terno caros da moda que não o deixavam passar despercebido. Quando o bom Niki acabou de montar seu stand, os colegas de negócios garantiram que se podia ouvir o tinir do sino em seu carrinho de vendedor ambulante. E Landau, esperto como era, partilhava a piada com eles, jogava o jogo deles. — Pois é, pessoal, sou o polonês em que vocês não ousam tocar* —, declarava orgulhosamente depois de pedir mais uma rodada. [*No original, I’m the Pole you wouldn’t touch with a barge: triplo trocadilho intraduzível.

Significa “Vocês não querem se meter comigo”, mas barge pole é também um rebocador que move barcaças, e Pole com maiúscula significa Polonês. Mas pole também é pênis. São portanto duas zonas de sentido: o tratamento dos colegas e sua fogosa sexualidade. (N. do T.)] Era o processo que Landau usava para que os outros rissem com ele em vez de rirem dele. Então, era de se esperar que, para demonstrar o que acabava de dizer, Landau sacaria um pente do bolso e se abaixaria, quase como se fosse ajoelhar, para, com ajuda de um quadro pendurado na parede ou outra superfície polida qualquer, domar o cabelo muito preto, preparativo essencial para uma nova conquista, usando as duas pequeninas mãos para dar à cena um ar bem viril. — Mas quemé aquela jovem ali naquele canto? —, perguntaria ele em sua pouco ortodoxa mistura de polonês de gueto com cokney do East End. — Olá, querida! Tão solitária… Não me diga que vai passar a noite toda sozinha? — Uma em cada cinco vezes, Landau tinha sucesso, o que, em suas contas, era uma boa média. Precisava era manter a iniciativa. Mas nesta noite Landau não pensava em sucessos ou iniciativas. O que ele pensava é que suara a semana inteira para ganhar uma ninharia — ou, como ele me disse mais explicitamente, para ganhar um beijo de puta. Ele achava também que todas as feiras, fossem de livro, de áudio ou qualquer outra, consumiam mais energia do que gostaria de admitir, como acontecia com as mulheres. Pouco recebia em troca desse dispêndio de energia. No dia seguinte regressaria a Londres, mas se pudesse apanharia o avião naquele momento. E se aquela ave russa toda de azul não desistisse de se insinuar no horizonte de sua atenção, no preciso momento em que tentava fechar as contas e se preparava para instalar o sorriso festeiro e se reunir à exultante multidão, era muito provável que lhe dissesse uma certa palavra da língua russa que ambos lamentariam toda a vida. Que ela era russa, não havia dúvida. Só uma russa ainda por ali, com uma sacola plástica pendurada no braço, pronta para a compra ocasional que é a alegria de sua vida quotidiana, ainda que na maior parte dos casos não usassem sacolas de plástico, mas de pano. Só uma russa seria capaz de se mostrar tão intrometida, a ponto de poder verificar a aritmética de um homem. E só uma russa prefaciaria a sua interrupção com um daqueles grunhidos insuportáveis que, num homem, lhe faziam lembrar o pai apertando os laços dos sapatos e que, numa mulher, Harry, ah, numa mulher, fazem logo pensar em cama. — Desculpe… o senhor trabalha para a firma Abercrombie & Blair? —, perguntou ela. — Não é aqui, minha querida —, respondeu Landau sem sequer erguer a cabeça. Ela fizera a pergunta em inglês, portanto ele respondera em inglês, como aliás sempre fazia. — O senhor é Mr. Barley? — Barley, não, minha querida, Landau.

— Mas este é o stand de Mr. Barley. — Não é o stand de Barley coisa nenhuma. Este é o meu stand. Abercrombie & Barley é ao lado. — Ainda de cabeça baixa, Landau apontou com o lápis para a esquerda, para o stand vazio ao lado, onde um cartaz pintado em verde e dourado anunciava a antiga casa editora de Abercrombie & Blair, Norfolk Street, Strand. — Mas esse stand está vazio. Não há ninguém lá —, objetou a mulher. — Ontem também estava vazio. — Correto. Corretíssimo —, respondeu Landau, num tom capaz de acabar com qualquer conversa. Então, debruçou-se ainda mais sobre seu livro-caixa, aguardando que a mancha azul desistisse e desaparecesse. Sabia que estava sendo mal-educado, mas quanto mais ela persistisse mais dava vontade de ser grosseiro. — Mas onde está Scott Blair? Onde está o homem a quem chamam Barley? Tenho que falar com ele. É muito urgente. Nesse momento Landau já a odiava com ferocidade cega. — Mr. Scott Blair —, disse ele erguendo de chofre a cabeça e olhando-a bem de frente, — Mr. Scott Blair, Barley para os íntimos, está ausente, minha senhora. A companhia dele reservou um stand — disso não há dúvida. E Mr. Scott Blair é diretor, presidente, governador-geral e, pelo que sei, ditador vitalício dessa companhia. No entanto, não ocupou seu stand. Nesse momento, reparando que toda a atenção dela estava concentrada nas suas palavras, Landau começou a perder a embalagem inicial. — Ouça, minha querida, não sei se percebeu, mas acontece que eu trabalho aqui, e não para Mr.

Barley Scott Blair, por muito que goste dele. Dito isto, parou, já que as preocupações cavalheirescas tinham abafado sua ira momentânea. A mulher estava tremendo. Não só tremiam as mãos que seguravam a sacola marrom, mas também o pescoço e a gola de renda antiga que encimava seu vestido impecavelmente azul, que Landau via tremer contra uma pele que já estava mais branca do que a renda. No entanto, a boca e os maxilares permaneciam impassíveis, numa atitude de firmeza, e a expressão dela o afetava. — Por favor, preciso de toda sua simpatia e ajuda —, disse ela, como se não houvesse outra saída. Acontece que Landau se orgulhava de conhecer as mulheres. Gabava-se disso, como de outras coisas, até cansar quem o ouvia, mas a verdade é que seu orgulho tinha algum fundamento. —As mulheres, as mulheres são meu hobby, Harry, passarei a vida toda a estudá-las, são a paixão que me consome —, confidenciou-me um dia, e a convicção em sua voz era tão solene como o juramento. Não sabia quantas mulheres já tivera, mas era com grande satisfação que dizia que o total já estava nas centenas, e nenhuma delas tinha motivo de queixa. — Jogo com toda a franqueza e escolho acertadamente —, garantiu ele, batendo com o indicador numa das narinas. — Nada de pulsos cortados, casamentos desfeitos ou palavras azedas depois de tudo acabado. — Se era ou não verdade, ninguém podia saber, eu inclusive, mas não havia dúvida de que os instintos que o tinham guiado em suas aventuras o ajudavam agora a traçar rapidamente o retrato da mulher. Era séria. Inteligente. Determinada. Estava assustada, embora em seus olhos escuros houvesse uma centelha de coragem. E tinha ainda essa rara qualidade que Landau, em seu estilo floreado, gostava de chamar a Classe Que Só A Natureza Pode Dar. Em outras palavras, a mulher era inteligente e forte. E como nos momentos de crise nossos pensamentos não seguem uma progressão lógica, mas antes nos invadem desordenadamente em ondas de intuição e experiência, Landau percebeu todas aquelas características ao mesmo tempo e estava matutando a respeito quando a mulher lhe dirigiu de novo a palavra. — Um amigo soviético escreveu importante obra literária, muito criativa —, disse ela, depois de respirar fundo. — É um romance. Um grande romance. Sua mensagem é importante para a humanidade. A mulher calou-se repentinamente.

Landau apressou-se em manter o fio da conversa. — Um romance —, disse. E depois, sem entender bem por que, perguntou: — E qual é o título, minha querida? Concluiu nesse momento que a força dela vinha de convicções, e não de falsa coragem ou insanidade. — Ou então, qual é a mensagem, se não tem título? — Tem a ver com ações em vez de palavras. Rejeita o gradualismo da perestroika. Pede ação e contesta todas as falsas mudanças. — Lindo —, disse Landau, impressionado. Ela falava como minha mãe, Harry: o queixo bemlevantado. — Apesar da glasnost e do suposto liberalismo das novas diretivas, o romance do meu amigo ainda não pode ser publicado na União Soviética —, prosseguiu ela. — Mr. Scott Blair comprometeu-se a publicá-lo com discrição. — Minha senhora —, disse Landau num tom amável, o rosto agora quase colado ao dela. —Se o romance do seu amigo for publicado pela grande editora Abercrombie & Blair, pode ter certeza de que o segredo será total. Landau disse isso em parte porque não podia resistir a uma piada sobre a editora, mas também porque seus instintos diziam que era melhor dar um tom informal à conversa e torná-la menos perceptível aos olhos de quem quer que fosse. Tivesse ou não percebido a piada, a verdade é que a mulher também sorriu, um sorriso breve e quente de autoencorajamento, como que uma vitória sobre seus medos. — Então, Mr. Landau, se o senhor ama a paz, por favor leve este manuscrito para a Inglaterra e faça com que chegue logo a Mr. Scott Blair. Apenas a ele. Confio inteiramente no senhor. O que aconteceu a seguir foi muito rápido, unia transação de esquina, de vendedor interessado para comprador interessado. A primeira coisa que Landau fez foi olhar para além do ombro dela. Sabia por experiência própria que quando os russos queriam fazer das suas havia sempre gente por perto. Mas a verdade é que seu canto estava vazio, a área sob a galeria dos stands estava quase às escuras e a festa atingia agora o auge da animação. Os três rapazes de blusões de couro da porta conversavam com ar entediado.

Completado o exame, Landau leu o nome da moça no crachá de plástico que trazia na lapela, coisa que normalmente teria feito antes, caso aqueles olhos castanhos não o tivessem distraído. Yekaterina Orlova, leu ele. E por baixo a palavra “Outubro”, em inglês e russo, nome de uma das menores editoras estatais russas, especializada na tradução de livros soviéticos para exportação, sobretudo para outros países socialistas, o que, eu receio, a condenava a uma certa mediocridade. Em seguida, disse a ela o que devia fazer, ou talvez já estivesse dizendo no momento em que leu seu nome. Landau era um rapaz de rua, habituado a todo o tipo de truques. A mulher podia ser a coragem em pessoa e pelo ar dela talvez fosse mesmo. Mas não tinha hábitos de conspiradora. Por isso não hesitou em protegê-la. E, ao fazê-lo, falou como falaria a qualquer mulher que precisasse de conselhos básicos sobre como encontrá-lo no quarto do hotel ou o que dizer ao maridinho quando voltasse para casa. — Trouxe o manuscrito, não trouxe, minha querida? —, perguntou, espreitando o conteúdo da sacola e sorrindo como amigo. — Trouxe. — Está aí dentro, não é? — Está. — Então me passe a sacola com um ar normal —, disse Landau, continuando falando enquanto ela lhe passava a sacola. — Isso. Agora me dê um beijinho russo, de amigos. Gênero formal. Isso. O que você me trouxe foi um presente de despedida oficial na última noite da feira, não sei se está entendendo. Um presente que contribuirá para estreitar as relações anglo-soviéticas e que vai resultar em excesso de peso no avião, a menos que o jogue numa lixeira do aeroporto. Uma transação perfeitamente normal. Hoje já devo ter recebido meia dúzia de presentes como o seu. Parte deste discurso Landau o fez agachado e de costas para ela. Já tinha aberto a sacola e retirado rapidamente o embrulho de papel pardo, que guardava agora com a maior habilidade em sua pasta, daquelas que mais parecem arquivos domésticos, com grande aproveitamento de espaço nos compartimentos que se abrem em leque. — Você é casada, Katya? Recebeu o silêncio como resposta. Talvez ela não tivesse ouvido.

Ou então estava muito ocupada em observá-lo. — Foi seu marido que escreveu o romance? —, perguntou Landau, pouco intimidado com o silêncio dela. — É perigoso para você —, murmurou ela. — Tem que acreditar no que está fazendo. Assim, tudo fica claro. Como se não tivesse ouvido o aviso, Landau selecionou, de uma pilha de amostras que tinha guardado para distribuir nessa noite, uma embalagem de quatro fitas com a leitura de Sonho de uma Noite de Verão especialmente encomendada à Royal Shakespeare Company. Colocou-a sobre a mesa, escrevendo depois na embalagem de plástico com uma caneta de feltro “De Niki para Katya, Paz” —, além da data. Em seguida, colocou as fitas na bolsa com todo o cuidado, fechou e entregou à mulher, que estava ficando pálida e ele temia que desmaiasse ou acabasse muito perturbada. Só então Landau a tranquilizou como ela parecia desejar, enquanto continuava a segurar-lhe a mão, que, segundo ele, estava fria, mas era uma bela mão. — Todos temos de encarar riscos de vez em quando, não é, minha querida? —, disse Landau, em tom despreocupado. — Não quer vir dar um pouco de brilho à festa? — Não. — E que tal um restaurante simpático? — Não convém. — Quer que a acompanhe até à porta? — Tanto faz. — Acho melhor ensaiarmos um sorriso, minha querida —, disse ele, ainda em inglês, enquanto avançava com ela pelo salão, tagarelando como o vendedor eficiente que de repente voltara a ser. Ao chegar à entrada, cumprimentou-a. — Então nos vemos na feira do livro? Em setembro. E obrigado pelo aviso, hein? Não vou esquecer. Mesmo assim o que importa é que fechamos negócio. O que é sempre bom. Certo? A mulher pareceu encontrar um pouco mais de coragem, já que voltou a sorrir e seu sorriso, apesar de desmaiado, era um sorriso grato e quase irresistivelmente afetuoso. — Meu amigo fez um gesto importante —, explicou, afastando uma mecha de cabelo mais rebelde. — É preciso que Mr. Barley tenha consciência disso. — Eu digo, não se preocupe —, respondeu Landau animadamente. Ele daria tudo para que a mulher lhe sorrisse uma vez mais, mas a verdade é que ela já não estava interessada em sua pessoa.

Procurava na bolsa um cartão, pormenor que até esse momento — Landau sabia — não lhe tinha ocorrido. “ORLOVA, Yekaterina Borisovna”, dizia o cartão em cirílico de um lado e romano do outro, de novo com a palavra “Outubro” nos dois alfabetos. Deu-lhe o cartão e desceu com firmeza a pomposa escadaria, a cabeça erguida, uma das mãos no largo corrimão de mármore, a outra segurando a sacola. Os rapazes de blusão de couro a observaram até chegar ao hall. Enquanto guardava o cartão no bolso do casaco, ao lado de outra meia dúzia que tinha colecionado nas últimas duas horas, esperou que ela desaparecesse e então piscou-lhes o olho. Os rapazes, depois de conveniente reflexão, retribuíram a piscadela, já que também fazia parte da nova abertura dar o devido valor a um bom par de quadris russos. Até um estrangeiro tinha o direito de apreciá-los. Nos cinquenta minutos que restavam, Niki Landau entregou-se de corpo e alma à festa. Cantou e dançou para uma bibliotecária escocesa com pérolas no pescoço. Recitou uma divertida anedota política sobre Mrs. Thatcher para um casal de apagados ouvintes da Agência Editorial do Estado, a VAAP, até que subitamente eles desataram na gargalhada. Cortejou três senhoras das Publicações Progresso e, numa série de ágeis deslocamentos até a mesa, presenteou-as com uma recordação de sua estada, já que Landau gostava de presentear e lembrava-se sempre de nomes e promessas, bemcomo de muitas outras coisas, com o desembaraço de uma mente despreocupada. Durante todo esse tempo, porém, não deixou de vigiar discretamente a pasta. Antes mesmo da saída dos convidados, já a segurava com a mão disponível, enquanto fazia suas despedidas. E no ônibus particular que levou os vendedores de volta ao hotel, sentou-se com a pasta sobre os joelhos, enquanto se integrava numharmônico coro de canções de rugby, dirigido, como de costume, por Spikey Morgan. — Atenção às senhoras —, avisou Landau e, levantando-se, ordenou silêncio nas passagens que considerava mais grosseiras. Mas mesmo no papel de grande maestro, não deixou de segurar firmemente a pasta. Pelo hall do hotel perambulavam os habituais grupos de vagabundos e traficantes de drogas e rublos, mais os guardas da KGB. Mas Landau nada viu de preocupante no comportamento deles; de fato, não se mostravam nem muito atentos, nem muito desinteressados. O velho soldado mutilado que guardava o corredor dos elevadores pediu-lhe como de costume o passe do hotel. Landau, que já lhe tinha oferecido uma centena de Marlboros, perguntou-lhe em russo, em tom acusatório, por que não tinha ido dar uma volta com a namorada naquela noite. O homem desatou num riso estridente e bateulhe no ombro em sinal de camaradagem. — Se aquilo era uma armadilha para me incriminar, então teriam que ser rápidos, pois se arriscavam a perder a presa —, disse-me ele, pondo-se na posição do caçador, que não era evidentemente a sua. — É que, Harry, quando montamos uma armadilha temos de agir rapidamente, enquanto as provas estão com a vítima —, explicou, como se tivesse montado armadilhas a vida toda. — Então no Bar do Nacional, às nove —, combinou Spikey Morgan, num jeito entediado, ao chegarem ao quarto andar.

— Pode ser que sim, pode ser que não, Spikey —, respondeu Landau. — Para dizer a verdade, não me sinto muito bem. — Graças a Deus —, respondeu Spikey, com um bocejo, após o que se arrastou até seu corredor escuro. A porteira do andar, enfiada em seu cubículo, seguiu-o atentamente com olhos de bruxa. Ao chegar à porta do quarto, Landau preparou-se para o pior. É agora, pensou. Este é o melhor momento para me apanharem e ao manuscrito. Ao entrar, porém, verificou que o quarto estava vazio e sem sinal de desarrumação. Sentiu-se um idiota por suas suspeitas. Ainda estou vivo, pensou, e pôs a pasta em cima da cama. Depois, fechou as cortinas, pouco maiores que lenços, tanto quanto era possível fechá-las, ou seja, até o meio, e pendurou o inútil “Do Not Disturb” na porta, fechando-a à chave. Esvaziou os bolsos do terno, inclusive o dos cartões de negócios, tirou o paletó e a gravata, as abotoaduras e, finalmente, a camisa. Pegou uma vodca-limão no frigobar, derramou um dedo no copo e bebeu um pequeno gole. Não era propriamente amigo da bebida, pelo que me disse, mas sempre que ia a Moscou gostava de terminar o dia com um copinho de vodca-limão. Levou o copo para o banheiro e, durante uns bons dez minutos, deixou-se ficar em frente ao espelho, examinando ansiosamente as raízes do cabelo, à procura de algum vestígio de fio branco, retocando os locais em perigo com a ajuda de um novo produto que fazia maravilhas. Satisfeito com o trabalho, enrolou a cabeça com umelaborado turbante feito de toalha, à maneira de uma touca de banho, e tomou uma ducha, enquanto cantava “I am the very model of a modern major-general”, nada mal por sinal. Depois, enxugou-se o mais vigorosamente possível para estimular o tônus muscular e pôs um roupão de banho descaradamente florido. Finalmente, e ainda cantando, voltou ao quarto. Fez todas essas coisas em parte porque as fazia sempre e precisava da familiaridade apaziguadora de suas próprias rotinas, mas também porque se sentiu orgulhoso de ter, por uma vez, mandado às favas as precauções, por não ter encontrado vinte e cinco razões plausíveis para nada fazer, o que, nessa época, não seria de espantar. Ela era uma senhora, ela tinha medo, ela precisava de ajuda, Harry. Já neguei alguma coisa a uma senhora? E se estava errado sobre ela, então fizera papel de idiota, e o melhor era pegar a escova de dentes e se apresentar imediatamente à porta da Lubyanka, pronto para cinco anos de estudo de seus magníficos grafites, sem opção. Porque Landau preferiria fazer vinte vezes o papel de idiota completo a negar auxílio à mulher sem razão. E enquanto dizia isto a si mesmo, obviamente emsilêncio, já que o medo dos microfones o impediria de proferir tais afirmações em voz alta, Landau tirou o embrulho da pasta e, com certo embaraço, lançou-se ao trabalho. Começou a desamarrar o barbante em vez de cortá-lo, como aprendera com a santa mãe, cuja fotografia repousava agora, fielmente, na carteira. Têm ambas o mesmo brilho, descobriu com prazer, enquanto, pacientemente, ia desfazendo o nó.

É a pele eslava. São os olhos eslavos, o sorriso. Duas belas moças eslavas. A única diferença é que Katya não tinha acabado os dias em Treblinka. O nó acabou por ceder. Landau enrolou o barbante e o deixou na cama. É assim mesmo, querida, tenho que saber o que isto contém, explicou ele a uma Yekaterina Borisovna só presente em sua cabeça. Não quero me intrometer, aliás, o intrometido não sou eu, mas se tiver de fazer alguma encenação na alfândega, é melhor saber de antemão por que, sempre ajuda. Delicadamente, para não rasgar, usando as duas mãos, Landau retirou o papel pardo. Não se imaginava herói. Ainda não, pelo menos. O que era perigoso para uma beleza de Moscou podia não ser para ele. Era verdade que tivera uma juventude difícil. O East End não fora propriamente uma estação de repouso para um imigrante polonês de dez anos, e Landau tivera seu quinhão de lábios rachados, narizes partidos, socos dados e levados, e fome. Mas se lhe perguntassem, agora ou emqualquer momento nos últimos trinta anos, qual era sua definição de herói, teria respondido, um herói era o primeiro a fugir pela porta dos fundos quando começassem a gritar por voluntários. Uma coisa ele sabia, enquanto examinava o conteúdo do embrulho: tinha o vício. Por isso, examinava uma coisa que podia examinar mais tarde, quando não tivesse nada melhor para fazer. Mas se fosse necessária alguma ação arriscada naquela noite, então Niki Landau seria o homemindicado. Porque quando Niki está com o vício, Harry, não há ninguém que o bata, como todas as moças sabem. A primeira coisa que viu foi o envelope. Reparou que por baixo dele havia três cadernos e que o envelope e os cadernos estavam atados com elástico grosso, um daqueles elásticos que ele guardava sempre, mas para os quais nunca achava um uso. Mas foi o envelope que mais lhe chamou a atenção, porque a caligrafia dela era perfeita e confirmava a imagem de pureza que tinha da mulher. Um envelope pardo, quadrado, sujo de cola, e dirigido a “Mr. Bartholomew Scott Blair — Pessoal — Urgente”. Landau retirou o envelope e examinou-o à luz, mas era opaco e não revelava qualquer sombra.

Explorou-o com o indicador e o polegar. Dentro, uma folha de papel fino, duas no máximo. Mr. Scott Blair comprometeu-se a publicá-lo com discrição, lembrou-se nesse momento. Mr. Landau, se o senhor ama a paz… entregue logo ao chegar a Mr. Scott Blair. Apenas a ele… Confio inteiramente no senhor. Ela também confia em mim, pensou. Virou o envelope. Nada escrito no verso. E como Landau se recusava a ler a correspondência pessoal de quem quer que fosse e umenvelope fechado nada mais podia revelar, decidiu abrir de novo a pasta, espreitou o compartimento dos artigos de papelaria, tirou dele um dos seus envelopes comuns de papel manilha, com as palavras “Do escritório de Mr. Nicholas P. Landau” — esteticamente gravadas na parte de trás. Então, introduziu o envelope pardo no de papel manilha, fechou, rabiscou nele o nome “Barley” e arquivou-o no compartimento “Social”, que continha coisas tão singulares como cartões de visita que estranhos o tinham obrigado a aceitar e notas sobre extravagantes encomendas que tinha se comprometido a satisfazer — como a daquela editora que precisava de cargas para sua Parker ou a do funcionário do Ministério da Cultura que queria uma T-shirt com o Snoopy para o sobrinho, ou ainda a daquela mulher da “Outubro”, que por mero acaso apareceu no preciso momento em que fechava o stand. Landau meteu um envelope no outro porque, com a manha de comerciante que nele era instintiva, ou mesmo totalmente inata, sabia que a primeira coisa a fazer era manter o envelope o mais afastado possível dos cadernos. Se os cadernos implicassem encrenca, seria bom que nenhumpormenor os relacionasse à carta. E vice-versa. Landau tinha toda a razão. Os nossos mais versáteis e eruditos professores, treinados em todos os oceanos do folclore de nosso Serviço, não teriam feito de outro modo. Só então pegou os três cadernos e tirou o elástico que os prendia, mantendo os ouvidos alertas para qualquer som de passos no corredor. Três cadernos sujos, foi o que pensou ao examinar o de cima. Tinha capa de papelão grosseiramente ilustrada, a lombada de pano já esfiapada. Duzentas e vinte e quatro páginas de má qualidade, formato ofício, um pautado esmaecido, concluiu Landau, recorrendo às recordações da época em que revendia artigos de papelaria, preço soviético em torno dos vinte copeques, à venda em qualquer varejista do ramo, desde que a remessa tenha chegado e o comprador estivesse na fila certa no dia certo. Finalmente, abriu o caderno e examinou a primeira página.

É doida, pensou, sentindo desgosto. Está nas mãos de um louco. Pobrezinha. Rabiscos sem qualquer significado, feitos por um lunático com uma caneta de ponta fina a uma velocidade louca, furiosamente angulosos. Nas margens, obliquamente e longitudinalmente, rabiscos cortando rabiscos como a letra de um médico atacado de desordem mental. Tudo isto repetidamente martelado com pontos de exclamação e sublinhados idiotas. Rabiscos em cirílico, rabiscos em inglês. — O Criador cria os criadores —, lia-se, em inglês. — Ser. Não ser. Contra-ser. — A seguir, uma estúpida explosão de francês, acerca da guerra da loucura e da loucura da guerra, que terminava com um emaranhado de arame farpado. Muitíssimo obrigado, pensou, e passou uma página, depois outra, ambas tão cheias daquela caligrafia demente que quase não se via o papel. — Depois de termos passado setenta anos destruindo o poder popular, não podemos esperar que de súbito esse poder se imponha e nos salve —, leu então. Uma citação? Um pensamento surgido no meio da noite? Não tinha como saber. Referências a escritores russos, latinos, europeus. Coisas sobre Nietzsche, Kafka e outros de quem nunca tinha ouvido falar, quanto mais lido. De novo a guerra, desta feita em inglês: — “Os velhos a declaram, os jovens a travam, mas hoje os bebês e os velhos também”. Virou mais uma página e deparou-se com nada mais nada menos que uma mancha redonda, marrom. Aproximou o caderno do nariz e cheirou. Álcool, pensou com desprezo. Fede que nem uma fábrica de cerveja. Não admira que o tipo seja amigo de Barley Blair. Depois, duas páginas consagradas a uma série de proclamações histéricas.

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