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A Cidade das Sombras – Jeanne Dupran

a cidade de Ember, o céu estava sempre escu-N ro. A única luz provinha de grandes focos montados nos edifícios e no topo dos postes no meio das praças maiores. Quando as luzes estavam acesas, projetavam um clarão amarelado sobre as ruas; as pessoas que passavam debaixo delas lançavamnos passeios sombras compridas, que se encur-tavam e alongavam de novo. Quando as luzes estavamapagadas, entre as nove da noite e as seis da manhã, a cidade ficava tão escura que era como se as pessoas andassem com vendas nos olhos. Por vezes, ficava escuro no meio do dia. A cidade de Ember era velha e tudo o que existia nela, incluindo as linhas de eletricidade, estava precisan-do de conserto. Por isso, de vez em quando as luzes tremeluziam e se apagavam. Para os habitantes de Ember, esses momentos eram terríveis. Ao pararem no meio da rua ou ficarem imóveis como estátuas nas suas casas, com medo de se moveremnas trevas absolutas, recordavam de algo que preferiam não pensar: que, um dia, as luzes da cidade poderiam se apagar e nunca mais voltar a acender. Mas na maior parte do tempo a vida prosse-guia como sempre. As pessoas crescidas trabalhavam e os mais novos, até atingirem a idade de doze anos, iam à escola. No último dia do seu último a-no, que se chamava Dia da Atribuição de Serviço, eram-lhes atribuídos trabalhos. Os alunos finalistas ocupavam a Sala Oito da Escola de Ember. No Dia da Atribuição de Serviço, no ano 241, esta sala, normalmente bastante ruidosa logo de manhã, estava mergulhada em silêncio. Os vinte e quatro alunos estavam todos sentados muito direitos e quietos nas carteiras, que já erampequenas demais para eles. Esperavam. As carteiras estavam dispostas em quatro filas de seis, umas atrás das outras. Na última fila estava sentada uma menina magra que se chamava Lina Mayfleet. Enrolava uma madeixa do seu cabelo escuro e comprido em volta do dedo, enrolava e desenrolava, uma e outra vez. Por vezes arrancava um fio da sua capa esfarrapada ou abaixava-se para puxar as meias, que tinham perdido o elástico e teimavam em escorregar para os tornozelos. Batia com um dos pés no chão, discretamente. Na segunda fila encontrava-se um menino chamado Doon Harrow. Estava sentado com as costas curvadas, os olhos bem fechados, se concen-trando, e as mãos juntas com força. Seu cabelo parecia desgrenhado, como se já não o penteasse há uns tempos. Tinha sobrancelhas escuras e grossas, que normalmente lhe davam um ar sério, e, quando ele estava ansioso ou zangado, se uniam, formando umtraço contínuo por cima dos olhos.


O seu casaco de bombazina castanha era tão velho que mal se via o canelado. Tanto a menina como o menino estavam formulando desejos urgentes. O desejo do Doon era muito específico. Repetia-o uma e outra vez, mexendo os lábios ligeiramente, como se, dizendo-o mil vezes, pudesse torná-lo realidade. Lina não estava formulando seu desejo em palavras, mas emimagens. Via-se correndo pelas ruas da cidade com um casaco vermelho. Tentava tornar esta imagem tão viva e real quanto possível. Lina ergueu os olhos e olhou à sua volta. Despediu-se silenciosamente de tudo o que lhe era familiar há tanto tempo. Adeus à planta da cidade de Ember na sua moldura de madeira cheia de marcas e ao armário em cujas prateleiras estavam O Livro dos Números, O Livro das Letras e O Livro da Cidade de Ember. Adeus às gavetas do armário etiquetadas «Papel Novo» e «Papel Velho». Adeus aos três candeeiros no teto, que, onde quer que uma pessoa estivesse sentada, pareciam sempre lançar a sombra da cabeça sobre o papel em que se estava escrevendo. E adeus à professora, a Srta. Thorn, que tinha terminado o seu discurso do Último Dia na Escola, desejando-lhes sorte na vida que estavam prestes a iniciar. Agora, como já não tinha mais o que dizer, estava de pé junto à sua mesa, com o xale esfiapado em volta dos ombros. E o presidente, o convidado de honra, não tinha chegado ainda. Alguém arrastou o pé no chão para trás e pa-ra a frente. A Srta. Thorn suspirou. Depois, a porta se abriu com um rangido e o presidente entrou na sala. Parecia aborrecido, como se os alunos é que tivessem chegado tarde. — Bem-vindo, Senhor Presidente Cole — disse a Srta. Thorn. Estendeu-lhe a mão. O presidente sorriu.

— Srta. Thorn — disse, envolvendo a mão dela nas suas. — Saudações. Mais um ano. O presidente era um homem enorme e muito pesado, e tinha uma barriga tão grande que os braços pareciam uns apêndices pequenos balançando ao lado do corpo. Numa das mãos trazia umsaquinho de pano. Avançou com passos pesados para a parte da frente da sala e olhou para os alunos. O seu rosto cinzento e balofo parecia ser revestido por algo mais rígido do que pele normal; raramente mostrava animação, além de um sorriso, que trazia agora afi-velado. — Jovens da Classe mais Avançada — co-meçou o presidente. Interrompeu-se e esquadrinhou a sala durante algum tempo; o seu olhar parecia vir de um ponto muito lá atrás, dentro da sua cabeça. Acenou lentamente com a cabeça. — Hoje é o Dia da Atribuição de Serviço, não é? É. Primeiro, acabamos os estudos. Em seguida, servimos a nossa cidade — mais uma vez passou um olhar pelas filas de alunos e mais uma vez acenou com a cabeça, como se alguém tivesse confirmado o que ele acabara de dizer. Pôs o saquinho em cima da mesa da Srta. Thorn e pousou a mão em cima. — E que serviço será, heim? Talvez cada um esteja fazendo essa pergunta a si mesmo — sorriu mais uma vez e as suas grandes bochechas dobraram-se como cortinados. As mãos de Lina estavam frias. Aconchegou a capa aos ombros e meteu as mãos entre os joelhos. Por favor apresse-se, Senhor Presidente, pediu mentalmente. Por favor, deixe-nos escolher e acabar com isto de uma vez. Doon estava pensando a mesma coisa, mas não pedia por favor. — Algo a não se esquecer — disse o presidente, erguendo um dedo. — O emprego que lhes será atribuído hoje será por três anos. Em seguida virá a Avaliação.

Desempenham bem o trabalho? Ótimo. Podem continuar a fazê-lo. Desempenham-no insatisfatoriamente? Há uma necessidade maior noutro local? Serão deslocados. É extremamente importante — disse ele, apontando para os alunos — que todo… o trabalho… de Ember… seja realizado. Seja realizado em condições. Pegou o saquinho e desatou os cordões. — Muito bem. Vamos começar então. Um processo simples. Vem um de cada vez. Coloca a mão no saco. Tira um papel. Lê-o em voz alta — sorriu e acenou com a cabeça. O seu queixo duplo avançou e recuou — Quem quer ser o primeiro? Ninguém se mexeu. Lina fitou o tampo da sua carteira. Houve um longo silêncio. Depois, Lizzie Bisco, uma das melhores amigas de Lina, pôs-se de pé. — Eu gostaria de ser a primeira — disse na sua voz ofegante e aguda. — Muito bem. Avance. Lizzie foi para junto do presidente. Devido ao seu cabelo ruivo, parecia uma faísca brilhante ao lado dele. — Agora escolha — disse o presidente, estendendo a mão com o saco aberto e pondo a outra mão atrás das costas, como se quisesse mostrar que não interferiria no processo. Lizzie colocou a mão no saco e tirou um quadradinho de papel muito bem dobrado. Desdobrou-o cuidadosamente.

Lina não conseguia ver a expressão do rosto de Lizzie, mas ouviu o tom decepcionado da sua voz quando ela leu em voz alta: — Funcionária do Depósito de Abastecimento. — Muito bem — disse o presidente. — Um emprego de importância vital. Lizzie voltou desconsolada para o seu lugar. Lina sorriu-lhe, mas ela respondeu com uma careta de azedume. Funcionária do Depósito de Abastecimento não podia ser considerado um mau emprego, mas era bastante monótono. A funcionária do Depósito de Abastecimento ficava sentada num balcão comprido, recebia encomendas dos lojistas de Ember e mandava buscar tudo o que era necessário na vasta rede de armazéns por baixo das ruas de Ember. Nos armazéns havia produtos de todos os tipos — comida enlatada, peças de vestuário, cobertores, lâmpadas, medicamentos, tachos e panelas, resmas de papel, sabão, mais lâmpadas —, tudo aquilo de que os habitantes de Ember pudessem necessitar. Os funcionários ficavam sentados com os seus livros-razão à frente deles todo o dia, registrando as encomendas que chegavam e os produtos que saíam. Lizzie não gostava de ficar parada; um outro trabalho seria mais adequado para ela, pensou Lina — mensageira, talvez, o emprego que Lina pretendia. Os mensageiros corriam pela cidade todo o dia, iam a todos os lados, viam tudo. — O seguinte — disse o presidente. Desta vez, levantaram-se duas pessoas ao mesmo tempo, Orly Gordon e Chet Noam. Orly sentou-se logo outra vez e Chet aproximou-se do presidente. — Escolha, jovem — disse o presidente. Chet escolheu. Desdobrou o seu papel. — Ajudante de eletricista — leu, e o seu rosto abriu-se num sorriso. Lina ouviu alguém inspirar rapidamente. Quando olhou para Doon, viu-o cobrindo a boca com a mão. Nunca se sabia que trabalhos estariam vagos em cada ano. Em alguns anos havia vários trabalhos bons, como ajudante das estufas, assistente de guardião do tempo ou mensageiro, e nenhum trabalho ruim. Noutros anos encontravam-se uma mistura de empregos tais como trabalhador do Sistema de Canalizações, separador de lixos e raspador de bolor. Mas havia sempre pelo menos uma ou duas vagas de assistente de eletricista. Resolver problemas de eletricidade era o trabalho mais importante em Ember e um número maior de pessoas trabalhava nesse setor do que em qualquer outro.

Orly Gordon foi a seguinte. Ficou com o trabalho de assistente de reparações de construções, que era um bom emprego para ela. Ela era uma menina forte e gostava de trabalhos pesados. Vindie Chance ia ser ajudante de estufas. Ao voltar ao seu lugar, deu um sorriso rasgado à Lina. Vai trabalhar com a Clary, pensou Lina. Que sorte! Até então, ninguém recebera um trabalho ruim mesmo. Talvez este ano não houvesse nenhum trabalho ruim. Esta idéia animou-a. Além disso, tinha chegado a um ponto em que a expectativa estava lhe dando dor de estômago. Por isso, quando Vindie se sentou — ainda antes do presidente dizer: «O seguinte!» —, Lina levantou-se e avançou. O saquinho era de um tecido verde desbotado, com um cordão preto para fechá-lo. Lina hesitou por uns instantes e depois meteu a mão dentro do saco e roçou os dedos pelos papelinhos. Sentindo-se como se estivesse para pular de um prédio alto, pegou num papel. Desdobrou-o. As palavras estavam escritas em tinta preta, em maiúsculas pequenas e cuidadas. TRABALHADORA DO SISTEMA DE CANALIZAÇÕES, era o que dizia. Ela fitou aquelas palavras. — Em voz alta, por favor — disse o presidente. — Trabalhadora do sistema de canalizações — disse Lina num murmúrio sufocado. — Mais alto — disse o presidente. — Trabalhadora do sistema de canalizações — disse Lina mais uma vez, em voz alta e embarga-da. Na sala ouviram-se suspiros de pena. Com os olhos pregados no chão, Lina voltou para o seu lugar e sentou-se. Os trabalhadores do sistema de canalizações trabalhavam por baixo dos armazéns, no labirinto subterrâneo de túneis onde se situavam os canos de água e dos esgotos de Ember.

Passavam o dia consertando vazamentos e substituindo juntas de canos. Os trabalhadores se molhavam e passavamfrio; podia até ser perigoso. Um rio subterrâneo com uma corrente forte passava pelo Sistema de Canalizações e, de vez em quando, alguém caía nele e desaparecia. Ocasionalmente, as pessoas também se perdiam nos túneis, quando se afastavam demais. Desolada, Lina fitou a letra B que alguém tinha gravado no tampo da sua carteira há muito tempo. Qualquer outra coisa teria sido preferível a trabalhadora no Sistema de Canalizações. Ajudante das estufas era a sua segunda escolha. Pôs-se a imaginar com desânimo o ar quente e o cheiro de terra das estufas, onde poderia ter trabalhado com Clary, a gerente das estufas, alguém que ela conhecia desde sempre. Também teria lhe agradado ser assistente médica, colocando ataduras em ferimentos e ossos quebrados. Até mesmo varredora de ruas ou puxadora de carroças teriam sido melhor. Pelo menos assim poderia ficar na superfície, com espaço e pessoas à sua volta. Pensou que trabalhar no Sistema de Canalizações devia ser como estar enterrada viva. Um a um, os outros alunos foramescolhendo os seus empregos. Nenhum ficou com um emprego tão horrível quanto o de Lina. Por fim, a última pessoa levantou-se de seu lugar e dirigiu-se para a frente da sala. Era Doon. Tinha as sobrancelhas escuras franzidas, numa expressão de grande concentração. As mãos estavam fechadas em punho ao lado do corpo, viu Lina. Doon meteu a mão no saco e tirou o último papelinho. Fez uma pausa, agarrando-o com força. — Vamos lá — disse o presidente. — Leia.

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