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A Chave Dourada; Um conto de George MacDon – George MacDonald

Havia um garoto que costumava se sentar no crepúsculo e ouvir as histórias de sua tia-avó. Ela contou à ele que se fosse capaz de chegar ao lugar onde acaba o arco-íris, lá encontraria uma chave dourada. – Para que serve a chave? – O garoto perguntou. – É de uma porta ou uma caixa? O que ela abrirá? – Isso ninguém sabe – sua tia respondeu. – Você vai ter que descobrir. – Imagino que, sendo de ouro, – o garoto uma vez disse pensativo – eu poderia conseguir um bomdinheiro com ela caso a vendesse. – Melhor nunca achá-la do que vendê-la – respondeu sua tia. O garoto deixou a tia sentada e foi dormir, refletindo sobre a chave dourada da história. E não é que ele até sonhou com ela? Você pode estar se perguntando o que tem de esquisito do menino sonhar com uma chave mágica. Afinal, todo mundo sonha com algo do qual se fala muito, não concordam? Só que este menino tinha algo diferente dos outros. Tudo que a sua tia-avó havia contado sobre a chave dourada não faria sentido se a pequena casa onde eles moravam fosse no alto de um morro ou em um vale qualquer. Mas não. Ela ficava nas margens do País das Fadas. E é perfeitamente sabido que, fora do País das Fadas, ninguém consegue encontrar onde fica o fim arco-íris. A chave é guardada com tanto cuidado, como um objeto precioso que por mais que você tente, nem faz ideia de onde procurar. Ela sempre muda rapidamente de lugar para lugar, para que ninguém possa encontrála! Mas se você procurar o fim do arco-íris lá no País das Fadas,tudo é um pouco diferente. Coisas que parecem reais no nosso mundo, parecem muito tênues no País das Fadas. Enquanto algumas das coisas que a gente conhece aqui não param de pé nem por um segundo, lá elas não se deitam jamais! Então não era tão absurdo que a velhinha contasse tais coisas sobre a chave dourada para seu sobrinho. Quem sabe ele não poderia finalmente encontrá-la? A inocência de uma criança, no País das Fadas, é uma arma muito poderosa… – Você sabe de alguém que a encontrou? – Ele perguntou certa noite. – Sim. Seu pai. Acredito que um dia ele a encontrou. – E o que ele fez com ela, você pode me dizer? – Isso eu não posso. Ele nunca me disse.


– Como ela era? Você a viu? A sua tia-avó abanou a cabeça mais uma vez. – Ele nunca me mostrou. – Sempre que alguém acha a chave uma nova aparece no lugar? – Acho que sim. – E por quê? – Eu não sei. Só sei que está lá. – Talvez a chave seja o ovo do arco-íris. – Pode ser. E você será um garoto feliz se encontrar esteninho. O menino sorriu. Olhou encantado para o céu e murmurou: – Talvez ela venha rolando do céu pelo arco-íris. – Acho que é isso mesmo. Assim eram as noites do menino e sua tia-avó. Cercada de histórias, velhas e novas, mas cheias de fantasia. À bem da verdade, a chave dourada nunca sumiu da cabeça do menino. Podia passar um dia, ou vários, mas a imagem daquele objeto cheio de coisas boas não saia da cabeça dele. Numa tarde de verão, ele foi para seu quarto, parou perto da janela de treliça e contemplou a floresta que marcava o limite do País das Fadas. As árvores daquele lugar especial chegavam perto jardim de sua tia-avó e, de fato, algumas até pareciam se misturar ao ambiente. A floresta ficava à leste e o sol se punha atrás da pequena casa, olhando a madeira escura com seu grande olho vermelho. As árvores tinham alguns ramos baixos, deixando que a luz do dia mostrasse um pedaço da floresta. O garoto, muito observador, aproveitou a luz do sol para ver o que acontecia por lá. Os troncos pareciam fileiras de colunas vermelhas no brilho do sol até se perder de vista. Olhando aquele espetáculo iluminado, ele começou a sentir algo diferente. Era como se as árvores estivessemesperando por ele. O menino sentiu que não podia fazer mais nada se não fosse brincar entre aquelas árvores tão bonitas. Quando começou a caminhar, sentiu o estômago roncar. Outra hora iria.

Primeiro tinha de comer algo. De repente, ele viu bem longe entre as árvores algo incrível. Era o final do arco-íris, grande e brilhante. Ele podia contar todas as sete cores e via até aquele tomdepois do violeta que ninguém consegue falar direito que cor é. O amarelo que parecia clarear tudo enquanto o vermelho ainda deixava tudo com um ar mais bonito e misterioso. E entre as cores, tinha tantos tons diferentes, coisas que ele jamais havia visto. Dali onde estava via apenas parte do arcoíris. As árvores impediam que ele visse o mais importante. – A chave dourada! – ele gritou e deixando a fome de lado,disparou para fora da casa, entrando na floresta. Foi assim que ele entrou, sem saber, no País das Fadas. Correu e correu, querendo descobrir se a tal chave existia de verdade. Mas como todos os meninos e suas pisadas pequenas,ele não tinha ido muito longe quando o sol finalmente se pôs. Mas quem disse que o arco-íris foi embora com o calor do sol? Nada. Ele apenas brilhou ainda mais intensamente. Isso porque o arco-íris do País das Fadas não depende do sol, como o nosso. O menino, encantado, viu as árvores o receberam, reclinando-se levemente. Os arbustos abriramcaminho para que ele passasse. O arco-íris, em vez de diminuir, a cada passo do nosso pequenino herói, ficava maior e mais brilhante. Logo, o menino estava pertinho do seu desejo. Apenas duas árvores de distância o separavam daquelas cores luminosas. Era uma vista grandiosa, raios queimando em silêncio, lindas,amáveis e delicadas. Todas as cores tão diferentes e, ao mesmo tempo, todas combinando. Agora ele podia ver isso, encantado,tão perto estava daquele mundaréu de cores. O arco-íris se erguia pelo céu azul, perdendo-se na altitude, brincando nas estrelas, mexendo com os sonhos de criança do menino. Ou seria também com os nossos? Bom, o caso é que ele ficou observando aquela coisa linda por tanto tempo que até se esqueceu da chave que havia vindo procurar.

Isso tudo por que enquanto ele estava parado, o arco-íris ficou ainda mais maravilhoso. Em cada uma das cores, que eram tão largas quanto pilares de igrejas, ele podia ver lindas formas que subiam lentamente, como se dentro do arco-íris tivesse várias escadas emespiral. As formas apareciam irregularmente – uma hora uma, outra várias, agora muitas, agora nenhuma. Eram homens, mulheres e crianças. Todos tão diferentes do menino e sua tia-avó. Eram todas tão lindas que o menino pensou estar sonhando. Quando ele criou coragem e se aproximou do arco-íris,ele desapareceu. O garoto deu um passo para trás. Primeiro com desânimo, depois com assombro. Porque assim que ele se afastou, olha lá o arco-íris novamente no seu lugar, tão lindo quanto nunca. Então, com medo de que ele sumisse de novo,contentou-se em ficar parado o mais próximo possível e ver as formas que subiam pelas cores, em direção a alturas e mistérios que ele desconhecia. Se forçasse a vista para o alto, tentando enxergar o fim, só conseguia ver os vultos desaparecendo no ar noturno, tão gradualmente que ele não conseguia dizer nem onde havia acabado. Quando ele voltou a pensar na chave dourada, o garoto sabiamente começou a gravar em sua mente toda a dimensão da base do arco-íris, pensando que talvez ele soubesse onde procurar caso o mesmo desaparecesse. No meio tempo, havia ficado um tanto escuro na floresta. O arco-íris reinava ali, sozinho, visível graças a sua própria luz. Mas no momento em que a Lua ganhou o seu espaço entre as estrelas e tocou com seu brilho prateado o belo arco-íris, ele desapareceu. Ficou somente uma cama de musgo onde o arco-íris antes encantava a todos. Desesperado, ele pulou ali e procurou alguma pista da famosa chave. Foi emvão. Ele caiu no choro e deitou na cama de musgo. Após secar os olhos e assoar o nariz, resolveu esperar até que a luz do sol voltasse no dia seguinte e lhe mostrasse a chave. Ali mesmo ele caiu no sono rapidamente. Quando ele acordou pela manhã, o sol tocava diretamente seus olhos. Ele se esquivou disso, e no mesmo momento viu algo pequeno e brilhante no musgo, a trinta centímetros de distância de seu rosto. Era a chave dourada! Ouro puro em todo o seu comprimento, com um puxador cuidadosamente trabalhado e cravejado de safiras.

Em um sentimento de puro deleite, ele esticou sua mão e a pegou. Então ela passou a ser dele. Permaneceu deitado por um tempo, virando-a e revirando-a, alimentando seus olhos com sua beleza. Quando cansou, se pôs de pé rapidamente, lembrando que toda aquela beleza não deveria ter uma utilidade para ele. Onde estava a fechadura à qual a chave pertencia? Tinha de estar em algum lugar. Afinal de contas, porque alguém seria tão bobo para fazer uma chave sem fechadura? Aonde será que deveria ir para procurá-la? O menino observou os arredores, olhando para céus e terra,mas não viu nenhum buraco de fechadura por ali. Nem no branco das nuvens, no verde da grama ou nas sombras das árvores. Depois de muito procurar, começou a se sentir desconsolado. Já estava quase na beirada da floresta novamente e nada da fechadura aparecer. Sentou-se um pouco em um toco de árvore para pensar no que fazer. Foi quando, repentinamente, algo pareceu brilhar na sua frente. Ele viu apenas um reflexo, que passou rápido. Achando que poderia ser o arco-íris que estava de volta, foi em sua direção. – Vou voltar para os limites da floresta. Quem sabe não encontro algo por lá? Enquanto o menino corre atrás da misteriosa fechadura,vamos para outro lugar não muito longe dali. Perto de onde o garoto vivia havia outra casa, cujo dono era um mercador, que ficava muito tempo longe, vendendo seus produtos de cidade em cidade. Ele havia perdido sua esposa alguns anos antes e teve apenas uma filha, uma pequena garota que, enquanto corria o mundo, deixava aos cuidados de duas servas. Apesar de parecerem duas boas mulheres, assim que o patrão colocava o pé na estrada, elas se mostravam bastante preguiçosas e descuidadas. Não faziam os seus deveres e maltratavam a pobre menina, largando-a sem cuidado. Todo mundo sabe que as pequenas criaturas chamadas de fadas (ainda que haja vários tipos no País das Fadas), não gostam de descuido. Na verdade, elas são um tanto vingativas com pessoas desleixadas. Acostumadas com a ordem natural das árvores e flores e com a harmonia dos pássaros e todas as criaturas da floresta, o pensamento de que sob o mesmo luar que elas vivem fica uma casa suja, desconfortável e desleixada, faz com que se sintam péssimas. Isso as deixa bravas com as pessoas que moram nessas casas e, com certeza, elas tirariam essas pessoas do mundo com prazer se pudessem. As fadas querem toda a Terra agradável e limpa. Por isso, elas beliscavam as empregadas e pregavam todos os tipos de peças, esperando que isso as mudasse.

Mas a casa continuava uma vergonha e as fadas da floresta não podiam tolerar isso. Tentaram de tudo com as empregadas,sem obter nenhum resultado. Cansadas, decidiram fazer uma limpeza completa por ali elas mesmas, começando com a criança. Sabiam que a culpa não era da menina, mas fadas têm poucos princípios e muitas travessuras dentro de si. Por isso, pensaram que se sumissem com ela as empregadas certamente iriam embora e tudo ficaria muito melhor por ali. Então, numa noite, a pobre garotinha foi colocada para dormir cedo, bem antes do sol se por. As empregadas foram para a aldeia assim que colocaram a menina para dormir, trancando a porta atrás de si. A criança não sabia que estava sozinha. Por isso, permaneceu deitada toda feliz, olhando a floresta por uma fresta da sua janela. A hera e outras plantas rasteiras, espalhavam-se pela abertura, quase invadindo o seu quarto, mas ela não se importava. Gostava da companhia das plantas. Repentinamente, ela viu um macaco fazendo caretas para ela através do espelho. Ao mesmo tempo, as pequenas cabeças entalhadas no velho guarda-roupa sorriram de maneira zombeteira. As duas velhas cadeiras com pernas de aranha foram parar no meio do quarto e começaram a dançar de forma estranha e antiquada. Toda essa cena, em vez de assustar, fez a menina começar a rir, divertida. As fadas viram então que haviam cometido um erro e não tinham assustado ninguém. Mandaram então as cadeiras de volta aos seus devidos lugares. Como tinham vigiado a garota o dia todo, sabiam que ela tinha acabado de ler naquela tarde a história da Cachinhos Dourados e ficado muito impressionada. Por isso, no momento seguinte, sua risada foi abafada pelas vozes dos três ursos na escada, do lado de fora do seu quarto. Ao mesmo tempo, ela ouviu seus passos pesados, chegando cada vez mais perto de sua porta. Apavorada, ela não aguentou ficar ali e fez como a própria personagem do conto: disparou janela afora, fugindo para a floresta o mais rápido que conseguia correr, exatamente como as fadas queriam.

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