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A Casa da Seda – Anthony Horowitz

REFLETI MUITAS VEZES sobre a estranha série de circunstâncias que levou à minha longa associação com uma das mais singulares e extraordinárias figuras de meu tempo. Tivesse eu inclinações filosóficas, perguntaria a mim mesmo em que medida qualquer um de nós controla o próprio destino, ou se alguma vez podemos de fato prever as consequências a longo prazo de ações que, na época, pareceram inteiramente triviais. Por exemplo, foi meu primo, Arthur, quem me recomendou como cirurgião-assistente ao 5º Regimento de Fuzileiros de Northumberland, porque pensava que seria uma experiência útil para mim, não podendo prever que um mês depois eu seria despachado para o Afeganistão. Na época, o conflito que veio a ser conhecido como a Segunda Guerra Anglo-Afegã ainda nem começara. E o que dizer sobre o ghazi que, com uma única contração do dedo, disparou uma bala contra meu ombro emMaiwand? Novecentas almas britânicas e indianas morreram naquele dia e, embora gravemente ferido, fui salvo por Jack Murray, meu leal e bondoso enfermeiro, que conseguiu me carregar de volta até as linhas britânicas por quase três quilômetros e meio de território hostil. Murray morreu em Kandahar em setembro daquele ano e assim nunca ficaria sabendo que fui mandado de volta para casa como inválido e que depois dediquei vários meses – pequeno tributo a seus esforços em meu favor – a uma existência um tanto dissipada nas franjas da sociedade londrina. Ao fim desse tempo, passei a considerar seriamente uma mudança para a Costa Sul, necessidade a mim imposta pela dura realidade de minhas finanças, que minguavam rapidamente. Fora-me tambémsugerido que o ar marinho poderia ser bom para a minha saúde. Uma moradia mais barata emLondres teria sido alternativa mais desejável, e de fato quase aluguei um quarto na casa de umcorretor da bolsa na Euston Road. A entrevista não foi satisfatória e não demorei a tomar minha decisão. Seria Hastings: menos alegre talvez do que Brighton, mas pela metade do preço. Meus pertences pessoais foram embalados. Eu estava pronto para partir. Chegamos agora a Henry Stamford, não um amigo íntimo, mas um conhecido que havia sido meu assistente no hospital St. Bart’s. Não houvesse ele bebido até tarde na noite anterior, não teria acordado com dor de cabeça e, não fosse a dor de cabeça, poderia não ter optado por tirar um dia de folga do laboratório onde trabalhava então. Perambulando por Picadilly Circus, ele resolveu subir a Regent Street até a East India House de Arthur Liberty para comprar um presente para a mulher. Curioso pensar que, se tivesse andado no outro sentido, não teria dado de cara comigo quando eu saía do Criterion Bar e que, nesse caso, talvez eu nunca viesse a conhecer Sherlock Holmes. Pois, como escrevi em outro lugar, foi Stamford quem sugeriu compartilhar aposentos com um homem que ele supunha lidar com análises químicas e que trabalhava no mesmo hospital que ele. Stamford apresentou-me a Holmes, que na ocasião fazia experimentos com um método para isolar manchas de sangue. Nosso primeiro encontro foi estranho, desconcertante, e sem dúvida memorável… uma clara indicação de tudo que estava por vir. Esse foi o momento mais decisivo de minha vida. Eu nunca tivera ambições literárias. Na verdade, se alguém me dissesse que eu viria a ser um autor publicado, eu teria rido da ideia. Mas penso poder dizer, com toda a honestidade e sem me gabar, que, de fato, ganhei certo renome pela maneira como narrei as aventuras do grande homem, e não foi pequeno o meu sentimento de honra quando fui convidado a falar em sua cerimônia fúnebre na abadia de Westminster, convite que declinei com todo o respeito.


Holmes zombara muitas vezes do estilo de minha prosa, e eu não podia evitar a impressão de que, se tivesse ocupado o púlpito, eu o teria sentido sobre meus ombros, troçando sutilmente de tudo que eu pudesse dizer do lado de cá do túmulo. Ele sempre julgara que eu exagerava seus talentos e as extraordinárias intuições de sua mente brilhante. Ria do modo como eu construía minha narrativa de maneira a deixar para o fim uma resolução que ele jurava ter deduzido nos parágrafos de abertura. Acusou-me mais de uma vez de romantismo vulgar, e não me achava nada melhor que qualquer escrevinhador de Grub Street. Mas no fundo penso que ele era injusto. Durante todo o tempo em que convivemos, nunca vi Holmes ler uma única obra de ficção – isto é, salvo os piores títulos da literatura sensacionalista –, e embora eu não possa me arrogar grandes poderes de descrição, não hesito em afirmar que eles cumpriram seu papel e que o próprio Holmes não teria sido capaz de melhor. De fato, ele quase admitiu isso quando por fim pegou da pena e descreveu, com suas palavras, o estranho caso de Godfrey Emsworth. Esse episódio foi apresentado como O rosto lívido, título que, a meu ver, fica ele próprio aquém da perfeição. Obtive, como disse, certo renome por meus esforços literários, mas esse nunca foi, é claro, o meu objetivo. Através dos vários caprichos do destino que resumi, fui o escolhido para trazer à luz as façanhas do maior detetive consultor do mundo e apresentei nada menos que sessenta aventuras a um público entusiasta. Mais valiosa para mim, porém, foi minha longa amizade com o homem emcarne e osso. Faz um ano que Holmes foi encontrado em sua casa nos Downs, teso e imóvel, aquela prodigiosa inteligência silenciada para sempre. Quando soube da notícia, dei-me conta de que perdera não só meu companheiro e amigo mais chegado, como, sob inúmeros aspectos, a própria razão de minha existência. Dois casamentos, três filhos, sete netos, uma carreira de sucesso na medicina e a Ordem do Mérito concedida por sua majestade o rei Eduardo VII em 1908 podem ser considerados realização suficiente para qualquer um. Mas não para mim. Sinto falta dele até hoje, e por vezes, ao despertar, imagino ainda ouvir aquelas palavras familiares: “A caça já foi levantada, Watson!” Elas servem apenas para me lembrar que nunca mais voltarei a mergulhar na escuridão e no nevoeiro turbilhonante de Baker Street, empunhando meu infalível revólver de serviço. Volta e meia imagino Holmes esperando por mim do outro lado daquela grande sombra que deve chegar para todos nós, e na verdade anseio por encontrá-lo. Estou sozinho. Meu velho ferimento me atormenta até o fim, e, enquanto uma guerra terrível e sem sentido grassa no continente, descubro que não compreendo mais o mundo em que vivo. Por que então pego da pena uma última vez para remoer lembranças que seria melhor esquecer? Talvez meus motivos sejam egoístas. É possível que, como tantos velhos com suas vidas atrás de si, eu esteja em busca de algum tipo de conforto. Os enfermeiros que cuidam de mim asseguram-me que escrever é terapêutico e evitará que eu caia no mau humor a que sou às vezes propenso. Mas há umoutro motivo, também. Embora O homem da boina e A Casa da Seda tenham sido, sob alguns aspectos, as aventuras mais sensacionais da carreira de Sherlock Holmes, ao mesmo tempo foi-me impossível narrá-las, por razões que ficarão sobejamente claras. O fato de elas terem se entrelaçado inextricavelmente mostrou que não era possível separá-las.

No entanto, sempre foi meu desejo registrá-las, para completar o cânone de Holmes. Nisto, sou como um químico à procura de uma fórmula, ou talvez umcolecionador de selos raros que não pode se orgulhar plenamente de seu catálogo sabendo haver dois ou três itens que escaparam a seu alcance. Não posso me impedir. Isto deve ser feito. Foi impossível antes – e não me refiro apenas à conhecida aversão de Holmes por publicidade. Não, os eventos que estou prestes a descrever foram simplesmente monstruosos demais, chocantes demais, para aparecer em letra de forma. Ainda são. Não é exagero sugerir que eles conspurcariam todo o tecido da sociedade, e, em particular num tempo de guerra, isso é algo que não posso arriscar. Quando eu terminar, supondo que tenha a força que a tarefa exige, farei com que este manuscrito seja empacotado e enviado para os cofres da Cox and Co. em Charing Cross, onde alguns outros de meus papéis pessoais estão guardados. Darei instruções no sentido de impedir que o pacote seja aberto nos próximos cem anos. Impossível imaginar como o mundo será então, que avanços a humanidade terá feito, mas talvez leitores futuros estejam mais acostumados ao escândalo e à corrupção do que os meus próprios. A eles lego um último retrato de Sherlock Holmes, e de uma perspectiva nunca antes vislumbrada. Mas já despendi energia suficiente com minhas próprias preocupações. Já deveria ter aberto a porta do número 221B de Baker Street e adentrado a sala onde tantas aventuras começaram. Vejo-a agora, o fulgor da lâmpada atrás do vidro e os dezessete degraus que me convidam da rua. Como parecem distantes, quanto tempo faz que estive ali! Sim. Lá está ele, seu cachimbo na mão. Vira-se para mim. Sorri. “A caça já foi levantada…” 1. O marchand de Wimbledon “GRIPE É DE FATO DESAGRADÁVEL ”, observou Sherlock Holmes, “mas você tem razão, com a ajuda da sua mulher, a criança logo se restabelecerá.” “Assim espero”, respondi, depois parei e olhei fixamente para ele, os olhos arregalados de espanto. Meu chá estava a meio caminho de meus lábios, mas pousei-o de novo na mesa com tal força que a xícara e o pires quase se desgarraram. “Por Deus, Holmes!” exclamei.

“Você tirou os pensamentos da minha cabeça. Juro que não pronunciei uma palavra sobre a criança nem sobre a sua doença. Sabe que minha mulher está fora – isso você poderia ter deduzido de minha presença aqui. Mas ainda não lhe contei o motivo de sua ausência e tenho certeza de que não houve nada em meu comportamento capaz de lhe dar qualquer pista.” Estávamos nos últimos dias de novembro do ano 1890 quando este diálogo se deu. Londres estava nas garras de um implacável inverno, as ruas tão frias que até os lampiões de gás pareciamcongelados, e a pouca luz que emitiam desaparecia no incessante nevoeiro. Do lado de fora, pessoas vagavam pelas calçadas como fantasmas, as cabeças encurvadas e os rostos cobertos, enquanto os fiacres passavam com estrépito, seus cavalos ansiosos por chegar em casa. E eu estava satisfeito por estar abrigado, com um fogo ardendo na lareira, o cheiro familiar do tabaco no ar e – apesar de toda a desordem de que meu amigo gostava de se cercar – uma sensação de que tudo estava em seu lugar. Eu havia telegrafado minha intenção de me instalar em meu antigo quarto e passar um breve tempo com Holmes, e ficara encantado ao receber seu assentimento pela volta do correio. Minha clínica podia passar sem mim. Eu estava temporariamente sozinho. E tinha em mente cuidar do meu amigo até me certificar de que ele de fato recobrara a saúde. Pois Holmes havia decidido passar fome durante três dias e três noites, sem nada comer ou beber, para convencer um adversário particularmente cruel e vingativo de que estava próximo da morte. O estratagema obtivera um êxito triunfante, e o homem agora estava nas mãos competentes do inspetor Morton, da Yard. Mas eu ainda estava preocupado com o esforço a que Holmes se submetera e pareceu-me aconselhável ficar de olho nele até que seu metabolismo se recuperasse plenamente. Alegrava-me, portanto, vê-lo saborear uma grande travessa de bolinhos com mel de violeta e creme de leite, junto com bolo de libra e chá, coisas que a sra. Hudson trouxera todas numa bandeja e servira para nós dois. Holmes parecia convalescer, refestelado em sua grande poltrona, vestindo seu roupão e com os pés esticados diante do fogo. Não perdera a compleição extremamente magra, e até cadavérica, que sempre tivera, com seus olhos argutos acentuados pelo nariz aquilino, mas agora havia pelo menos alguma cor em sua pele, e tudo em sua voz e maneiras revelava que ele recobrara em grande parte a velha forma. Ele me cumprimentou afetuosamente, e quando me sentei à sua frente, tive a estranha sensação de estar despertando de um sonho. Era como se os dois últimos anos nunca tivessem acontecido, como se eu nunca tivesse conhecido minha querida Mary, casado com ela e me mudado para nossa casa em Kensington, comprada com o produto das pérolas de Agra. Eu ainda poderia ser um solteirão, morando ali com Holmes, compartilhando com ele o alvoroço da caça e desvendando mais um mistério. Pensei então que ele talvez tivesse preferido que fosse assim. Holmes raramente falava sobre meus arranjos domésticos. Achava-se no exterior na época de meu casamento, e ocorrera-me que talvez isso não tivesse sido de todo uma coincidência.

Seria injusto dizer que o assunto de meu casamento era proibido, mas havia um acordo tácito segundo o qual não o discutiríamos em detalhes. Minha felicidade e contentamento eram evidentes para Holmes, e ele era generoso o bastante para não os invejar. Logo à minha chegada, perguntou pela sra. Watson, mas não pedira mais nenhuma informação e eu obviamente não fornecera nenhuma, o que tornava suas observações ainda mais insondáveis. “Você me olha como se eu fosse um feiticeiro”, comentou Holmes com uma risada. “Deixou de lado as obras de Edgar Allan Poe, presumo?” “Está se referindo ao detetive Dupin?” “Ele usava um método que denominou de raciocinação. A seu ver, era possível ler os pensamentos mais íntimos de uma pessoa sem que ela sequer precisasse falar. Tudo podia ser feito a partir de um simples estudo de seus movimentos, do mero tremor de uma sobrancelha. A ideia me impressionou muitíssimo na época, mas, pelo que me lembro, você se mostrou um tanto desdenhoso…” “E sem dúvida vou pagar por isso agora”, concordei. “Mas está me dizendo seriamente, Holmes, que pôde deduzir a doença de uma criança que nunca viu apenas por meu comportamento diante de uma travessa de bolinhos?” “Isso e bem mais”, Holmes respondeu. “Posso lhe dizer que você acaba de voltar de Holborn Viaduct. Que saiu de casa às pressas, mas mesmo assim perdeu o trem. Talvez a culpa tenha sido do fato de estar sem uma criada no momento.” “Não, Holmes!” exclamei. “Não vou engolir isso!” “Estou errado?” “Não. Está correto em tudo. Mas como é possível…?” “É uma simples questão de observação e dedução, uma coisa informando a outra. Se eu lhe explicasse, tudo lhe pareceria penosamente infantil.” “Entretanto, devo insistir que faça exatamente isso.” “Bem, já que teve a grande bondade de me fazer esta visita, suponho que devo atender ao seu pedido”, respondeu Holmes com um bocejo. “Comecemos com a circunstância que o traz aqui. Se não me falha a memória, estamos nos aproximando do segundo aniversário de seu casamento, certo?” “De fato, Holmes. É depois de amanhã.” “Uma estranha ocasião, portanto, para você se separar de sua mulher. Como você mesmo disse há pouco, o fato de ter decidido hospedar-se comigo, e por um período prolongado, sugeriria que houve uma razão imperiosa para que ela o deixasse.

E qual poderia ser? Pelo que me lembro, a srta. Mary Morstan – como ela antes se chamava – veio da Índia para a Inglaterra e não tem amigos nem parentes aqui. Empregou-se como governanta, tomando conta do filho de um certo sr. Cecil Forrester, em Camberwell, que foi, é claro, como você a conheceu. A sra. Forrester foi muito boa para ela, em especial em momentos difíceis, e eu imaginaria que as duas continuaram muito ligadas.” “Isso de fato aconteceu.” “Logo, se existe alguém capaz de fazer sua mulher afastar-se de casa, provavelmente seria ela. Pergunto a mim mesmo, então, que motivo poderia estar por trás de semelhante chamado, e, neste tempo frio, a doença de uma criança nos vem no mesmo instante à cabeça. Seria, tenho certeza, muito reconfortante para o garoto enfermo ter sua governanta de volta.” “O nome dele é Richard e tem nove anos”, concordei. “Mas como pôde ter tanta certeza de que é gripe, e não alguma coisa muito mais grave?” “Se fosse mais grave, com certeza você teria insistido em tratar dele pessoalmente.” “Até agora seu raciocínio foi absolutamente linear em todos os aspectos”, disse eu. “Mas ele não explica como você soube que meus pensamentos haviam se voltado para eles naquele momento preciso.” “Vai me perdoar se eu disser que você é um livro aberto para mim, meu caro Watson, e que cada movimento seu vira mais uma página. Enquanto você estava aí bebericando o seu chá, notei que seu olhar se deslocou para o jornal na mesa a seu lado. Você deu uma olhada na manchete e depois estendeu a mão e virou-a para baixo. Por quê? Talvez tenha sido a notícia sobre o desastre de trem em Norton Fitzwarren algumas semanas atrás que o perturbou. Os primeiros achados da investigação sobre a morte de dez passageiros foram publicados hoje e essa era, é claro, a última coisa que você desejaria ler logo após deixar sua mulher numa estação.” “Isso de fato me lembrou a viagem dela”, concordei. “Mas e a doença da criança?” “Do jornal sua atenção desviou-se para a área do tapete junto à escrivaninha, e eu o vi sorrir nitidamente consigo mesmo. Era ali, claro, que outrora você mantinha sua maleta de médico e foi com certeza essa associação que lhe lembrou o motivo da visita de sua mulher.” “Tudo isso é conjectura, Holmes”, insisti. “Você diz Holborn Viaduct, por exemplo. Poderia ter sido qualquer estação de Londres.

” “Como bem sabe, condeno conjecturas. Por vezes é necessário conectar pontos de evidência com o uso de imaginação, mas isso não é em absoluto a mesma coisa. A sra. Forrester mora em Camberwell. A London Chatham e a Dover Railway têm partidas regulares de Holborn Viaduct. Esse me teria parecido o ponto de partida lógico, ainda que você não me tivesse feito o favor de deixar sua mala junto da porta. De onde estou sentado, consigo ver muito bem a etiqueta do GuardaVolumes de Holborn Viaduct presa na alça.” “E o resto da história?” “O fato de você ter perdido sua criada e ter saído de casa às pressas? A mancha de graxa preta na lateral de seu punho esquerdo indica claramente as duas coisas. Você mesmo engraxou seus sapatos, e o fez de maneira bastante descuidada. Além disso, na pressa, esqueceu as luvas…” “A sra. Hudson recolheu-me o sobretudo. Poderia ter me recolhido também as luvas.” “Nesse caso, quando nos apertamos as mãos, por que as suas estariam tão frias? Não, Watson, toda a sua aparência fala de desorganização e desordem.” “Tudo o que diz está certo”, admiti. “Mas um último mistério, Holmes. Como pôde ter tanta certeza de que minha mulher perdeu o trem?” “Assim que chegou, notei um forte odor de café em suas roupas. Por que você estaria tomando café imediatamente antes de vir tomar chá comigo? A inferência é que perdeu seu trem e foi obrigado a passar mais tempo com sua mulher do que pretendia. Deixou sua mala no guarda-volumes e foi comela a um café. Teria sido o Lockhart’s? Ouvi falar que o café de lá é excelente.” Fez-se um breve silêncio e em seguida caí na gargalhada. “Bem, Holmes”, eu disse. “Posso ver que não tenho nenhuma razão para me preocupar com sua saúde. Você está tão extraordinário como sempre.” “Isso foi bastante elementar”, retrucou o detetive com um lânguido aceno de mão. “Mas talvez algo de maior interesse esteja se aproximando agora.

Se não me engano, é a porta da frente…” De fato, a sra. Hudson entrou de novo, desta vez conduzindo um homem que adentrou a sala como se irrompesse em cena num palco de Londres. Estava vestido a rigor, numa casaca preta, colarinho de ponta virada e gravata borboleta branca, com uma capa preta sobre os ombros, colete e sapatos de verniz. Numa das mãos segurava um par de luvas brancas e na outra uma bengala de jacarandá com castão de prata. Seu cabelo preto era surpreendentemente longo, penteado para trás a partir de uma fronte alta, e ele não usava nem barba nem bigode. Tinha a pele clara, o rosto um pouco alongado demais para ser de fato bonito. Devia andar pela metade da casa dos trinta anos, eu diria, mas a seriedade de seu ar e seu evidente desconforto por se ver ali o faziam parecer mais velho. Lembrou-me de imediato alguns de meus pacientes; aqueles que tinham se recusado a acreditar que estavam enfermos até serem convencidos disso por seus sintomas. Eram sempre os mais gravemente doentes. Nosso visitante postava-se diante de nós com igual relutância. Esperou no vão da porta, olhando ansioso à sua volta, enquanto a sra. Hudson entregava a Holmes o seu cartão. “Sr. Carstairs”, disse Holmes. “Sente-se, por favor.” “Deve me perdoar por chegar desta maneira… inesperada e sem me fazer anunciar.” Ele tinha um modo de falar entrecortado, um tanto seco. Seu olhar não encarava diretamente o nosso. “Na verdade, eu não tinha nenhuma intenção de vir aqui. Moro em Wimbledon, perto do verde, e vim à cidade para ir à ópera – não que esteja com alguma disposição para Wagner. Acabo de sair de meu clube, onde me encontrei com meu contador, homem que conheço há muitos anos e a quem agora considero um amigo. Quando lhe falei das inquietações que venho tendo, o sentimento de opressão que está tornando minha vida tão detestavelmente difícil, ele mencionou seu nome e estimulou-me a procurá-lo. Por coincidência, meu clube não é longe daqui e assim decidi vir direto à sua procura.” “Estou feliz em lhe dar minha total atenção”, disse Holmes. “E esse cavalheiro?” Nosso visitante voltou-se para mim.

“Dr. John Watson. É meu mais próximo conselheiro, e posso lhe assegurar que tudo que tenha a me dizer pode ser dito na presença dele.” “Muito bem. Meu nome, como vê, é Edmund Carstairs e sou, por profissão, marchand de objetos de arte. Tenho uma galeria, Carstairs and Finch, emAlbemarle Street, que já funciona há seis anos. Somos especializados nas obras dos grandes mestres, sobretudo do final do século passado e início deste: Gainsborough, Reynolds, Constable e Turner. Suas pinturas lhe devem ser familiares, tenho certeza, e elas são altamente cotadas. Só esta semana vendi dois retratos de Van Dyck para um cliente privado pela soma de vinte e cinco mil libras. Temos um negócio bem-sucedido e prosperamos, mesmo com tantas galerias novas – e eu poderia dizer inferiores – brotando em todas as ruas à nossa volta. Ao longo dos anos, granjeamos uma reputação de sobriedade e confiabilidade. Nossos clientes incluem muitos membros da aristocracia e vimos nossas obras penduradas emalgumas das mais belas mansões do país.” “Seu sócio, o sr. Finch?” “Tobias Finch é bem mais velho que eu, embora tenhamos partes iguais do negócio. Se há alguma divergência entre nós, é que ele é mais cauteloso e conservador do que eu. Por exemplo, tenho forte interesse por algumas obras novas que nos chegam do continente. Refiro-me aos pintores que se tornaram conhecidos como impressionistes, artistas como Monet e Degas. Apenas uma semana atrás foi-me oferecida uma marinha de Pissaro que me pareceu de fato encantadora e pitoresca. Meu sócio, infelizmente, teve a opinião contrária. Ele insiste que essas obras são pouco mais que borrões, e embora não se possa mesmo negar que algumas das formas são indistinguíveis de perto, não consigo convencê-lo de que a questão não é essa. Mas não vou cansá-los, cavalheiros, com uma preleção sobre arte. Somos uma galeria tradicional e, até segunda ordem, é isso que continuaremos a ser.” Holmes assentiu com a cabeça. “Por favor, continue.” “Duas semanas atrás, sr.

Holmes, percebi que estava sendo observado. Ridgeway Hall, que é o nome de minha casa, situa-se num dos lados de uma alameda estreita, com um conjunto de instituições de caridade a alguma distância no final. Esses são os nossos vizinhos mais próximos. Estamos cercados por logradouros públicos e, do meu quarto de vestir, tenho uma vista do gramado central da aldeia. Foi ali, numa manhã de terça-feira, que notei um homem parado de pernas abertas e braços cruzados – e sua imobilidade me chamou a atenção. Ele estava longe demais para que eu pudesse vê-lo com clareza, mas eu diria ser um estrangeiro. Usava uma longa sobrecasaca comombreiras, um corte definitivamente não inglês. De fato, estive nos Estados Unidos ano passado e, se tivesse de adivinhar, diria que era desse país que ele se originava. O que me causou mais forte impressão, porém, por razões que logo explicarei, foi que ele usava também uma boina, do tipo por vezes chamado de cheesecutter. “Foi isso e a maneira como o homem estava plantado ali que logo atraíram minha atenção e me deixaram tão amedrontado. Se ele fosse um espantalho, juro que não poderia estar mais estático. Caía uma chuva leve, varrida pela brisa através do parque, mas ele parecia alheio a tudo. Tinha os olhos fixos em minha janela. Posso lhe dizer que eram muito escuros e pareciam estar me perfurando. Fiteio durante pelo menos um minuto, talvez mais, depois desci para tomar o desjejum. Antes de comer, no entanto, mandei o ajudante de cozinha sair para ver se o homem ainda estava lá. Não estava. O rapaz me informou que o gramado estava vazio.” “Uma ocorrência singular”, observou Holmes. “Mas Ridgeway Hall é, tenho certeza, uma bela construção. E um turista poderia por certo julgá-la digna de sua admiração.” “Foi o que pensei. Mas alguns dias depois vi o sujeito uma segunda vez. Nessa ocasião eu estava em Londres. Minha mulher e eu acabávamos de sair do teatro – fôramos ao Savoy – e lá estava ele, do outro lado da rua, vestindo a mesma sobrecasaca e a mesma boina.

Ele poderia ter me passado desapercebido, sr. Holmes, mas, como antes, estava imóvel, com grupos de pessoas passando por ele; mais parecia um rochedo em meio às corredeiras de um rio. Sinto dizer que não pude vê-lo muito bem, pois embora ele tivesse escolhido postar-se em pleno clarão de um poste de luz, este lançava sobre seu rosto uma sombra que agia como um véu. E talvez fosse esta a sua intenção.” “Mas tem certeza de que era o mesmo homem?” “Não poderia haver dúvida.” “Sua mulher o viu?” “Não. Eu não quis alarmá-la fazendo qualquer menção a isso. Tínhamos um hansom à nossa espera e partimos de imediato.” “Isso é muitíssimo interessante”, Holmes observou. “O comportamento desse homem não faz nenhum sentido. Ele se planta num gramado no meio da aldeia e debaixo de um poste de luz. Por umlado, é como se estivesse se esforçando ao máximo para ser visto. Por outro lado, não faz nenhuma tentativa de se aproximar do senhor.” “Ele se aproximou de mim”, respondeu Carstairs. “Já no dia seguinte, de fato, quando eu voltava cedo para casa. Meu amigo, Finch, estava na galeria, catalogando uma coleção de desenhos e águas-fortes de Samuel Scott. Ele não tinha nenhuma necessidade de mim e eu ainda me sentia inquieto depois das duas aparições. Cheguei de volta a Ridgeway Hall pouco depois das três horas – e ainda bem, porque lá estava o patife, aproximando-se de minha porta da frente. Chamei-o, ele se virou e me viu. No mesmo instante, começou a correr na minha direção, e, certo de que estava prestes a me golpear, cheguei a levantar a bengala para me proteger. Mas sua missão não era de violência. Ele veio direto a mim e pela primeira vez vi-lhe o rosto: lábios finos, olhos castanho-escuros e uma cicatriz lívida na face direita, resultado de um recente ferimento a bala. O homem andara bebendo – pude sentir o cheiro de álcool no seu hálito. Não me disse uma palavra, o que fez foi levantar umbilhete no ar e enfiá-lo na minha mão. Em seguida, antes que eu pudesse detê-lo, fugiu.

“E o bilhete?” perguntou Holmes. “Está aqui comigo.” O marchand mostrou um quadrado de papel, dobrado em quatro, e entregou-o a Holmes. Este o abriu com cuidado. “Minha lente, por favor, Watson.” Entreguei-lhe a lente de aumento, ele se voltou para Carstairs. “Não havia envelope?” “Não.” “Isto me parece da maior significação. Mas vejamos…” Só havia na página seis palavras escritas em letras de imprensa. IGREJA DE ST. MARY. AMANHÃ. MEIO-DIA. “O papel é inglês”, Holmes observou. “Mesmo que o visitante não fosse. Como vê, Watson, ele escreve com letras maiúsculas. Com que propósito o faria, na sua opinião?” “O de disfarçar sua caligrafia”, respondi. “É possível. Mas como o homem nunca tinha escrito para o sr. Carstairs, e é improvável que volte a fazê-lo, seria de imaginar que sua caligrafia não tivesse nenhuma importância. O bilhete estava dobrado quando lhe foi entregue, sr. Carstairs?” “Não. Acho que não. Eu mesmo o dobrei depois.” “O quadro fica mais claro para mim a cada minuto.

Essa igreja a que ele se refere, de St. Mary. Suponho que fica em Wimbledon?” “Fica em Hothouse Lane”, respondeu Carstairs. “A poucos minutos de minha casa.” “Falta lógica a esse comportamento também, não lhe parece? O homem deseja falar com o senhor. Enfia uma mensagem nesse sentido na sua mão. Mas não fala. Não diz uma palavra.” “Meu palpite é que ele desejava falar comigo a sós. E de fato minha mulher saiu de casa poucos instantes depois. Ela estava na sala de jantar, que dá vista para a entrada de carro, e vira o que acabara de acontecer. ‘Quem era aquele homem?’ perguntou. “‘Não tenho a menor ideia’, respondi. “‘O que ele queria?’

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