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A Cidade Perdida de Marte – Ray Bradbury

Bem cedo, de manhã, cheguei no caminho. Estivera dirigindo por toda a noite, pois não conseguira dormir no motel, de modo que achei melhor dirigir, e cheguei às montanhas e morros perto de Ketchum e Vale do Sol exatamente quando o astro-rei nascia, dando motivo para ficar satisfeito, por me haver ocupado dessa maneira, dirigindo durante a noite. Entrei na cidade sem olhar para aquele morro. Tinha medo de que, caso o fitasse, cometesse um erro. Era muitíssimo importante não olhar a sepultura e, pelo menos, era assim que me sentia. Era preciso continuar a agir de acordo com o meu palpite. Estacionei o caminhão diante de um bar antigo e andei pela cidade, conversei com algumas pessoas, aspirei o ar, achando-o suave e limpo. Descobri um jovem caçador, mas ele estava equivocado como percebi, depois de conversarmos por alguns minutos. Encontrei também um homem muito velho, mas o resultado não foi melhor. Depois encontrei um caçador com cerca de cinqüenta anos, e era a criatura exata. Ele conhecia, e percebia tudo que eu procurava. Paguei-lhe uma cerveja e conversamos sobre muitas coisas, paguei-lhe outra cerveja e encaminhei nossa conversa sobre o que viera fazer ali, e o motivo pelo qual queria conversar com ele. Recaímos em silêncio por algum tempo e fiquei esperando, sem demonstrar minha impaciência, a fim de que o caçador, por conta própria, recordasse o passado e falasse de outros dias, ocorridos três anos antes, s sobre seguir de carro para o Vale do Sol nesta ou naquela acasião, sobre o que ele vira, o que ficara sabendo acerca de um homem que já estivera sentado naquele bar, bebendo cerveja, e conversando sobre caça ou caçadas mais além. E, finalmente, fitando a parede como se ali estivessem as estradas e as montanhas, o caçador fez ouvir sua voz tranqüila, estava pronto a falar. — Aquele velho — comentou. — Oh, aquele velho na estrada. Oh, aquele pobre homem velho. Fiquei à espera. — Não consigo esquecer aquele velho na estrada — disse ele, fitando agora o copo de bebida. Tomei um pouco mais da minha cerveja, sem me sentir bem, achando-me igualmente muito velho e cansado. Quando o silêncio se prolongou, tirei do bolso um mapa da região e o estendi sobre a mesa de madeira. O bar estava em silêncio, achávamo-nos em meio da manhã e inteiramente a sós naquele local. — Foi aqui que você o viu com mais freqüência? — indaguei. O caçador cutucou o mapa três vezes, com o dedo. Eu costumava vê-lo caminhando aqui.


E por aqui. Depois ele cruzava o território por este ponto. Aquele pobre velho. Tive vontade de dizer-lhe para sair da estrada. Não queria magoá-lo ou insultá-lo. Mas não se diz a um homem assim que existem estradas, que talvez o atropelem. Se ele vai ser atropelado, de nada adianta. A gente acha que é questão que compete a ele,” toca em frente. Ah„ mas ele era velho. Era, sim — confirmei, dobrei o mapa e o guardei de volta no bolso. Você é outro desses jornalistas? — perguntou o caçador. Não sou exatamente igual àqueles — expliquei. Eu não estava dizendo que fosse, não o misturei com os outros — retorquiu ele. Não precisa desculpar-se. Digamos que eu fui, apenas, um dos leitores dele. Ora, ele tem leitores, sem dúvida, todos os tipos de leitores. Até eu. Uma vez por ano, é quando ponho um livro nas mãos, mas li o que ele escreveu. Acho que gostei mais das estórias sobre o Michigan. Sobre as pescarias. Acho que as estórias de pescarias são boas. A meu ver, ninguém soube escrever tão bem acerca de pescarias, e talvez ninguém consiga igualá-lo. Está claro que o relato sobre touradas também é bom, mas um tanto avançado para mim. Alguns dos vaqueiros gostam, mas estiveram por perto dos animais toda a vida. Um touro aqui ou ali, acho que é a mesma coisa.

Sei que um vaqueiro leu só as estórias de touradas espanholas do velho, mais de quarenta vezes. E ele dizia que dava para ir lá e tourear, pode acreditar no que digo. — Acho que todos nós, pelo menos uma vez em nossas vidas, quando éramos jovens, poderíamos ir até lá e tourear, depois de ler sobre as touradas, naquelas estórias espanholas — asseverei. — Todos achamos que poderíamos entrar na arena e tourear. Ou pelo menos, correr naquelas corridas de touros, de manhã, tendo uma boa bebida a nos esperar no final da carreira, e a companhia da namorada, para um fim de semana bem prolongado. Calei-me, ri baixinho, pois minha voz, sem que o percebesse, entrara no ritmo pelo qual ele dizia as coisas, quer com a boca ou com as mãos. Sacudi a cabeça, silenciei. — Você já esteve lá na sepultura? — perguntou o caçador, como se soubesse que eu ia responder “sim”. — Não — retorqui. Isso o surpreendeu deveras, mas procurou não demonstrá-lo. Todos vão à sepultura — afirmou. Este, aqui, não vai. Ele procurou o modo educado de perguntar. Quero dizer… — começou. — Por que não foi? Porque é o túmulo errado — respondi. Todos os túmulos são errados, quando se pensa bem no assunto — voltou ele. Não — contrapus. — Existem túmulos certos e túmulos errados, assim como existem momentos bons para morrer, e momentos ruins. Ele assentiu, compreendendo. Eu voltara a falar de algo que ele conhecia, ou, pelo menos, dava para perceber que estava certo. — Eu conheci homens, está claro — disse ele —, que morreram de modo perfeito. Sempre se achou que a morte deles estava certa. Um deles, sentado à mesa e esperando a ceia, com a esposa na cozinha, e quando ela voltou, com a terrina grande de sopa, lá estava ele, sentado, morto, muito bemarrumado à mesa. Ruim para ela, mas, quer dizer, não foi um jeito bom, para ele? Nada de doença. Nada de nada, só ali sentado, esperando mais uma ceia, sem saber se ela vinha ou não.

Como outro amigo. Esse, tinha um cachorro velho. Com quatorze anos de idade. O cachorro estava ficando cego e cansado. Afinal, resolveu levar o cachorro ao lago e fazê-lo dormir. Carregou o cachorro velho, cego e cansado, no banco da frente do carro. O cachorro lambeu a mão dele, uma vez. O homem sentiu-se muito mal. Foi até o lago. À caminho para lá, sem fazer barulho nenhum, o cachorro morreu, morreu no banco da frente, como se soubesse o que ia acontecer e, sabendo disso, tivesse escolhido o modo melhor, simplesmente entregou a alma, e a coisa foi assim. Era disso que você estava falando, não? Assenti, em resposta. — Você, então, acha que a sepultura lá no morro é um túmulo errado para um homem certo, não é? — Mais ou menos — confirmei. — Você acha que existem todos os tipos de túmulos ao lado da estrada, para nós todos? — Pode ser. E se a gente pudesse ver toda a nossa vida, de um modo ou de outro, haveríamos de escolher melhor, então? Afinal, olhando para trás — disse o caçador — nós íamos dizer, ora bolas, aquele é que era o ano e o lugar, e não o outro ano e o outro lugar, mas aquele que escolhemos, olhando o passado. Devia ser assim? Já que a gente tem de escolher, ou ser empurrado, afinal de contas, sim — confirmei. É uma bela idéia — confirmou o caçador. — Mas quantos de nós têm tanto juízo? A maioria não tem miolos o bastante para deixar a festa, quando a bebida acabou. Continuamos por ali. — Continuamos — concordei — e é uma pena. Pedimos cerveja. O caçador bebeu metade do copo e limpou a boca. E o que você pode fazer, no caso desses túmulos errados? — indagou. Tratá-los como se não existissem — expliquei. — E talvez eles desapareçam, como um pesadelo. O caçador riu uma vez só, num tipo de grito de desalento.

—Meu Deus, você é doido. Mas eu gosto de ouvir gente doida. Fale mais um pouco. — É tudo — concluí. — Você é a Ressurreição e a Vida? — perguntou o caçador. Não. Você vai ordenar que Lázaro se levante do túmulo? Não. O que vai fazer, então? Eu só quero, quando o dia está terminado, escolher os lugares certos, os momentos certos, os túmulos certos. Tome essa bebida — disse ele. — Está precisando, mesmo. Quem o mandou, com os diabos? — Eu mesmo — respondi. — Eu me mandei. E alguns amigos. Juntamos recursos e escolhemos um, em meio de dez. Compramos aquele caminhão que está lá na rua, e eu o dirigi até aqui. A caminho, cacei e pesquei bastante, para me colocar no estado de espírito certo. Estive em Cuba, o ano passado. Na Espanha, no verão de antes. Na África, no verão antes daquele. Tenho muito em que pensar. Foi esse motivo pelo qual me escolheram. Para fazer o que, fazer o que com os diabos? — perguntou o caçador, em assomo de pressa, um tanto tresloucado, sacudindo a cabeça. — Você não pode fazer nada. Já está tudo acabado. A maior parte — disse eu.

— Venha. Caminhei até a porta. O caçador permaneceu sentado. E afinal, examinamos as luzes que se acendiamem meu rosto, às minhas palavras, ele resmungou, levantou-se, caminhou e saiu comigo. Apontei para a calçada. Fitamos, ambos, o caminhão ali estacionado. Já vi desses, antes — anunciou ele. — Um caminhão assim, em um filme. Eles não caçamrinocerontes em caminhão como o seu? E leões, animais desse jeito? E não viajam com eles, pela África? Sua recordação está certa. Não temos leões por aqui — informou. — Nem rinocerontes, nem búfalos, nada disso. Não? — perguntei. Ele não disse coisa alguma. Aproximei-me do veículo e toquei no mesmo. Você sabe o que é isto? A partir de agora, não sei nada — disse o caçador. — O que é, então? Afaguei o pára-choques por momentos prolongados. — Uma Máquina do Tempo — expliquei. Seus olhos se arregalaram, voltaram a estreitar-se, ele bebericou a cerveja que trazia, empunhando o copo com a patorra. Fez sinal para que eu prosseguisse. Uma Máquina do Tempo — repeti. Você já disse — comentou ele. Andou em volta do caminhão de safari, colocou-se na rua, para examiná-lo. Nem me fitava, e rodeou o caminhão por completo, manteve-se na calçada, olhou a tampa do tanque de gasolina. Que quilometragem você tem, nele? — indagou. Ainda não sei.

Você não sabe nada — comentou. É a minha primeira viagem — expliquei. — Não vou saber, até que esteja terminada. E qual é o combustível que você põe em uma coisa dessas? Mantive silêncio. — Que tipo de coisa você põe aí? — voltou a perguntar. Eu podia ter dito: leitura até horas avançadas da noite, leitura por muitas noites, no correr dos anos, até quase o amanhecer, leitura nas montanhas, na neve, ou leitura ao meio-dia em Pamplona, ou leitura ao lado de córregos, ou em barco navegando em qualquer ponto da costa da Flórida. Eu podia ter dito: nós todos pusemos as mãos nesta Máquina, todos nós pensamos nela, compramo-la, tocamola e pusemos amor nela, e nossa recordação de que as palavras dele haviam feito a nós, vinte ou vinte e cinco a trinta anos antes. Há muita vida em recordação e amor, colocadas aqui, e aí temos todo o combustível ou a coisa, como você a quiser chamar; a chuva em Paris, o sol em Madri, a neve nos Alpes alcantilados, a fumaça saída das armas no Tirol, o brilho da luz refletida na Corrente do Golfo, a explosão de bombas ou explosões de peixes saltando no ar, aí está o combustível, a gasolina, a coisa, como você chama; eu devia ter dito isso, e pensei, mas me mantive em silêncio. O caçador deve ter farejado meus pensamentos, pois seu olhar se ergueu e, telepata que era, após muitos anos passados nas florestas, remoeu meus pensamentos. Foi quando se aproximou e fez algo inesperado: estendeu a mão e… tocou… minha Máquina. Pôs a mão sobre ela e a deixou ali, como se tivesse sinais de vida, e aprovando o que percebeu por baixo da mão. Assim ficou, por muito tempo. Depois voltou-se sem dizer uma só palavra, sem me fitar, e regressou ao bar, sentou-se para beber sozinho, de costas voltadas para a porta. Eu não queria romper o silêncio, pois pareceu momento bom para ir-me embora, tentar. Embarquei no caminhão e liguei o motor. Que espécie de quilometragem? E que tipo de combustível? pensava eu. E me afastei. Permaneci na estrada e não olhei à direita, esquerda, segui pelo que deve ter sido toda uma hora, de início nessa direção e depois naquela, tendo por parte do tempo os olhos fechados por segundos inteiros, arriscando-me a sair da estrada e me machucar ou matar. E então, pouco antes do meio-dia, as nuvens encobrindo o sol, percebi de repente que estava certo. Ergui o olhar para o morro, e quase gritei. O túmulo desaparecera. Segui para uma depressão logo ali, e na estrada à frente, caminhando sozinho, estava um homemvelho, de suéter grosso. Toquei o caminhão de safari até estar a seu lado, enquanto ele caminhava. Vi que usava óculos com armação de aço e, por momentos prolongados, seguimos juntos, cada qual ignorando o outro, até que o chamei pelo nome. Hesitou, e logo continuava a andar.

Voltei a emparelhar-me com ele no caminhão, e chamei de novo: — Papai! Ele parou, ficou à espera. Freei o carro, permaneci sentado no banco dianteiro. — Papai! — chamei. Ele se aproximou, veio ter ao lado da porta. Eu o conheço? Não. Mas eu conheço você. Ele me fitou nos olhos, examinou-me o rosto e a boca. Sim, acho que conhece. Eu o vi na estrada. Acho que vou para onde você vai. Quer uma carona? É bom andar, a esta hora do dia — disse ele. — Obrigado. Deixe-me dizer-lhe onde eu vou — propus. Ele havia começado a se afastar, mas estacou e, sem me fitar, perguntou: Onde? Uma longa distância — expliquei. Parece longa, do modo como você diz. Não dá para torná-la mais curta? Não. É uma longa distância — repeti. — Cerca de dois mil e seiscentos dias, com margem de erro de alguns, e metade de uma tarde. Ele voltou, examinou o interior do veículo. Você vai tão longe assim? Vou. Em que direção? Para a frente? Você não quer ir em frente? Ele olhou o céu. Não sei. Não tenho certeza. Não é em frente — expliquei. — É para trás.

Seus olhos adquiriram coloração diferente. Era mudança sutil, como a ocorrida em alguém que saísse da sombra de uma árvore, vindo para a luz do sol em dia nublado. — Para trás. — Algum lugar entre dois mil e três mil dias, metade de um dia, toma lá dá cá uma hora, apanhandose emprestado um minuto, barganhando por um segundo — narrei. Você sabe falar, mesmo — comentou. Coisa compulsória — expliquei. — Seria um escritor dos piores — asseverou. — Nunca conheci um escritor que soubesse falar bem. — É a minha cruz. — Para trás? — e ele sopesava a palavra. — Vou fazer a volta com o carro — declarei. — E vou voltar pela estrada. Não vai voltar quilômetros, porém dias? Não são quilômetros, porém dias. Esse tipo de carro é assim? Foi construído para tanto. Você é inventor, então? Um leitor que inventa, por casualidade. Se funcionar, é um carro e tanto, esse aí. À sua disposição — ofereci. — E quando você chegar onde vai — disse o velho, pondo a mão na porta, inclinando-se e, então, vendo o que tinha feito, tirando a mão e empertigando-se mais, para falar comigo — onde estará? — Em 10 de janeiro de 1954. Uma data e tanto. É, e foi. Pode ser mais do que uma data. Sem se mexer, seus olhos deram mais um passo para a luz mais completa. E onde você vai estar, nesse dia? Na África. Ele silenciou. A boca não se mexeu, os olhos não se moveram.

Não será longe de Nairobi — expliquei. Ele assentiu uma vez, devagar. A África, não longe de Nairobi. Fiquei esperando. E quando chegarmos lá, se formos? — perguntou. Eu o deixarei ali. E depois? Você fica lá. E depois? É tudo. É tudo? Pará sempre — conclui. Seu peito arfou em respiração, ele passou a mão pela beira da porta. — Este carro — comentou. — Em algum ponto do caminho ele se transforma em aeroplano? — Não sei — respondi. — Em algum lugar do caminho você se transforma em meu piloto? — Pode ser. Nunca o fiz antes. — Mas quer tentar? Assenti. — Por quê? — perguntou, inclinando-se e me fitou diretamente nos olhos, com intensidade terrível, calmamente selvagem. — Por quê? Meu velho, pensava eu, não posso dizer-lhe porquê. Não me pergunte. Ele recuou, percebendo que se adiantara em demasia. Eu não disse isso — propôs. Você não disse — concordei. E quando você levar o aeroplano a um pouso forçado — prosseguiu —, vai pousar de modo umpouco diferente, desta vez? Diferente, sim. Com um pouco mais de força? — Verei o que se pode fazer. E eu serei jogado fora, mas você estará bem? — As probabilidades são favoráveis. Ele fitou o morro, não havia sepultura.

Olhei para lá também. E talvez ele adivinhasse a preparação do túmulo, lá em cima. Voltou a fitar a estrada, as montanhas, o mar que não podia ser visto, além das montanhas, um continente além do mar. Você está falando de um bom dia. O melhor de todos. E uma boa hora, um bom segundo. Nada melhor, na verdade. Vale a pena pensar no assunto. Sua mão permanecia na porta, sem se apoiar, mas pro-vando-a, sentindo-a, tocando-a, trêmula e indecisa. Os olhos, entretanto, surgiram plenamente à luz do meio-dia africano. Sim. Sim? Acho que vou pegar uma carona com você Esperei apenas uma fração de segundo, estendi a mão e abri a porta. Em silêncio, ele tomou o banco dianteiro e ficou sentado, fechando a porta calmamente, sem bater. Ali estava, sentado, muito idoso e muito cansado. Esperei um pouco. — Ligue o motor — disse ele. Liguei o motor, levei-o à velocidade certa. — Faça a volta — disse ele. Fiz a volta com o carro, de modo que voltávamos pela estrada. É um carro como você disse, na verdade? — perguntou. Na verdade. Ele fitou a terra, a montanha, a casa distante. Esperei um pouco, folgando o motor. — Quando chegarmos lá — disse ele — você vai lembrar-se de um? coisa…? — Tentarei. — Existe uma montanha — disse ele e parou de falar, a boca silenciou, ele não prosseguiu.

Mas eu continuei por ele. E pensava que existe na África uma montanha chamada Kilimanjaro, e na encosta ocidental dessa montanha fora encontrada, certa feita, a carcaça ressecada e congelada de um leopardo. Ninguém havia conseguido explicar o motivo pelo qual o leopardo procurara tal altitude. Nós o colocaremos nessa mesma encosta, pensei, sobre o Kilimanjaro, perto do leopardo, e escreveremos seu nome, dizendo por baixo que ninguém sabia o que ele estava fazendo ali, tão alto, mas estava. E escreveremos a data de nascimento e de falecimento, iremos embora, rumando para a grama quente do verão, deixando que guerreiros negros e caçadores brancos, bem como ocapis rápidos, tomassem conhecimento do túmulo. O velho encobriu os olhos, fitando a estrada que serpenteava lá longe, em meio aos morros. Assentiu, então. Vamos — propôs. Sim, Papai — respondi. E seguimos, tocados por nosso motor, eu ao volante, indo devagar e o velho ao lado, e enquanto descíamos o primeiro morro e subíamos o seguinte, o sol se apresentou por completo, o vento tinha o cheiro de fogo. Corríamos como um leão, na grama comprida. Os rios s córregos passavam emrelances, pejos lados. Desejei podermos parar por uma hora, vadear os rios, pescar e deitar ao lado da água corrente, fitando os peixes e conversando, ou sem conversar. Mas, se parássemos, talvez nunca mais prosseguíssemos. Acelerei o motor, que emitiu um rugido grande e feroz de animal bravio. O velho sorriu. Vai ser um grande dia! — gritou, para ser ouvido. Um grande dia. Lá na estrada, pensava eu, como deve estar, agora, se havíamos desaparecido? E agora, quando tínhamos sumido? E agora, a estrada vazia. O Vale do Sol tranqüilo, recebendo o sol. O que devia ser, se havíamos desaparecido? Levei o carro a cento e trinta. Berrávamos, os dois, como se fôssemos meninos. Depois disso, não soube de mais nada. — Por Deus — disse o velho, quando chegávamos ao fim. — Sabe de uma coisa? Acho que estamos … voando.

A CONFLAGRAÇÃO PAVOROSA LÁ NO CASARÃO Eles haviam se escondido na guarita do porteiro por meia hora, mais ou menos, passando um para o outro a garrafa de bebida das melhores e depois, tendo o porteiro ido dormir, esgueiraram-se pela trilha às seis da manhã, pondo-se a fitar o Casarão, onde luzes acolhedoras iluminavam todas as janelas. — Aí está o Casarão — declarou Riordan. Diabo, o que você quer dizer com isso de “aí está o Casarão”? — gritou Casey e logo aduziu baixinho: — Nós já vimos isso aí, por todas as nossas vidas. É claro — concordou Kelly —, mas com os problemas em cima da gente, de repente o Casarão parece diferente. Não passa de um brinquedo, em meio da neve. E era exatamente o que parecia a todos eles, quatorze homens, na grande casa de brinquedos estendida sobre as penas macias e que caíam devagar, em noite de primavera. Você trouxe os fósforos? — perguntou Kelly. Se eu trouxe os… o que é que você acha que eu sou? Bem, só perguntei se você trouxe. Casey vasculhou os bolsos. Tendo-os revirado para fora do capotão, praguejou e declarou: — Não trouxe. — Ora, que diabo — interveio Nolan. — Eles vão ter fósforo lá dentro. A gente apanha alguns emprestado. Em frente. Seguindo pelo caminho acima, Timulty tropeçou e caiu. — Pelo amor de Deus, Timulty — pediu Nolan. — Cadê sua noção de romance e aventura? Em meio de uma grande Rebelião de Páscoa a gente quer fazer tudo direitinho. Por muitos anos a gente vai querer entrar em um bar e contar como foi a Conflagração Terrível do Casarão, não é mesmo? Se a coisa se atrapalha toda, você esparramado e caído com o rabo na neve, isso não vai servir de quadro para a Rebelião em que estamos, vai? Timulty levantando-se, olhou bem para o cenário e anuiu.

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