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A Cidade, o Inquisitor e Os Ordinários – Carlos de Brito e Mello

Vejamos este homem; este, somente este; este, e não outro homem; depois, com censura, desprezo e ditame, veremos todos os homens. Assim ele se apresenta: sem elmo, pois os dois grandes bernes que hospeda entre os cabelos impedem, como iniciantes chifres de um bezerrão mal mochado, que equilibre capacetes ou chapéus sobre a cabeça; sem gládio, espada, lança ou outro armamento, já que a artrose lhe degenerou as munhecas, que nada podem suster nem empunhar; sem montaria, devido à dilatação das veias hemorroidárias, e uma sela na qual pudesse sentar-se lhe machucaria o cu. Assim o homem se apresenta também porque, nos dias atuais e nesta cidade de horizonte duvidoso, não existem mais elmos nem armas, e os corcéis das antigas armadas foram substituídos por pangarés atrelados a carroças para carregar entulho procedente de obras da prefeitura. Falta-nos muito, sobranos pouco: sem tropa a marchar, reino a defender, rei a obedecer e rainha a saudar, restaram-nos, com desnecessária e ruinosa fartura, os bobos carecidos de corte. Bons tempos deviam ser aqueles; estes são infames. Maus dias. Mau lugar. Maus homens. Com tão poucos recursos, nenhuma guerra que renovasse nossos ânimos ou que nos partisse definitivamente ao meio, livrando pelo menos este solo da nossa coxeadura, poderá suceder-se. E esta asfaltada comarca sovina, nem enriquecida pela vitória nem arrasada pela derrota, continuará a ser tão somente o que é, e essa fatalidade eu acho que deveríamos todos rejeitar. Mesmo que fôssemos mais apetrechados e ricos, coisa que não somos, eu não saberia dizer comcerteza se, noutras estâncias, encontraríamos infantarias inimigas dispostas ao combate, comcombatentes mais nobres do que os nossos, que, já sabemos, por nenhum sangue nem saque combaterão. Não saberia dizer nem mesmo se, além do loteado perímetro onde moramos, existemcomarcas semelhantes, com seus próprios prédios, ruas, automóveis e povo, e se nelas moramhomens mais íntegros. Decerto, se existirem, eles avançam apenas até a ordinarice, como os nossos, quando não descem a coisa pior, também como os nossos. Assim é que todos nós, homens sem glória e sem ventura, tornamo-nos suscetíveis à bobeira, como se fôssemos portadores de uma lenta mas provável doença cujo vírus, em forma de sina, se incubasse em nosso caráter; ou então que à bobeira nos descobríssemos, fatalmente, tendentes, como perpetradores de um crime que nos fosse previsto cometer, a partir de alguma hora da vida e, daí por diante, diariamente. Convivendo com tão violentas ameaças, não se pode desenvolver nenhuma porção de civilização com saúde e inocência. Devemos ter para nós, no entanto, para que não sejamos todos enxotados deste assoalho de comunidade pela mesma vassourada, que o escopo dos homens ordinários varia dos esforçados e razoáveis aos torpes e lamentáveis. Pertenço aos primeiros; os bobos, aos últimos. Embora eu também seja um homem ordinário, não me igualo ao meu escarrapachado colega, se é que posso considerá-lo colega. Pois, ainda que eu não seja exatamente uma pessoa boa, é diante do pior que me encontro, e, quando comparado ao pior, o mediano passa por bom, assim como o remediado aparenta sanidade ao doente, e o arrependido ostenta correção aos olhos do prevaricador. Então, fico sendo eu o bom, o são e o correto. Para o interior das espeluncas de gente nojenta, vimpara ser o seu valor, o seu remédio e a sua lei. 2. Em que se preparam os dois fiéis servidores da inquisição o apregoador Vai começar de novo. o olheirento Estou de olho. o apregoador E de ouvido, espero eu.


o olheirento E de ouvido, claro. De olho e ouvido. Sempre. Quer uma prova? No apartamento ao lado de onde se encontra o sr. Decoroso, por exemplo, está vendo televisão o vizinho, com seu restinho de tosse tuberculosa e as pernas esticadas no sofá, enquanto o rabo do gato estimado lhe escorrega de uma das mãos, sem que se possa retê-lo. Quer outra prova? o apregoador Não precisa. E a rede de pesca? o olheirento Não sai da minha mão. Na celeste lagoa que fica acima das nossas cabeças, Deus é um bagre acoutado, sujo de satélites em vez de lama. Sua couraça alva e os barbilhões supranaturais podemdespontar de uma nuvem a qualquer momento. Mas e você? Não vai apregoar? o apregoador Estou me preparando. Hum, hum. Limpando a garganta. Fazendo exercícios de vocalização. As bruscas mudanças de tempo não fazem bem para a minha voz. o olheirento Não saímos mais do alto deste prédio, vivendo ao relento para servir o nosso inquisidor. Sol, chuva e vento são nosso lustre e abajures, nossas torneiras e chuveiro, nosso ventilador sempre ligado. E, quanto à apregoação, apresse-se. o apregoador Pare de me apressar e preste atenção no que acontece no apartamento onde está o sr. Decoroso. 3. Em que o sr. Decoroso afirma a sua lei o decoroso Eu esperava que o homem na minha frente, inapto para lidar com qualquer empresa diária, como o trabalho, a amizade e o pagamento dos carnês, e visivelmente aplicado em sua própria degradação, fosse capaz, num só, brusco e último gesto, de renunciar integralmente a toda e qualquer empresa, diária ou qualquer outra, incluindo respirar e percutir o coração. Afinal, a morte não nos ameaça. Pelo contrário, ela enfeita e robustece a cultura com variados e valorosos rituais. A morte nos garante que não envelheçamos a esmo, e que comemoremos cada aniversário cônscios de que, nalgum momento do futuro, todas as acumuladas velinhas dos nossos bolos serão retiradas de lá de cima, meladas de glacê, impiedosamente, num só lance.

Viver é que é um grande problema. Com esse objetivo, ainda ontem de manhã eu trouxe para este homem e deixei sobre sua mesa de cabeceira um copo de água contaminada com cólera. À tarde, voltei à sua casa, retirei a água do copo intocado e o enchi de soda cáustica líquida. Antes de anoitecer, em nova visita, deixei no lugar da soda rejeitada uma faca de cozinha que eu mesmo afiara, contrariando meu próprio desgosto como derramamento de sangue que o seu uso pelo homem ocasionaria. De noite, troquei a inútil faca por um revólver, que permanece na mesma posição em que o deixei e com o mesmo número de balas em seu frio e imóvel interior. Não quer morrer, então não morra! Decidir matar-se exige um pouco de lucidez e ímpeto, coisa que este homem não tem. Quem dera se o seu conteúdo anímico coubesse no maquinismo de um revólver, e então o descarregássemos num lote estéril de terra, onde ele se infiltraria e sumiria com a velocidade do tiro. Porém, como ocorre com todos nós, neste homem corpo e alma são uma única, indissociável e suja coisa, e não podem ser manejados em separado, como faríamos com a bala e a pólvora. Eis-me, então, recolhendo com a mão aprumada o revólver. Se um homem se tornasse tão bobo a ponto de se apagarem de seu corpo e dos seus modos os traços de homem que um dia foi, eu ficaria mais tranquilo. Mas resta ainda suficiente hominalidade na bobeira: um bobo forma um espelho afrontoso e execrável a ser consertado, a ser limpo, a ser justiçado. Dei-lhe muitas oportunidades para que, valendo-se de seus próprios modos, ele se retirasse dessa farsa medonha que se tornou sua vida. Mas o juízo de gente assim é um juízo corrompido. Aqueles que, como eu, ainda têm saúde devem emprestar raciocínio aos que não a têm. A civilização não se desenvolveu à toa. A civilização tem seus propósitos. Ela nos oferece cada vez mais recursos como a penicilina e a moralidade, a escova de dentes e a culpa, e não acho que devamos rejeitá-los. Para este homem serei tudo isso e o que mais precisar para que ele se endireite, se corrija, se limpe, se cure. Matando-se, ele decidiria consigo a sua sorte e o seu azar; vivendo, perdeu-os para mim. Tenho lei própria: a minha lei. Perto daqui, num prédio vizinho, aquele que tudo diz e aquele que tudo vê e ouve acompanham os acontecimentos deste quarto imundo de apartamento de centro de cidade. Serão ambos faces de Deus? De jeito nenhum. Deus não mais vê, nem ouve, nem diz. Meu apostolado ordinário e eu compomos os rostos somente de nós mesmos e constituímos um consórcio sem milagres, orientado pela repressão da bobeira, que procura sobreviver a este desastre de termos nos tornado todos homens tão abaixo do que deveríamos ser, homens tão abaixo do que deveríamos ter, homens tão abaixo de homens. 4.

Quando se apregoa a erradicação do mal o olheirento O sr. Decoroso está em pé, diante da cama do réu; aponta-lhe o dedo; xinga-o; ameaça-o. o apregoador Se é como está o Decoroso, então é mesmo hora de apregoar. Lá vai… Muita atenção. Só mais um instante. Espere um pouco… e pare de balançar a corda! o olheirento Não sou eu quem balança a corda. Acho que você deve ter engordado. Não engordou? Engordou, sim. A corda está pendendo mais para o seu lado. É bom emagrecer um pouco. Não podemos nos desequilibrar. Desse jeito… o apregoador Desse jeito o quê? o olheirento Nunca seremos modernos. o apregoador Modernos? Modernos? Que conversa é essa? O que é que ser moderno tem a ver com a minha gordura? o olheirento Não sei… É… Tenho a impressão de que… É só uma impressão. Não cai bem… Entende? A modernidade com a gordura. Modernidade tem a ver com… esbeltez. o apregoador O que não cai bem é esse assunto bem na hora da minha apregoação. A modernidade fica para depois. Dá licença um minutinho? o olheirento Licença? Eu não tenho para onde ir, nem você. Dividimos a mesma corda, o mesmo prédio, a mesma haste, a mesma altura. Mas vamos! Está mesmo na hora de a inquisição regrar um desregrado. Ficarei calado. Apregoe! o apregoador Muita atenção, citadinos! Quem fala aqui é o Apregoador, e eu falo em nome do decoro! Fiz da corda na qual me sustento o púlpito de onde a verdade se anuncia. Escutam-me bem? Se apregoo do alto deste prédio, ao lado do meu irmão Olheirento, é porque quero que me escutem. O que vou lhes dizer é de seu interesse e poderá, futuramente, ser também a sua salvação. Vocês sabem que temos montanhas descascadas em nosso entorno? Ruas malcuidadas, calçadas com buracos? Rios tampados pelo pavimento das ruas? Uma lagoa poluída? Fachadas decadentes de prédios? Poucas árvores, todas velhas? Pombos, cães e outros bichos que servem de almoço à piolhada? Sabem ou não sabem? Basta olharem ao redor para ver, amplamente, a nossa miséria.

Agora, passemos para o interior dos lares: como estão os ralos e tubulações das suas pias? O lixo deixado no corredor do andar do seu prédio, para que o zelador mais tarde o recolha? A louça de anteontem, que aguarda lavação? Suas gavetas de armários, cheias de velharias empoeiradas? Basta olharem os vãos recônditos de suas casas para ver que a miséria é também uma hóspede íntima. Lá fora e aí dentro as coisas vão imundas. Mas há coisa mais imunda, há coisa imundíssima! Nemrua, nem ralo, nem pombo, nem louça superam, eu lhes digo e confirmo, não superam a imundície que vocês trazem consigo misturada aos seus atos, misturada ao seu raciocínio, misturada aos seus sentimentos, misturada ao seu caráter! Se novamente houvesse por aqui um parabólico Semeador, como já houve nos tempos bíblicos, a alma de cada um de vocês mataria a lançada semente mais rápido do que as aves, o sol e os espinhos são capazes de matar. Mas nem todos estão rendidos. Eis que, num endereço próximo daqui, parte da nossa sujeira moral começa a ser limpa, exemplarmente limpa. Quando o mau cheiro sobe do caráter de um homem bobo, quem traz o sabão e a bucha é o sr. Decoroso. Que a lagoa e as pias de suas cozinhas entupam! Que os piolhos e os sacos de lixo se multipliquem! Apenas o caráter poderá ser salvo, e o Decoroso é o inventor e encarregado da lei salvadora. O mal é erradicável. Assistamos à sua erradicação. Amanhã, poderão ser vocês os condenados! 5. Enquanto isso, na vizinhança, conversa-se sobre amor, botões e farsa as vizinhas Escutou a apregoação, vizinha? E o que é que a gente não escuta neste centro de cidade? As pessoas falam alto. E a gente escuta. As pessoas falam baixo. E a gente escuta. Não é que a gente não tenha mais o que fazer. A gente tem. Mas nada é mais importante do que a vida dos outros. Além do mais, as nossas paredes são finas. As deles também. Adoro as paredes. Um prédio fica juntinho do outro, uma casa fica juntinha da outra. Adoro os prédios, adoro as casas. E ainda tem as ruas. Cheias de gente próxima, falastrona e curiosa.

Tem quem se intrometa muito na conversa dos outros. São muitos. Eles dão palpites, dão conselhos, ofendem, confessam-se. Como nós duas? Talvez, talvez. E ainda tem o… Quem? Aquele. Qual? O que fica acima de todos. De todos? De todos. Acima até mesmo do Olheirento e do Apregoador. O Altíssimo? Sim. Nosso Senhor? Sim. Deus? Sim. Aqui também o chamamos de Destinatário. Mas Ele não é de participar muito. Pelo menos, não que eu saiba. É bom ser sua vizinha. É bom ser sua vizinha também. Eu gosto do que é meu, eu gosto do que é seu. Eu gosto do que é meu, eu gosto do que é seu, eu gosto do que é dos outros. E, como o sr. Decoroso, gostamos de manter o decoro. a amada Serei amada hoje como fui ontem? Certamente que sim! Nem neste dia nem noutro dia qualquer, ficarei carente de amor. Que sorte tenho eu. Estou bem acordada e ativa desde o nascer do sol, mas os outros que moram nesta casa ainda dormem. Assim, vão se atrasar. Devo chamá-los de novo? Mas… Aí vêm eles, todos juntos, ainda com as roupas de dormir.

Cercam-me, abraçam-me, beijam-me. Sou amada, sou muito amada, sou imensamente amada! esposo e filhos da amada Minha Amada, todo dia Amada, sempre Amada! Amamos você, mamãe! Amamos muito, mamãe! Amamos demais, mamãe! o bem composto Onde estão mesmo os documentos que levei tanto tempo para reunir? Ah, aqui. Coloco-os em ordem numa pasta. Mas o que farei com esta minha certidão? Queimo-a! Que ela, maldita, continue a flamejar no lixo onde foi jogada, junto do nome que registrava e do fósforo que risquei. À tarde, irei ao cartório; agora, tomo café; entre o café e o cartório, esperam-me na alfaiataria muitos botões para pregar. a impostora Começou mais um dia nesta farsa. Quem, dentre todos nós, veste a melhor fantasia? Muitos podemconcorrer ao título, inclusive aqueles cujos ossos, fraturados em acidentes domésticos, foramsubstituídos por pinos e placas artificiais, travestindo-se, os acidentados, de bípedes aprumados e travessos, em vez de permanecer, caso respeitassem a genuinidade das fraturas, mancos ou entrevados. Em geral, faz parte de uma farsa decair. Esta decairá? Lá de cima, o Olheirento vigia, logo não é aconselhável falar demais aqui embaixo: devo me restringir a este comentário agora, uma provocação depois, um palpite mais tarde… Quase sempre, prefiro a camuflada sibilação ao exposto grito. A inquisição que age nesta comarca não gosta de mim. os andarilhos Levantemos? E comecemos a andar. Para tentar, de novo, sair desta cidade. Você acha que vamos conseguir? Nunca achei outra coisa. Se não conseguirmos desta vez, que seja da próxima. O quanto antes, o quanto antes.

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