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A Casa dos Espiritos – Isabel Allende

«Barrabás chegou à família por via marítima», anotou a menina Clara com a sua delicada caligrafia. Já nessa altura tinha o hábito de escrever as coisas importantes e, mais tarde, quando ficou muda, escrevia também as trivialidades, sem suspeitar que cinquenta anos depois os seus cadernos me iriam servir para resgatar a memória do passado e sobreviver ao meu próprio espanto. O dia emque chegou Barrabás era Quinta-Feira Santa. Vinha numa jaula indigna, coberto dos próprios excrementos e de urina, com um olhar extraviado de preso miserável e indefeso, adivinhando-se, porém, pelo porte real da cabeça e pelo tamanho do esqueleto o gigante lendário que veio a ser. Era um dia aborrecido e outonal, que em nada fazia imaginar os acontecimentos que a menina registou para serem recordados e que ocorreram durante a missa das doze, na paróquia de San Sebastián, à qual assistiu com toda a família. Em sinal de luto, os santos estavam tapados com panos roxos que as beatas sacudiam anualmente do arcaz da sacristia e, por baixo dos lençóis de luto, a corte celestial parecia um amontoado de móveis esperando mudança, sem que as velas, o incenso ou os gemidos do órgão pudessem contrastar com esse lamentável efeito. Erguiam-se vultos ameaçadores no lugar dos santos de corpo inteiro, com rostos idênticos, de expressão enjoada, com complicadas cabeleiras de cabelo de morto, rubis, pérolas, esmeraldas de vidro pintado e vestuário de nobres florentinos. O único favorecido com o loto era o padroeiro da igreja, São Sebastião, porque, na Semana Santa, reservava para os fiéis o espectáculo do seu corpo torcido numa posição indecente, atravessado por meia dúzia de flechas, escorrendo sangue e lágrimas, como um homossexual sofredor, cujas chagas, milagrosamente frescas graças ao pincel do padre Restrepo, faziam Clara estremecer de nojo. Era uma longa semana de penitência e jejum, não se jogava às cartas, não se tocava música que incitasse à luxúria e ao esquecimento, observava-se, na medida do possível, a maior tristeza e castidade, apesar de, justamente nesses dias, o aguilhão do demónio tentar com maior insistência a débil carne católica. O jejum consistia em tenros pastéis de massa folhada, saborosos guisados de legumes, fofas tortilhas e grandes queijos trazidos do campo, com que as famílias recordavam a Paixão do Senhor, tendo o cuidado de não provar o mais pequeno pedaço de carne ou de peixe, sob pena de excomunhão, como dizia, insistindo, o padre Restrepo. Ninguém se atreveria a desobedecerlhe. O sacerdote estava munido de um grande dedo incriminador para apontar os pecadores empúblico e uma língua treinada para agitar os sentimentos. – Tu, ladrão, que roubaste o dinheiro do culto! – gritava do púlpito apontando um cavalheiro que fingia preocupar-se com qualquer sujidade na lapela do casaco para esconder a cara. – Tu, desavergonhada, que te prostituis nos molhes! – e acusava Dona Ester Trueba, inválida pela artrite e beata da Senhora do Carmo, e que abria os olhos surpreendida, sem saber o significado daquela palavra nem onde ficavam os molhes. – Arrependei-vos, pecadores, carcaças imundas, indignos do sacrifício de Nosso Senhor! Jejuai! Fazei penitência! Levado pelo entusiasmo do seu zelo vocacional, o sacerdote tinha de conter-se para não desobedecer declaradamente às instruções dos superiores eclesiásticos, sacudidos por ventos de modernismo, e que se opunham ao cilicio e à flagelação. Era partidário de vencer as fraquezas da alma com uma boa chicotada na carne. Era famoso pela sua oratória de enfreada. Os fiéis seguiam-no de paróquia em paróquia, suavam ouvindo-o descrever os tormentos dos pecadores no inferno, as carnes estraçalhadas por engenhosas máquinas de tortura, os fogos eternos, os garfos que trespassavam os membros viris, os répteis asquerosos que se introduziam pelos orifícios femininos e outros suplícios que introduzia em cada sermão para espalhar o terror de Deus. O próprio Satanás era descrito até às suas mais intimas anomalias com a pronúncia galega do sacerdote, cuja missão neste mundo era sacudir as consciências dos indolentes crioulos. Severo del Valle era ateu e mação, mas tinha ambições políticas. Não podia por isso dar-se ao luxo de faltar à missa mais concorrida dos domingos e dias de festa, para que todos pudessem vê-lo. Nívea, a esposa, preferia entender-se com Deus sem auxilio de intermediários, tinha profunda desconfiança das sotainas, aborrecia-se com as descrições do céu, do purgatório e do inferno, mas acompanhava o marido nas suas ambições políticas, na esperança de que, conseguindo ele um lugar no Congresso, ela podia obter o voto feminino, pelo qual lutava fazia dez anos, sem que os seus numerosos estados de gravidez a fizessem desanimar. Nessa Quinta-Feira Santa o padre Restrepo tinha levado os ouvintes ao limite da resistência com as suas visões apocalípticas, e Nívea começou a sentir enjoos. Perguntou a si mesma se não estaria grávida de novo. Apesar das abluções com vinagre e das esponjas de fel, tinha dado à luz quinze filhos, dos quais dez restavam ainda vivos, e tinha razões para supor que já se estava acomodando à idade, porque a sua filha Clara, a mais pequena, tinha dez anos.


Parecia que, por fim, tinha acabado o ímpeto da sua assombrosa fertilidade. Fez por atribuir a sua indisposição ao momento do sermão do padre Restrepo, quando ele a apontou referindo-se aos fariseus que pretendiam legalizar os bastardos e o matrimónio civil, desarticulando a Família, a Pátria, a Propriedade e a Igreja, dando às mulheres a mesma posição que aos homens, em aberto desafio à lei de Deus, que nesse aspecto era muito precisa. Nívea e Severo ocupavam comos filhos toda a terceira fila de bancos. Clara sentava-se ao lado da mãe. Esta apertava-lhe a mão com impaciência quando o discurso do sacerdote se estendia demasiado pelos pecados da carne, porque sabia que isso levaria a pequena a imaginar aberrações que iam para lá da realidade, como era evidente pelas perguntas que fazia e a que ninguém sabia responder. Clara era muito precoce e tinha a transbordante imaginação herdada, via materna, por todas as mulheres da família. A temperatura da igreja aumentara e o cheiro penetrante das velas, do incenso e da multidão apinhada contribuiu para a fadiga de Nívea. Queria que a cerimónia terminasse de vez para regressar à frescura da sua casa, sentar-se no corredor dos fetos e saborear o refresco de orchata que a Ama preparava nos dias de festa. Olhou os filhos, os mais pequenos estavam cansados, rígidos na roupa domingueira e os mais velhos começavam a ficar distraídos. Poisou os olhos em Rosa, a mais velha das filhas vivas, e, como sempre, ficou surpreendida. A sua estranha beleza de uma qualidade perturbadora, à qual nem ela escapava, parecia fabricada de material diferente do da raça humana. Nívea soube que ela não era deste mundo ainda antes de a dar à luz porque a viu em sonhos, por isso não se surpreendeu quando a parteira deu um grito ao vê-la. Ao nascer, Rosa era branca, lisa, sem rugas, como uma boneca de louça, com o cabelo verde e os olhos amarelos, a criatura mais formosa que tinha nascido na terra desde os tempos do pecado original, como disse a parteira benzendo-se. Desde o primeiro banho, a Ama lavou-lhe o cabelo com infusão de camomila, que lhe enfraqueceu a cor, dando-lhe tonalidades de bronze velho, e punha-a nua ao sol, para fortalecer a pele, translúcida nas zonas mais delicadas do ventre e das axilas, onde se adivinhavam as veias e a textura secreta dos músculos. Aqueles passes de cigana, no entanto, não foram suficientes e depressa correu o boato que tinha nascido um anjo. Nívea esperou que as ingratas fases do crescimento dessem à sua filha algumas imperfeições, mas nada disso aconteceu, bem pelo contrário, aos dezoito anos Rosa não engordara e não lhe tinham rebentado borbulhas, mas havia acentuado, isso sim, a sua graça marítima. O tom da pele, com reflexos azulados, e o do cabelo, a lentidão dos movimentos e o caracter silencioso evocavam um habitante aquático. Tinha qualquer coisa de peixe e se tivesse uma cauda com escamas seria certamente uma sereia, mas as suas pernas punham-na no limite impreciso entre a criatura humana e o ser mitológico. Apesar de tudo, a jovem fizera uma vida quase normal, tinha um noivo e um dia havia de casar-se, passando dessa maneira a responsabilidade da sua formosura para outras mãos. Rosa inclinou a cabeça e um raio filtrou-se pelos vitrais da igreja, dando-lhe uma halo de luz ao perfil. Algumas pessoas voltaram-se para a ver e cochicharam, como frequentemente sucedia, mas Rosa parecia não dar por nada, era imune à vaidade e nesse dia estava mais ausente que de costume, imaginando novos animais para bordar na sua toalha, metade pássaros, metade mamíferos, cobertos de plumas matizadas e providos de cornos e cascos, tão gordos e comasas tão curtas que desafiavam as leis da biologia e da aerodinâmica. Raras vezes pensava no noivo, Esteban Trueba, não por falta de amor, mas por temperamento esquecedor, e porque dois anos de separação são grande ausência. Ele trabalhava nas minas do Norte. Escrevia-lhe metodicamente e Rosa respondia-lhe de vez em quando, mandando-lhe versos copiados e desenhos de flores a tintada-china, em papel de pergaminho. Através dessa correspondência, que Nívea violava regularmente, inteirou-se dos sobressaltos do oficio de mineiro, sempre ameaçado por derrocadas, perseguindo veios fugidios, pedindo créditos por conta da boa sorte, acreditando que acabaria por aparecer ummaravilhoso filão de ouro, que lhe permitiria fazer rápida fortuna e regressar para levar Rosa de braço dado ao altar, tornando-se assim o homem mais feliz do universo, como dizia sempre no fim das cartas.

Rosa, no entanto, não tinha pressa em casar-se, quase esquecera o único beijo que haviamtrocado na despedida e também a cor dos olhos desse noivo tenaz. Por influência das novelas românticas, que eram a sua única leitura, gostava de o imaginar com botas de cabedal, a pele queimada pelos ventos do deserto, cavando a terra em busca de tesouros de piratas, dobrões espanhóis e jóias dos Incas, e era inútil que Nívea a tentasse convencer de que as riquezas das minas estavam metidas nas pedras, porque para Rosa era impossível que Esteban Trueba recolhesse toneladas de penhascos na esperança de que, ao submetê-los a iníquos processos crematórios, cuspissem um grama de ouro. Entretanto, esperava por ele sem se aborrecer, imperturbável na gigantesca tarefa que tinha imposto a si própria: bordar a toalha maior do mundo. Começou comcães, gatos e borboletas, mas logo a fantasia se apoderou do seu trabalho e foi surgindo um paraíso de animais impossíveis que nasciam da agulha em frente dos olhos preocupados do pai. Severo considerava que era tempo da filha sair da modorra e de ter os pés assentes na terra, de aprender algumas tarefas domésticas e preparar-se para o matrimónio, mas Nívea não compartilhava dessa inquietação. Preferia não atormentar a filha com exigências terrenas, pois pressentia que Rosa era umser celestial, que não tinha sido feito para durar muito tempo no bulício grosseiro deste mundo, por isso deixava-a em paz com os seus fios de bordar e não comentava aquele jardim zoológico de pesadelo. Uma barba do espartilho de Nívea quebrou-se, cravando-se-lhe uma ponta entre as costelas. Sentia-se sufocar dentro do vestido de veludo azul, com a gola de renda demasiado alta, as mangas muito estreitas, a cintura tão apertada que, quando tirava o cinto, passava uma boa meia hora comretorcidelas de barriga até as tripas se acomodarem na sua posição normal. Tinham discutido isso muitas vezes, ela e as amigas sufragistas, e haviam chegado à conclusão de que, enquanto as mulheres não encurtassem as saias e o cabelo e não despissem os saiotes, tudo ficava na mesma, mesmo que pudessem estudar medicina ou tivessem direito a voto, porque de modo algum teriam coragem de o fazer; ela própria não tinha coragem para ser das primeiras a abandonar a moda. Notou que a voz da Galiza tinha deixado de martelar-lhe o cérebro. Estava numa dessas grandes pausas do sermão que o padre empregava com frequência, por conhecer bem o efeito de um silêncio incómodo. Os seus olhos ardentes aproveitavam esses momentos para observar os paroquianos um por um. Nívea largou a mão de Clara e procurou um lenço na manga para enxugar uma gota de suor que lhe escorria pelo pescoço. O silêncio tornou-se pesado, o tempo pareceu parar dentro da igreja, mas ninguém se atreveu a tossir ou a ajeitar-se no banco, para não atrair a atenção do padre Restrepo. As suas últimas frases ainda vibravam entre as colunas. E nesse momento, como Nívea recordou anos mais tarde, no meio da ansiedade e do silêncio, ouviu-se com toda a nitidez a voz da pequena Clara: – Pst! Padre Restrepo! Se o conto do inferno for pura mentira chateamo-nos… O dedo indicador do jesuíta, que já estava no ar para assinalar novos suplícios, ficou suspenso como um pára-raios sobre a sua cabeça. As pessoas deixaram de respirar e os que estavam cabeceando acordaram. Os esposos del Valle foram os primeiros a reagir ao sentir que o pânico os invadia e ao ver que os filhos começavam a agitar-se nervosos. Severo compreendeu que devia actuar antes que rebentasse o riso geral ou se desencadeasse algum cataclismo celestial. Pegou na mulher pelo braço e em Clara pelo pescoço e saiu arrastando-as a grandes passadas, seguido pelos outros filhos, que se precipitaram em tropel para a porta. Conseguiram sair antes que o sacerdote pudesse invocar um raio que os transformasse em estátuas de sal, mas do umbral da porta ouviram a sua terrível voz de arcanjo ofendido: – Endemoninhada! Soberba endemoninhada! Estas palavras do padre Restrepo permaneceram na memória da família com o peso de umdiagnóstico e, nos anos seguintes, tiveram ocasião de as recordar variadas vezes. A única que não voltou a pensar nelas foi a própria Clara, que se limitou a anotá-las no seu diário para logo as esquecer. Os pais, em contrapartida, não puderam ignorá-las, apesar de concordarem que a possessão demoníaca e a soberbia eram dois pecados demasiado grandes para uma criança tão pequena. Temiam a maldição do povo e o fanatismo do padre Restrepo. Até esse dia, não tinham posto nome às excentricidades da filha mais nova nem as haviam relacionado com influências satânicas.

Tomavam-nas como uma característica da menina, como o coxear era a de Luís e a beleza a de Rosa. Os poderes mentais de Clara não causavam incómodo a ninguém e não produziamdesordem de maior; manifestavam-se quase sempre em assuntos de pouca importância e na estrita intimidade do lar. Algumas vezes, à hora da refeição, quando estavam todos reunidos na grande sala de jantar da casa, sentados em absoluta ordem de dignidade e hierarquia, o saleiro começava a vibrar e deslocava-se depois pela mesa fora entre copos e pratos, sem ter havido para isso nenhuma fonte de energia conhecida nem truque de ilusionista. Nívea dava um puxão às tranças de Clara e comesse sistema conseguia que a filha abandonasse a distracção lunática e devolvesse a normalidade ao saleiro, que acabava por recuperar a imobilidade. Os irmãos tinham-se organizado para que, no caso de haver visitas, aquele que estivesse mais perto deter com a mão o que estivesse andando sobre a mesa antes que os estranhos dessem conta disso e apanhassem um susto. A família continuava a comer sem comentários. Também se tinham habituado aos presságios da irmã mais nova. Ela anunciava os tremores de terra com alguma antecipação, o que resultava muito útil naquele pais de catástrofes, porque dava tempo de pôr a salvo a baixela e deixar ao alcance da mão as pantufas para sair noite dentro. Aos seis anos Clara previu que o cavalo havia de deixar cair Luís, este negou-se a dar-lhe ouvidos e desde então tinha um quadril deslocado. Com o tempo, encurtou-se-lhe a perna esquerda e teve de usar um sapato especial com uma grande sola que ele próprio fabricava. Nessa ocasião Nívea inquietou-se, mas a Ama tranquilizou-a dizendo que há muitos meninos que voam como as moscas, que adivinham os sonhos e falam com as almas, mas que tudo isso lhes passa quando perdem a inocência. – Nenhum chega a grande nesse estado – explicou. – Espere que à menina lhe chegue a demonstração e vai ver que perde a mania de andar a mover os móveis e a anunciar desgraças. A Ama preferia Clara. Tinha-a ajudado a nascer e era a única pessoa que compreendia a natureza extravagante da menina. Quando Clara saiu do ventre da mãe, a Ama embalou-a, lavou-a e desde esse momento amou desesperadamente a frágil criança com os pulmões cheios de expectoração, sempre à beira de perder o alento e pôr-se roxa, que tinha feito reviver com o calor dos seus grandes peitos quando lhe faltava o ar, porque sabia que era esse o único remédio para a asma, muito mais eficaz que os folhados aguardentados do doutor Cuevas. Nessa Quinta-Feira Santa, Severo passeava pela sala preocupado com o escândalo que a filha tinha dado na missa. Argumentava que só um fanático como o padre Restrepo podia acreditar em possessos em pleno século vinte, o século das luzes, da ciência e da técnica, no qual o demónio tinha ficado definitivamente desprestigiado. Nívea interrom-peu-o para dizer que não era essa a questão. O que era grave é que, se as proezas da filha transcendiam as paredes da casa e o padre começava a investigar, toda a gente iria saber. – Vai começar a chegar gente para a ver como se ela fosse um fenómeno – disse Nívea. – E o Partido Liberal vai para o caralho – rematou Severo, que via o prejuízo que podia ser para a sua carreira política ter uma possessa na família. Estavam nisto quando chegou a Ama arrastando as chinelas, com o frufru de saiotes engomados, a anunciar que no pátio estavam uns homens a descarregar um morto. Assim era. Entraram com uma carraça de quatro cavalos, ocupando todo o primeiro pátio, pisando as camélias e sujando de trampa o empedrado reluzente, num turbilhão de pó, num empinar de cavalos e maldições de homens supersticiosos que faziam gestos contra o mau olhado.

Traziam o cadáver do tio Marcos com toda a sua bagagem. Aquele tumulto era dirigido por um homenzinho melífluo, vestido de negro, de labita e chapéu demasiado grande, que iniciou um discurso solene para explicar as circunstâncias do caso, mas que foi brutalmente interrompido por Nívea, que se lançou sobre o ataúde empoeirado que continha os restos do seu irmão mais querido. Nívea gritava que abrissem a tampa, para o ver com os próprios olhos. Já em ocasião anterior havia sido encarregada de o enterrar, e por isso mesmo tinha o direito de duvidar que dessa vez fosse verdadeira a sua morte. Os seus gritos atraíram a multidão de criados da casa e todos os filhos, que acudiram correndo ao ouvir o nome do tio pronunciado comlamentações de luto. Havia um par de anos que Clara não via o tio Marcos, mas recordava-o bem. Era a única imagemperfeitamente nítida da sua infância e para a evocar não necessitava sequer de consultar o daguerrótipo do salão, onde ele aparecia vestido de explorador, apoiado a uma caçadeira de dois canos de modelo antigo, o pé direito sobre um tigre da Malásia, na mesma atitude triunfante que ela tinha visto na Virgem do altar-mor pisando o demónio vencido entre nuvens de gesso e anjos pálidos. A Clara bastava fechar os olhos para ver o tio em carne e osso, curtido pelas inclemências de todos os climas do planeta, magro, com bigodes de flibusteiro, entre os quais assomava um estranho sorriso com dentes de tubarão. Parecia impossível que ele estivesse naquele caixão negro no meio do pátio. Em cada visita que Marcos fez a casa da irmã Nívea, ficou por vários meses, dando alegria aos sobrinhos, especialmente a Clara, e provocando uma tempestade na qual a ordem doméstica perdia os horizontes. A casa atafulhava-se de baús, animais embalsamados, lanças de índios, bagagens de marinheiro. Por todos os lados se tropeçava em utensílios indescritíveis, e apareciam bichos nunca vistos que tinham viajado desde terras remotas para acabarem esmagados debaixo da vassoura implacável da Ama em qualquer canto da casa. As maneiras do tio Marcos eram as de um canibal, como dizia Severo. Passava a noite fazendo movimentos incompreensíveis na sala. Soube-se mais tarde que eram exercícios destinados a aperfeiçoar o domínio da mente sobre o corpo e a melhorar a digestão. Fazia experiências de alquimia na cozinha, enchendo toda a casa de fumaradas fétidas e arruinando as panelas com substancias sólidas que não podiam soltar-se do fundo. Enquanto os outros tentavam dormir, arrastava as malas pelos corredores, ensaiava sons agudos com instrumentos selvagens e ensinava espanhol a um papagaio cuja língua materna era de origem amazónica. De dia, dormia numa rede que tinha esticado entre duas colunas do corredor, cobrindo-se apenas com uma tanga que punha Severo de péssimo humor, mas que Nívea desculpava porque Marcos tinha-a convencido de que era assim que pregava o Nazareno. Clara recordava perfeitamente, apesar de ser muito pequena na altura, a primeira vez que o tio Marcos chegou a casa no regresso de uma das suas viagens. Instalou-se como se fosse para sempre. Ao fim de pouco tempo, aborrecido de apresentar-se em tertúlias de senhoras em que a dona da casa tocava piano, de jogar as cartas e iludir os constrangimentos de todos os seus parentes para que assentasse cabeça e começasse a trabalhar como ajudante no escritório de advogado de Severo del Valle, comprou um realejo e percorreu as ruas coma intenção de seduzir a prima Antonieta e, ao mesmo tempo, alegrar o público com a sua música de manivela. A máquina não passava de um caixote manhoso provido de rodas, mas ele pintou-a com motivos de marinheiros e pôs-lhe uma chaminé falsa de barco. Ficou com aspecto de fogão a carvão. O realejo tocava uma marcha militar e uma valsa alternadamente e entre cada volta de manivela o papagaio, que tinha aprendido espanhol, apesar de manter o sotaque estrangeiro, atraía o público com gritos agudos. Tirava também com o bico papelitos de uma caixa para vender a sorte aos curiosos.

Os papéis cor-de-rosa, verdes e azuis eram tão engenhosos que indicavam sempre os mais secretos desejos do cliente. Além dos papéis da sorte, vendia bolinhas de serradura para divertir as crianças e pós contra a impotência, de que falava a meia voz com os transeuntes afectados por esse mal. A ideia do realejo surgiu como um último e desesperado recurso para atrair a prima Antonieta, depois de falharem outras formas mais convencionais de a cortejar. Pensou que nenhuma mulher de perfeito juízo podia permanecer impassível perante uma serenata de realejo. Foi isso que fez. Colocou-se debaixo da janela dela ao entardecer, tocando a sua marcha militar e a sua valsa no momento em que ela tomava chá com um grupo de amigas. Antonieta não se deu por achada até que o papagaio começou a chamá-la pelo seu nome de baptismo e então chegou à janela. A sua reacção não foi a que esperava o enamorado. As amigas encarregaram-se de espalhar a noticia por todos os salões da cidade e, no dia seguinte, as pessoas começavam a passear pelas ruas centrais esperando ver com os próprios olhos o cunhado de Severo del Valle tocando realejo e a vender bolas de serradura com um papagaio barulhento, simplesmente pelo prazer de tirar a prova de que também nas melhores famílias havia boas razões para ter vergonha. Em face da tempestade familiar, Marcos teve de desistir do realejo e escolher métodos menos conspícuos para atrair a prima Antonieta. Marcos não desistiu de a assediar. De qualquer modo, no fim não teve êxito, porque a jovem casou-se dum dia para o outro com um diplomata vinte anos mais velho, que a levou para um pais tropical cujo nome ninguém conseguiu recordar, mas que sugeria negritude, bananas e palmeiras, onde ela ultrapassou a recordação do pretendente que arruinara os seus dezassete anos com uma marcha militar e uma valsa. Marcos ficou abalado durante dois ou três dias, ao fim dos quais anunciou que nunca havia de casar e que iria dar a volta ao mundo. Vendeu o realejo a um cego e deixou o papagaio de herança a Clara, mas a Ama envenenou-o secretamente com uma boa dose de óleo de fígado de bacalhau porque não podia suportar o seu olhar lascivo, as pulgas e os gritos desregrados oferecendo papelinhos para a sorte, bolas de serradura e pós para a impotência. Foi a mais longa viagem de Marcos. Regressou com um carregamento de enormes caixas que se armazenaram no último pátio, entre o galinheiro e a casa da lenha, até acabar o Inverno. No começo da Primavera, fê-las passar ao Parque dos Desfiles, um enorme descampado onde se juntava o povo para ver marchar a tropa durante as festas da Pátria, com um passo de ganso que tinham copiado dos Prussianos. Ao abrir as caixas, viu-se que tinham lá dentro peças soltas de madeira, metal e tela pintada. Marcos passou duas semanas juntando as partes de acordo com as instruções de um manual em inglês, que ele decifrou com uma imaginação invencível e um pequeno dicionário. Quando o trabalho ficou pronto, surgiu um pássaro de dimensões pré-históricas, com um rosto de águia furiosa pintado na parte da frente, asas móveis e um hélice no lombo.

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