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A Cidade das Flores – Augusto Abelaira

Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observa os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses. Ele – chamar-te-ás John, decidiu – recuara dois ou três metros, e ela – Mary – dirigia-se devagar para os degraus do palácio, sob o olhar indiferente da estátua de David. Encostou-se ao pedestal, tirou o lenço da cabeça e olha para o marido. Este baixa-se um pouco, aponta demoradamente a máquina e dispara por fim. Mary virara-se outra vez de costas e Giovanni quis adivinhar-lhe a direcção dos olhos, acompanhá-los depois no voo extasiado que terminava na torre do Palazzo Vecchio. Mas o marido gritara qualquer coisa interrogativa, ela deu meia volta e viu John, que agitava um braço e abria e fechava a boca. Dizendo o quê? E Mary aproxima-se novamente do David, regressando o marido à posição anterior, a máquina preparada. Talvez o primeiro retrato fique melhor do que o segundo, murmura Giovanni, como se fosse ele o fotógrafo. Depois as situações inverteram-se: o marido posou então para a imortalidade. Em Florença – dirá aos amigos, de regresso a Londres, e indicando a fotografia. Ah! – exclamarão eles, amavelmente. Porquê? Porquê? O desejo insensato de falar com aqueles desconhecidos. Desconhecidos e talvez ridículos, assim, a tirar fotografias! E enquanto bebe o café escaldante, continua a persegui-los com o olhar. Foi aqui que queimaram Savonarola, – estará John a dizer. E pensa: Estas foram as últimas imagens do Savonarola quando o fumo já subia e o ar quente ondulava as casas. Fazio deixou um livro em cima da mesa, a marcar o lugar, aproxima-se deles. Não que tenha a intenção de conversar (o seu pouco domínio do inglês paralisa-o), desejava apenas que o vissem. Porquê? A princípio não percebeu. Queria que eles o vissem, queria sentir-se visto, observado. Mary e John estavam agora na Loggia dei Lanzi, haviam-se sentado a descansar. Ela não era bonita, a boca parecia rasgada. E ele: demasiado magro, demasiado alto, demasiado branco. Giovanni aproximou-se, tossiu propositadamente para lhes atrair a atenção e deu-se o milagre: Mary e John descobriram-no. E Giovanni compreendeu: era o desejo de sentir uns olhos habituados à liberdade poisarem no seu corpo de escravo. Como se as pupilas que todos os dias o viam o esmagassem: pupilas de escravos, pupilas de homens que temiam dizer o que pensavam – homens mutilados.


Mas aqueles olhos frescos e espontâneos e azuis… Desviou com desagrado a vista do Rato das Sabinas e lentamente desceu as escadas, procurando no chão o movimento veloz da sombra de uma nuvem. Estranha coisa: levantara-se cedo sem sombra de uma nuvem no espírito e, enquanto fazia horas para o encontro com Domenico, fora até a margem do rio, ficou muito tempo a ver dois miúdos a pescar. Sente o coração apertado; foram aqueles ingleses que lho apertaram. Eles que tudo ignoram, eles que comiam laranjas, silenciosamente. De novo sentado em frente do livro aberto, cruza as pernas, mete no bolso uma das mãos e pega no lápis com a outra. – Chegaste há muito tempo? – pergunta Domenico Villani, puxando uma cadeira, recostandose depois. Fazio não respondeu. Procurava os fósforos nas algibeiras do casaco e, não os encontrando, desistiu, meteu outra vez o cigarro na cigarreira. – Que fizeste ontem à noite? – pergunta. – Nada. Fiquei em casa. Abri um livro, mas acabei por me deitar. E tu? Fazio desviou os olhos do casaco azul, já coçado, do amigo, folheou sem grande atenção umjornal. As notícias do estrangeiro: Chamberlain dirigindo-se a Mussolini no banquete do Palácio de Veneza: É um prazer observar esta Itália poderosa e progressiva que surgiu sob a direcção e inspiração de Vossa Excelência, as tropas nacionalistas a setenta quilómetros de Barcelona. As notícias do país: Alguns guerrilheiros mortos na Abissínia, a inauguração dum quartel, um discurso, uma frase: A igualdade perante a lei é concedida a todos aqueles que ajudem a causa nacional e não recusem a sua colaboração ao Estado. Não estivesse a frase sublinhada por Domenico, e Giovanni não teria dado por ela. – Ainda tens paciência de ler estes discursos? – Ainda. – Domenico respondia sempre, mesmo que fosse apenas em aparência, a todas as perguntas. – Divirto-me. E, depois, a ler a notícia da enorme repercussão que tiveram no estrangeiro… – Como se o estrangeiro estivesse sempre de cócoras à espera das sentenças do nosso grande homem… – Umas bestas. – Sim – disse Fazio, tirando distraidamente um cigarro da carteira -, em alguma coisa nos havemos de divertir, agora que perdemos a coragem, agora que nos desinteressámos. Domenico ficou uns instantes a pensar. Esteve quase a responder, mas fechou a boca às palavras. Bonita, murmura, segundos depois, a propósito duma rapariga, enquanto Fazio continua a folhear o jornal. Não tens fósforos, diz, simultaneamente perguntando e respondendo.

Os cinemas. Nada que valesse a pena. – Desinteressados – insistiu, desistindo finalmente da leitura. – Desinte-ressados… – Pausa. – Que idade tens, Domenico? Vinte e seis, não é? Vinte e oito, eu. A metade da vida. E nada fizemos. Também já não temos tempo para nada… – Nisso, como em tudo o mais, ele venceu. Nada fizemos, nada faremos. – Pois, pois. Nada pensamos fazer. Perdemos a mocidade e agora já nada podemos fazer, estamos terminados… – Tem uma hesitação. – Pelo menos é o que penso neste momento. Perto, o casal de ingleses examinava as mesas, indeciso. Sentar-se-iam? Aproximaram-se, acabaram por mudar de ideias. Domenico não dava por eles – mesmo que desse por eles, seria como se não desse por eles. Mas Fazio não os perdia de vista. Tiraram-me a boa disposição, pensava. Eis-me aqui a tecer considerações cépticas só porque vos vi, só porque vocês vêm de um país onde chove e o nevoeiro entra pelos olhos dentro, pela boca, pelas orelhas. Sem querer, tinha os olhos postos no palácio. Um país onde isto não existe. Sim, sem Santa Maria Novella, sem Masaccio, sem sol. Um país onde eu desejaria ter nascido, ter sido jovem. Umpaís onde também não teria sido ninguém, mas apenas porque não sou ninguém. Domenico: – E o Soldati? – Estive ontem com ele.

– Tem aparecido pouco nestes últimos tempos. – Muito trabalho, creio. Os ingleses desapareciam na direcção de Orsanmichele: Giovanni recordou a boca rasgada, quase agressiva, de Mary, o vestido azul. Trocou os papéis: imaginou-se John, imaginou-se a viajar, imaginou-se livre. – Às vezes pergunto a mim próprio – começou Domenico – que é que nos mantém assimfirmes, assim incorruptíveis…? Fazio não respondeu. – Quero dizer – prosseguiu Domenico -, passamos a vida a abdicar de tantas coisas e politicamente ainda não abdicámos da nossa honestidade. Pelo menos directa, activamente, recusamos colaborar com o fascismo, perdendo assim certas vantagens pessoais. Não creio na imortalidade da alma. Sei que estou à espera da morte, da morte completa, absoluta. Porque não me vendo, então, para aproveitar a vida? És capaz de me dizer? Reparando num homem alto e de bigode que acabara de puxar por uma caixa de fósforos, Fazio levantou-se com um cigarro entre os dedos. Por favor, disse. Por quem é! Regressando ao seu lugar, respondeu: – Nem sei. – Falava sacudidamente, pontuando as frases com os nós dos dedos no tampo da mesa. – Porque, afinal, se já não combatemos, se estamos na situação de reforma voluntária, se somos homens sem fibra, homens que desistiram, porque é que resistimos, ou melhor: para homens como nós que é que significa resistir? – Há uma coisa que ele ainda não conseguiu tirar- nos, penso: a consciência. – Erro, Domenico. – Desviara os olhos. – Se ele não nos tivesse roubado a consciência, estaríamos todos de armas na mão ou na cadeia… – Por fim, encara bem de frente Domenico. – Se aqui estamos a tomar café e a conversar é porque não temos consciência. Enganámo-la com meia dúzia de palavras ditas em voz baixa num tom de indignação. E até isso é fácil. Isso, não; isto, esta conversa… Domenico pegou no jornal, enrolou-o e espreitou através dele como se fosse um óculo. Metido, assim, naquele cilindro, um cão corria de cá para lá e de lá para cá. – Então porque é que resistimos a colaborar? – pergunta, continuando a perseguir o cão. – Por causa de nós próprios ou do que pensarão os outros? – Desfez o óculo, esquece o cão. – Não é espantoso que homens que não crêem na imortalidade se deixem morrer em nome de princípios? – insistiu.

Permanece uns momentos a pensar. – Não será o orgulho? Honestos por orgulho, Giovanni. – Refizera o óculo; ignorante, o cão continuava a correr, de um lado para o outro, metido dentro dum cilindro. Segundo quadro Desceu as escadas com as mãos deslizando vagarosamente pelo corrimão macio. Somente os dedos! – e, no entanto, que bom não seria deixar-se escorregar, toda ela, como se tivesse dez anos! As escadas escuras. A porta e a luz, de repente, nos olhos desabituados. A luz forte da rua num dia de sol. E o sol na face, nas mãos – que bom! Não que o céu estivesse totalmente azul – havia ali uma nuvem, duas, três nuvens. Uma nuvem maior e escura, uma nuvem mais pequena e clara, roubando-lhe um pedaço. A terceira nuvem era uma nuvem modesta, uma pequena nuvem brilhante e carinhosa. Bons dias, ó pequenina nuvem, minha irmã e também irmã do gatinho preto! O gatinho preto, ali parado, ali a olhar para Rosabianca: Rosabianca, os olhos verdes e claros, o cabelo negro, os lábios vermelhos, a face aberta para o mundo. Bichinho, disse, de bruçando- se sobre ele. Mas o gato fugiu e escondeu-se atrás duma porta. Ah, não totalmente escondido! Rosabianca via-lhe as pupilas a brilhar no escuro. Brilhando, brilhando. Aqui estamos nós, diz, parando no passeio. Aqui estou eu! Aqui estou eu… Atenção, Rosabianca. Acordaste já, verdadeiramente? Todo o teu passado, ao menos o passado que de facto importa, já veio infiltrar-se na tua consciência, já está presente, ou dormes ainda e esqueces que não tens nem dez, nem doze, nem quinze anos? O automóvel avança sem pressa. Será que vai parar? Parou. A porta da frente abriu-se, a porta de trás também. Da porta da frente saiu um homem; da porta de trás, uma senhora. Não é bonita, aquela rapariga, disse a senhora. Aquela?, perguntou ele. Observou Rosabianca: a camisola vermelha, a curva breve do seio, a limpidez dos olhos verdes. É, respondeu.

Sim, tenho dez anos, hoje tenho dez anos e não dezoito. E muitas coisas mais. Sou quem sou: despreocupada, feliz, alguém que gosta de brincar. De brincar. Atenção, Rosabianca. Acordaste, verdadeiramente, acordaste? Trazes uma saia cinzenta. A que vem essa boa disposição? Não sabes que a desgraça deste mundo se opõe a uma felicidade assim, protesta contra esse ar despreocupado e inocente? Não calçou meias compridas, apenas meias curtas. Que bom! Meias curtas, sapatos rasos, aquela camisola vermelha que te deu o teu pai, e a manhã está no princípio! Oito horas, o sol nasceu, acha-se ali, precisamente ali, nas tuas mãos estendidas. Sorriu e fechou o sol nas mãos. Estás aqui, não sabes? Não, não estava. Surgia de todos os lados, não tinha deixado aprisionar-se nas mãos de Rosabianca, descia-lhe às pernas, passava-lhe pelo rosto, estendia-se no pavimento. Serei como tu, ó irmão sol, nunca ficarei presa a ninguém. Atenção, atenção, Rosabianca! Já te levantaste há mais de meia-hora e nem sequer comeste o pequeno-almoço. Lembrou-se: do bolso retira um pão e começa a mastigar. Que bom, comer assim no meio da rua, como quando tinha treze anos! Que bom! Mas estás a crescer pouco a pouco, os dez anos com que te levantaste, os treze com que desceste as escadas, os quinze com que admiraste o sol, morreram. Dezoito anos, quase dezanove. Ontem: a prisão de Vianello. Dezoito anos, quase dezanove. Preso neste momento, enquanto vais brincando aos treze anos e te distrais a apanhar o sol! Sabes, Rosabianca? Sei. Mas será verdadeiramente crime estar aqui a olhar-te, ó sol, meu irmão, só porque Vianello não pode ver-te? Será? Tenho dezoito anos e não sei exactamente em que pensar. Estou aqui. Dize-me, sol… Não, tu ignoras estas coisas, tu és indiferente. Que te importa que eu goste de alguém ou que Vianello esteja preso? O sol respondeu-lhe. – Que te importa a ti, Rosabianca? Estás realmente a sofrer? Isso não te preocupa neste momento, a tua exaltação de ontem transformou-se em esquecimento, em indiferença (ou quase) por tudo quanto não seja o prazer de caminhar pelas ruas com sapatos rasos, meias curtas, camisola vermelha e esse pequenino amor que está a crescer dentro de ti. Sim, pensou Rosabianca.

Eis-me com dezoito anos, a idade suficiente para saber que Vianello está preso e o que isso significa. Não, não! Enquanto tu estiveres preso, Vianello, serei a tua viúva. Chorarei a tua morte, eu que não estou apaixonada por ti. E não amarei outro. Mas quando saíres, Vianello, continuarei viúva, porque outros estarão presos e o mundo é uma prisão. Terceiro quadro Com que impaciência esperara as cinco horas! Mas quando se achou na rua teve uma hesitação: que iria fazer? Ei-lo naquele tão desejado momento em que o trabalho terminou. Que fazer desse tempo, como aproveitá-lo? Por instantes examinou a gente que passava. E decidiu-se: iria ter com Arnolfo Soldati. Claro: não que tivesse alguma coisa a dizer-lhe; ainda ontem estivera com ele, estaria com ele também nessa noite. Mas era um modo de passar o tempo. Ao menos o amor, a rapariga amada – pensa – encheria o tempo. Um grande arquitecto, Soldati? Nem Giovanni Fazio, nem mesmo Soldati viviam nessa ilusão. Mas tirava coisas do nada, tinha o prazer de imaginar, de fazer projectos, de vê-los realizados por fim. Começava por criar uma casa dentro da cabeça e meses depois via-a crescer no espaço. – Trabalho com o meu pai – diz-lhe Fazio, pegando numa régua -, ajudo-o, faço contas, preencho recibos, calculo orçamentos. Soldati, embora debruçado sobre o estirador, erguera levemente a cabeça e observava o amigo. – Então? – perguntou. Giovanni cumprimentara-o muito por alto, iniciara logo aquele desabafo. Trouxera-o dentro da boca, a roer-lhe a garganta. – Então – responde -, faço por dia dezenas de coisas em que não acredito. Um esforço totalmente inútil. E é injusto, Soldati. – Sentara-se num amplo cadeirão forrado de coiro e estendera as pernas. Sentado? Nem era isso. Deitado, quase deitado.

– Injustiça, percebes? Porque tu não trabalhas mais do que eu. Pensando bem, não é mais difícil fazer o que tu fazes do que fazer o que eu faço, embora tu projectes casas e eu projecte orçamentos. Mas tu és mentalmente recompensado e eu não. Está aí a injustiça. Podes pensar: Eu crio, faço coisas. Quanto a mim… Se atravessares a cidade, aqui ou ali poderás gritar: Eu. Aquilo é meu, fui eu que fiz, existe lá um pedaço de mim mesmo. Eu não. – Arnolfo baixara de novo a cabeça e traçava uma linha com régua e esquadro. – Posso ir ao fundo do universo – continuou Giovanni Fazio – que estarei sempre sozinho no meio das coisas. É injusto. Soldati afiava um lápis em silêncio.

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