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A Casa Redonda – Louise Erdrich

Pequenas árvores atacaram as fundações da casa dos meus pais. Não passavam de mudas, com uma ou duas folhas rijas e saudáveis. Mesmo assim, flexíveis, conseguiram se espremer pelas rachaduras entre as lajotas marrons que decoravam os blocos de cimento. Cresceram por dentro da parede fora de vista e era difícil soltá-las. Meu pai passou a mão pela testa e amaldiçoou-lhes a resistência. Eu usava um velho forcado para ervas daninhas de cabo partido; ele, um atiçador de lareira que na certa mais atrapalhava do que ajudava. Enquanto cutucava às cegas nos locais onde sentia que as raízes pudessem ter penetrado, seguramente abria buracos apropriados na argamassa para as sementes do próximo ano. Toda vez que eu conseguia arrancar uma pequena muda, colocava-a como um troféu do meu lado, na calçada que circundava a casa. Havia brotos de sorbus, de olmo, de bordo, de negundo, até mesmo uma catalpa já bem crescida, que meu pai pôs num pote de sorvete e regou, pensando que poderia achar um lugar para onde transplantá-la. Achei espantoso que as mudas de árvores tivessem sobrevivido ao inverno de Dakota do Norte. Provavelmente haviam recebido água, mas pouca luz e umas migalhas de terra. Mesmo assim, cada semente tinha conseguido enfiar uma ponta de raiz lá no fundo e lançar um caule para fora. Meu pai se levantou, alongando as costas doloridas. Já chega, disse, embora fosse umperfeccionista. Mas eu não queria parar e, depois que ele entrou para ligar para a minha mãe, que tinha ido ao escritório buscar uma pasta, continuei a arrancar as raízes ocultas. Ele não voltou e achei que tinha ido tirar uma soneca, como fazia de vez em quando. Era de se imaginar que eu fosse parar, um garoto de treze anos teria coisa melhor a fazer, mas pelo contrário. Enquanto a tarde avançava e tudo na reserva silenciava e se aquietava, me parecia cada vez mais importante que cada uma daquelas invasoras fosse removida até a ponta da raiz, onde todo o crescimento vital se concentrava. E também me parecia importante fazer um trabalho meticuloso, ao contrário de muitas das minhas tarefas relaxadas. Mesmo agora, me admiro com a intensidade da minha concentração. Eu cravava o garfo de ferro o mais junto possível da base do broto. Cada arbusto exigia sua própria estratégia. Era quase impossível não romper a planta antes de arrancar suas raízes inteiras do teimoso esconderijo. Por fim, desisti, entrei silenciosamente no escritório do meu pai. Peguei o livro de direito que ele chamava de A Bíblia.


O Manual da legislação indígena federal, de Felix S. Cohen, que meu pai ganhou do pai dele; a encadernação vermelho-ferrugem estava arranhada, a lombada grossa tinha rachaduras e em todas as páginas havia anotações manuscritas. Eu estava tentando me acostumar coma linguagem antiga e as constantes notas de rodapé. Meu pai, ou meu avô, tinha colocado um ponto de exclamação na página 38, ao lado da frase em itálico que naturalmente também me interessou: Estados Unidos v. Quarenta e Três Galões de Uísque. Suponho que um deles tenha achado esse título ridículo, como eu achei. Mesmo assim, eu vinha amadurecendo a ideia, surgida de outros casos e reforçada por esse, de que nossos tratados com o governo eram como tratados entre nações estrangeiras. De que a grandeza e o poder de que meu Mooshum falava não haviam se perdido totalmente, uma vez que, ao menos até onde eu imaginava saber, a lei ainda os protegia. Eu estava lendo e bebendo um copo de água gelada na cozinha quando meu pai chegou de sua soneca, desorientado e bocejando. Apesar de toda a sua importância, o Manual de Cohen não era umlivro pesado e, quando ele apareceu, rapidamente o coloquei no colo, sob a mesa. Meu pai lambeu os lábios secos e olhou ao redor, procurando o cheiro de comida, talvez, o bater das panelas ou o tilintar dos copos, ou passos. O que ele disse então me surpreendeu, não pelas palavras em si, que não tinham nada demais. Cadê sua mãe? Sua voz saiu seca e rouca. Coloquei o livro em outra cadeira, levantei-me e lhe estendi o copo d’água. Ele bebeu de um gole. Não repetiu as palavras, mas nos olhamos de um jeito que me pareceu um tanto adulto, como se ele soubesse que, ao ler seu livro de leis, eu me inseria em seu mundo. Seu olhar se manteve até eu baixar os olhos. Eu acabara de fazer treze anos. Duas semanas antes, eu tinha doze. No trabalho?, respondi, para cortar seu olhar. Achei que ele soubesse onde ela estava, que tivesse obtido a informação quando ligou para ela. Eu sabia que ela não estava no trabalho. Ela havia atendido uma ligação e me disse que estava indo até o escritório buscar uma ou duas pastas. Especialista em registros tribais, provavelmente estava lidando com alguma petição que lhe haviamdesignado. Ela era chefe de um departamento de uma pessoa só.

Era domingo — por isso a pressa. A suspensão das tardes de domingo. Mesmo que tivesse ido visitar sua irmã Clemence em casa, já deveria ter voltado para começar a preparar o jantar. Nós dois sabíamos disso. As mulheres não se dão conta de como os homens confiam na regularidade de seus hábitos. Nós absorvemos suas idas e vindas em nossos corpos, seus ritmos em nossos ossos. Nosso pulso é regulado pelo delas e, como em todas as tardes de fim de semana, esperávamos por ela para começar a contagem até o anoitecer. E assim, como se pode perceber, a ausência dela fazia o tempo parar. O que devemos fazer, falamos ao mesmo tempo, o que, novamente, foi desagradável. Mas ao menos, ao ver que eu estava preocupado, meu pai tomou a iniciativa. Vamos encontrá-la, ele disse. E no momento em que eu vestia o casaco, já me sentia aliviado por ele ser tão positivo — encontrá-la, não apenas ir atrás dela ou procurá-la. Íamos sair e encontrá-la. O pneu do carro furou, ele afirmou. Provavelmente ela tinha dado carona para alguém e um pneu havia furado. Aquelas porcarias de estradas. Descemos, pegamos o carro do seu tio emprestado e vamos encontrá-la. Encontrá-la, de novo. Caminhei ao lado dele. Uma vez em ação, ele era rápido e ainda poderoso. Tinha se formado em direito e depois se tornou juiz, e também se casou tarde. Eu fui uma surpresa também para minha mãe. Meu velho Mooshum me chamava de Ops, apelido que ele me deu e, infelizmente, o resto da família também achou engraçado. Então, às vezes, ainda hoje sou chamado de Ops. Descemos a ladeira até a casa dos meus tios — uma casa verde-clara, financiada pelo governo, à sombra de um algodoeiro e adornada por três pequenos abetos.

Mooshum morava lá também, habitando uma névoa fora do tempo. Todos nos orgulhávamos de sua superlongevidade. Era velho, mas ainda ativo com os cuidados do jardim. Todos os dias, após suas atividades ao ar livre, deitavase numa cama de armar improvisada sob a janela, uma pilha de gravetos, cochilando levemente, não raro soltando um ronco seco, provavelmente uma risada. Quando meu pai disse para Clemence e Edward que mamãe tinha furado o pneu e que precisávamos do carro deles — como se de fato soubesse desse furo mítico —, quase achei graça. Ele parecia ter se convencido da verdade de sua especulação. Saímos de ré pelo caminho de cascalho no Chevrolet do meu tio e fomos para os escritórios tribais. Demos a volta pelo estacionamento. Vazio. Janelas escuras. Ao retornar à entrada, viramos à direita. Ela foi para Hoopdance, aposto, disse meu pai. Precisou de alguma coisa para o jantar. Talvez esteja preparando uma surpresa para a gente, Joe. Sou o segundo Antone Bazil Coutts, mas brigo com qualquer um que coloque um júnior no final do meu nome. Ou um número. Ou que me chame de Bazil. Decidi que eu era Joe aos seis anos. Aos oito, me dei conta de que tinha escolhido o nome do meu bisavô, Joseph. Eu o conheço principalmente como o autor das anotações nos livros com páginas amareladas e capas de couro ressecadas. Ele deixara de herança várias prateleiras com essas antiguidades. Eu me ressentia por não ter um nome novo, que me distinguisse da tediosa linhagem dos Coutts — responsáveis, rígidos, homens sempre prontos para atos heroicos, que bebiam em silêncio, fumavam charutos de vez em quando, dirigiamcarros discretos, e só demonstravam sua determinação ao casar com mulheres mais inteligentes. Eu me via diferente, ainda que não soubesse como. Mesmo naquele momento, tentando conter a ansiedade enquanto procurávamos minha mãe, que fora ao mercado — só isso, com certeza, para comprar alguma coisa —, tinha consciência de que aquilo que estava acontecendo pertencia à natureza das coisas incomuns. Uma mãe desaparecida.

Algo que não acontecia ao filho de um juiz, mesmo de um que morasse numa reserva. De maneira vaga, esperava que alguma coisa fosse acontecer. Eu era um garoto do tipo que passava as tardes de domingo arrancando mudas de árvores das fundações da casa dos pais. Eu deveria aceitar o inevitável, era o tipo de pessoa que viria a ser no final, mas continuava a resistir à ideia. Mas, quando digo que esperava por alguma coisa, não significava algo ruim, apenas alguma coisa. Uma ocorrência rara. Uma visão. Uma vitória no bingo, ainda que domingo não fosse dia de bingo e jogar bingo fosse algo completamente em desacordo como caráter da minha mãe. Mas era o que eu queria, alguma coisa fora do comum. Apenas isso. A meio caminho de Hoopdance, ocorreu-me que o mercado fechava aos domingos. Claro que está fechado! Meu pai empurrou o queixo para a frente e apertou as mãos no volante. Ele tinha um perfil que lembrava um índio num cartaz de filme, e um romano numa moeda. Havia umestoicismo clássico no nariz e mandíbula pesados. Continuou dirigindo porque, disse, ela tambémpode ter esquecido que era domingo. E foi quando passamos por ela. Lá! Ela vinha em disparada pela outra pista, a toda, no limite da velocidade, ansiosa para voltar para nós, em casa. Mas nós estávamos ali! Rimos da cara séria dela ao fazermos um U no meio da pista e a seguimos, comendo sua poeira. Ela está louca, riu meu pai, muito aliviado. Viu, eu te disse. Ela esqueceu. Foi até o verdureiro e esqueceu que estava fechado. Furiosa agora por ter desperdiçado combustível. Ah, Geraldine! Lá estava a alegria, a adoração, a surpresa em sua voz quando pronunciou aquelas palavras. Ah, Geraldine! Só por essas duas palavras, ficava claro que ele era e sempre fora apaixonado por minha mãe.

Jamais deixara de ser grato por ela ter se casado com ele e, logo depois, ter lhe dado um filho, quando já acreditava estar no fim da linha. Ah, Geraldine. Balançou a cabeça, sorrindo enquanto dirigia, e tudo estava bem, mais do que bem. Agora podíamos admitir que ficáramos preocupados com a ausência incomum de minha mãe. Podíamos ser tomados pelo frescor renovado da revelação de como era importante para nós a sacralidade de nossa pequena rotina. Apesar da imagem selvagem que eu via no espelho, em meus pensamentos eu valorizava esses prazeres comuns. Portanto, era a nossa vez agora de deixá-la preocupada. Só um pouquinho, disse meu pai, só para ela provar do próprio veneno. Levamos o carro calmamente de volta para a casa de Clemence e subimos o morro, prevendo o questionamento indignado de minha mãe, Onde vocês estavam? Eu já podia ver as mãos dela fechadas na cintura. O sorriso forçando o caminho para sair de trás do cenho franzido. Ela daria risada quando ouvisse a história. Subimos pelo caminho de terra da entrada. Ao longo, numa fileira ordenada, mamãe havia plantado mudas de amor-perfeito que ela cultivara em caixas de leite. Ela as transplantara cedo. A única flor capaz de sobreviver à geada. Ao subirmos pelo caminho, vimos que ela ainda estava no carro. Sentada no banco do motorista diante do painel branco da porta da garagem. Meu pai saiu correndo. Também percebi pela postura de seu corpo — um tanto contraído, rígido — algo errado. Quando alcançou o carro, ele abriu a porta do lado do motorista. As mãos estavam agarradas à direção e ela olhava fixamente para a frente, tal como quando passou por nós na direção oposta, na estrada para Hoopdance. Tínhamos visto esse olhar fixo e achamos graça. Ela está zangada por ter desperdiçado gasolina! Eu estava logo atrás do meu pai. Mesmo naquele momento, tomando cuidado para não pisar nas folhas e botões desenhados de amor-perfeito. Ele pôs as mãos sobre as dela e cuidadosamente soltou seus dedos do volante.

Amparando-a pelos cotovelos, levantou-a para fora do carro e segurou-a enquanto ela se virava em sua direção, ainda curvada na forma do assento. Ela caiu contra ele, olhando sem me ver. Havia vômito na parte da frente do vestido e, encharcando a saia e o tapete cinza do carro, seu sangue escuro. Vá para a casa da Clemence, disse meu pai. Vá e diga que estou levando sua mãe direto para a emergência em Hoopdance. Diga-lhes para virem atrás. Com uma mão, ele abriu a porta traseira e, como se estivessem dançando de um jeito horrível, manobrou minha mãe para a beira do assento e deitou-a muito devagar. Ajudou-a a ficar de lado. Ela estava silenciosa, mas agora umedecia os lábios rachados e ensanguentados com a ponta da língua. Eu a vi piscar, um leve franzir. Seu rosto começava a inchar. Dei a volta no carro e entrei junto com ela. Levantei sua cabeça e apoiei-a na minha perna. Sentei-me com ela, passando meu braço pelo seu ombro. Ela vibrava com um tremor contínuo, como se um botão tivesse sido ligado lá dentro. Emanava um cheiro forte, de vômito e de alguma outra coisa, parecia gasolina ou querosene. Vou deixar você lá, disse meu pai, dando a ré, os pneus cantando. Não, eu também vou. Tenho que segurá-la. A gente telefona do hospital. Eu quase nunca tinha desafiado meu pai, em palavras ou atos. Mas aquilo nem sequer foi registrado entre nós. Já tínhamos trocado aquele olhar, estranho, como entre dois homens adultos, e antes eu não estava pronto. O que não importava. Eu segurava minha mãe com firmeza agora, no banco traseiro do carro.

O sangue dela estava me cobrindo. Peguei a manta xadrez que ficava emcima da tampa do bagageiro, sob a janela de trás. Ela tremia tanto que tive medo de que fosse se desfazer. Depressa, pai. Certo, respondeu ele. E saímos em disparada. Ele dirigiu a mais de cento e cinquenta por hora. Quase voando. Meu pai tinha uma voz trovejante; diziam que era algo que ele desenvolvera. Não era uma coisa da juventude, algo necessário para uma sala de tribunal. A voz dele realmente trovejou e tomou conta de toda a entrada da emergência. Assim que os enfermeiros colocaram minha mãe numa maca, meu pai mandou que eu ligasse para Clemence. E então, esperar. Agora que sua ira tomara conta de tudo ao redor, ardente e límpida, eu me sentia melhor. O que quer que tivesse ocorrido, seria consertado. Devido à sua fúria. O que era uma coisa rara, e que gerava resultados. Ele segurou a mão de mamãe enquanto a levavam para o ambulatório de emergência. As portas se fecharam atrás deles. Sentei numa cadeira plástica cor de laranja. Uma grávida magricela tinha passado pela porta aberta do carro, olhando para minha mãe, observando tudo antes de se registrar. Ela despencou numa cadeira ao lado de uma velha discreta, na minha frente, e pegou uma revista People antiga. Vocês, índios, não têm o hospital de vocês lá, não? Não estão construindo um novo? A emergência está sendo reformada, respondi. Ainda, disse ela. Ainda o quê?, usei um tom de voz cortante e sarcástico.

Eu nunca fui como tantos outros garotos índios, que olhavam para baixo em silêncio, engolindo a raiva sem dizer nada. Minha mãe me ensinara outra coisa. A mulher grávida franziu os lábios e voltou a olhar para a revista. A velha tricotava o polegar de uma luva. Fui até o telefone pago, mas não tinha dinheiro. Fui até o balcão da enfermagem e pedi para usar o telefone. Estávamos próximos o bastante para a chamada ser local, e ela me deixou ligar. Mas ninguém atendeu. Na mesma hora percebi que minha tia levara Edward para a adoração do sacramento, o que os fazia sair de casa nas noites de domingo. Ele dizia que, enquanto Clemence adorava o sacramento, ele meditava sobre como era possível terem os seres humanos evoluído dos macacos só para se sentar em torno de um biscoito redondo e branco. Tio Edward era professor de Ciências. Voltei a sentar na sala de espera, o mais longe possível da grávida, mas a sala era muito pequena, então não era longe o bastante. Ela folheava a revista. A Cher estava na capa. Dava para ler o que estava escrito ao lado do queixo dela: Ela fez de Feitiço da Lua um megassucesso, tem um amante de 23 anos e é durona a ponto de dizer “se mexer comigo eu te mato”. Mas Cher não parecia durona. Parecia mais uma boneca de plástico pega de surpresa. A mulher esquelética e barriguda espiava Cher e falava com a senhora do tricô. Parece que aquela infeliz sofreu um aborto, ou talvez — disse baixando a voz — tenha sido estuprada. A mulher olhou para mim e levantou os lábios sobre os dentes de coelho. Seu cabelo amarelo desbotado agitou-se. Olhei diretamente de volta, dentro de seus olhos castanhos sem pestanas. Então fiz algo estranho, por instinto. Fui até ela e tirei a revista de suas mãos. Ainda olhando para ela, arranquei a capa e soltei o resto da revista.

Rasguei de novo. As sobrancelhas idênticas de Cher foram separadas. A mulher do tricô apertou os lábios, contando os pontos. Devolvi a capa e a mulher aceitou os pedaços. Mas de repente lamentei pela Cher. O que ela havia feito contra mim? Levanteime e saí porta afora. Fiquei do lado de fora. Dava para ouvir a voz da mulher, estridente, triunfante, reclamando com a enfermeira. O sol já havia quase se posto. O ar esfriara, e com a escuridão fui tomado por uma friagem oculta. Pulei para cima e para baixo e sacudi os braços. Nada me importava. Não voltaria lá para dentro enquanto aquela mulher não fosse embora, ou até que meu pai saísse e me dissesse que mamãe estava bem. Não conseguia parar de pensar no que aquela mulher dissera. Aquelas duas palavras ficaram cravadas na minha mente, como fora a intenção da mulher. Aborto. Uma palavra que eu não compreendia totalmente, mas sabia que tinha a ver com bebês. O que eu sabia ser impossível. Minha mãe havia me dito, seis anos antes, quando eu a chateava pedindo um irmão, que o médico deixara claro que, depois de mim, ela não poderia mais engravidar. Não podia acontecer e pronto. Isso me deixava com a outra palavra. Algum tempo depois, vi uma enfermeira levar a mulher grávida de volta pelas portas da emergência. Torcia para que não a colocassem em nenhum lugar próximo à minha mãe. Entrei e voltei a ligar para a minha tia, que disse que deixaria Edward cuidando de Mooshum e viria direto para o hospital. Ela também me perguntou o que tinha acontecido, o que estava errado.

Mamãe está sangrando, respondi. Minha garganta fechou e não consegui falar mais nada. Ela está ferida? Algum acidente? Consegui soltar que não sabia e Clemence desligou. Uma enfermeira com cara de paisagem se aproximou e me mandou ir para junto de minha mãe. A enfermeira desaprovava que minha mãe tivesse me chamado. Havia insistido, disse ela. Eu queria ir correndo, mas segui a enfermeira por umcorredor iluminado, para um quarto sem janelas com uma fileira de armários de metal com portas de vidro verde. O quarto estava escurecido e mamãe vestia um fino avental hospitalar. Um lençol fora enrolado em suas pernas. Não havia mais sangue, em lugar nenhum. Papai estava em pé junto à cabeceira da cama, a mão apoiada no alto do encosto de metal. A princípio, não olhei para ele, apenas para ela. Minha mãe era uma mulher bonita — isso é algo que eu sempre soubera. Um fato incontestável dentro da família, entre estranhos. Ela e Clemence tinham uma pele café com leite e cachos negros e brilhantes. Esbeltas, mesmo depois dos filhos. Calmas e diretas, com olhos dominantes e lábios de estrelas de cinema. Quando tomadas pelo riso, perdiam toda a dignidade, e engasgavam, fungavam, arrotavam, assobiavam e até mesmo peidavam, o que as deixava ainda mais histéricas. Normalmente, provocavam acessos mútuos, mas às vezes meu pai também as fazia perder o controle. Mesmo nessas horas, continuavam belas. Agora eu via o rosto da minha mãe inchado, com marcas e retorcido de forma grotesca. Ela espiava através das fendas entre a carne intumescida das pálpebras. O que aconteceu?, perguntei estupidamente. Ela não respondeu. As lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos.

Ela as secou com um pulso enrolado em gaze. Estou bem, Joe. Olhe para mim. Está vendo? E eu olhei para ela. Mas ela não estava bem. Havia marcas de golpes e um horrível desequilíbrio. A pele tinha perdido a tonalidade quente usual. Estava toda cinza. Os lábios rachados, com sangue seco. A enfermeira voltou e levantou a ponta da cama com uma manivela. Colocou outro cobertor sobre ela. Baixei a cabeça e me inclinei para ela. Tentei acariciar seu pulso coberto e os dedos frios e secos. Com um grito, ela afastou bruscamente a mão, como se eu a tivesse ferido. Ficou rígida e fechou os olhos. O gesto me deixou devastado. Levantei os olhos para meu pai e ele fez um gesto para que eu me aproximasse dele. Passou o braço ao meu redor e caminhou comigo para fora do quarto. Ela não está bem, eu disse. Ele olhou para o relógio de pulso e de volta para mim. Seu rosto registrava a expressão de ira latente de um homem que não conseguia pensar bastante rápido. Ela não está bem. Falei como se lhe dissesse uma verdade urgente. E, por um instante, achei que ele fosse quebrar. Pude perceber algo subindo de dentro dele, mas ele conseguiu se dominar, respirou fundo e se recompôs.

Joe. Olhava de um jeito estranho para o relógio de novo. Joe, disse ele. Mamãe foi atacada. Estávamos no saguão, juntos sob o zumbido das luzes fluorescentes irregulares. Falei a primeira coisa que me ocorreu. Quem atacou ela? Que pessoa atacou ela? Absurdamente, ambos nos demos conta de que a resposta usual do meu pai seria corrigir minha gramática. Olhamos um para o outro e ele não disse nada. Meu pai tinha a cabeça, o pescoço e os ombros de um homem alto e poderoso, mas de resto era perfeitamente comum. Até mesmo um pouco desajeitado e flácido. Pensando bem, é um bom físico para um juiz. Paira imponente, sentado em sua cadeira no tribunal, mas, ao despachar no escritório (um depósito de vassouras melhorado), não parece ameaçador e desperta a confiança das pessoas. Além de tonitruante, sua voz também é capaz de todas as nuances, e às vezes soa muito gentil. Foi essa gentileza na voz que me assustou então, e o tom baixo. Quase um cochicho. Ela não sabe quem era o homem, Joe. Mas nós vamos encontrá-lo?, perguntei no mesmo tom de segredo. Nós vamos encontrá-lo, ele respondeu. E então? Meu pai nunca se barbeava aos domingos, e as pontas de uns fios grisalhos da barba estavamaparecendo. Aquela coisa dentro dele estava fazendo pressão de novo, pronta para explodir. Mas, emvez disso, colocou as mãos nos meus ombros e falou com aquela voz baixa e aguda que me apavorava. Não consigo pensar tão para a frente assim, agora. Coloquei minhas mãos sobre as dele e olhei-o nos olhos. Seus equilibrados olhos castanhos. Eu queria saber que quem quer que tivesse atacado minha mãe seria encontrado, punido e morto.

Meu pai percebeu isso. Seus dedos cravaram-se nos meus ombros. Nós vamos pegá-lo, eu disse rapidamente. Eu me sentia amedrontado ao dizer isso, tonto. Sim. Ele tirou as mãos. Sim, ele disse novamente. Tocou no relógio e mordeu o lábio. Agora, se a polícia chegasse. Precisam de um depoimento. Já deveriam ter chegado. Nos viramos para voltar ao quarto. Polícia?, perguntei. Exatamente, disse ele. A enfermeira ainda não queria que voltássemos, e ficamos esperando a chegada da polícia. Três homens entraram pela porta da emergência e pararam em silêncio no corredor. Um deles era da polícia estadual, outro, da polícia municipal de Hoopdance, e Vince Madwesin, da polícia tribal. Meu pai insistiu que todos tomassem um depoimento da minha mãe, pois não estava claro onde o crime fora cometido — em território tribal ou do estado, ou por quem, índio ou não índio. Eu já sabia, de maneira elementar, que essas perguntas girariam em torno dos fatos. E também já sabia que elas não modificariam os fatos. Mas modificariam inevitavelmente a maneira como nós buscaríamos a justiça. Meu pai tocou meu ombro antes de me deixar e aproximou-se deles. Fiquei encostado na parede. Eram um pouco mais altos que meu pai, mas o conheciam e se inclinaram para ouvir o que ele dizia. Escutaram com atenção, sem tirar os olhos do rosto dele.

Enquanto ele falava, olhava ocasionalmente para o chão e fechava as mãos nas costas. Encarou-os um de cada vez, por baixo das sobrancelhas, depois voltou a levar os olhos para o chão. Os policiais entraram no quarto, um de cada vez, com caderno e caneta, e saíram de novo, quinze minutos depois, impassíveis. Todos apertaram a mão do meu pai e partiram rapidamente. Um médico jovem chamado Egge era o encarregado do dia. Fora ele que examinara minha mãe. Enquanto meu pai e eu voltávamos para o quarto dela, vimos que o dr. Egge estava de volta. Não acho que o menino…, começou a falar. Achei engraçado que sua careca redonda e brilhante lembrasse um ovo, como seu próprio nome. O rosto oval, os óculos redondos e pequenos me pareceram familiares, e lembrei que era o tipo de rosto que minha mãe costumava desenhar nos ovos cozidos para eu comer. Minha mulher insistiu em ver o Joe de novo, disse meu pai ao dr. Egge. Ela precisa vê-lo para perceber que está bem. O dr. Egge ficou em silêncio. Olhou para meu pai de maneira incisiva. Papai se afastou de Egge e me perguntou se eu poderia voltar para a sala de espera e ver se Clemence tinha chegado. Eu gostaria de ver a mamãe de novo. Eu vou te chamar lá, disse meu pai com urgência. Vai lá. O dr. Egge olhava de maneira ainda mais dura para o meu pai. Afastei-me deles com uma relutância incômoda. Os dois caminharam para longe de mim, conversando em voz baixa.

Eu não queria sair, então me virei e fiquei olhando para eles antes de sair para a sala de espera. Eles pararam do lado de fora do quarto de mamãe. O dr. Egge terminou de falar e empurrou os óculos para cima do nariz com um dedo. Papai se aproximou da parede, como se fosse atravessá-la, e pressionou a testa e as mãos contra ela, onde ficou de olhos fechados. O dr. Egge se virou e me viu congelado diante das portas. Ele apontou para a sala de espera. A emoção de meu pai era muito grande, era o que seu gesto significava, e eu era jovem demais para testemunhar. Mas nas últimas horas eu me tornara cada vez mais imune à autoridade. Em vez de sumir obedientemente, corri para o meu pai, afastando o dr. Egge com um esbarrão. Lancei meus braços em torno do tronco macio dele, segurei-o sob seu casaco, agarrando-me com firmeza a ele, sem dizer nada, apenas respirando com ele, inspirando o ar profundamente. Muito mais tarde, após estudar Direito e examinar cada documento que encontrei, cada depoimento, após reviver cada instante daquele dia e dos dias que se seguiram, compreendi que aquele fora o momento em que o dr. Egge informou meu pai sobre os detalhes e a extensão dos ferimentos de mamãe. Mas naquele dia tudo o que eu sabia, depois que Clemence me soltou de meu pai e me levou para longe de lá, era que o corredor era uma ladeira íngreme. Passei pelas portas e deixei Clemence ir falar com papai. Após ficar por meia hora na sala de espera, ela voltou e me disse que mamãe ia fazer uma cirurgia. Segurou minha mão. Sentamos lado a lado, olhando para o quadro de uma pioneira sentada na encosta ensolarada de uma montanha com seu bebê deitado ao lado, protegido por um guarda-sol preto. Concordamos que nunca tínhamos dado atenção ao quadro, mas que dali emdiante iríamos odiá-lo intensamente, embora não fosse culpa do próprio quadro. Tenho que te levar para a minha casa, você pode dormir no quarto do Joseph, disse Clemence. Você pode ir para a escola amanhã lá de casa. Eu vou voltar para cá e esperar. Eu estava cansado, meu cérebro doía, mas olhei para ela como se ela estivesse maluca.

Estava louca se achava que eu iria para a escola. Nada mais aconteceria normalmente. A ladeira íngreme daquele corredor levava a este lugar — a sala de espera — onde eu iria esperar. Você ao menos poderia dormir, disse tia Clemence. Dormir não faria mal. O tempo vai passar e você não tem que ficar olhando para a porcaria daquele quadro. Foi estupro?, perguntei a ela. Sim, ela respondeu. Tinha algo mais, eu disse. Minha família não se furta a deixar as coisas às claras. Mesmo sendo católica, minha tia não era do tipo papa-hóstia e cheia de escrúpulos. Quando falou, me respondeu com uma voz firme e tranquila. Estupro é sexo forçado. Um homem pode forçar uma mulher a fazer sexo com ele. Foi isso que aconteceu. Fiz que sim. Mas eu queria saber outra coisa. Ela vai morrer por causa disso? Não, Clemence respondeu imediatamente. Ela não vai morrer. Mas às vezes… Ela mordeu os lábios por dentro, e eles formaram uma linha contraída, e mirou a foto com olhos duros. … é mais complicado, disse finalmente. Você viu que ela estava muito machucada? Clemence tocou o próprio rosto, com uma maquiagem suave de pó e ruge, após ter ido à igreja. Sim, eu vi. Nossos olhos se encheram de lágrimas e desviamos o olhar um do outro, para a bolsa de Clemence, de onde ela tirou um pacote de lenços de papel. Deixamos o choro sair por um tempo enquanto ela pegava os lenços.

Foi um alívio. Depois, secamos os rostos e Clemence prosseguiu. Pode ser mais violento do que em outras vezes. Estuprada com violência, pensei. Eu sabia que essas palavras andavam juntas. Provavelmente de algum caso de tribunal que eu lera nos livros de meu pai, ou de algum artigo de jornal, ou dos livros de suspense do tio Whitey, que eu adorava e ele guardava nas prateleiras que ele mesmo fazia. Gasolina, eu disse. Senti o cheiro. Por que ela estava com cheiro de gasolina? Ela foi à casa do Whitey? Clemence olhou para mim, o lenço paralisado junto do nariz, e a pele ficou da cor de neve velha. Ela se abaixou subitamente e apoiou a cabeça nos joelhos. Estou bem, disse através do lenço de papel. A voz parecia normal, até mesmo distante. Não se preocupe, Joe. Achei que ia desmaiar, mas não vou. Recuperando-se, ela se sentou. Bateu na minha mão. Não perguntei mais sobre a gasolina para ela. Adormeci num sofá com forro de plástico e alguém me cobriu com um cobertor do hospital. Suei durante o sono e, quando acordei, meu rosto e meu braço estavam grudados no plástico. Desgrudeime desconfortavelmente e me apoiei num cotovelo. O dr. Egge estava do outro lado da sala, conversando com Clemence. Logo pude ver que as coisas haviam melhorado, que minha mãe estava melhor, que na cirurgia tudo correra bem e que, por pior que estivessem as coisas, ao menos por agora o quadro não havia piorado. Então, encostei o rosto no plástico grudento, que agora estava agradável, e voltei a dormir.

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