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A Casa do Incesto – Anais Nin

Tudo o que sei está contido neste livro escrito sem testemunho, edifício sem dimensão, cidade suspensa no ar. Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração. Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. Quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena temum som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar. Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração. Só que não estou à espera da morte do meu amor. A minha primeira visão da terra foi através da água. Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são a cor da água. Olhava com olhos de camaleão a Face mutável do mundo e considerava anonimamente o meu ser incompleto. Lembro o meu primeiro nascimento na água. À minha volta a transparência sulfurosa e os meus ossos moviam-se como se fossem de borracha. Oscilo e flutuo nas pontas sem ossos dos meus pés atenta aos sons distantes, sons para além do alcance de ouvidos humanos, vejo coisas que são para além do alcance dos olhos. Nasço cheia das memórias dos sinos da Atlântida. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguémperturbado por recordações, corto o ar a passo largo com largos golpes de barbatana e nado através de quartos sem paredes. Expulsadas de um paraíso de ausência de som, catedrais ondulam à passagem de um corpo, como música sem som. Esta Atlântida só podia ser novamente encontrada à noite pelo caminho do sonho. Logo que o sono cobria a rígida cidade nova e a rigidez do novo mundo, abriam-se os portais mais pesados deslizando em gonzos oleados e entrava-se na ausência de voz que pertence ao sonho. Era o terror e a alegria de homicídios conseguidos em silêncio, um silêncio de calhas e de escovas. O lençol de água cobrindo tudo e abafando a voz.


E um monstro trouxe-me, por acaso, à superfície. Perdida dentro das cores da Atlântida, cores que vão dar a outras e se misturam sem fronteiras. Peixes feitos de veludo, de organdi com dentes de rendas, feitos de tafetá, recamados de lantejoulas, peixes de seda e penas e plumas, com flancos laçados e olhos de cristal de rocha, peixes de couro curtido com olhos de groselha, olhos como o branco de um ovo. Flores palpitando-lhes nas hastes como corações de mar. Nenhum deles sentindo o seu próprio peso, o cavalo-marinho movendo-se como uma pena… Era como um longo bocejo. Eu amava a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-nos através de obstáculos. A água estava ali para nos transportar como um abraço gigante; havia sempre a água para nos repousar, e que nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos. Eu dormia muito abaixo do nível das tempestades. Movia-me dentro da cor e da música como dentro de um diamante-mar. Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-desejo misturando-se, tocando, afastando, vagueando – no abismo infinito da água. Não me lembro de ali estar frio, nem calor. Nenhuma dor provocada pelo frio ou pelo calor. A temperatura do sono, sem febre e sem arrepio. Não me lembro de ter tido fome. Era-se alimentado através de poros invisíveis. Não me lembro de ter chorado. Sentia apenas a carícia de mover-me – de passar para um outro corpo – absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar de seda. Amando sem consciência, movendo-me sem esforço, numa corrente branda de água e de desejo, respirando num êxtase de dissolução. Acordei de madrugada, atirada para uma rocha, esqueleto de um barco sufocado nas suas próprias velas. A noite envolvia-me como uma fotografa descolada da moldura. O forro de um casaco aberto como duas conchas de uma ostra. O dia descolado da noite, comigo a cair entre eles sem saber emque lado me encontrava, se era à mais alta folha cinzenta fria do amanhecer ou à folha escura da noite. O rosto de Sabina estava suspenso na escuridão do jardim. Dos olhos um vento quente desértico secava as folhas e voltava a terra do avesso; tudo o que tinha até então seguido um percurso vertical rodava agora em círculos, à volta do rosto, à volta do rosto dela. Ela olhava com olhar fixo cão antigo, séculos luxuriantes e pesados vacilavam em cortejos profundos.

Da pele nacarada subiamperfumes em espiral como incenso. Cada gesto seu acelerava o ritmo do sangue e incitava a um canto batido como o bater do coração do deserto, um canto que era o som dos seus pés pisando no sangue a marca do seu rosto. Uma voz que atravessava séculos, tão pesada que quebrava o que tocava, tão funda que suspeitei que soasse em mim com ressonância eterna; uma voz enferrujada com o som de pragas e dos gritos ásperos que brotam do delta no último paroxismo do orgasmo. Uma capa preta que lhe pendia dos ombros como cabelos negros, meio drapeada meio flutuante à volta do corpo. O tecido de um fato que se move num momento antes de ela mesma se mover, como se tivesse consciência dos seus impulsos, e se agita ainda muito depois de ela ficar quieta, como ondas que voltam ao mar na maré baixa. As mangas caiam como um suspiro e a bainha do vestido dançava-lhe à volta dos pés. O colar de aço brilhava na garganta como luz de verão e o som do aço era como o tinir de espadas… Le pas dácier… O aço esqueleto de Nova Iorque, amortalhado em granito, sepultado empé. Le pas dácier… notas marteladas em guitarras de cordas de aço dos ciganos, nos braços de aço de cadeiras vergadas pelo seu sopro; cortinas de malha de aço caindo como granizo, barras e barragens de aço rebentando com estrondo. Colar indissolúvel, posto à volta do pescoço do mundo. Transportado por ela como um troféu extraído de máquinas roncantes para ir ao encontro do ritmo desumano da sua marcha. A queda das palavras como folhas, os gritos-vitrais dos seus humores, a ferrugem da voz, o fumo na boca, o seu sopro no meu rosto como bafo humano embaciando um espelho. Conversa – meias-palavras, frases que não precisavam ser completas, abstracções, campainhas chinesas que tocam com badalos envoltos em algodão, florescências de laranjas simuladas na pintura de porcelana. As meias palavras, cerradas, encobertas das mulheres de carne macia. Os homens que tinham beijado, e as mulheres; todos se purificando na ressonância da minha memória. Som dentro do som, cena dentro da cena, mulher dentro de mulher – como ácido revelador de uma escrita invisível. Uma mulher dentro de outra eternamente, num longo cortejo, dividindo-me o pensamento emfragmentos, em quartos de tom que nenhuma batuta de orquestra pode voltar a reunir. A máscara luminosa do seu rosto, como feito de cera, imóvel, olhos sentinelas. Ela, observando o meu passo de sibarita, eu, atenta à sibilação da sua língua. Os nossos olhos prostitutos postos fundo uma na outra. Ela, era um ídolo em Bizâncio, um ídolo a dançar, de pernas afastadas; e eu escrevia com pólen e mel. O doce segredo manso de mulher que eu esculpi nos cérebros dos homens, compalavras de cobre; imagem tatuada nos olhos deles. Consumia-os a febre das suas entranhas, o indissolúvel veneno das lendas. Se esta torrente deixava de os devorar, ou se eles se libertavam por si próprios, eu povoava a sua memória com a história que eles queriam esquecer. Tudo o que há de ágil e malevolente numa mulher podia ser destruído sem compaixão, mas quem poderia destruir a ilusão em que, para dormir, a deitei todas as noites? Vivemos em Bizâncio, Sabina e eu, até os nossos corações sangrarem das pedras preciosas das nossas frontes, os nossos corpos cansarem do peso de brocados, as narinas saturarem do fumo dos perfumes; e logo que passamos para outros séculos encerraram-nos em molduras de cobre. Os homens reconheciam-na sempre: o mesmo rosto resplandecente, a mesma voz ferrugenta.

E eu e ela reconhecíamo-nos mutuamente; eu reconhecia-lhe o rosto, ela, reconhecia a minha lenda. Colocou-me no pulso uma pulseira de aço, lisa, e o pulso passou a bater como ela quis, perdendo a cadência humana, acelerado como um selvagem em frenesim orgiástico. As lamentações de plantas, o canto duplo do vento nos nossos ossos frágeis, o estalar dos ossos remetia para a lembrança longínqua de quando, em camas de penas, o culto que inspirámos se tornou prazer. À medida que andávamos foguetes lançavam-se dos candeeiros de rua; com um rugido de selva engolíamos a rua de asfalto, e as casas de olhos fechados e pestanas de gerânios; engolíamos os postes de telégrafo trementes de mensagens; engolíamos os gatos errantes, as árvores, as colinas, as sebes, e o sorriso labiríntico de Sabina no buraco da fechadura. O lamento da porta a abrir-se. O sorriso dela fechado. Um rouxinol debicando suaves madressilvas. Mel-sugado. Dedos plantas. A casa abria o portão-boca verde e engolia-nos. A cama flutuava. Estava riscado o disco, quebrada a melodia. Os bocados conavam-nos os pés. Era manhã e ela era perdida. Repus as casas sobre a rua, voltei a alinhar os postes telegráficos ao longo do rio e devolvi os gatos errantes ao meio da rua. Pus as colinas no sítio. A rua saiu-me da boca como uma fita de veludo, e deixou-se ficar qual serpentina. As casas abriram os olhos. O buraco da fechadura mostrou uma curva irónica como um ponto de interrogação. A boca da mulher. Eu transportava os seus fetiches, as marionetas, as suas cartas de ler o futuro desgastadas nos cantos como a crista de uma onda. As janelas da cidade estavam manchadas e pulverizadas com a luz da chuva e com o sangue que ela extraía de mim a cada mentira e a cada decepção. Por debaixo da pele das suas faces eu reconhecia cinzas: iria ela morrer antes que nos juntássemos em pérfida união? Olhos e mãos sentidos que só as mulheres têm. Não existe troça entre mulheres. Cada uma se deita em paz como no seu próprio peito.

Sabina já não beijava nem homens nem mulheres. Dentro da febre da sua ansiedade, o mundo ia perdendo a sua forma humana. Estava a perder o poder humano de articular o corpo noutro corpo emplenitude humana. Ela delimitava horizontes, afogando-se em planetas sem eixo, perdendo a sua polaridade e o seu saber divino de integração, fusão. Propagava-se como a noite se propaga no universo e não encontrou nenhum deus com quem repousasse. A outra metade pertencia ao sol e ela estava em guerra com o sol e com a luz. Não podia suportar traços de luz em livros abertos, nem a orquestração de ideias tricotadas num único tema; não seria coberta pelo sol e no entanto metade do universo pertencia ao sol; ela voltaria a serpente apenas para aquele que pudesse cobrir-lhe o corpo com a sua sombra dando-lhe a alegria da fecundação. Vem comigo, Sabina, vem para a minha ilha. Vem para a minha ilha de pimentões que crepitam em lentos braseiros, de potes de cerâmica mourisca guardando a água dourada, de palmeiras, de gatos bravos em luta, de um burro que soluça na alvorada, os pés entre os recifes de coral e anémonas-marinhas, o corpo coberto de algas longas, cabeleira de Melisande sobre o varandim da Opéra Comique, diamante inexorável de luz do dia, horas pesadas e flácidas nas sombras-violeta, rochas cor de cinza e oliveiras, limoeiros de limões suspensos como lampiões num garden party, rebentos de bambu em constante vibração, som macio das alpergatas, romãs explodindo sangue, o canto-flauta mouro, longo e persistente dos homens que lavram a terra, trinando, blasfemando, louvando e injuriando, lançando na terra o suor e as sementes A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável. As tuas mentiras, não são mentiras, Sabina. São flechas lançadas para fora da tua órbita pela força da tua fantasia. Para alimentar a ilusão. Para destruir a realidade. Vou ajudar-te: sou eu quem inventará para ti as mentiras e com elas iremos atravessar o mundo. Atrás das nossas mentiras desenrolo o fio de ouro de Ariana – porque de todas as alegrias a maior é a de voltar pelo percurso das mentiras, chegar novamente ao ponto de partida e dormir uma vez por ano livre de todas as estruturas de superfície. Tu deixaste a tua marca no mundo, Sabina. Eu apenas o atravessei como um fantasma. Será que à noite alguém dá pelo mocho na árvore, ou pelo morcego que vem contra a janela enquanto os outros falam, ou pelos olhos que reflectem como água e bebem como mata-borrão, ou pela piedade que vacila como luz de vela, ou pelo conhecimento seguro sobre o qual as pessoas adormecem? Será que alguém sabe quem eu sou? Até a minha voz veio do outro mundo. Fui embalsamada nas minhas mais secretas vertigens. Estive suspensa sobre o mundo escolhendo o caminho a percorrer de modo a não pisar nem a terra nem a relva. O meu passo era um passo cauteloso; o mínimo ruído do cascalho fazia que parasse.

Quando te vi, Sabina, escolhi o meu corpo. Vou deixar-te levar-me até à fecundidade da destruição. Por isso me atribuo um corpo, um rosto e uma voz. Eu sou-te como tu me és. Cala o fluxo sensacional do teu corpo e encontrarás em mim, intactos, os teus medos e as tuas penas. Descobrirás o amor separado das paixões e eu descobrirei as paixões privadas de amor. Sai do papel que te atribuis e descansa no centro dos teus verdadeiros desejos. Por um momento deixa as tuas explosões de violência. Renuncia à tensão furiosa e indomável. Eu passarei a assumi-las. Pára de tremer, de te agitar, de sufocar, de amaldiçoar, e reencontra o teu fundo que eu sou. Descansa das complicações, destorces e deformações. Por uma hora serás eu; ou antes, a outra metade de ti própria. Aquela parte de ti que tu perdeste. O que queimaste, partiste, estragaste encontra-se entre as minhas mãos. Eu sou guarda de coisas frágeis e preservei de ti o que há de indissolúvel. Nem o mundo, nem mesmo o sol podem mostrar simultaneamente ambas as faces.

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