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A casa do morro branco – Rachel de Queiroz

RACHEL DE QUEIROZ nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza, Ceará. Ainda não havia completado 20 anos, em 1930, quando publicou O Quinze, seu primeiro romance. Mas tal era a força de seu talento que o livro despertou imediata atenção da crítica. Dez anos depois, lançou João Miguel, ao qual se seguiram: Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), Dôra, Doralina (1975), e não parou mais. Em 1992, publicou o romance Memorial de Maria Moura, um grande sucesso editorial. Rachel dedicou-se ao jornalismo, atividade que sempre exerceu paralelamente à sua produção literária. Cronista primorosa, tem vários livros publicados. No teatro escreveu Lampião e A beata Maria do Egito e, na literatura infantil, lançou O menino mágico (ilustrado por Gian Calvi), Cafute e Penade-prata (ilustrado por Ziraldo), Xerimbabo (ilustrado por Graça Lima) e Memórias de menina (ilustrado por Mariana Massarani), que encantaram a imaginação de nossas crianças. Em 1931, mudou-se para o Rio de Janeiro, mas nunca deixou de passar parte do ano em sua fazenda “Não me Deixes”, no Quixadá, agreste sertão cearense, que ela tanto exalta e que está tão presente em toda a sua obra. Uma obra que gira em torno de temas e problemas nordestinos, figuras humanas, dramas sociais, episódios ou aspectos do cotidiano carioca. Entre o Nordeste e o Rio, construiu seu universo ficcional ao longo de mais de meio século de fidelidade à sua vocação. O que caracteriza a criação de Rachel na crônica ou no romance — sempre — é a agudeza da observação psicológica e a perspectiva social. Nasceu narradora. Nasceu para contar histórias. E que são as suas crônicas a não ser pequenas histórias, narrativas, núcleos ou embriões de romances? Seu estilo flui com a naturalidade do essencial. Rachel se integra na vertente do verismo realista, que se alimenta de realidades concretas, nítidas. O sertão nordestino, com a seca, o cangaço, o fanatismo e o beato, mais o Rio da pequena-burguesia, eis o mundo de nossa Rachel. Um estilo despojado, depurado, de inesquecível força dramática. Primeira escritora a integrar a Academia Brasileira de Letras (1977), Rachel de Queiroz faleceu no Rio de Janeiro, aos 92 anos, em 4 de novembro de 2003. Ma-Hôre FOI NUM DIA DE SOL, daqui a muitos anos. Ma-Hôre, o homúnculo, meio escondido atrás de um tufo de algas, espiava o navio espacial que boiava no mar tranquilo, como uma bala de prata. Em torno do nariz da nave quatro gigantes se afadigavam, vaporizando soldas, rebatendo emendas, respirando com força pelos aqualungs que traziam às costas. Era a terceira daquelas naves que vinha pousar emTalôi, para espanto e temor dos aborígines. Os homens da primeira haviam partido, logo depois de pousados, sem tentativa de aproximação. Os da segunda desembarcaram, fizeram gestos de amizade para grupos de nativos que os espiavam de longe e, ao partir, deixaram presentes em terra — livros, instrumentos de ver ao longe e outros, de utilidade ignorada.


Esses presentes, todos de tamanho desproporcional à raça dos Zira-Nura, foram levados para o museu, arrastados como carcaças de bichos pré-históricos. E agora a terceira nave viera boiar longe, em mar despovoado, a consertar avarias. Por acaso, Ma-Hôre a descobrira, a relampejar toda prateada, ao sol. Vencendo o medo, nadou até mais perto: do lado esquerdo da nave não se via nenhum gigante, só uma imensa escotilha aberta, quase ao nível da onda. Tremendo de excitação, Ma-Hôre nadou mais, até poder tocar com a mão o corpo metálico do engenho: teria alguma defesa elétrica? Não, não tinha. A borda redonda da escotilha ficava ao alto, mas dava para alcançá-la com o braço erguido: içou-se até lá, espiou dentro, não viu ninguém. Era tentação demais; Ma-Hôre não resistiu, ergueu mais o corpo na crista de uma marola, escalou o que para ele era o alto muro da escotilha e, num salto rápido, já estava no interior da nave desconhecida, a água a lhe escorrer do cabelo metálico pelo corpo liso. Tudo lá dentro era feito na escala dos gigantes; a cabine parecia imensa aos olhos do pequeno humanoide. Mas ouvindo um ruído familiar, vindo de fora, ele correu a debruçar-se à escotilha: lá embaixo, na água, o golfinho da sua montaria erguia o focinho para o alto e silvava inquieto, a chamar o dono; Ma-Hôre debruçou-se mais, estendeu o braço curto, fez-lhe festas na cabeça maciça, depois o despediu com algumas palavras da sua branda linguagem aglutinante. O golfinho hesitou, mergulhou, emergiu e afinal se afastou, num nado vagaroso, a mergulhar e a aflorar, a virar-se constantemente para trás. Porém Ma-Hôre não esperou que ele sumisse, no seu intenso desejo de ver “aquilo” por dentro. Os enormes assentos estofados; as vigias de cristal grosso, lá em cima; o painel de instrumentos que parecia tomar e encher toda a parede… De repente sentiu que parara o ruído dos instrumentos a operar no casco externo e escutou o trovejo das vozes dos gigantes que se aproximava. Tomado de pânico, o homúnculo ia fugir para a água quando viu surgir à boca da escotilha uma das cabeças avermelhadas, logo seguida das outras três. Era tarde. Correu a se esconder sob um dos assentos. Tremia de medo; que lhe fariam os astronautas gigantes se o apanhassem espionando a sua nave? Os homens pareciam exaustos, depois das longas horas passadas a remendar o casco avariado por um bólido. E, para aumentar o terror de Ma-Hôre, a primeira providência que tomaram foi rapidamente fechar as duas portas da escotilha. Logo puseram a funcionar a aparelhagem de arcondicionado, restabelecendo o ambiente terrestre dentro da nave. Ma-Hôre se encolhia todo, sempre acocorado sob o estofo da poltrona. Preso, estava preso com as estranhas criaturas de rosto róseo e cabelo descorado, uma das quais tinha uma eriçada barba vermelha a lhe descer pelo pescoço. Já não se serviam mais dos aqualungs. Que bichos estranhos! E quando falavam, com suas vozes ásperas, os tímpanos do homúnculo retiniam. Passados alguns minutos, Ma-Hôre, ainda escondido, começou a sentir-se mal. Dava-lhe uma tontura, parecia que estava bêbedo, que tomara uma dose grande demais de malê, a sua aguardente predileta, feita de amoras do mar… e quanto mais o ambiente se oxigenava, mais o pequeno visitante sentia a sua ebriedade se agravar. Agora o atacava uma irresistível vontade de rir, uma alegria irresponsável.

Perdeu o medo dos gigantes, pôs-se a cantar; e afinal, roubado de todo o controle, saiu do esconderijo, rebentando de riso, rodopiando pelo tapete, a agitar os braços, dança que lembrava a dos pequenos diabos verdes que atormentam os Zira-Nura nas horas de furacão. O ruído insólito despertou os astronautas do seu torpor de fadiga. Cuidaram primeiro que era o alto-falante com alguma transmissão extemporânea. Mas deram com os olhos no pequeno humanoide, a dançar e a rir, sacudindo a juba negra. Mitia, o caçula dos tripulantes e ainda um pouco criançola, disparou também numa gargalhada, contagiado, e tentou colher do tapete o anão intruso. Porém MaHôre conseguiu fugir da mão enorme, que evidentemente receava machucá-lo, e continuou dançando e gargalhando. O navegador, Virubov, ajoelhou-se no chão para o ver de mais perto: — Não disse que esses aborígines eram anfíbios, comandante? Olhe os pés de pato! Mitia observou: — E como é pequenino! Será uma criança? Os outros também vieram se ajoelhar em torno, a contemplar o visitante, que prosseguia no seu insano sapateado. De estatura não teria dois palmos. Os pés nus, de dedos interligados por membranas, os braços curtos semelhantes a nadadeiras, terminados por mão de pelo de lontra, confirmavam a sua condição de anfíbio. A pele do corpo era de um grão mais grosso que a dos homens, lisa e cor de marfim. Os olhos enviesados, de cor indefinida, a boca larga, o nariz curto, pequenas orelhas redondas que a juba quase escondia. — Não, é pequeno, mas evidentemente se trata de um adulto — observou o comandante. — Que é que ele tem? Será louco? O copiloto, que também era o médico da equipe, entendera o fenômeno: — Não, ele está bêbedo com o nosso ar. Como a atmosfera deles é muito rarefeita, a nossa lhes faz o efeito de um gás hilariante. Vamos dar um jeito, senão ele morre intoxicado. Mitia teve uma ideia: abriu a porta externa da escotilha, fechou a interna, até que a pequena câmara entre as duas portas se enchesse da atmosfera do planeta a que os terrestres davam o número de série de W-65. Depois Mitia fechou a porta externa e carregou o homúnculo, já meio desmaiado, para o compartimento estanque que se enchera com o seu ar natural. Ma-Hôre respirou fundo, como um quase afogado posto em terra. Rapidamente se refez; dentro em pouco já se sentava, olhava emtorno, e logo correu à porta externa: mas nem sequer alcançava a roda metálica que manobrava a escotilha. Pelo vidro que os separava da câmara de entrada os tripulantes espiavam o seu clandestino. O comandante gostaria de o levar para a Terra — mas, além de ser impossível mantê-lo todo o tempo ali, que fariam quando esgotasse a provisão de ar apanhada em W-65? Akim Ilitch, o médico, se propôs então a fabricar um pequeno aqualung para o hóspede. E quanto ao ar — a segunda expedição que estivera ali levara uma amostra da atmosfera de W-65; eles tinhama fórmula. Seria fácil preparar uma dosagem idêntica, encher o balão do aqualung… Ma-Hôre, ante a impossibilidade de fugir, encostava ao vidro divisório o seu rosto súplice, fazia gestos implorativos, articulava pedidos que ninguém podia escutar. Mitia pegou num papel, desenhou a figura de um homúnculo com um aqualung às costas e o mostrou ao visitante, através da vidraça; em seguida, apontou para Akim Ilitch, que já adaptava um pedaço de tubo plástico a um pequeno balão metálico e que depois o foi encher nas torneiras de ar armazenado, regulando cuidadosamente as dosagens, com o olho na agulha dos dials. Ma-Hôre pareceu compreender — mostrou-se mais calmo.

Daí a pouco, Akim Ilitch abriu a porta e lhe ajustou às costas e ao nariz o improvisado aparelho respiratório. O homenzinho imediatamente lhe percebeu a utilidade e em breve circulava pela nave, amigável, curioso; por fim tirou do bolso do seu traje de pele de peixe um toco de grafite e puxou sobre a mesa do navegador uma folha de papel. Mostrava para o desenho mais habilidade que Mitia e, com traços rápidos, desenhou a nave, a escotilha aberta; sobre essa escotilha desenhou a si mesmo, na atitude clássica do mergulhador, a pular para a água lá embaixo. Pedia para ir embora, é claro. Mas o comandante, fazendo que não entendia a súplica desenhada de Ma-Hôre, deu algumas ordens rápidas aos tripulantes. Cada um ocupou o seu posto; antes, porém, instalaram o pequeno hóspede, que esperneava recalcitrante, num assento improvisado com algumas almofadas. Sobre elas o ataram, embora Mitia, para tranquilizar um pouco o apavorado Ma-Hôre, lhe demonstrasse que eles também se prendiam com o cinto dos assentos — que a medida era de segurança, não de violência. Dando provas da compreensão rápida que já mostrara antes, o Zira-Nura conformou-se. Ademais, o estrondo da partida, a terrível aceleração, o puseram a nocaute. Quando voltou a si, viu que a nave marchava serena como um astro e que Akim Ilitch lhe ajeitava, solícito, o conduto de ar d o aqualung. Verificou também que estava solto. Em redor, os outros sorriam. E o comandante, segurando-o pelo pescoço como um cachorrinho, o pôs de pé sobre a mesa e o apontou para a vigia: no vasto céu escuro, um globo luminoso parecia fugir velozmente. O comandante apontou para o globo, falou algumas palavras e desenhou uns símbolos no papel. Escreveu a sigla W-65, e Ma-Hôre, embora não pudesse ler aquilo, tinha entendido. Porque, voltando-se para o astronauta, com um ar de profunda mágoa, perguntou num murmúrio: — Talôi? Os outros é que não o entenderam e o fixaram, interrogativos. Aí Ma-Hôre puxou o seu bastão de grafite e riscou nuns poucos traços uma paisagem de mar e terra, povoada de homúnculos à sua imagem. Mostrou-a aos outros repetindo: “Talôi.” Depois apontou o globo luminoso: — Talôi? O comandante entendeu que aquele era o nome nativo de W-65. E gravemente concordou: — Sim, é Talôi. A sorte, pensavam os astronautas, era que o seu pequeno cativo tinha um coração ligeiro ou filosófico. Porque depressa aceitou o irreparável e tratou de adaptar-se. Auxiliado pelos desenhos, com rapidez adquiriu um bom vocabulário na língua dos humanos. Tinha a inteligência ávida de um adolescente bem-dotado. A sua simpatia, o seu humor tranquilo, também ajudavam.

A viagem era longa e, passado um mês, ele já falava e entendia tudo e travava com os tripulantes compridas conversas. Ouvia coisas da Terra, com um ar maravilhado — as grandes cidades, as fábricas, as viagens espaciais, as fabulosas façanhas da técnica. E também contava coisas da sua gente, que, na água, elemento dominante em nove décimos do pequeno planeta, passava grande parte da sua vida. Fazia desenhos representando as aldeias com as suas casas de teto cônico, destinadas a protegêlos principalmente do sol, que os maltratava muito. Akim Ilitch quis saber se eles não faziam uso do fogo, pai de toda a civilização humana, na Terra. Não, Ma-Hôre explicou: a sua natureza anfíbia temia e detestava o fogo: talvez por isso os Zira-Nura, embora tão inteligentes, não se houvessemadiantado muito em civilização. Além do mais, o pouco oxigênio que tinham na atmosfera não facilitaria a ignição, sugeriu Virubov, o navegador. Mas já haviam descoberto a eletricidade e os metais que desprendem energia, como o rádio, e já os usavam imperfeitamente. Como viviam em pequenas tribos e não se interessavam por disputas de território — o mar, fonte das matérias-primas, chegava para todos —, não se aplicavam em armas de guerra; possuíam apenas armas de caça e defesa, destinadas a livrá-los das feras aquáticas —cetáceos, peixes e moluscos. Falavam uma língua harmoniosa que aos ouvidos dos homens lembrava o japonês. Cultivavam as artes, principalmente a poesia, imprimindo livros com ideogramas da sua escrita — que Ma-Hôre reproduzia —, usavam como papel folhas de papiro de campos submarinos. Gostavam de pintar, de esculpir, de cantar; e Ma-Hôre, depois de escutar com respeito da boca dos homens (que ainda não tinham perdido a mania da propaganda) a história das suas lutas pela sobrevivência e pela civilização, explicava, como se pedisse desculpas, que, dadas as facilidades das suas condições de vida, os Zira-Nura tinham caminhado mais no sentido da arte do que no da técnica… O nome Zira-Nura queria dizer “senhores da terra”, e do mar. Para o justificar, domesticavam alguns animais — uma espécie de lontra minúscula que lhes fazia as vezes de cão, e algumas aves para consumo doméstico. No mar, domesticavam uma variedade de golfinho que lhes servia de montaria, de gado leiteiro e produtor de carne. No mais, eram monógamos, politeístas, democratas, discursadores, com uma elevada noção do próprio ego. E o comandante os definiu numa palavra única: — Uns gregos. Ao que a tripulação assentiu, no velho hábito da unanimidade: sim, uns gregos. A etapa seguinte na “educação” de Ma-Hôre notabilizou-se pelo seu intenso interesse pelo trabalho dos astronautas e pela rotina de bordo, especialmente pelo funcionamento e trato dos aparelhos de ar-condicionado, aos cuidados do seu predileto, Akim Ilitch. Logo assimilou o mecanismo delicado das dosagens, o manejo dos compressores. Com pouco, Akim Ilitch, divertido, já o deixava renovar sozinho a carga do balão do seu pequeno aqualung, cujo uso Ma-Hôre não podia dispensar. Para a noite, porém (ou antes, no intervalo dedicado ao sono, pois ali não havia dia nem noite), Mitia e o médico haviam transformado um pequeno armário embutido na parede emcâmara estanque, cheia do ar adequado, onde o homenzinho dormia. Por iniciativa própria, Ma-Hôre tomou a si o cuidado dos tanques hidropônicos, onde se fazia cultura de algas para a purificação do ar e produção de alimentos frescos. Nessa hora, gostava de mergulhar longamente o rosto na água, fazendo funcionar as pequenas brânquias ressequidas. E também se ocupava com vários outros pequenos serviços dentro da nave, amável e diligente. No tédio da longa travessia, os homens tomavam gosto pela instrução daquele aprendiz tão solícito.

E ele, depois que o mecanismo de aeração não lhe escondia mais nenhum segredo, dedicouse à navegação. Ficava longas horas ao lado de Virubov, enquanto o navegador anotava mapas e conferia cálculos. Mas não entendia nada, queixava-se, e Virubov o consolava, dizendo que ele carecia do indispensável preparo matemático. Ma-Hôre, porém, insistia em saber: era mesmo dali que dependia a orientação da nave, o seu rumo para a distante Terra? E tal era o seu empenho em compreender, que certo dia o comandante o pegou pela mão e o levou ao santo dos santos: o cérebro eletrônico da nave. Explicou que seria impossível orientar a rota nas distâncias do infinito, como quem dirige uma simples máquina voadora. O menor erro de cálculo daria um desvio de milhões de quilômetros. Só o cérebro podia pilotar a nave: naquela fita de papel perfurado lhe eram fornecidos os dados, e o maravilhoso engenho eletrônico controlava tudo até a chegada. Daquela hora em diante, Ma-Hôre se declarou escravo do cérebro. Limpava-o, polia os metais expostos, estava sempre presente e atento quando o comandante vinha fazer o seu controle diário. Os companheiros diziam rindo que, quando chegassem à Terra, lhe dariam um cérebro eletrônico como esposa. Ma-Hôre sorria também, mas com um estranho brilho nos olhos enviesados. A viagem se alongava, infindável. Era tudo tão sereno dentro da nave que a disciplina relaxara e ninguém dormia mais em turnos alternados de repouso, de dois em dois. Todos juntos dormiam durante a “noite” e, de “dia”, faziam refeições regulares, almoço, jantar e ceia, numa agradável rotina doméstica. Naquela “noite” repousavam todos, pois, quando Ma-Hôre, com o seu aqualung posto, abriu sutilmente a porta da cabine condicionada. Visitou os tripulantes nos seus beliches: dormiam, sim. Dirigiu-se em seguida ao aparelho condicionador do ar e mudou a posição dos botões de dosagem. Em breve um cheiro forte encheu a nave e Ma-Hôre voltou à sua cabine, onde esperou uma hora. Pôs de novo o aqualung e saiu. De um em um tateou o pulso dos astronautas: já não batia. Por segurança, Ma-Hôre esperou mais uma meia hora e fez segundo exame: os homens estavam mortos, bem mortos. Com gestos seguros, ele abriu uma válvula e deixou que se escapasse para fora o ar envenenado; findo o quê, deixou entrar um ar novo — o bom, o doce ar de Talôi. Liberto do aqualung, respirou forte e fundo, com um sorriso feliz. Cantarolando, dirigiu-se ao cérebro eletrônico: e repetiu, como num rito, as complicadas manobras que o comandante lhe ensinara para o deter. Copiou numa fita nova, cuidadosamente invertidos, os dados com que o cérebro fora alimentado, levando os de W-65 até aquele ponto.

Pôs a fita na fenda, apertou os botões — fiel ao que aprendera do pobre comandante, agora ali tão morto, com o rosto esfogueado pela barba ruiva. E, afinal, foi espiar pela vigia, para ver se o céu mudara, na marcha de regresso à terra dos ZiraNura.

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