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A Cidade do Ceu – Curt Siodmak

Jan Van Buren inclinou o rosto angelical para o velho na estreita cama da prisão espacial. Seus olhos, de órbitas profundas, brilhantes e cruéis como um pedaço de cristal, observam com prazer sensual a agonia do homem drogado. Através do vycorglass das paredes da sala, a Terra surgiu como um gigante, enchendo o espaço, salpicado de estrelas, desaparecendo com a rotação do satélite em seu eixo. Van Buren endireitou o corpo cuidadosamente exercitado e, num gesto narcisista, sacudiu os compridos cabelos louros caídos obre os ombros. – Ele está começando a lutar contra a droga – disse a Hans Hallstadt, escandindo cada sílaba comcuidado retórico. Vamos acabar com isso antes que ele acorde. A sala era quase nua, exceto quanto a uma mesa presa ao assoalho, uma cadeira de balanço que pendia da parede, uma estante com alguns poucos livros amarrados uns aos outros para impedi-los de flutuar na reduzida gravidade do satélite. – É o diabo ter de esvaziar um quarto! – observou Hallstadt. O rosto, manchado pelo câncer que umsol tropical lhe queimara na pele, contraiu-se num sorriso triste que inspirava compaixão. Van Buren ergueu o velho e, com a ajuda de Hallstadt, colocou-o em uma padiola. – Ele não sabe – disse, para consolar Hallstadt. Entre os dois homens havia uma comunicação profunda que ultrapassava a amizade. – Mas soube por algum tempo – replicou Hallstadt com uma piedade que não parecia inspirada pelo homem drogado mas por si mesmo. – Ele ainda teria alguns anos de vida. Ergueram a padiola. Na reduzida gravidade parecia quase sem peso. – Ele não sabe – repetiu Van Buren com orgulhosa impaciência. – E se o soubesse, não teria ideia de quando. Ora, que é isso? É como um derrame cerebral. Repentino. Inesperado. Você gostaria de saber quando vai morrer? – Eles não me matariam desse modo! – murmurou Hallstadt. Entraram em um corredor e passaram diante de portas fechadas. – A Terra vai mandar um substituto. Pierre Bardou, um francês – disse Hallstadt, carregando a maca como um garçom suporta uma bandeja.


– Qual foi o seu crime? – perguntou Van Buren com agressivo sarcasmo. – Tentou matar o presidente da República? – Não! Divulgou documentos secretos que implicavam militares franceses. – Ah! Atacar os militares! É um crime pior que o assassínio! – Van Buren parou, pousando a maca no chão. – Primeiro Deus – disse – depois os generais, ou vice-versa. – A guerra é uma profissão excitante – afirmou Hallstadt. – Você deve saber! Gosta de ver pessoas morrendo. Tinham chegado a um pequeno nicho na parede do corredor. Uma pesada porta em semicírculo, com grossos batentes de aço, como os dos submarinos, fecha a câmara de compressão que leva ao mundo exterior. O velho, na maca, sentiu a morte próxima e lutou para recuperar a consciência. Murmurou palavras desconexas. Hallstadt curvou-se para ele, mas Van Buren empurrou-o delicadamente. – Não ouça Hans. Tinha um olhar estranho, drogado. – Essas palavras não têm nenhum sentido, mas ficariam em sua mente. Puxou uma alavanca na parede. O ar uivou como um animal, por trás da porta. Van Buren observou os painéis que indicavam a pressão do ar dentro da câmara. As atmosferas equilibraram-se, a porta girou lentamente nos gonzos e se abriu. – Não precisa ficar aqui perto, Hans. Eu sei como você é fraco – disse Van Buren, a respiração acelerada, tocando o rosto do amigo com suavidade. – Não me importo – replicou Hallstadt com um dar de ombros – Quantos já não matamos aqui! Isso já não me afeta. Silenciosamente os dois homens viraram a maca na câmara de compressão e fecharam a pesada porta. – Assisti o julgamento de Bardou pela televisão – disse Hallstadt observando Van Buren abaixar a alavanca. O ritmo cadenciado do compressor precipitou-se. – Quase foi absolvido, mas houve um tiroteio diante do tribunal e algumas pessoas morreram.

Foi por isso que o juiz o enviou para nós. – Que mistério! – Van Buren apoiou as mãos abertas contra o vycorglass e olhou para baixo, para o homem na maca – A pressão se equilibrou – murmurou. – Abra a porta exterior. O ar da câmara fluiu de novo para os tambores de pressão. Uma parede na câmara de arejamento abriu-se e o espaço negro pontilhado de galáxias formou um aveludado pano de fundo. Nada há de misterioso – disse Hallstadt prosseguindo na conversação. Enrolou um cigarro, acendeuo, deu uma tragada profunda. Depois passou-o ao amigo, absorvido na contemplação do homem na câmara de compressão. Este tomou o cigarro sem sequer voltar a cabeça. – O governo jamais desiste quando persegue uma presa – disse Hallstadt. – Nunca! Bardou não teve a menor oportunidade! O corpo na câmara de compressão jazia imóvel. Mas agora começava a tremer de leve, quase imperceptivelmente. As faces afundaram dando ao rosto o aspecto de uma caveira. Os olhos sumiram nas órbitas e a pele começou a encolher, expelindo tufos de pelos cor de cinza. Van Buren observava a transformação com concentração hipnótica. – Jamais me cansarei deste espetáculo – confessou, sem pretender desculpar-se. – Ver pessoas morrendo deste modo leva-me a filosofar. Que somos nós? Noventa e cinco por cento de água e algumas gramas de ossos, cabelos, carne e unha? Como pode o homem ser a imagem de Deus? Deus é feito de água? – Riu baixinho. Nos lábios do homem morto bolhas surgiam, cresciam, estouravam e se evaporavam como se o cadáver estivesse fervendo por dentro. Sua roupa, um macacão como os de Hallstadt e Van Buren, tornou-se muito larga para o corpo. – Deixe-o só! Hallstadt virou o rosto e puxou o amigo pelo braço. – Muitas horas serão precisas para que ele fique completamente seco. Não é um espetáculo agradável, exatamente antes do jantar. Tomando o cigarro dos lábios de Van Buren, aspirou-o profundamente. Van Buren não podia desviar os olhos do corpo que encolhia.

– Eu gosto de olhar. Você pensa que Bardou se adaptará a nossa pequena comunidade? – É possível. Ele parece inteligente – disse Hallstadt. E se isso não acontecer, bem, temos um quarto vazio, mas não por muito tempo. O pessoal lá de baixo fica feliz com a morte de quem quer que seja aqui de cima. Se pudessem, eles substituiriam toda a tripulação a cada mês. Lançou um olhar ao corpo. Ele mudara de forma. As pernas erguiam-se vagarosamente como se puxadas por cordéis. A pele se transformara em pergaminho. Van Buren colou o rosto, com força, contra o vidro. – Divirta-se, sádico, filho da … Bateu de leve nas costas de Van Buren. – Que estranho processo de fazer funcionar o sexo! Alguém precisa morrer para que você chegue ao orgasmo! Van Buren não lhe deu atenção. Hallstadt afastou-se com movimentos de cegonha, cada um de seus passos cobrindo uma extensão de cerca de três metros, na reduzida gravidade da prisão espacial. II Lee Powers conversa com Evgeny Rubikov pelo videofone que liga seu chalé na cidade suíça de Thun à Cidade Espacial Internacional. Rubikov parece abatido e nervoso na pequena tela do aparelho. O Rubikov que se vangloria de ser capaz de “ficar possuído de calma impressionante” sempre que a situação se torna crítica. – É melhor você subir com o próximo transporte – vociferou Rubikov, – Pro inferno, você é o capitão desta geringonça; seu trabalho é aqui em cima. Deixe de vadiação. Eu me recuso a assumir responsabilidades adicionais! – O que é que há, Ev? – perguntou Lee. – Está sofrendo de astrofobia? Rubikov não respondeu ao gracejo; apenas se tornou mais incisivo. – Temos um vazamento de radioatividade dentro ou em redor do Reator Um. Fiz a vedação do globo e transferi a energia para o número Três. O número Dois não funciona; seu combustível está sendo trocado. Se acontecer alguma coisa ao número Três, já não teremos nenhuma energia e a Cidade Espacial Internacional se congelará em dois dias! Cerca de três mil pessoas vivem na Cidade Espacial Internacional.

– Tenha calma, Ev. Podemos fazer operar o Reator Dois em poucas horas. A luta de Lee é com a diretoria da Cidade Espacial Internacional para que esta seja equipada com mais um reator. Será necessário um desastre de grandes proporções para sensibilizar os encarregados das finanças? – Se o vazamento for na caldeira, podemos consertá-lo aqui. Se for no Reator Um, teremos que desmontá-lo e despachá-lo de volta para a Terra. Não poderíamos consertá-lo diz Rubikov com calma apenas aparente. – Comecei a transferir o sódio-potássio para recipientes a fim de que minha tripulação possa chegar à região do vazamento. E, por via das dúvidas, já chamei os rebocadores espaciais para carregar toda essa droga daqui. Quando a mistura de sódio-potássio passa pelo reator, este fluido em processamento se torna altamente radioativo. Ele conduz o calor do reator à caldeira, criando o vapor para as turbinas. Este complexo processo passa rapidamente pela mente de Lee, como se ele pudesse determinar, de sua casa de campo, a causa do vazamento letal na Cidade Espacial Internacional. – Há alguma radioatividade no sistema de circulação de ar? – Apenas vestígios, mas você sabe com que rapidez o lacre se deteriora quando não está sob pressão. – Até agora não sabemos se os lacres se enfraqueceram. – E difícil chegar a eles. Alguns estão colocados por dentro das paredes do reator. – Eu sei. Eles deveriam estar em lugares mais acessíveis para os testes. – É muito fácil – explodiu Rubikov – É um pouco tarde para dizer isso. Esses maldi tos engenheiros atômicos projetam tudo da forma mais complicada possível para assegurar-se de que ninguém além deles mesmos saiba consertá-los. – Há alguma contaminação do lado de fora do globo do reator? – Estou tentando medir isso. Minha tripulação buscando por toda parte, correndo como coelhos comcontadores Geiger – no hotel, nos laboratórios, no hospital. Nada até agora, mas a situação pode mudar de um momento para outro. E então, que fazemos? Evacuamos três mil pessoas? – Não se altere, Ev. Subirei assim que puder e resolveremos o problema juntos. – E sua responsabilidade.

Rubikov abaixou o tom de voz. – Eu só estou avisando – Aposto uma caixa de vodka que tudo será resolvido. – É uma aposta desonesta – grunhiu Rubikov, irreconciliável, ambos estaremos mortos e você não terá que pagar. – Se você puder vencer essa dificuldade. ninguém mais pode. Lee sorriu com um sorriso com que já enfrentara muitas situações explosivas. A figura de Rubikov desapareceu da tela do aparelho. Lee pressionou um número no mostrador da televisão, Surgiu o rosto de uma moça. – Dr. Powers! – exclamou, reconhecendo-o. – Comunique-me com Tomlinson. – O professor está no hospital fazendo um check-up. Não se sentia bem esta manhã. Quer que eu ligue para o quarto dele? – Não. Não lhe diga que eu chamei. Lee desligou o aparelho. Tomlinson deveria tomar algumas semanas de licença, ponderou. Lee sabe que ele também precisa de descanso. Está na Terra há apenas quarenta e oito horas e sua pressão sanguínea só agora está voltando ao normal; precisará de pelo menos outras quarenta e oito horas para sentir-se perfeitamente bem. Lee observou pela a água azul, cristalina do Lago de Thun, com a cadeia de montanhas dos Alpes suíços atrás, o pico de Jungfrau eternamente coberto de neve, as campinas de um verde reluzente, parecendo artificial, irreal como a visão da cadeia de montanhas acima delas, Ele adora esse pequeno chalé, visita todas as vezes que seu trabalho permite, Uma velha senhora do lugarejo faz a limpeza. É a única visita admitida neste refúgio de ermitão. A idade Espacial Internacional é algo vulnerável. Ainda que todas as suas partes tenham 99,999 por cento de segurança, Lee se preocupa pelo 0,001 por cento que, multiplicado pelos 100.000 diferentes instrumentos com suas milhões de partes componentes, constituem um elemento ameaçador, Não nenhum aparelho mecânico absolutamente infalível. Evacuar três mil pessoas levaria dias.

Não existem astropermutadores nem a astrorrebocadores em número suficiente; não há espaço suficiente para sua aterrissagem na Cidade Espacial Internacional para uma evacuação de emergência. – Isso é típico de Tomlinson – resmungou Lee. – Esperar que eu deixe a Cidade Espacial Internacional para internar-se no hospital. Pensando que eu não descobriria. Eu o farei tirar umas longas férias, mas na Terra. Ele já está com idade avançada. Setenta anos! Mas irá se aposentar algum dia? – Lee analisou seus pensamentos receoso de seus motivos. Nunca confia em suas conclusões quando está emocionalmente envolvido. – Será que o quero por perto porque preciso dele? Que faria eu sem ele? Gerald Tomlinson fora outrora professor de pesquisas aeronáuticas na Universidade de Stanford. Era professor de Lee e este seu assistente; depois, quando Lee se tornou famoso, os papéis se inverteram. Tomlinson. embora ainda incumbido das pesquisas espaciais, é hoje o braço direito de Lee. Lee encheu os bolsos com cachimbos e fumo e saiu do chalé. fechando a pesada porta atrás de si. Lançou um olhar nostálgico ao declive abrupto do telhado de duas águas, inclinando-se num ângulo de 60°, proteção contra a neve que, no inverno, cobre toda a casa até a sacada. Na colina que se estende em frente ao chalé está o helicóptero “Hiller” de Lee com seus rotores emforma de libélula. É um aparelho rápido, com velocidade máxima de seiscentos e cinquenta quilômetros por hora. Menos de uma hora mais tarde Lee desceu o “Hiller” num dos campos de pouso do aeroporto espacial de Le Bourget. O elevador da cúpula Soleri desce silenciosamente. Seu assoalho carpetado chega quase a cemmetros abaixo do nível do solo. O cubículo está repleto de um grupo diversificado de viajantes. O ar fresco rescende a pinho; ouve-se um suave Muzak. Ao lado de Lee há uma mulher jovem. Sua cabeça toca os ombros de Lee e seus cabelos têm a luminosidade de um negro resplendor asiático. Lee pode ver parte de seu rosto, lívido como marfim, como se ela evitasse deliberadamente sua exposição ao sol.

Um costume branco, de material resplandescente, circunda seus ombros num talhe perfeito; um costureiro de Paris usa esse tecido somente para pessoas riquíssimas como marca de exclusividade. Perturbada pela sua proximidade, ela levanta os olhos; são levemente acinzentados como os das aves de rapina. Por um momento os olhares se encontraram. O olhar da jovem tem uma indiferença calculada para evitar qualquer aproximação masculina. Lee pensa ter visto antes esse rosto contraído, mas não pode lembrar de onde. Seu pensamento retorna para Rubikov e o problema da da radioatividade. Como tornar a Cidade Espacial Internacional menos vulnerável? Acrescentando três reatores de apoio aos já existentes? Fazendo um segundo nível nos hangares, duplicando deste modo o espaço de de aterrissagem? A resposta parece estar sempre no acréscimo de instrumentos mecânicos. Mas cada novo instrumento traz consigo as próprias falhas. Repentinamente, a mulher jovem virou as costas para Lee, como sentindo a tensão que Rubikov lhe havia transferido. Seu corpo tinha uma sensualidade que Lee não sabia definir. Seria a proporção entre os membros e o tronco ou aquela integração complexa entre cabeça, braços e pernas como o ritmo de uma dança? Lee deliberadamente afastou-se um pouco dela. Coo se a falta de atenção de umhomem a atingisse como um insulto, ela se aproximou, num impulso. De novo os olhares se cruzarampor um momento fugaz. A jovem recuperou a segurança ao simples olhar casual e negligente de Lee, mas ainda assim o olhar de um macho, consciente da presença de uma mulher bonita. Lee percebeu um sorriso nos olhos daquele rosto imóvel. O elevador chegou ao andar térreo. Assim que as portas se abriram, a mulher de cabelos negros apressou-se e saiu antes de Lee. Este permaneceu no elevador até ver sair o último passageiro. E ficou observando. Doze viajantes que iam de um continente a outro via Cidade Espacial e que se apressavam a tomar o ônibus para outro ponto da cidade; uma viúva rica, cheia de pérolas ao pescoço, rodeada por um grupo de garotas extremamente bonitas, participantes do concurso de Miss Espaço; a viúva obviamente as acompanhava, levando um cachorrinho por uma coleira de pedras preciosas. Uma mulher jovem de olhar cansado com uma criança nos braços e puxa da por outras duas; crianças nascidas numa era em que se perdeu a noção de distância. Lee se dirige calmamente à mesa de recepção. Não havia razão para apressar-se. O transporte espacial, o astropermutador, partirá para a Cidade Espacial Internacional em uma hora e oito minutos exatamente, para pousar na Cidade Espacial vinte. minutos depois de cruzar Paris.

Lee observa a jovem mulher conversar com a recepcionista, uma garota vestindo o uniforme vermelho da Cidade Espacial Internacional. Ela passa algumas notas, provavelmente mensagens, à de cabelos negros, que as joga sem ler em sua bolsa e segue, com movimentos graciosos de dançarina. Os passageiros rodeiam a mesa, para passar pelo controle. Lee espera até que o último deixe a mesa e se aproxima da garota de uniforme vermelho. – Uma passagem para o próximo voo, por favor – diz calmamente. – Sua reserva, por favor. – Sem olhar para Lee a moça estende a mão fina enquanto empurra a chave do intercomunicador com a outra. – Eu não tenho reserva. – O astropermutador está totalmente lotado para os próximos quatro voos O máximo que posso fazer é arranjar-lhe um assento no rápido das seis da manhã. – Tenho certeza de que vai poder me arrumar um neste mesmo. Lee mostra-lhe sua cédula de identificação. Ela olha para o cartão e só então levanta a cabeça. – Dr. Powers! Ora, eu vi seu retrato em todos os jornais! – Todos? – Lee gostaria que a mulher de cabelos negros tivesse mostrado o mesmo entusiasmo. A recepcionista se ruboriza. – Eu lhe conseguirei um lugar no próximo voo Só teremos que retardar um dos passageiros. Afinal, o Sr. tem prioridade. Isto é, se for urgente. – Realmente é – diz Lee. Em sua mente surgem o reator, homens com máscaras e roupas protetoras, movendo-se silenciosamente como fantasmas, interditando parte da Cidade Espacial Internacional, um pesadelo constante na cabeça de Rubikov. – Vejamos o que podemos fazer pelo senhor. – A recepcionista percorre a lista de passageiros. – A número dezoito parecia estar com pressa de ir ao bar. Não creio que se importe de esperar um pouco mais.

Lee olhou para o fim do longo corredor que leva ao portão de embarque. O teto é recoberto com uma pintura da Terra projetada por Mercator, com cidades, montanhas e oceanos estilizados. Seus olhos procuram a cidade de Thun, o lago e o chalé, que o artista tinha caprichosamente acrescentado. Lee se esforça por conter a impaciência. Seu trabalho é lá em cima, na Cidade Espacial Internacional. A cidade tinha absorvido toda a sua energia e cuidados durante anos; sé recentemente, depois de terminado o grande satélite é que começara lentamente a tomar consciência de que tambémnecessitava dedicar-se à sua vida privada para manter a estabilidade mental. Comprou o chalé numa parte do globo que ainda conservava características rurais, longe das atribulações do mundo e lá encontrou o descanso merecido depois de muitos anos, – É melhor você arranjar uma namorada firme – advertiu Tomlinson – Pelo que sei o sexo é um grande antídoto para a tensão. Você deve se distrair um pouco, senão vai se transformar num computador ambulante. – Tem alguns bons de telefone? – perguntou Lee bem humorado. = Você não precisa disso. Basta mostrar-se receptivo quando elas o procurarem. Acredite-me, o sexo e o amor perfazem um mundo tão grande quanto o espaço side ral, talvez maior ainda. Tomlinson havia sido casado durante quarenta anos, até a morte de sua mulher. Depois disso, tornouse um eremita. – É uma perda de tempo – replicou Lee. – Jovens prostitutas , velhas freiras – Tomlinson retrucou. – ou vice-versa. Quando isso acontecer com você espero estar por perto para ouvir suas lamúrias por haver perdido tanto tempo empesquisas espaciais. – Por enquanto acho o espaço sideral mais sensual que qualquer mulher – afirmou Lee com umsorriso. Com esses pensamentos, Lee caminhou para o fim do corredor. Seu corpo estava dolorido pela tensão que não pôde afastar nem mesmo durante o sonho. Procurou desviar o pensamento de sua preocupações com a Cidade Espacial Internacional. 1 Na caminhada até o fim do longo corredor, cruzou o bar, um ambiente circular, de cúpula alta, brilhante, com decorações de raios laser que se entrecruzam formando desenhos geométricos. A luz se transforma numa substância condutora como um fio elétrico. Uma nova dimensão cujas possibilidades deveriam ser investigadas.

O bar está repleto de passageiros à espera do astropermutador que os conduzirá à Cidade Espacial Internacional. – Senhorita Susanne Lesuer – sussurra um alto-falante acima de sua cabeça. Há dezenas desses altofalantes embutidos no teto de todas as salas e do corredor. – Senhorita Lesuer, é favor apresentar-se à mesa de recepção. – Lee a vê novamente. Ela caminha em passo apressado em sua direção e lançando-lhe um rápido olhar, apressa-se ao cruzar com ele seguindo seu caminho até a recepção. Lesuer? Susanne? Será francesa? Lee havia conhecido norueguesas com cabelos negros asiáticos e olhos claros. Será uma mistura de Europa e Asia? Observa a harmonia de seus movimentos e sua deliberação, como se nada pudesse impedi-la de chegar a seu destino. Desenvolve-se uma discussão em que a recepcionista lança mão de toda sua habilidade profissional. Susanne Lesuer olha na direção de Lee. Teria sido delatado pela recepcionista? Lee afasta-se rapidamente. Não quer enfrentá-la, muito menos zangada. N a porta de entrada do tubo de lançamento do veículo ao espaço, Lee mostra sua identificação ao guarda. – Este sai dentro de uma hora, Dr, Powers. – Eu sei – disse Lee impaciente. – Deixe-me entrar. – Há um veículo de carga que sai antes – replicou o guarda, um pouco perturbado pela presença de Lee.

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