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A Cidade dos Segredos – Sasha Gould

SUA GÔNDOLA DESLIZA SOBRE a água como uma faca cortando seda escura. Os dois passageiros sussurram e riem, mas, do lugar onde ele está, não consegue perceber se estão tramando algo. Não é da sua conta se um velho e rico cavalheiro está disposto a pagar para obter favores de uma bela jovem — mesmo que ela seja uma moça de família. Conduzindo o barco com o remo, ele suspira e desacelera, até parar. Em silêncio, ajuda ambos a alcançar o nível da rua. Por um breve instante, ele olha diretamente nos olhos do homem enquanto recebe o pagamento. O improvável casal segue então seu rumo, os passos rápidos do homem fazendo um ruído seco sobre o chão de pedra, o riso da jovem pairando na noite. Seus passos ecoam pelas ruas, para além da Praça São Marcos. A gôndola brilha e reflete a luz do luar enquanto ele toma o caminho de casa. Ele a controla coma destreza, conhecimento passado de geração em geração, deslizando diante de palácios indistintos, inclinando-se e contornando San Zulian, San Salvador e Mazzini, ao longo de canais secundários que compõem um rebuscado trajeto que segue da Praça São Marcos até a Ponte Rialto. Trata-se de uma rede confusa, repleta de falsos desvios e de perigos inesperados — é fácil perder-se nela, especialmente à noite. A menos que você seja um gondoleiro — neste caso, estas vias fluviais lhe são familiares como a palma da mão. Ele está perto de casa quando ouve um grito longo e horrível, que preenche a noite. Ouve o ruído de algo caindo na água e o som de alguém batendo com um pedaço de pau num gradil. Ao fazer a curva, ele vê uma velha senhora correndo para cima e para baixo, ao longo da margem, implorando ajuda e chorando. Acima, janelas são abertas. Uma pessoa de voz sonolenta e rouca ordena que parem com o alvoroço. Curiosos se penduram no batente das janelas mal iluminadas. A princípio ele acha que aquilo que vê adiante, na água, é um lençol ou uma cortina — uma espécie de cúpula, inchada e encharcada, balançando suavemente no meio da escuridão. Ao se aproximar, percebe que é um vestido boiando na superfície. Uma mulher. Descalça e com o rosto voltado para baixo. Flutuando perto o suficiente para ser puxada até a margem com o remo. Com a ajuda da velha senhora, ele carrega o corpo até a beirada de pedra. Percebe, então, as pessoas que se aproximam, formando um círculo ao redor deles.


Devagar, pesadamente, ele vira o cadáver. É uma jovem de aproximadamente 20 anos. Dedos delicados, já frios. Lábios azulados. Emvida, devia ter sido belíssima. Seus olhos estão semicerrados, olhando fixa e serenamente para o céu. Os lamentos da velha ficam mais intensos. Ela se atira junto ao corpo, afastando fios de cabelo molhado do rosto sem vida. A seguir, fica em pé e agarra-se ao homem com suas mãos ossudas, segurando-se em sua jaqueta. — Que Deus me ajude, Que Deus a ajude. Jesus, meu Deus do céu, faça algo por nós! Ele pega nas mãos da mulher, segurando-as entre as suas. Para os passantes, isso pode parecer um gesto de conforto ou de carinho. Mas, na verdade, é uma tentativa de se desvencilhar de todo aquele pânico e sofrimento. — Signora, sinto muito, signora, mas não há mais como ajudá-la — ele diz, e vai embora. Capítulo 1 AQUI, NENHUMA DE NÓS é conhecida por seu nome verdadeiro. Você mal chega e é rebatizada: La Grossa, La Cadavara, La Lunatica, La Trista, La Puera, La Pungenta — Gorda, Cadavérica, Lunática, Tristonha, Medrosa e Fedida. Dentro dos muros do convento, cedo ou tarde, os adjetivos depreciativos se transformam em nomes próprios. Elas me chamam de La Muta — A Muda. Não que eu não tenha muito a dizer; o fato é que, na maior parte do tempo, guardo as coisas comigo. As filhas aprendem isso desde cedo. As caçulas, mais cedo ainda. A abadessa vivia me dizendo que percebia algo de selvagem em minha alma — que havia algo de animal em mim. Um cachorro, talvez, ou então um rato. As criaturas que se esgueiram para dentro do convento à noite, em busca de ossos de frango e de comida putrefata. Esta é uma característica minha que ela está determinada a eliminar.

Minha vida, que antes pertencia a meu pai, hoje está nas mãos dela. Sou despertada às 2 horas da manhã, para fazer as preces, e novamente às 5 horas, para sair e cantar melodias perfeitas enquanto o sol de Veneza se eleva por trás das grades de ferro e das trancas, dançando por entre o mármore e o dourado da capela. A abadessa mantém o controle sobre toda a correspondência que entra e sai do convento. Às vezes ela retém as cartas enviadas por minha irmã Beatrice, impedindo-me de lê-las. Me conte as novidades, eu implorava a Beatrice em minhas cartas. Quando é que você vai se casar com Vincenzo? Ele faz você feliz? Nenhuma dessas perguntas pode ser feita sem passar antes pela análise minuciosa e puritana da abadessa. Para uma mente desconfiada e alerta a todos os males possíveis, qualquer palavra minha pode, de algum modo, estar impregnada de pecado. — Eu consigo enxergar tudo — me diz a abadessa. — Eu sei o que passa por sua cabeça. Eu costumava acreditar nela. Achava que ela era capaz de ver meus anseios secretos vazando, assim como o azeite que escorre da prensa. Sim, eu a vi segurando as cartas pelas bordas dos envelopes, como se o conteúdo delas pudesse manchar seu hábito. Como se fossem coisas oleosas, encardidas. Algumas das cartas enviadas por Beatrice chegam até mim. Eu as escondo dentro de uma caixa azul de madeira, junto a meu anel e um tufo de seus cabelos amarrado com fita de seda. Tarde da noite, quando Annalena já ronca e se revira sob as cobertas, eu apanho esses tesouros de minha irmã e leio repetidas vezes os papéis repletos de tinta. Cada uma delas traz algo do mundo exterior, contrabandeado para dentro destes muros que nos separam. Por um mero acaso do destino, ela permanece livre, enquanto eu sigo definhando. Annalena é minha “convertida”, minha irmã leiga, minha criada, que zomba de mim por eu sorrir enquanto estou dormindo. Ela diz que minhas pálpebras tremelicam e fica imaginando quais caminhos eu percorro em meio à escuridão. Quando sonho, viro criança novamente. Beatrice e eu corremos até a ilha do Lido para ganhar presentes da avó de Paulina, minha amiga órfã de pai. Sempre me entristeceu o fato de o pai dela ter morrido ainda jovem, mas hoje me pergunto se, na verdade, ela não é abençoada por ter vivido sozinha com a mãe. A avó de Paulina cobria o corpo com roupas pretas, e a pele de seu rosto era grossa e cheia de sulcos, como uma casca de noz. “As princesinhas”, era assim que ela nos chamava.

Com um Shhh! , ela recomendava: — Não contem ao seu pai que estiveram aqui. Então, ela nos olhava e suspirava: — Oh, e os maridos que vocês terão! As riquezas! Quantos homens terão o desejo de tocar a pele de vocês e lhes acariciar os cabelos! Ela era dona de uma panificadora e, durante o verão, quando não conseguia suportar o calor dos fornos, deixava-os esfriar e fazia somente suspiros. Era famosa por causa deles. Era a única que conhecia a receita, que lhe fora passada pela mãe e, antes disso, pela avó materna. Sospiri di monaca: esse era o nome dos doces. Os suspiros das freiras. Há muitas receitas com esse nome comovente, mas o sabor de nenhuma delas jamais se igualou ao dos suspiros da avó de Paulina. Em meu aniversário de 7 anos, Paulina me pegou pela mão, e saímos correndo até a panificadora de sua avó. Ali ficamos paradas, as duas, em silêncio, olhando para a mulher mirrada. — Vovó — ela disse, por fim —, Laura está completando 7 anos hoje. — È vero? — Verdade. Com seus dedos morenos e retorcidos, como uma velha árvore, ela colocou sete suspiros dentro de uma pequena cesta e a entregou a mim. Peguei um e dei uma mordida. Quebradiço a princípio, e então macio, ele revelou lentamente sabores de açúcar mascavo do Oriente, avelãs assadas do Sul e o sabor picante dos limões da Toscana. Fechei os olhos. Coloquei a mão na frente da boca e ela exalou um bafo quente. — Oh, querida! — A velha abriu um sorriso. — Que todos os prazeres de sua vida lhe tragam um entusiasmo como este e sejam assim, fáceis de preparar. Em meus sonhos, é sempre verão. Neles, minha mãe ainda é viva e está sorrindo. Nesses seis anos que passei no convento, lentamente, mas de modo assustador, me dei conta de que me esqueci dos detalhes de seu rosto. Deve ser porque estou prestes a ser crismada. Já marcaram a data. Estou prestes a me transformar numa Noiva de Cristo. As irmãs mais velhas se referem a isso como se fosse um verdadeiro casamento.

Um noivo etéreo está em pé a meu lado, com ar severo, olhando-me não exatamente com orgulho nem lascívia, mas com a arrogância de um pai, imóvel como um santo morto. A combinação de poderes de um duque e de um papa. Pergunto-me se minha irmã continua desenhando. Talvez ela possa me mandar um desenho. Ela sempre teve maior inclinação para a arte, era mais metódica; eu ficava impaciente, perdia o senso de perspectiva e, por causa da pressa, arruinava meus traços. Mamãe. Em minha pele, sentia seu hálito indistinto, quente e doce como amêndoas açucaradas. Eu inalava o aroma desse anjo que era minha mãe. Embora não possa mais ver seu rosto, ainda sou capaz de sentir seus aromas: lavanda, canela, flores de laranja e cereja. Minha mensagem é curta. Querida Beatrice, Por favor, me diga novamente qual era a aparência da mamãe. Envie um esboço, se puder. Com amor, Sua Laura. Não há nada na mensagem que a abadessa possa querer riscar ou eliminar. O que me preocupa é que até mesmo o fato de não haver nada a censurar possa, de algum modo, deixá-la frustrada ou furiosa. A abadessa autoriza o envio da carta. Fico à espera da resposta. Capítulo 2 TRÊS DIAS SE PASSARAM, e nada de resposta de Beatrice. As únicas cartas que recebo, cerca de quatro vezes ao ano, são de meu irmão, Lysander, mas ele é dez anos mais velho que eu — um estranho, praticamente. Ele prossegue os estudos em Bolonha, um lugar tão distante que nemconsigo imaginar como é. Meu pai jamais me escreve. Estou no jardim do convento. A abadessa Lucrezia também. É tarde demais para me virar: ela reparou que eu a olhava. Fixa em mim seu olhar de réptil, pálido e líquido, imóvel e alerta.

— Estão precisando de sua ajuda na enfermaria. Vá direto para lá. Faço uma mesura e saio rapidamente. Na enfermaria, o ar é fresco e o aroma do lugar está agradável. As velas cintilam e tremulam em meio à escuridão. Um homem faz um ruído terrível: geme e rosna como dois cães abandonados se atracando. Foi colocado sobre um desses bancos duros de enfermaria. Almofadas e cobertores foram empilhados a seu lado para que seu corpo surrado não fique em contato com a superfície nua. Contorce o corpo como se estivesse possuído. Da boca lhe escorre uma baba amarela esbranquiçada, como os rastros de uma nuvem de espuma que o mar deixa no Lido num dia de tempestade. Seus olhos se reviram e suas pálpebras tremem. Irmã Maria dá voltas e mais voltas ao redor do banco, como um inseto impotente, tentando chegar perto o suficiente para cuidar dele. Ela se aproxima, mas o homem consegue desprender uma das pernas e a atinge, derrubando o livro de preces e um frasco de remédios que ela trazia nas mãos. Ela me lança um olhar, corre até a prateleira e retorna com um pequeno pedaço de madeira. — Ele vai morder a língua logo, logo — ela diz. — Segure os braços dele! Tento segurar os braços que se contorcem, enquanto ela tenta enfiar o pedaço de madeira na boca do homem. Não acredito que vá conseguir. Em movimentos alternados, a boca dele se escancara, larga e cheia de baba, e a seguir se fecha com firmeza — imóvel e emitindo grunhidos. Irmã Maria tenta encontrar um intervalo efêmero entre uma contorção e outra para tentar enfiar o pedaço de madeira entre os dentes do homem. Ela desiste da batalha e se afasta, exausta e suada, acenando frouxamente com o braço para mim, dizendo: — Assuma a tarefa. Assuma a tarefa. — O que eu devo fazer? — A raiz de peônia — ela diz, ofegante. — Ele precisa tomar o extrato que está nesta garrafa. Se não conseguirmos fazer com que ele beba, ele pode morrer. — Ela segura diante de mim a pequena garrafa rachada, e sua mão treme tanto que parte do líquido é derramada fora.

— E preste atenção na língua dele. — Com a outra mão, ela segura o pedaço de madeira. Preciso encontrar um meio de fazer com que ele engula o líquido. Pego a garrafa e o pedaço de madeira e faço uma prece. Senhor, me dê forças. Chego mais perto do homem, bem devagar. Toco em seu peito e sinto a energia de um cavalo assustado ganhando força dentro dele. Olho-o diretamente e, por um instante, tenho a impressão de que ele também olha em meus olhos. Mas então ele se revira e se debate novamente, e o animal dentro dele parece ficar mais violento. Eu consigo fazer isso, digo a mim mesma. Consigo lidar com situações violentas. Esquivando-me de seus chutes e arranhões, consigo subir por cima dele e me ajoelhar sobre seu peito. Nesta posição, tento colocar o líquido dourado da peônia dentro de sua boca, mas ele vira a cabeça violentamente, de um lado a outro. Irmã Maria entoa um cântico enquanto vira as páginas de seu livro de preces de cura. — Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém. — É fácil para você dizer isso — murmuro entredentes, enquanto luto com o monstro debaixo de mim. De repente, me bate a certeza de haver algo de perverso nisso tudo. Estou sentada em cima de um homem! Estou tocando seu corpo, enquanto ele se revira e se contorce embaixo de mim. Mas Irmã Maria não me pede para parar. Ela prossegue com o cântico, num tom monótono e pesaroso. Observo o rosto do homem, à espera do próximo bocejo grotesco e convulsivo. Minha entrada é perfeita: no momento que ele abre a boca, enfio a borda da garrafa entre seus dentes e lhe dou um pouco do remédio. Ele fica sem ar e parece que vai engasgar. Tento inserir o pedaço de madeira, mas ele o cospe fora, aos poucos.

A tempestade começa a passar. — Calma — digo a ele baixinho. — Calma. — Toco seus cabelos e lhe enxugo a testa. Não sei direito se devo dizer algo. Ele treme como uma onda enorme que se recolhe. Irmã Maria não interrompe seu cântico. Está absorta no ritmo das preces e parece ter medo de que a interrupção quebre o encanto. Não sei se foi a prece ou a peônia que o curou. É possível que tenha sido algo dentro dele que simplesmente seguiu seu curso. Ele para de se debater, e a paz se instaura dentro de seu corpo. Saio de cima dele e desço até o chão. O homem se ajeita, colocando o peso sobre os cotovelos, e me olha: — Oh, Deus do céu, de novo, não. Oh, meu Deus, eu me descontrolei completamente. — O senhor está muito melhor agora — digo a ele. — Sim, obrigado, irmãzinha. — Ele olha para a garrafa de óleo de peônia quase vazia em minha mão. — Obrigado por retirar o veneno de dentro de mim. Sou praticamente eu mesmo de novo. — Sim, mas o senhor está muito fraco. O rosto dele ganha um ar sombrio, e ele agarra meu braço, puxando-me para perto de si. — Fraco? O que você quer dizer com isso? Como ousa? — Perdão, senhor. Eu só quis dizer que o senhor parece cansado. Precisa de descanso. Precisa beber alguma coisa.

Ele me solta e volta a despencar no banco. — Você está certa — ele murmura. — Sou um homem fraco. Fraco e dócil. — Senhor, eu não quis dizer fraco de espírito ou de alma fraca. Só fraco fisicamente. Por causa do sofrimento por que passou. Ele sorri, mas seu tom de voz é sério. — Ninguém em Veneza pode ficar sabendo do que estou sofrendo. Prometo-lhe que não direi a ninguém. Seu olhar se volta rapidamente para Irmã Maria. Ele consente com a cabeça e me diz que sou uma boa menina.

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