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A Cidade da Alegria – Dominique Lapierre

Ao longo de frequentes estadas em Calcutá tive a sorte de conhecer algumas pessoas excepcionais. Deram-me tanto e tiveram uma tal influência na minha vida que resolvi escrever uma história sobre as suas vidas numa espantosa região do mundo chamada a “Cidade da Alegria”. Esta história reporta-se a homens, mulheres e crianças que foram arrancados às suas casas pela natureza implacável e circunstâncias hostis e lançados para uma cidade cuja capacidade de hospitalidade ultrapassou o imaginável. Esta é uma história de como as pessoas, mau grado inconcebíveis dificuldades, aprendem a sobreviver, a partilhar e a amar. A minha história sobre a “Cidade da Alegria” baseia-se em três anos de uma prolongada investigação em Calcutá e em várias regiões de Bengala. Tive acesso a diários e correspondência pessoais e o grosso da minha investigação consistiu em mais de duzentos entrevistas pormenorizadas, conduzidas por meio de intérpretes em várias línguas, incluindo o hindi, bengali e urdu. Estas entrevistas, que transcrevi para inglês e francês, constituem a base dos diálogos e testemunhos deste livro. Os protagonistas da “Cidade da Alegria” desejaram manter o anonimato. Mudei, assim, propositadamente as identidades de algumas personagens e determinados locais. A história que vos conto mantém-se, no entanto, fiel às confidências que os habitantes da “Cidade da Alegria” partilharam comigo e ao espírito deste sítio invulgar. Embora seja o produto de uma investigação alargada, este livro não tem o objetivo de referenciar a Índia como um todo. Tenho um afeto enorme pela Índia e grande admiração pela sua inteligência, empreendimentos e tenacidade quanto a superar dificuldades. Conheço bem as suas virtudes, grandezas e diversidade. O leitor não deve tornar extensíveis ao país como um todo as impressões que aqui recolhe ligadas a um pequeno rincão do mesmo — uma pequena área de Calcutá chamada “Cidade da Alegria”. Parte 1 VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO I Ele assemelhava-se a um guerreiro mongol: um farto topete de cabelo encaracolado, suíças que se prolongavam até a linha curva do bigode, um tronco forte e robusto, braços compridos musculosos e pernas levemente arqueadas. Hasari Pai, de trinta e dois anos, era, no entanto, apenas umcamponês, um dos cerca de cinco milhões de habitantes da Índia que procuravam sobreviver na deusa Terra. Tinha construído a sua barraca de duas divisões com paredes lamacentas e um telhado de colmo: esta situava-se a pouca distância da aldeia de Bankuli, a ocidente de Bengala, um estado no Nordeste da Índia quase tão grande como o estado de Indiana e com uma densidade populacional cinco vezes superior à de Ilinóis. A sua mulher, Aloka, era jovem, com uma compleição elegante e um ar angelical. Tinha a asa do nariz atravessada por uma argola de ouro e os tornozelos enfeitados de pulseiras que tilintavam ao ritmo dos passos. Dera-lhe três filhos. Amrita, a filha mais velha, de doze anos, herdara os olhos amendoados do pai e a pele aveludada da mãe. Manooj, de dez anos, e Shambu, de seis, eram dois robustos rapazinhos com cabelos negros e desgrenhados que preferiamcaçar lagartixas junto ao lago a conduzir o búfalo no arrozal da família. Na casa do camponês viviamigualmente o pai de Hasari, Prodip, um homem magro, de rosto vincado, onde ressaltava um fino bigode grisalho; a sua mãe, Nalini, uma velha curvada e de pele tão enrugada como uma noz; os seus dois irmãos mais novos com as mulheres e filhos — ao todo dezasseis pessoas. As aberturas, colocadas a um nível muito baixo na armação da barraca, mantinham um certo grau de frescura durante o Verão tórrido e um pouco de calor ao longo das gélidas noites de Inverno. Um pequeno alpendre, adornado com primaveras vermelhas e brancas, estendia-se a todo o comprimento de duas das paredes da barraca.


Sentado por baixo de um alpendre abaulado, Aloka dava ao pedal numa espécie de serra de madeira com um pilão na extremidade, uma máquina que servia para debulhar o arroz. Ao ritmo do tiquetaque, tiquetaque produzidos pelo subir e descer do pedal da máquina do arroz, a sua filha Amrita colhia punhados de cereal fresco por baixo do pilão. O arroz removido da casca era apanhado e escolhido pela avó. Mal enchia um cesto ia despejá-lo no gola, um pequeno silo, assente em estacas no meio do pátio. Tinha dois níveis que serviam simultaneamente de celeiro e de pombal. Os arrozais dourados estendiam-se em redor da barraca e a perder de vista, salpicados do verde-escuro dos pomares de mangas, o verde-claro de bosquedos de palmeiras e o verde-suave dos matagais de bambu, dispostos em intervalos. Assemelhando-se a um belo trabalho de passamanaria, os canais de irrigação pontilhavam a paisagem, dividindo-a em retângulos certos. Pontes para peões formavam delicados arabescos sobre lagos cobertos de flores de lótus, jacintos e patos. Crianças munidas de paus conduziam grandes búfalos de pele reluzente ao longo dos pequenos canais, levantando uma poeira ocre à sua passagem. No final de um dia de calor asfixiante, o disco rubro de Surya, o deus Sol, mergulhava no horizonte e uma acolhedora brisa soprava vinda do mar. Pela vasta e plana extensão de terra ecoava o grito alegre de miríades de pássaros que voavam, a rasar, sobre os arrozais numa saudação ao cair da noite. Bengala era, na realidade, a famosa joia de trovadores e poetas, um paraíso onde nas noites enluaradas o deus Krishna vinha tocar flauta na companhia dos gopi, as suas vaqueiras, e arrastar a amada Radha na sua dança. O pôr do Sol coincidia com a “hora da poeira das vacas”, a altura em que o gado voltava de pastar, os homens regressavam dos arrozais e as galinhas recolhiam aos poleiros. Com a tanga de algodão entre as pernas para lhe facilitar o andar, Ha-sari Pai assobiava, enquanto avançava a passo lento, transportando o arado de madeira ao ombro. À medida que a noite ia caindo, os pombos redobravam o voo em círculo e os arrulhos. Nos tamarindos, um bando de mynah, os pardais da Índia, realizavam um concerto ensurdecedor. Dois esquilos-listrados com “as marcas dos três dedos do deus Rama” pulavam por entre os mamoeiros. Garças e garçotas recolhiam a toda a pressa aos seus ninhos. Um cão sarnento farejava o solo em busca de um local adequado onde passar a noite. Em seguida, e a pouco e pouco, os guinchos agudos das cicadas desvaneceram-se. Ouviu-se o último tiquetaque da máquina do arroz e depois o silêncio, um silêncio quase imediatamente quebrado no momento em que as rãs iniciaram o seu coro. E acima dele ergueu-se o grasnar típico de um sapo. Menos de cinco minutos depois, a noite tropical caía sobre a terra. À semelhança do que fazia todas as noites, Aloka, a mulher jovem de pele aveludada, soprou um búzio para saudar a deusa da Noite. Uma das suas cunhadas fez soar uma pequena campainha, a fim de afastar os espíritos malignos, particularmente os que viviam na figueira-de-bengala de cem anos situada ao fundo da estrada.

A vaca estava atada ao barracão que servia de estábulo. Durante algum tempo uma cabra teimosa obrigou toda a gente a dispersar-se numa tentativa de a apanhar. Contudo, a ordem acabou por ser restaurada e Hasari fez baixar um portão de arame farpado a tapar o acesso ao pátio, a fim de afastar os chacais e as raposas. Em seguida, a mãe executou um ritual tão antigo como a própria Índia — encheu de azeite a lamparina, que ardia diante das imagens policromas dos deuses protetores: Rama e a sua mulher Sita, deusa dos frutos da terra; Lakshmi, a deusa da Prosperidade sentada numa flor de lótus; e Ganesh, o deus da Felicidade com cabeça de elefante. Duas outras gravuras desbotadas pelos anos mostravam uma o rosto infantil de Krishna, engolindo avidamente uma tigela de manteiga, uma representação popular do deus Vaca, extraordinariamente venerado pelo povo hindu; e a outra o deus Macaco, Hanuman, um herói lendário de algumas das mais fantásticas aventuras da mitologia indiana. Enquanto as mulheres faziam a comida lá fora, num fogão de barro, Hasari e os seus dois irmãos entraram e foram sentar-se, sob o a alpendre, ao lado do pai. O aroma inebriante de um arbusto de jasmins perfumava a noite, que se apresentava pontilhada com as luzes tênues de pirilampos. Numcéu carregado de estrelas brilhava um fino quarto crescente. Era “a lua de Shiva”, a lua nova do benfeitor do mundo, o deus de mil olhos da prosperidade. Os quatro homens estavam sentados, imersos profundamente numa silenciosa meditação, quando Hasari reparou que o pai observava os filhos um após outro. Depois ouviu o velho murmurar como se falasse de si para si: — O carvão não muda de cor quando se lava. O que não se pode curar tem de se suportar. O velho já não sabia quantas gerações de lótus haviam florescido e desaparecido no lago desde o seu nascimento. — A minha memória é como a cânfora — costumava dizer. — Há tantas coisas de que me esqueci… Agora, já vou bastante avançado nos anos e ignoro quantos me restam dos cestos de arroz cheios pelos deuses da vida no momento em que nasci. Prodip Pai recordava-se, porém, de que outrora havia sido um camponês próspero. Fora dono de seis silos cheios de arroz e oito acres de terra fértil. Providenciara pelo futuro dos filhos e dera generosos dotes às filhas mais velhas com a finalidade de lhes arranjar bons maridos. Para a velhice dele e da mulher tinha conservado o pedaço de terra e a casa que herdara do pai. — Os dois poderemos viver ali em paz — prometera-lhe —, até o dia em que Yama, o deus da Morte, vier finalmente reclamar-nos. Errara. Aquele pedaço de terreno fora dado, há anos, ao seu pai, por um zamindar, um rico fazendeiro, como reconhecimento pela sua dedicação. Um dia, o herdeiro do benfeitor, reclamara a terra. Prodip Pai recusou-se a devolvê-la; a questão foi levada a tribunal. Dado que o jovem zamindar comprara o juiz, o camponês foi, inevitavelmente, obrigado a abandonar a sua terra e a casa.

Compelido a pagar as custas legais, tivera de sacrificar o dote reservado para a sua última filha e os bocados de terra dos seus dois filhos mais novos. — Aquele lavrador desonesto tinha um coração mais duro do que o de um chacal — havia comentado. Por sorte, o filho mais velho conseguira albergar toda a família sob o seu tecto. Hasari era umbom filho. Esforçou-se ao máximo para convencer o pai de que continuava ele a ser o chefe da família. Na realidade, o velho estava mais familiarizado do que qualquer outra pessoa com os direitos e deveres de todos, os hábitos e costumes locais, bem como as demarcações dos arrozais e pastos. Só ele podia manter relações amistosas com os abastados lavradores, um trunfo de importância primordial para a sobrevivência de uma família de camponeses. — Os peixes não podem dar-se ao luxo de viver em más relações com os crocodilos do lago —afirmava com frequência. Contudo, a realidade era a de que este homem venerado pelos filhos perdera tudo. Já não estava sob o seu telhado. — E, no entanto, não podia queixar-me! — reconhecia. — Apesar de ser um homem arruinado, restavam-me os meus três filhos. Que bênção foram estes filhos! Era graças a eles que continuava a usufruir daquelas coisas que para um camponês indiano representam abastança: um silo de arroz, uma enxerga de palha, duas vacas e um búfalo, um pedaço de terra, um pouco de trigo conservado de reserva em potes de barro para a eventualidade de tempos difíceis e mesmo algumas rupias num mealheiro. E quanto às mulheres dos seus filhos? Também elas haviam trazido felicidade ao lar. Eram as três tão bonitas como Parvati (Cinco irmãos, heróis da grande epopeia Maabarata) e dariam mães dignas dos Pandava2. Os Pais podiam ser pobres, mas eram felizes. No dia seguinte, as casas estariam molhadas de orvalho. A monção chegaria e com ela a estação da esperança. E no velho tronco da mowa as orquídeas proclamariam a glória de Deus.

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