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A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones

Num momento em que ninguém parecia prestar-lhe atenção, Bernat ergueu o olhar para o límpido céu azul. O sol ténue de finais de Setembro acariciava os rostos dos seus convidados. Investira tantas horas e esforços na preparação daquela festa, que apenas um tempo inclemente poderia deslustrá-la. Bernat sorriu para o céu outonal e, quando baixou o olhar, o sorriso acentuouse, ao escutar o alvoroço que reinava no terreiro empedrado que se abria em frente à porta dos currais, no piso térreo da casa rural. A trintena de convidados estava exultante: a vindima desse ano fora esplêndida. Todos, homens, mulheres e crianças, tinham trabalhado de sol a sol, primeiro apanhando as uvas e depois pisando-as, sem se permitirem um dia de descanso. Só quando o vinho estava já pronto para fermentar nas barricas e o mosto da uva já estava armazenado para destilar o bagaço durante os entediantes dias de Inverno, os camponeses celebraram as festas de Setembro. E Bernat Estanyol decidira contrair matrimónio durante esses dias. Bernat observou os seus convidados. Tiveram de se levantar de madrugada para percorrerem a pé a distância, em alguns casos muito grande, que separava as suas quintas da dos Estanyol. Conversavam animadamente, talvez acerca da boda, talvez acerca da colheita, talvez acerca de ambas as coisas; alguns, como o grupo em que se incluíam os seus primos Estanyol e a família Puig, parentes do cunhado, soltavam gargalhadas e olhavam-no com picardia. Bernat notou que estava a corar e eludiu a insinuação; não queria sequer imaginar a causa daqueles risos. Espalhados pelo terreiro da casa rural, distinguiu os Fontaníes, os Vila, os Joaniquet e, evidentemente, os familiares da noiva: os Esteve. Bernat olhou discretamente para o sogro, Pere Esteve, que não fazia outra coisa senão passear a sua imensa barriga, sorrindo para uns e dirigindo-se de imediato para outros. Pere voltou o seu rosto alegre para ele, e Bernat viu-se obrigado a saudá-lo pela enésima vez. Depois, procurou com o olhar os cunhados e encontrou-os misturados com os outros convidados. Desde o primeiro momento que o tinham tratado com algum receio, apesar do muito que se tinha esforçado por conquistá-los. Bernat voltou a erguer o olhar para o céu. A colheita e o tempo tinham decidido acompanhá-lo na sua festa. Olhou para a casa e depois de novo para as pessoas, e cerrou ligeiramente os lábios. De repente, apesar da agitação reinante, sentiu-se só. Apenas passara um ano desde que o pai falecera; quanto a Guiamona, sua irmã, que se instalara em Barcelona depois de casar, não tinha dado resposta aos recados que lhe tinha enviado, apesar do muito que teria gostado de revê-la. Era a única pessoa de família directa que lhe restava, desde a morte do pai… Uma morte que tinha transformado a casa dos Estanyol no centro de interesse de toda a região: casamenteiras e pais com filhas nubentes tinham desfilado por aquela casa incessantemente. Antes, ninguém os vinha visitar; mas a morte do pai, a quem os acessos de rebeldia tinham feito merecer o cognome de “o louco Estanyol”, tinha devolvido as esperanças àqueles que desejavam casar uma filha com o lavrador mais rico da região. — Já és suficientemente adulto para casar — diziam-lhe.


— Quantos anos tens? — Vinte e sete, creio eu — respondia. — Com essa idade, já quase devias ter netos — recriminavam-no. — Que vais fazer sozinho nesta casa? Precisas de uma mulher. Bernat recebia estes conselhos com paciência, sabendo que seriam inexoravelmente seguidos pela menção de uma candidata cujas virtudes superavam a força do touro e a beleza do mais incrível pôr do Sol. O assunto não lhe era desconhecido. Já o louco Estanyol, viúvo desde que nascera Guiamona, tinha tentado casá-lo, mas todos os pais de filhas casadoiras tinham saído da casa lançando imprecações: ninguém conseguia fazer frente às exigências do louco Estanyol quanto ao dote que a nora deveria trazer. Assim, o interesse por Bernat foi decaindo. Com a idade, o ancião piorou, e os seus desvarios de rebeldia foram-se tornando delirantes. Bernat dedicou-se ao cuidado das terras e do pai e, de repente, aos vinte e sete anos, viu-se só e assediado. No entanto, a primeira visita que Bernat recebeu, quando ainda nem tinha sido enterrado o defunto, foi a do aguazil do senhor de Navarcles, seu senhor feudal. Quanta razão tu tinhas, pai!—, pensou Bernat ao ver chegar o aguazil e vários soldados a cavalo. — Quando eu morrer — repetira-lhe o velho até à exaustão nos momentos em que recuperava a mansidão —, eles hão-de vir; nessa altura, terás de lhes mostrar o testamento. — E apontava com um gesto para a pedra sob a qual, envolto em couro, se encontrava o documento que recolhia as últimas vontades do louco Estanyol. — Porquê, pai? — perguntara Bernat da primeira vez que o pai lhe fizera a esta advertência. — Como muito bem sabes — respondera-lhe o velho —, possuímos estas terras em enfiteuse, mas eu sou viúvo, e se não tivesse feito testamento, por minha morte o senhor feudal teria direito a ficar com metade de todos os nossos móveis e animais. Chama-se a esse direito intestia; há muitos outros a favor dos senhores, e deves conhecê-los a todos. Eles virão, Bernat; virão para levarem o que é nosso, e só se lhes mostrares o testamento poderás livrar-te deles. — E se mo tiram? — perguntara Bernat. — Bem sabes como eles são… — Mesmo que o fizessem, está registado em livros. A ira do aguazil e do seu senhor correu pela região, e tornou ainda mais atractiva a situação do órfão, herdeiro de todos os bens do louco. Bernat lembrava-se bem da visita que lhe fizera o agora seu sogro, antes do começo da vindima. Cinco soldos, um colchão e uma camisa branca de linho; esse era o dote que oferecia pela sua filha Francesca. — Para que quero eu uma camisa branca de linho? — perguntou Bernat sem parar de revolver a palha no piso térreo da casa. — Olha para ali — respondeu Pere Esteve. Apoiando-se sobre a forquilha, Bernat olhou para onde Pere Esteve apontava: para a entrada do estábulo.

A forquilha caiu sobre a palha. Em contraluz, surgira Francesca, vestida com a camisa branca de linho… Todo o corpo da rapariga se lhe oferecia através dela! Um calafrio percorreu a espinha de Bernat. Pere Esteve sorriu. Bernat aceitou a oferta. Fê-lo ali mesmo, no palheiro, sem sequer se aproximar da rapariga, mas sem tirar os olhos dela. Foi uma decisão precipitada, e Bernat estava ciente disso, mas não podia dizer que se tivesse arrependido; ali estava Francesca, bela, jovem, forte. Acelerou-se-lhe a respiração. Hoje mesmo… Que estaria a pensar a rapariga? O mesmo que ele? Francesca não participava na alegre conversa das mulheres; permanecia em silêncio junto da mãe, sem se rir, acompanhando os gracejos e os risos das demais com sorrisos forçados. Os olhares de ambos cruzaram-se por um instante. Ela corou e baixou os olhos, mas Bernat viu como o movimento do peito dela traía o seu nervosismo. A camisa branca de linho tornou a aliar-se ao desejo e às fantasias de Bernat. — Felicito-te! — ouviu dizer atrás de si, enquanto lhe aplicavam uma palmada forte nas costas. O sogro tinha-se aproximado dele. — Cuida-me bem dela — acrescentou, seguindo o olhar de Bernat e apontando para a rapariga, que já não sabia onde havia de se esconder. — Se bem que se a vida que lhe vais proporcionar for como esta festa… É o melhor banquete que alguma vez vi. Decerto que nem o senhor de Navarcles pode gozar destes manjares! Bernat quisera tratar bem dos seus convidados e preparara quarenta e sete pães dourados de farinha de trigo; evitara a cevada, o centeio ou a espelta, habituais na alimentação dos camponeses. Farinha de trigo candial, branca como a camisa da sua mulher! Carregado com os pães amassados, dirigira-se ao castelo de Navarcles para os cozer no forno do seu senhor, pensando que, como sempre, dois pães seriam o suficiente para que lhe permitissem cozê-los ali. Os olhos do fogueiro arregalaram-se, abrindo-se como pratos diante do pão de trigo, para logo se fecharem numas inescrutáveis vigias. Dessa vez, o pagamento ascendeu a sete pães, e Bernat abandonou o castelo praguejando contra a lei que os impedia de ter um forno para cozer o pão nos seus lares… e uma forja, e guarnições… — Decerto que sim — respondeu ao sogro, afastando da ideia aquela má recordação. Ambos observaram o terreiro da casa. Talvez lhe tivessem roubado uma parte do pão, pensou Bernat, mas não do vinho que agora bebiam os seus convidados — do melhor, daquele que o seu pai tinha reservado e que tinham deixado envelhecer durante anos —, nem da carne de porco salgada, nem da panela de verduras cozidas com um par de galinhas, nem, claro, dos quatro borregos que, abertos em canal e atados em paus, assavam lentamente sobre as brasas, espirrando gordura e exalando um aroma irresistível. De repente, as mulheres puseram-se em movimento. A panela de verduras já estava pronta e as escudelas que os convidados tinham trazido consigo começaram a encher-se. Pere e Bernat tomaram lugar à única mesa que havia no terreiro, e as mulheres acorreram a servi-los; ninguém se sentou nas quatro cadeiras restantes. As pessoas, de pé, sentadas em troncos ou no chão, começaram a dar conta do ágape, de olhos postos nos borregos constantemente vigiados por algumas mulheres, enquanto bebiam vinho, conversavam, gritavam e riam.

— Uma grande festa, sim, senhor — sentenciou Pere Esteve, entre uma colherada e outra. Alguém brindou aos noivos. Imediatamente todos se lhe uniram. — Francesca! — gritou o pai, com o copo erguido em direcção à noiva, que estava entre as mulheres, perto dos borregos. Bernat olhou para a rapariga, que de novo escondeu o rosto. — Está nervosa — desculpou-a o pai, piscando-lhe o olho. — Francesca, filha! — voltou a gritar. — Brinda connosco! Aproveita agora, porque daqui a pouco vamos embora… quase todos. As gargalhadas embaraçaram ainda mais Francesca. A rapariga ergueu a meia altura um copo que lhe tinham posto na mão e, sem beber dele e virando costas aos risos, tornou a concentrar a atenção nos borregos. Pere Esteve bateu com o copo contra o copo de Bernat, fazendo derramar o vinho. Os convidados imitaram-nos. — Tu te encarregarás daqui a pouco de que lhe passe a timidez — disselhe, em voz bem alta, para que todos os presentes ouvissem. As gargalhadas estalaram de novo, desta vez acompanhadas de comentários brejeiros, a que Bernat preferiu não prestar atenção. Entre risos e gracejos, todos deram boa conta do vinho, do porco salgado e da panela de verduras e galinha. Quando as mulheres começavam a tirar os borregos das brasas, um grupo de convidados calou-se e voltou os olhos para a orla do bosque das terras de Bernat, situado para lá de uns extensos campos de cultivo, no final de um suave declive do terreno que os Estanyol tinham aproveitado para plantar parte das cepas que lhes proporcionavam aquele tão excelente vinho. Em poucos segundos, fez-se silêncio entre os presentes. Três ginetes tinham aparecido entre as árvores. Os seus passos eram seguidos por vários homens a pé, fardados. — Que fará ele aqui? — interrogou-se num sussurro Pere Esteve. Bernat seguiu com o olhar os homens que se aproximavam, contornando os campos. Os convidados murmuravam entre si. — Não percebo — disse por fim Bernat, também num sussurro —, nunca por aqui tinha passado. Não fica a caminho do castelo. — Não me agrada nada esta visita — acrescentou Pere Esteve.

A comitiva movia-se lentamente. A medida que as figuras se aproximavam, os risos e os comentários dos cavaleiros substituíam o alvoroço que até então tinha reinado no terreiro; todos conseguiam ouvi-los. Bernat observou os seus convidados; alguns deles já não olhavam, e mantinham-se de cabeça baixa. Procurou Francesca, que estava entre as mulheres. O vozeirão do senhor de Navarcles chegou até eles. Bernat sentiu que a raiva o invadia. — Bernat! Bernat! — exclamou Pere Esteve, sacudindo-lhe o braço. — Que estás a fazer aqui? Corre a recebê-lo. Bernat ergueu-se de um salto e correu a receber o seu senhor. — Sede bem-vindo a esta vossa casa — saudou, inclinando-se, assim que ficou diante dele. Llorenç de Bellera, senhor de Navarcles, puxou as rédeas do cavalo e deteve-se diante de Bernat. — És Estanyol, o filho do louco? — inquiriu secamente. — Sim, senhor. — Estivemos a caçar e, quando regressávamos ao castelo, fomos surpreendidos por esta festa. A que se deve? Por entre os cavalos, Bernat conseguia vislumbrar os soldados, carregados com diversas peças de caça: coelhos, lebres e galinhas-do-mato. “A sua visita é que precisa de explicação”, teria Bernat gostado de lhe responder. “Ou talvez o forneiro vos tenha informado do pão de trigo candial?” Até os cavalos, quietos, com os seus grandes olhos redondos assestados nele, pareciam aguardar a resposta de Bernat. — Ao meu casamento, senhor. — Com quem casaste? — Com a filha de Pere Esteve, senhor. Llorenç de Bellera permaneceu em silêncio, olhando Bernat por cima da cabeça do seu cavalo. Os animais resfolegaram ruidosamente. — E? — ladrou Llorenç de Bellera. — A minha mulher e eu próprio — disse Bernat, tratando de dissimular o seu asco — sentir- nos-íamos muito honrados se sua senhoria e seus acompanhantes tivessem por bem juntar-se a nós. — Temos sede, Estanyol — afirmou o senhor de Bellera, como única resposta. Os cavalos puseram-se em movimento sem necessidade de que os cavaleiros os esporeassem.

Bernat, cabisbaixo, dirigiu-se para a casa, ao lado do seu senhor. No final do caminho tinham-se juntado todos os convidados, para o receber; as mulheres de olhos no chão, os homens descobertos. Um rumor ininteligível ergueu-se quando Llorenç de Bellera se deteve diante deles. — Vamos, vamos — ordenou-lhes, enquanto desmontava. — Que siga a festa! As pessoas obedeceram e deram meia-volta, em silêncio. Vários soldados aproximaram-se dos cavalos e encarregaram-se dos animais. Bernat acompanhou os seus novos convidados até à mesa a que tinham estado sentados Pere e ele. Tanto as suas escudelas como os seus copos tinham desaparecido. O senhor de Bellera e os seus dois acompanhantes sentaram-se. Bernat afastou-se alguns passos quando estes começaram a conversar. As mulheres acudiram, rápidas, com jarros de vinho, pães, escudelas de galinha, pratos de porco salgado e com o borrego acabado de assar. Bernat procurou Francesca com o olhar, mas não a encontrou. Não estava entre as mulheres. O olhar de Bernat cruzou-se com o do sogro, que já estava junto dos restantes convidados, e este fez sinal com o queixo em direcção às mulheres. Com um gesto quase imperceptível, Pere Esteve abanou a cabeça e deu meia-volta. — Continuem com a vossa festa! — gritou Llorenç de Bellera com uma perna de borrego na mão. — Vamos, venham, avancem! Em silêncio, os convidados começaram a dirigir-se para as brasas, onde os borregos tinham sido assados. Só um grupo permaneceu quieto, a salvo dos olhares do senhor e dos seus amigos: Pere Esteve, os filhos e mais alguns convidados. Bernat avistou o branco da camisa de linho entre eles, e aproximou-se. — Vai-te embora daqui, estúpido! — rosnou o sogro. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a mãe de Francesca aproximou-se, colocou-lhe um prato de borrego nas mãos e sussurrou-lhe: — Trata de atender ao senhor e não te aproximes da minha filha. Os camponeses começaram a dar conta do borrego, em silêncio, olhando de soslaio para a mesa. No terreiro só se ouviam as gargalhadas e os gritos do senhor de Navarcles e dos seus amigos. Os soldados descansavam, afastados da festa. — Antes, ouvia-vos rir — gritou o senhor de Bellera.

— De tal forma que me espantaram a caça. Riam, malditos sejam! Ninguém o fez. — Bestas rústicas — disse para um dos seus acompanhantes, que receberam o comentário com gargalhadas. Os três saciaram o apetite com o borrego e o pão branco. O porco salgado e as escudelas de galinha ficaram abandonados na mesa. Bernat comeu de pé, um pouco afastado, e olhando de soslaio para o grupo de mulheres, entre as quais se escondia Francesca. — Mais vinho! — exigiu o senhor de Bellera, levantando o copo. — Estanyol — gritou de repente, procurando-o por entre os convidados —, da próxima vez que me pagues o censo das minhas terras, terás de me trazer vinho como este, e não a zurrapa com que o teu pai me andou a enganar até agora. — Bernat escutou-o, atrás dele. A mãe de Francesca aproximava-se com mais um jarro. — Estanyol, onde estás tu? O cavaleiro bateu na mesa quando a mulher aproximava o jarro para lhe encher de novo o copo. Algumas gotas de vinho salpicaram a roupa de Llorenç de Bellera. Bernat já se aproximara dele. Os amigos do senhor riam-se da situação e Pere Esteve levou as mãos ao rosto. — Velha estúpida! Como te atreves a entornar o vinho — A mulher baixou a cabeça em sinal de submissão e, quando o senhor fez menção de lhe dar uma bofetada, fugiu e caiu por terra. Llorenç de Bellera voltou-se para os amigos e desatou a rir, vendo como a anciã se afastava, gatinhando, Depois, recuperou a seriedade e dirigiu-se a Bernat: — Ai estás aqui, Estanyol. Vê só o que fazem as velhas inúteis. Por acaso pretendes ofender o teu senhor? Serás tão ignorante que não sabes que os convidados devem ser atendidos; pela senhora da casa? Onde está a noiva? — perguntou, passeando o olhar pelo terreiro. — Onde está a noiva? — gritou, perante o silêncio de Bernat. Pere Esteve tomou Francesca pelo braço e aproximou-da mesa, para a entregar a Bernat. A rapariga tremia. — Senhor — disse Bernat —, apresento-vos a minha mulher, Francesca. — Assim está melhor — comentou Llorenç, examinando-a de alto a baixo, sem nenhum recato —, muito melhor. Vais tu servir-nos o vinho, a partir de agora. O senhor de Navarcles voltou a sentar-se e dirigiu-se à rapariga, erguendo o copo.

Francesca pegou num jarro e acorreu a servi-lo. A mão tremia-lhe, ao tentar verter o vinho. Llorenç de Bellera agarrou-lhe o pulso e manteve-lho firme enquanto o vinho caía no copo. Depois, puxou-lhe o braço e obrigou-a a servir os seus acompanhantes. Os seios da rapariga roçaram pelo rosto de Llorenç de Bellera. — Assim é que se serve o vinho! — gritou o senhor de Navarcles enquanto Bernat, ao lado dele, cerrava os punhos e os dentes. Llorenç de Bellera e os seus amigos continuaram a beber e a exigir, aos gritos, a presença de Francesca, para repetir, uma e outra vez, a mesma cena. Os soldados juntavam-se aos risos do seu senhor e dos amigos de cada vez que a rapariga se via obrigada a inclinar-se sobre a mesa para servir o vinho. Francesca tentava conter as lágrimas e Bernat notava como o sangue começava a correr-lhe nas mãos, feridas pelas suas próprias unhas. Os convidados, em silêncio, desviavam o olhar de cada vez que a rapariga tinha de servir o vinho. — Estanyol! — gritou Llorenç de Bellera, pondo-se de pé com Francesca agarrada pelo pulso. — Usando do direito que como teu senhor me assiste, decidi deitar-me com a tua mulher na sua primeira noite. Os acompanhantes do senhor de Bellera aplaudiram ruidosamente as palavras do amigo. Bernat saltou para a mesa, mas antes que a pudesse alcançar, os dois sequazes, que pareciam embriagados, puseram-se de pé e levaram as mãos às espadas. Bernat estacou. Llorenç de Bellera olhou-o, sorriu, e depois riu com força. A rapariga cravou os olhos em Bernat, suplicando a ajuda dele. Bernat deu um passo adiante, mas encontrou a espada de um dos amigos do nobre encostada ao estômago. Impotente, deteve-se de novo. Francesca não parou de olhar para ele enquanto era arrastada até à escada exterior da casa. Quando o senhor daquelas terras a agarrou pela cintura e a colocou a um ombro, a rapariga começou a gritar. Os amigos do senhor de Navarcles voltaram a sentar-se e continuaram a beber e a rir, enquanto os soldados se colocavam junto à escada, para impedir o acesso a Bernat. Ao pé das escadas, em frente aos soldados, Bernat não ouviu as gargalhadas dos amigos do senhor de Bellera; nem os soluços das mulheres. Não se juntou ao silêncio dos seus convidados, e nem sequer deu atenção às provocações dos soldados, que faziam gestos, de olhos postos na casa: só ouvia os gritos de dor que vinham da janela do primeiro andar. O azul do céu continuava a resplandecer.

Depois de momentos que pareceram intermináveis a Bernat, Llorenç de Bellera apareceu, transpirado, na escada, apertando a cota de caça. — Estanyol — gritou com a sua voz tonitruante enquanto passava ao lado de Bernat e se dirigia para a mesa — agora toca-te a ti. Dona Catarina — acrescentou para os seus acompanhantes, referindo-se à sua jovem e recente mulher — já está cansada de que apareçam filhos meus bastardos… e já não aguento as choraminguices dela. Cumpre como um bom marido cristão! — instou-o, voltando-se para ele. Bernat baixou a cabeça e, sob o olhar atento de todos os presentes, subiu lentamente a escada lateral. Entrou no primeiro andar, numa ampla sala que servia de cozinha e sala de jantar, com uma grande lareira numa das paredes, sobre a qual repousava uma impressionante estrutura de ferro forjado, em jeito de chaminé. Bernat escutou o som dos seus próprios passos sobre o chão de madeira enquanto se dirigia à escada de mão que levava ao segundo andar, destinada a celeiro e quarto de dormir. Assomou a cabeça pelo orifício das tábuas do chão do andar superior e escrutinou o interior sem se atrever a subir totalmente. Não se ouvia um único ruído. Com o queixo rente ao chão, e o corpo ainda na escada viu a roupa de Francesca espalhada pela divisão; a camisa branca de linho, orgulho da família, estava rasgada e feita num farrapo. Por fim, subiu. Encontrou Francesca encolhida em posição fetal, com o olhar perdido, totalmente nua sobre a enxerga nova, agora manchada de sangue. O corpo da rapariga, suado, arranhado aqui e golpeado ali, permanecia absolutamente imóvel. — Estanyol — ouviu Llorenç de Bellera a gritar lá de baixo —, o teu senhor está à espera. Sacudido por convulsões, Bernat vomitou sobre os cereais armazenados até as tripas quase lhe saírem pela garganta. Francesca continuava sem se mexer. Bernat saiu a correr daquele lugar. Quando chegou lá abaixo, pálido, a sua cabeça era um turbilhão de sensações, cada uma mais repugnante que a anterior. Cego, caiu de bruços contra o imenso Llorenç, que estava de pé ao fim das escadas. — Não me parece que o novo marido tenha consumado o matrimónio — disse Llorenç de Bellera para os companheiros. Bernat teve de levantar a cabeça, para enfrentar o senhor de Navarcles. — Não… Não fui capaz, senhor — balbuciou. Llorenç de Bellera guardou silêncio durante uns instantes. — Pois então, se tu não foste capaz, estou certo de que algum dos meus amigos… ou dos meus soldados… o será. Já te disse que não quero mais bastardos.

— Não tem o direito! Os camponeses que observavam a cena sentiram calafrios ao imaginar as consequências de tal insolência. O senhor de Navarcles agarrou Bernat pelo pescoço, com uma só mão, e apertou com força enquanto Bernat abria a boca, tentando respirar. — Como te atreves? Por acaso pretendes aproveitar-te do legítimo direito do teu senhor de se deitar com a noiva para depois vires reclamar com um bastardo debaixo do braço? — Llorenç sacudiu Bernat antes de o deixar cair para o chão. — É isso que pretendes? Os direitos de vassalagem sou eu que os determino; eu e só eu, entendes? Esqueces que te posso castigar quando e como queira? Llorenç de Bellera esbofeteou Bernat com força, atirando-o ao chão. — O meu chicote! — gritou, encolerizado. O chicote! Bernat ainda era apenas um rapazinho quando, como tantos outros, fora obrigado a presenciar, com os pais, o castigo público infligido pelo senhor de Bellera a um pobre desgraçado cuja falta nunca ninguém chegou a saber com certeza qual fora. A recordação do estalar do couro sobre as costas desse homem soou-lhe nos ouvidos, como nesse dia, e como noite após noite durante uma boa parte de sua infância. Nenhum dos presentes ousara mexer um dedo, nessa ocasião, e também assim era agora. Bernat começou a arrastar-se e ergueu o olhar em direcção ao seu senhor; este estava de pé, como uma ingente massa de pedra, com a mão estendida, esperando que um servo lhe colocasse lá o chicote. Recordou-se das costas em carne viva daquele desgraçado: uma grande massa sanguinolenta de onde nem mesmo todo o ódio do senhor conseguiria arrancar um pedaço mais. Bernat arrastou-se, de gatas, para a escada, com os olhos revirados e tremendo, tal como lhe acontecia desde pequeno, quando era assaltado por pesadelos. Ninguém se mexia. Ninguém falava. E o Sol continuava a rebrilhar. — Lamento, Francesca — balbuciou quando chegou perto dela, depois de subir penosamente a escada, seguido por um soldado. Desapertou as calças e ajoelhou-se ao lado da esposa. A rapariga não se tinha ainda mexido. Bernat observou o seu pénis flácido e perguntou-se como poderia cumprir as ordens do seu senhor. Com apenas um dedo, acariciou suavemente as costas nuas de Francesca. Francesca não respondeu. — Tenho… Temos de fazer isto — instou Bernat, agarrando-lhe um pulso, para a voltar para si. — Não me toques! — gritou-lhe Francesca, abandonando o seu alheamento. — Vai custar-me! — Bernat virou com violência a sua mulher, descobrindo o corpo nu dela. — Deixa-me!

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