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A Casa – Danielle Steel

Sarah Anderson deixou o escritório às nove e meia da manhã de uma terça-feira de junho para o compromisso às dez com Stanley Perlman. Ela saiu às pressas do edifício da One Market Plaza, dobrou a esquina e chamou um táxi. Ocorreu-lhe, como sempre, que um desses encontros poderia ser realmente o último. Ele sempre dizia que era. Sarah começara a esperar que ele vivesse para sempre, apesar de seus protestos, e também das agruras do tempo. Sua empresa de advocacia tratava dos negócios dele há mais de meio século, e ela vinha atuando, nos últimos três anos, como sua advogada para assuntos de patrimônio e impostos. Aos 38, Sarah já era sócia da empresa havia dois anos, e herdara Stanley como cliente quando o antigo advogado dele falecera. Stanley sobrevivera a todos. Tinha 98 anos, o que às vezes era difícil de acreditar. A mente permanecia perspicaz como sempre; ele era um leitor voraz e estava a par de cada nuance e mudança na legislação tributária vigente. Era um cliente instigante e divertido. Stanley Perlman fora um gênio nos negócios durante toda a vida. O que havia mudado, com o passar dos anos, foi que o corpo o traíra, mas a mente jamais. Passara os últimos sete anos confinado ao leito. Cinco enfermeiras cuidavam dele: três regularmente em turnos de oito horas, duas substituindo as que folgavam. Vivia com conforto a maior parte do tempo, e não saía de casa havia anos. Sarah sempre gostara dele e o admirara, embora outros o achassem irascível e rabugento. Ela o considerava um homem notável. Deu ao motorista de táxi o endereço de Stanley na Scott Street. Seguiram em meio ao tráfego do centro financeiro de São Francisco e foram no sentido oeste, em direção a Pacific Heights, onde ele morava, na mesma casa, há 76 anos. O sol brilhava enquanto subiam Nob Hill em direção à California Street, e Sarah sabia que lá emcima o tempo podia ser diferente. A neblina costumava cobrir pesadamente a parte residencial da cidade, mesmo quando fazia sol na parte de baixo. Turistas se penduravam alegremente do lado de fora do bonde, sorrindo e olhando em volta. Sarah levava uns papéis para Stanley assinar, nada de extraordinário. Ele vivia fazendo pequenos acréscimos e emendas no testamento.


Vinha se preparando para morrer durante todos esses anos em que o conhecia, e muito antes. Apesar disso, toda vez que parecia ter piorado, ou quando era acometido por uma breve doença, sempre se recuperava e aguentava firme, para sua tristeza. Dissera a Sarah, nesta manhã mesmo, quando ela lhe telefonara para confirmar o encontro, que havia se sentido mal durante as últimas semanas e não ia durar muito. — Pare de ficar me ameaçando, Stanley — dissera ela, pondo os últimos documentos destinados a ele na pasta. — Você vai viver mais que todos nós. Às vezes ficava triste por ele, embora Stanley não tivesse nada de depressivo e raramente sentisse pena de si mesmo. Ainda vociferava ordens para as enfermeiras, lia o New York Times e o Wall Street Journal diariamente, assim como os jornais locais, adorava sanduíches de pastrami e hambúrgueres, e falava com fascinante exatidão e detalhamento histórico sobre os anos em que crescera no Lower East Side de Nova York. Viera para São Francisco em 1924, aos 16 anos. Havia sido incrivelmente esperto em encontrar trabalhos, fazer acordos, trabalhar para as pessoas certas, agarrar as oportunidades e economizar dinheiro. Adquirira propriedades, sempre em circunstâncias pouco comuns, às vezes até se aproveitando de infortúnios alheios, como prontamente admitia, fechando negócios e usando todo e qualquer crédito disponível. Tinha conseguido ganhar dinheiro durante a Depressão enquanto outros o perdiam. Era o protótipo do homem que se fez por esforço próprio. Gostava de dizer que em 1930 havia comprado a casa em que morava por uma ninharia. E bemmais tarde, fora um dos primeiros a construir shoppings no sul da Califórnia. A maior parte de seu capital inicial foi acumulada no mercado imobiliário, trocando um prédio por outro, às vezes comprando terra que ninguém queria, e aguardando o momento propício para vendê-la mais adiante ou para construir prédios de escritórios ou centros comerciais. Tivera o mesmo dom intuitivo mais tarde, para investir em poços de petróleo. A essa altura, conseguira juntar uma fortuna assombrosa. Stanley tinha sido um gênio nos negócios, mas fizera pouca coisa mais na vida pessoal. Não tinha filhos, nunca se casara, só mantinha contato com advogados e enfermeiras. Ninguém se preocupava com Stanley Perlman, exceto a jovem advogada, Sarah Anderson, e ninguém sentiria falta dele quando morresse, salvo as enfermeiras que ele empregava. Os 19 herdeiros relacionados no testamento que Sarah novamente atualizava para ele (desta vez, para incluir uma série de poços de petróleo recém-comprados em Orange County, após a venda de vários outros, de novo na hora certa) eram sobrinhas e sobrinhos-netos com quem nunca se encontrara ou se correspondera, e dois primos tão idosos quanto ele, que não via desde a década de 1940, mas pelos quais nutria uma vaga afeição. Na verdade, não era afeiçoado a ninguém, e não escondia isso. Tivera uma missão ao longo da vida, e apenas uma: ganhar dinheiro. Atingira o objetivo. Disse que havia sido apaixonado por duas mulheres na juventude, mas que nunca as pedira em casamento e perdera contato com ambas quando desistiram dele e se casaram com outros, isso há mais de sessenta anos.

Alegava só se arrepender de não ter filhos. Via Sarah como a neta que poderia ter tido, se houvesse se casado. Era do tipo que o agradava: inteligente, engraçada, interessante, esperta, bonita e boa no que fazia. Às vezes, quando vinha trazer documentos, ele gostava de se sentar e olhar para ela e conversar durante horas. Chegou até segurar sua mão, coisa que nunca fez com as enfermeiras. Elas lhe davam nos nervos, o aborreciam, tratavam-no de forma condescendente e se azafamavam emtorno dele de modo detestável. Sarah nunca fez isso. Ficava sentada ali, jovem e linda, enquanto falava sobre coisas que lhe interessavam. Sempre sabia o que fazer em relação às novas leis tributárias. Ele adorava que ela viesse com novas ideias para que economizasse dinheiro. De início, ficara cauteloso por causa de sua juventude, mas aos poucos foi passando a confiar nela, ao longo das visitas que fazia a seu pequeno quarto mofado no sótão da casa da Scott Street. Ela subia pela escada dos fundos, carregando a pasta, entrava no quarto discretamente, sentava numa cadeira próxima à cama dele, e então eles conversavam até Stanley ficar exausto. A cada vez que vinha vêlo, receava que fosse a última. E então ele ligava para conversar sobre uma nova ideia, algo que queria comprar, vender, adquirir ou do qual pretendia se desfazer. E o que quer que tocasse só fazia aumentar sua fortuna. Mesmo aos 98 anos, Stanley Perlman tinha um toque de Midas no que se referia a dinheiro. E o melhor de tudo é que, apesar da imensa diferença de idade, no decorrer dos anos emque trabalharam juntos, Sarah e Stanley haviam se tornado amigos. Sarah olhou para fora do táxi enquanto passavam pela Catedral Grace, no alto de Nob Hill, e se recostou no banco, pensando em Stanley. Ficou se perguntando se ele estaria realmente doente e se esta seria a última visita. Tivera pneumonia duas vezes na primavera, mas sobrevivera por milagre. Talvez agora não conseguisse. As enfermeiras eram diligentes nos cuidados com ele, porém, mais cedo ou mais tarde, com aquela idade, alguma coisa o derrubaria. Era inevitável, embora Sarah tivesse pavor de pensar nisso. Sabia que, quando ele morresse, sentiria terrivelmente sua falta. O longo cabelo escuro de Sarah estava cuidadosamente preso atrás da cabeça, os olhos eram grandes e de um tom forte de azul.

Ele comentara sobre isso com ela na primeira vez em que se encontraram, perguntando se ela usava lentes de contato coloridas. Sarah riu diante da pergunta e lhe assegurou que não. Sua pele, normalmente clara, dessa vez estava bronzeada, após vários fins de semana em Lake Tahoe. Gostava de fazer caminhadas, nadar e de praticar mountain bike. Fins de semana fora traziam sempre um alívio, após as longas horas que passava no escritório. A sociedade na empresa de advocacia fora bem merecida. Graduara-se em direito em Stanford, magna cum laude, e nascera em São Francisco. Vivera ali durante a vida inteira, exceto nos quatro anos em que estudara em Harvard. Suas credenciais e o trabalho duro impressionaram Stanley e seus sócios. Ele a interrogara extensivamente quando se conheceram e comentara que ela mais parecia uma modelo. Era alta, esbelta, de aparência atlética, e longas pernas, que Stanley, secretamente, sempre admirara. Ela usava um elegante terninho azul-marinho, o tipo de roupa que costumava vestir sempre que o visitava. A única joia que portava era um par de pequenos brincos de brilhante que Stanley havia lhe dado como presente de Natal. Ele próprio encomendara por telefone a Neiman Marcus, conhecido joalheiro, especialmente para ela. De um modo geral, não era generoso; preferia dar dinheiro às enfermeiras por ocasião das festas, mas tinha uma quedinha por Sarah, assim como ela por ele. Sarah, por sua vez, já o havia presenteado com várias mantas de caxemira para mantê-lo aquecido. A casa dele sempre parecia fria e úmida, e as enfermeiras eram enfaticamente repreendidas toda vez que ligavam o aquecimento. Stanley preferia usar um cobertor a ser descuidado com seu dinheiro. Sarah sempre ficara intrigada com o fato de ele nunca ter ocupado a parte principal da casa, mas apenas os antigos aposentos dos empregados, no sótão. Ele disse que comprara o imóvel como uminvestimento, com a firme intenção de vendê-lo, o que nunca chegou a fazer. Ficara com a residência mais por preguiça que por qualquer profundo apego a ela. Era uma casa grande, linda, luxuosa no passado, que havia sido construída na década de 1920. Stanley tinha contado que a família que a construíra atravessara tempos difíceis após a Crise de 1929, e ele a havia comprado em 1930. Ele se mudara, então, para o quarto de uma das antigas empregadas com uma velha cama de latão, uma cômoda com gavetas que os antigos donos tinham deixado para trás e uma poltrona cujas molas perderam a elasticidade há tanto tempo que sentar nela era o mesmo que deitar no concreto. A cama de latão fora substituída por uma de hospital há dez anos.

Na parede, havia uma velha fotografia do incêndio que sucedeu o terremoto e nem um único retrato em qualquer lugar do quarto. Sua vida não comportara pessoas, apenas investimentos e advogados. Não havia nada pessoal em toda a moradia. O mobiliário tinha sido todo vendido separadamente, em leilão, pelos antigos proprietários, tambémpor uma ninharia. E Stanley não havia se preocupado em mobiliá-la ao se mudar para lá. Dissera a Sarah que a casa tinha sido depenada antes que a comprasse. Os aposentos eram amplos, comvestígios de elegância, pois havia frangalhos de cortinas em algumas das janelas. Outras tinham sido fechadas com tapumes, para que curiosos não bisbilhotassem. E, embora nunca o tivesse visto, tinham contado a Sarah que havia um salão de baile. Ela nunca havia andado pelos aposentos. Costumava entrar pela porta de serviço, subir a escada dos fundos e ir diretamente para o quarto no sótão. O único propósito ao ir lá era visitar Stanley. Não tinha motivos para passear pela mansão, a não ser pelo fato de saber que um dia, muito provavelmente, após a morte dele, ela teria que vendêla. Todos os herdeiros dele moravam na Flórida, em Nova York ou no Centro-Ooeste, e nenhum ia se interessar em ser dono da enorme casa na Califórnia, um elefante branco. Por mais maravilhosa que tivesse sido um dia, ninguém teria o que fazer com ela, assim como Stanley. Era difícil acreditar que ele havia vivido nela por 76 anos sem mobiliá-la ou sair do sótão. Mas Stanley era assim. Excêntrico, talvez, modesto, despretensioso e um fiel e respeitado cliente. Sarah Anderson era sua única amiga. O restante do mundo tinha esquecido sua existência, e há muito sobrevivera a quaisquer amigos que porventura tivesse tido. O táxi parou no endereço da Scott Street que Sarah tinha dado ao motorista. Ela pagou a corrida, pegou a pasta, desceu do carro e tocou a campainha dos fundos. Como imaginara, estava sensivelmente mais frio e enevoado ali, e ela tremeu em sua roupa leve. Usava um fino suéter branco por baixo do terninho azul-marinho e tinha um ar profissional, como de costume, quando a enfermeira abriu a porta e sorriu ao vê-la. Elas levavam uma eternidade para descer do sótão.

Eram quatro andares e um porão, como Sarah bem sabia, e as enfermeiras mais velhas que o atendiam se moviamvagarosamente. A que abriu a porta para ela era relativamente jovem, mas já havia visto Sarah antes. — O Sr. Perlman está esperando a senhora — disse polidamente, afastando-se para dar passagem a Sarah e fechando a porta atrás dela. Elas só usavam a entrada de serviço por ter um acesso mais fácil à escada dos fundos, que levava ao sótão. A porta da frente não era tocada havia anos, e era mantida trancada com ferrolho. As luzes da parte principal da residência nunca eram acesas. As únicas luzes a brilhar na casa há anos eram as do sótão. Preparavam as refeições numa pequena cozinha, no mesmo andar em que antes funcionara uma copa. A cozinha principal, hoje uma peça de museu, ficava no porão. Tinha geladeiras antigas e um frigorífico. Nos velhos tempos, um fornecedor costumava trazer enormes pedaços de gelo. O forno era uma relíquia da década de 1920, e não era usado pelo menos desde os anos 1940. Era uma cozinha feita para ser administrada por um bando de cozinheiros e empregados, supervisionados por uma governanta e um mordomo. Não tinha nada a ver com o estilo de vida de Stanley que, durante anos, voltara para casa com sanduíches e comida para viagem comprados em lanchonetes e empequenos restaurantes. Nunca cozinhou para si mesmo, e, antes de ficar confinado ao leito, saía diariamente para tomar café da manhã. A casa era um lugar em que ele dormia na cama espartana de latão, tomava banho e se barbeava toda manhã, seguindo então para o escritório para ganhar mais dinheiro. Raramente retornava antes das dez da noite, chegando às vezes até meia-noite. Não tinha motivos para voltar correndo para o lar. Sarah seguiu a enfermeira escada acima num passo solene, carregando a pasta. A escada estava sempre às escuras, iluminada por uma quantidade mínima de lâmpadas nuas. Esta havia sido a escada utilizada pelos empregados nos idos de grandeza da casa. Os degraus eram de aço, recobertos por uma estreita passadeira antiga, puída. As portas para cada andar permaneciam fechadas, e Sarah só viu a luz do dia ao chegar ao sótão. O quarto dele ficava no fim de um longo corredor, em sua maior parte ocupado pela cama de hospital.

Para acomodá-la, a única cômoda fora levada para o hall. Apenas uma antiga cadeira quebrada e uma mesinha ficavam perto do leito. Ao entrar no cômodo, ele abriu os olhos e a viu. Custou a reagir dessa vez, o que a preocupou, e então, pouco a pouco os olhos se iluminaram e, passado um instante, esboçou um sorriso. Tinha uma aparência gasta e cansada, e ela receou subitamente que, dessa vez, talvez ele tivesse razão. Ele aparentava os 98 anos agora, o que nunca acontecera antes. — Olá, Sarah — disse baixinho, absorvendo o frescor de sua juventude e beleza. Para ele, 38 anos eram como os primeiros anos da infância dela. Stanley ria sempre que ela dizia que se sentia velha. — Ainda trabalhando muito? — perguntou, quando ela se aproximou da cama e chegou perto dele. Vê-la sempre o reanimava. Ela era como o ar e a luz para ele, ou a chuva primaveril para umcanteiro de flores. — É claro. — Sarah sorriu quando ele pegou a mão dela e a segurou. Ele gostava de sentir a pele, o toque, o calor dela. — Não estou sempre dizendo a você para não fazer isso? Você trabalha demais. Vai acabar como eu um dia. Sozinha, com um bando de enfermeiras irritantes em volta, morando num sótão. — Ele já lhe dissera diversas vezes que ela precisava se casar e ter filhos. Repreendera-a severamente quando ela alegou que não pretendia fazer nem uma coisa nem outra. A única tristeza de sua vida era não ter tido filhos. Com frequência a aconselhava a não cometer os mesmos erros que ele. Certificados de ações, dividendos, centros comerciais e poços de petróleo não substituíam filhos. Aprendera essa lição tarde demais. Agora, apenas Sarah lhe trazia algum conforto e alegria.

Ele adorava acrescentar codicilos ao testamento, o que fazia com frequência, pois lhe dava uma desculpa para vê-la. — Como está se sentindo? — perguntou ela, parecendo mais um parente zeloso do que uma advogada. Ela se preocupava com Stanley e diversas vezes arranjava desculpas para lhe mandar livros ou artigos, na maior parte sobre novas leis tributárias ou outros tópicos que pudesseminteressá-lo. Ele sempre lhe enviava bilhetes escritos à mão depois, agradecendo e fazendo comentários. Sua mente continuava perspicaz como sempre. — Estou cansado — disse com sinceridade, apertando a mão dela com os dedos frágeis. — Não posso esperar me sentir melhor do que isso na minha idade. Meu corpo já se foi há anos. Só restou o meu cérebro. — Que permanecia lúcido, mas ela percebeu que, dessa vez, os olhos dele pareciamembaçados. Em geral, ainda havia uma centelha neles, mas como uma lâmpada que começa a enfraquecer, ela percebeu que algo havia mudado. Sarah sempre desejou levá-lo para o ar livre, mas fora pequenas idas de ambulância ao hospital, ele não saía de casa há anos. O sótão da mansão na Scott Street se tornara o recanto em que ele estava condenado a acabar seus dias. — Sente-se —disse ele finalmente. — Você está ótima, Sarah. Como sempre. — Ela lhe parecia tão enérgica e viva, tão linda, ali de pé, alta, jovem e esbelta. — Fico feliz que tenha vindo — confessou com mais ardor do que de costume, o que provocou um aperto no coração de Sarah. — Eu também. Andei ocupada. Estou para vir há mais de uma semana — disse em tom de desculpa. — Você parece ter ido para fora. Onde foi que pegou o bronzeado? — Ele a achou mais linda do que nunca. — Fins de semana em Tahoe. É bom lá.

— Ela sorriu ao se sentar na desconfortável cadeira e apoiou a pasta. — Nunca saí nos fins de semana, nem de férias, aliás. Acho que tirei férias apenas duas vezes em toda a minha vida: uma num rancho, em Wyoming, a outra no México. Detestei ambas. Me sentia como se estivesse desperdiçando tempo, ficando ali pensando no que estaria acontecendo no escritório e no que estaria perdendo. — Ela bem podia imaginá-lo irrequieto, esperando notícias dos negócios e provavelmente voltando para casa antes do planejado. Ela mesma já experimentara situação semelhante, quando tinha trabalho demais para fazer ou trazia documentos da empresa para casa. Detestava deixar alguma coisa inacabada. Ele não estava totalmente enganado a respeito dela. A seu modo, era tão compulsiva em relação ao trabalho quanto ele. O apartamento em que Sarah morava era ligeiramente melhor do que o quarto dele no sótão, só que maior. Estava quase tão desinteressada pelo ambiente em volta quanto ele. Era apenas mais jovem e menos radical. As forças que os moviam eram muito parecidas, como ele suspeitava havia bastante tempo. Conversaram por alguns minutos, e ela lhe entregou a papelada que trouxera. Ele a examinou, mas já lhe eram familiares. Sarah lhe enviara anteriormente, por mensageiro, vários rascunhos para aprovação. Ele não tinha fax ou computador. Gostava de ver os documentos originais e não tinha paciência para invenções modernas. Nunca tivera um celular e não precisava de um. Havia uma pequena sala de estar próxima a ele para as enfermeiras. Nunca se aventuravam longe dele, ficando no pequeno aposento ao lado, no cômodo, na desconfortável cadeira, vigiando-o, ou na cozinha, preparando as frugais refeições. Bem ao fundo do corredor, no andar de cima, havia vários pequenos quartos de empregados em que as enfermeiras podiam dormir, se quisessem, ao final do expediente, ou descansar, caso houvesse outra enfermeira por perto. Nenhuma delas morava na casa, apenas trabalhava ali em turnos. O único morador em tempo integral era Stanley.

Sua existência e o mundo reduzido dele constituíam um pequeno microcosmo na parte de cima da outrora grandiosa casa que caía em ruínas de forma silenciosa e contínua como ele. — Gostei das mudanças que você introduziu — declarou, cumprimentando-a. — Fazem mais sentido do que o rascunho que me mandou na semana passada. Está mais enxuto e deixa menos espaço para manobras. Ele sempre se preocupava com o que os herdeiros fariam com os diversos bens. Considerando que nunca estivera com a maior parte deles, e os que havia conhecido já eram idosos, era difícil saber como lidariam com o espólio. Tinha que supor que venderiam tudo, o que, em alguns casos, seria uma tolice. No entanto, o bolo precisava ser dividido em 19 pedaços. Era um bolo imenso, e cada umdeles receberia uma fatia considerável, muito maior do que imaginavam. Mas tinha uma forte convicção quanto a deixar o que possuía para os parentes, e não para a caridade. Dera sua contribuição a organizações filantrópicas ao longo dos anos, porém acreditava firmemente que o sangue vem em primeiro lugar. Como não tinha herdeiros diretos, deixava tudo para primos, sobrinhas e sobrinhos-netos, fossem lá quem fossem. Pesquisara cuidadosamente o paradeiro deles, mas só encontrara uns poucos. Esperava que as vidas de alguns pudessem mudar para melhor ao receberem esse legado caído do céu. Estava começando a parecer que isso aconteceria em breve, mais cedo do que Sarah gostaria de pensar ao olhar para ele. — Fico contente que tenha gostado — disse Sarah, com ar satisfeito, tentando ignorar a falta de brilho no olhar dele, o que lhe dava vontade de chorar. A última crise de pneumonia o deixara esgotado e aparentando a idade que tinha. — Quer que acrescente alguma coisa ao que está aí? —perguntou, e ele fez que não com a cabeça. Sentada na cadeira quebrada, ela o observava emsilêncio. — O que você pretende fazer neste verão, Sarah? — perguntou ele, mudando de assunto. — Passar mais alguns fins de semana em Tahoe. Não planejei nada de especial. — Ela achou que ele estava com medo de que ela se ausentasse e quis tranquilizá-lo. — Então trate de planejar. Você não pode ser uma escrava para sempre.

Vai acabar virando uma solteirona. — Ela riu. Havia contado a ele anteriormente que saía com alguém, mas sempre dissera que não era nada sério ou permanente, e continuava não sendo. Era uma relação casual há quatro anos, o que ele respondeu que era bobagem, pois não existe relação “casual” que dure quatro anos. A mãe dela falava o mesmo. Ela dizia a si mesma e a todos que estava envolvida demais com o trabalho na empresa para querer algo mais que casual no momento. O trabalho era e sempre fora sua prioridade. Exatamente como fora a dele. — Não há mais “solteironas” hoje em dia, Stanley. Há mulheres independentes, com carreiras, prioridades e necessidades diferentes das moças de antigamente — disse mais para convencer a ela mesma. Stanley não acreditou. Ele a conhecia bem e sabia mais sobre a vida do que ela. — Isso é bobagem, e você sabe — argumentou Stanley de forma dura. — As pessoas não mudaram em 2 mil anos. As mais espertas ainda se acomodam, se casam e têm filhos. Ou acabam como eu. — Ele havia acabado como um homem muito, muito rico, o que, do ponto de vista dela, não parecia assim tão ruim. Lamentava que ele não tivesse filhos, ou parentes por perto, mas, vivendo tanto quanto ele, a maioria acabaria sozinha. Ele sobrevivera a todos que já conhecera. A essa altura, podia até ter perdido todos os filhos, se os tivesse tido, restando apenas os netos ou os bisnetos para consolá-lo. No final, pensou, não importa quem achamos que temos, deixamos este mundo sozinhos. Assim como aconteceria com Stanley. Era apenas mais óbvio no caso dele. Mas ela sabia, pela vida que a mãe levara com o pai, que se pode estar igualmente só, mesmo com marido e filhos. Não tinha pressa nenhuma em se atrelar a qualquer uma das duas coisas.

Todos os casados que conhecia não lhe pareciam assim tão felizes, e, se algum dia viesse a se casar e não desse certo, não precisava de um ex-marido para odiá-la e atormentar sua existência. Conhecia muitos casos desse também. Era bem mais feliz assim, trabalhando por conta própria, com um namorado em tempo parcial que preenchia as necessidades no momento. A ideia de se casar com ele nunca lhe ocorrera, nem a ele. Concordaram, desde o início, que um relacionamento simples era tudo que queriam um do outro. Simples e fácil. Principalmente por estarem ambos ocupados com profissões que adoravam. Sarah percebeu então que Stanley estava realmente exausto e decidiu abreviar a visita desta vez. Ele havia assinado os papéis, que era tudo de que ela precisava, e parecia prestes a cair no sono. — Voltarei logo para vê-lo, Stanley. Me avisa se precisar de alguma coisa. Virei aqui quando quiser — disse gentilmente, tornando a dar tapinhas na mão frágil, após ficar de pé e pegar os documentos que estavam com ele. Enfiou-os dentro da pasta enquanto ele a observava com umsorriso nostálgico. Gostava de olhar para ela, mesmo que fosse apenas pela graça dos movimentos ao conversar com ele ou fazer coisas corriqueiras. — Pode ser que eu não esteja aqui — disse ele com simplicidade, sem autopiedade. Era a mera enunciação de um fato que ambos sabiam ser possível, mas sobre o qual ela não queria ouvir falar. — Deixa de ser bobo — declarou ela, repreendendo-o. — Você estará aqui. Estou contando que você vá viver mais que eu. — Tomara que não — respondeu com seriedade. — E da próxima vez em que eu a vir, quero ouvir tudo a respeito das férias que vai tirar. Faça um cruzeiro. Vá se estirar numa praia em algum lugar. Pegue um cara, fique bêbada, vá dançar, se solte. Grave minhas palavras, Sarah, um dia você vai se lamentar se não fizer isso.

— Ela riu diante dessas sugestões, ao se imaginar pegando estranhos numa praia. — Estou falando sério!

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