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A Casa do Mal – Dean R. Koontz

A noite estava tranqüila e curiosamente silenciosa, como se a viela fosse uma praia deserta e sem ventos no olho de um furacão, entre a tempestade que passou e a que se aproximava. Um leve cheiro de fumaça pairava no ar imóvel, embora não houvesse fumaça visível. Estatelado de barriga para baixo no calçamento frio, Frank Pollard não se moveu quando recobrou a consciência; aguardou, na esperança de que sua confusão mental se dissipasse. Pestanejou, tentando focalizar a visão. Véus pareciam esvoaçar dentro de seus olhos. Tragou profundas arfadas do ar frio, sentindo o gosto da fumaça invisível, fazendo uma careta diante daquele travo cáustico. Sombras assomavam como uma convocação de figuras em mantos, fechando-se à sua volta. Gradualmente sua visão clareou, mas à fraca luz amarelada que vinha bem lá de trás dele, pouco dava para ver. Uma grande caçamba de lixo, uns dois metros à frente, estava tão obscuramente delineada que por um instante pareceu indizivelmente estranha, como se fosse umartefato de uma civilização alienígena. Frank fitou-a por um momento antes de perceber o que era. Não sabia onde estava ou como chegara até ali. Não podia ter ficado inconsciente mais do que alguns segundos, pois seu coração batia como se havia apenas alguns instantes estivesse correndo por uma questão de vida ou morte. Vaga-lumes em um vendaval… Essa expressão atravessou sua mente, mas não fazia a menor idéia de seu significado. Quando tentou se concentrar nela e procurar entendê-la, uma forte dor de cabeça surgiu acima de seu olho direito. Vaga-lumes em um vendaval… Gemeu baixinho. Entre ele e a caçamba de lixo, uma sombra entre sombras moveu-se, rápida e sinuosa. Pequenos, mas luminosos, olhos verdes fitaram-no com um interesse glacial. Assustado, Frank obrigou-se a erguer-se sobre os joelhos. Emitiu um grito agudo e involuntário, menos um som humano do que o lamento abafado de uma flauta rústica. O observador de olhos verdes fugiu apressadamente. Um gato. Apenas um gato preto comum. Frank pôs-se de pé, cambaleou estonteado e quase caiu sobre um objeto que estava no asfalto a seu lado. Cautelosamente, curvou-se e apanhou-o: uma bolsa de viagem, de couro flexível, cheia, surpreendentemente pesada. Supunha que fosse sua.


Não se lembrava. Carregando a bolsa, caminhou tropegamente em direção à caçamba de lixo e apoiou-se em sua superfície enferrujada. Olhando para trás, viu que estava entre fileiras do que parecia ser prédios de apartamentos de alvenaria, de dois andares. Todas as janelas eram pretas. Dos dois lados, os carros dos inquilinos estavam alinhados de frente em vagas cobertas de estacionamento. A estranha claridade amarela, agressiva e sulfurosa, mais como o produto de uma chama de gás do que a luminosidade de uma lâmpada elétrica incandescente, vinha de um poste de luz no fim do quarteirão, longe demais para revelar os detalhes da viela onde estava. Conforme sua respiração acelerada arrefeceu e o batimento cardíaco diminuiu, ele bruscamente compreendeu que não sabia quem ele era. Sabia seu nome — Frank Pollard —, mas isso era tudo. Não sabia sua idade, em que trabalhava, de onde vinha, para onde ia ou por quê. Estava tão perplexo com sua situação que por um instante a respiração ficou presa na garganta; então, seu coração disparou outra vez e ele soltou o ar com um jato. Vaga-lumes em um vendaval… Que diabos significava aquilo? A dor acima de seu olho direito espalhou-se pela fronte. Olhou desvairadamente para a direita e para a esquerda, em busca de um objeto ou de umaspecto do cenário que pudesse reconhecer, qualquer coisa, uma tábua de salvação num mundo que de repente parecia-lhe muito estranho. Quando a noite não ofereceu nada que o tranquilizasse, voltou a busca para dentro de si mesmo, procurando desesperadamente alguma coisa familiar intemamente, mas sua própria memória era ainda mais escura do que a viela ao seu redor. Gradualmente, percebeu que o cheiro de fumaça desaparecera, sendo substituído por um odor vago, mas repugnante, de lixo em decomposição na caçamba. O cheiro de podridão encheu-o de pensamentos de morte, o que atiçou uma vaga lembrança de que ele estava fugindo de alguém — ou de alguma coisa—que queria matá-lo. Quando tentou se lembrar por que fugia, ou de quem, não conseguiu iluminar melhor aquele fragmento de memória; na verdade, parecia mais uma percepção baseada no instinto do que uma recordação genuína. Uma lufada de vento girou ao seu redor. Em seguida, a calma retomou, como se a noite morta tentasse voltar à vida, mas conseguira apenas um único e trêmulo suspiro. Um pedaço de papel amassado, levado por aquela baforada, estalou ao longo do calçamento e arrastou-se até parar junto ao seu sapato direito. Em seguida, outra lufada de vento. O papel foi arrastado para longe. A noite ficou mortalmente calma outra vez. Alguma coisa estava acontecendo. Frank pressentia que aquelas efêmeras lufadas de vento eramprovenientes de alguma fonte maligna, com um significado tenebroso. Irracionalmente, tinha certeza que estava prestes a ser esmagado por um grande peso.

Ergueu os olhos para o céu limpo, para a escuridão vazia e erma do espaço e o brilho maligno das estrelas longínquas. Se alguma coisa descia sobre ele, Frank não podia vê-la. A noite expirou outra vez. Desta vez com mais força. Seu hálito era cortante e úmido. Ele usava tênis de corrida, meias esportivas brancas, jeans e uma camisa de xadrez azul de mangas compridas. Precisava de um casaco, mas não tinha nenhum. O ar não estava gélido, apenas levemente revigorante. Mas havia um frio nele, um medo enregelante, e tremia incontrolavelmen-te entre a carícia fresca do ar da noite e aquele calafrio interior. A rajada de vento definhou. O silêncio tomou conta da noite. Convencido de que precisava sair dali — e depressa —, afastou-se da caçamba. Cambaleou pela viela, deixando para trás o fim do quarteirão onde brilhava a luz do poste, para locais mais escuros, sem nenhum destino em mente, levado apenas pela sensação de que aquele lugar era perigoso e que a segurança, se realmente pudesse ser encontrada, estava em outra parte. O vento encrespou-se outra vez e, com ele, desta vez, veio um assobio sobrenatural, quase inaudível, como a música distante de uma flauta feita de algum osso estranho. A poucos passos, quando Frank firmou-se nos pés e seus olhos adaptaram-se à noite sombria, chegou a uma confluência de caminhos. Portões de ferro em claros arcos de alvenaria postavam-se à sua direita e à sua esquerda. Experimentou o portão à esquerda. Estava destrancado, preso apenas por um simples trinco de gravidade. As dobradiças rangeram, fazendo Frank encolher-se, torcendo para que o barulho não tivesse sido ouvido por seu perseguidor. A essa altura, embora não houvesse nenhum inimigo à vista, Frank não tinha a menor dúvida de que ele era objeto de uma caçada. Sabia-o com tanta certeza quanto uma lebre sabia quando uma raposa estava no _campo. O vento investiu novamente contra suas costas, e a música de flauta, embora quase inaudível e sem uma melodia discemível, era tenebrosa. Ela perfurava-o. Aumentava seu medo. Do outro lado do portão preto de ferro, ladeado por abundantes samambaias e arbustos, uma passagem separava dois prédios de apartamentos de dois andares.

Frank percorreu-a até chegar a umpátio retangular parcialmente revelado por lâmpadas de segurança de baixa voltagem em cada ponta. Os apartamentos do primeiro andar davam para um passeio coberto; as portas das unidades do segundo andar ficavam sob as telhas de uma varanda com balaustrada de ferro. Janelas às escuras voltavam-se para uma área gramada, com canteiros de azaléias e algumas palmeiras. Um friso de pontudas sombras das folhas das palmeiras projetava-se sobre uma parede fracamente iluminada, tão imóvel quanto se estivesse esculpido numa comija de pedra. Logo a misteriosa flauta trinou outra vez, o vento reanimado investiu ainda com mais força e as sombras dançaram, dançaram. A própria sombra de Frank, distorcida e escura, rodopiou rapidamente sobre o reboco da parede, entre as silhuetas dançarinas, enquanto ele atravessava o pátio correndo. Deparou-se com outro caminho, outro portão e Finalmente viu-se na rua para onde dava o conjunto residencial. Era uma rua secundária sem postes de iluminação. Ali, o reino das trevas dominava absoluto. O vento, mais agitado do que antes, demorava-se. Quando a rajada de vento parou repentinamente, com o cessar igualmente brusco da flauta dissonante, a noite pareceu cair num vácuo, como se a desaparecida turbulência tivesse carregado com ela todo o ar respirável. Em seguida, os ouvidos de Frank espocaram, como se ele tivesse sofrido uma súbita mudança de altitude. Enquanto atravessava correndo a rua deserta, em direção aos carros estacionados ao longo da calçada do outro lado, o ar voltou a envolvê-lo. Experimentou quatro carros antes de encontrar um destrancado, um Ford. Deslizando para trás do volante, deixou a porta aberta para obter um pouco de iluminação. Olhou para trás, de onde viera. O conjunto residencial estava no mais absoluto silêncio na calada da noite. Envolto emsombras. Um prédio comum e entretanto inexplicavelmente sinistro. Não havia ninguém à vista. Entretanto, Frank sabia que alguém se aproximava dele. Enfiou a mão embaixo do painel, puxou um feixe de fios e apressadamente deu partida no motor antes de perceber que uma tal habilidade de gatuno sugeria uma vida fora da lei. No entanto, não se sentia um ladrão. Não tinha nenhuma sensação de culpa e nenhuma antipatia — ou medo — da polícia. Na realidade, no momento, teria ficado contente de ver um policial para ajudá-lo a lidar comquem ou o que quer que estava em seu encalço.

Sentia-se não como um criminoso, mas como umhomem que estava em fuga havia um tempo exaustivamente longo de um inimigo implacável e impiedoso. Quando estendeu a mão para a maçaneta da porta aberta, um rápido lampejo de luz azul pálida derramou-se sobre ele e as janelas do Ford do lado do motorista explodiram. Pequenos fragmentos aglutinados de vidro temperado espalharam-se no banco traseiro. Como a porta da frente não estava fechada, os estilhaços do vidro desta janela não caíram sobre ele; em vez disso, a maior parte despencou na calçada. Fechando a porta com um safanão, ele olhou pelo vazio onde antes havia vidro, na direção dos apartamentos às escuras, mas não viu ninguém. Frank engrenou o carro, soltou o freio e pisou com toda força no acelerador. Girando para fora do meio-fio, prendeu-se no pára-choque traseiro do carro estacionado à sua frente. Um breve guincho de metal raspado ressoou estridentemente pela noite. Mas ele ainda estava sendo atacado: uma luz azul cintilante, no máximo de um segundo de duração, iluminou o carro, em toda a sua extensão; o pára-brisa estilhaçou-se em milhares de fragmentos, embora não tivesse sido atingido por nada que ele pudesse ver. Frank desviou o rosto e cerrou os olhos bem a tempo de evitar ser cegado pela explosão de estilhaços. Por um instante, não cbnseguiu ver nada, mas não afrouxou o pé do acelerador, preferindo o risco de colisão ao risco maior de frear e dar ao inimigo invisível tempo para alcançá-lo. Uma saraivada de cacos de vidro atingiui-O, espalhando-se pelo topo de sua cabeça inclinada; felizmente, tratava-se de vidro de segurança e nenhum dos estilhaços o feriu. Abriu os olhos, estreitaiido-os contra a rajada de vento que entrava pelo espaço agora vazio db pára-brisa. Viu que percorrera meio quarteirão e chegara ao cruzamento. Girou o volante para a direita, pisando apenas de leve no pedal do freio; e entrou numa artéria mais iluminada. Como o fogo-de-santelmo, uma luz azul-safira reluziu no cromo e, quando o Ford estava no meio da curva, um dos pneus traseiros estourou. Ele não ouvira nenhum tiro. Uma fração de segundo mais tarde, o outro pneu traseiro estourou. O carro sacudiu, derrapou para a esquerda e começou a deslizar. Frank lutava com o volante. Os dois pneus dianteiros romperam-se simultaneamente. O carro sacudiu-se de novo, mesmo enquanto resvalava de lado, e o repentino colapso dos pneus dianteiros compensou a derrapagem para a esquerda da parte traseira, dando a Frank a oportunidade de controlar o volante desgovernado. Novamente, não ouvira nenhum tiro. Não sabia por que tudo aquilo estava acontecendo — e, ainda assim, sabia-o. Essa era a parte realmente assustadora: em algum nível profundamente subconsciente ele realmente sabia o que estava acontecendo, que força estranha estava rapidamente destruindo o carro à sua volta e também sabia que suas chances de escapar eram pequenas.

Uma rápida cintilação azul. A janela traseira implodiu. Aglomerados de fragmentos de vidro de segurança, aglutinados, mas ainda assim picantes, passaram por ele. Alguns atingiram a parte de trás de sua cabeça, grudaram-se em seu cabelo. Frank conseguiu fazer a curva e continuou a rodar com os quatro pneus arrebentados. O barulho de borraçha batendo, já estraçalhada, e o ruído das bordas de metal das rodas raspando no solo podiam ser ouvidos até mesmo acima do rugido do vento que açoitava seu rostò. Olhou pelo espelho retrovisor. A noite era um grande oceano negro às suas costas, amenizado apenas pelas bem espaçadas lâmpadas da rua que iam diminuindo na escuridão como as luzes de umduplo comboio de navios. De acordo com o velocímetro, ele estava a cinqüenta quilômetros por hora ao terminar a curva. Tentou aumentar para sessenta, apesar dos pneus destruídos, mas alguma coisa bateu e tilintou sob o capô, chocalhou e retiniu, o motor engasgou, e ele não conseguiu imprimir mais nenhuma velocidade ao veículo. Quando a meio caminho do próximo cruzamento, os faróis explodiram ou soltaram-se. Frank não sabia exatamente o que acontecera. Embora os postes de iluminação ficassem bem distantes uns dos outros, ele podia ver o suficiente para continuar dirigindo. O motor engasgou, várias vezes, e o Ford começou a perder velocidade. Ele não obedeceu à placa de sinalização que mandava parar no próximo cruzamento. Ao contrário, pisou fundo no acelerador, mas em vão. Finalmente, a direção falhou também. O volante girava inutilmente em suas mãos suadas. Evidentemente, os pneus haviam sido completamènte destruídos. O contato das bordas de metal das rodas com o calçamento lançava fagulhas douradas e azuis-turquesa. Vaga-lumes em um vendaval.

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