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A Cidade Perdida – Jeronymo Monteiro

Tanto Salvio como eu estamos certos de que entre os ocasionais leitores deste livro há de se encontrar algum atlante. É a esse provável leitor que vão especialmente dedicadas estas linhas. Nada devem recear os atlantes que habitam ainda o coração do Brasil. O que se revela de seu segredo neste livro será tomado pelo leitor comum como desbragada fantasia. Ninguémvai acreditar no que está escrito lá pelas últimas páginas, de tão inverossímil que parece, embora seja a perfeita expressão da verdade. Por isso, a nossa indiscrição não causará nenhumtranstorno e nem instigará indesejáveis visitas a Atlantis-a-Eterna. Sabemos que nenhuma visita conseguiria se aproximar além do ponto permitido pelos guardas dos postos avançados. Sem a permissão do Grande Sacerdote, jamais conseguiriam chegar até onde chegamos. Além disso, queremos dizer que, revelando o que descobrimos nesta maravilhosa viagem, estamos nos desincumbindo de uma clara imposição do Destino. Estamos certos de que o Primeiro Orientador espera que o façamos, embora tudo pareça indicar o contrário. Ademais… gostaríamos de ter ficado para sempre em Atlantis-a-Eterna. Não pudemos. Mas pretendemos voltar e tudo faremos para o conseguir. É verdade que Salvio está muito mudado, dirigindo um jornal radiofônico e todo entregue a negócios de imóveis. Mas não importa. Qualquer coisa me diz que iremos terminar os nossos dias de vida naquele lugar maravilhoso, ao lado de Quincas e de Vanila. Salvio tem-me dito que não conseguiremos nem chegar ao primeiro Posto Avançado. Mas não importa. Tentaremos. Eu sei que vale a pena! CAPÍTULO 1 “PARTIREMOS AMANHÔ Acordei com aquelas batidas fortes na janela. Liguei a luz. Não eram ainda cinco horas! Tive intenção de não fazer caso, mas como as batidas continuassem, tive mesmo que abrir a porta e dei com a reluzente careca cor de rosa de Salvio. — Partiremos amanhã! — cumprimentou ele. E sem dúvida, era esse um esquisito começo de dia. — Entre.


Vamos ver… Como é que disse? Partiremos amanhã? Mas para onde? — Aqui está o roteiro. Tudo calculado, tudo em ordem. — Espere. Sente-se aí, enquanto me arrumo. A irrupção de Salvio àquela hora da manhã e a esmagadora notícia de que iríamos partir no dia seguinte, alteraram, de certo modo, o meu ponto de vista. Quando voltei à sala, ele comparava um roteiro feito a lápis, com o grande mapa do Brasil que está pendurado à parede por cima da minha mesa. Olhei também. E subitamente tudo aquilo — a viagem, as inscrições rupestres, os símbolos, a kabala hebraica, o Templo do Sol, o imenso sertão — tudo aquilo se me afigurou tão inatingível, tão problemático, tão remoto, que me invadiu uma onda de desânimo. — Salvio… você não acha que é asneira? — O que? Este mapa? — O mapa, não. Tudo. A viagem, o Templo do Sol… Salvio olhou-me com espanto e dúvida. — Que é isso? Que houve com você? — Nada. Mas raciocine. Pense um pouco… Esse imenso sertão!… Florestas, pântanos, rios, perigos de toda espécie! — Venceremos tudo, Jeremias! — Bem… Vamos que seja assim. E você espera seriamente encontrar, lá no inferno, o Templo do Sol? — Tenho certeza absoluta. Há um Templo do Sol situado entre os rios Xingu e Tapajós, entre os paralelos 5 e 10 e quase sobre o meridiano 55 Oeste de Greenwich. Tenho certeza! — Espere… Se houvesse qualquer coisa realmente notável lá onde você diz, já a teriamdescoberto. Centenas de exploradores têm percorrido o nosso sertão em todos os sentidos. — Não é bem assim. Os exploradores têm apenas percorrido alguns dos grandes rios do interior do Brasil, sem jamais penetrar muito longe pelas margens. E entre o Tapajós e o Xingu há um mundo, onde caberiam folgadamente vários Estados europeus. Nenhum explorador percorreu essa imensa extensão de terra. Ou você pensa que sim? — Então, você me está ajudando. Se exploradores experimentados, habituados aos rigores das selvas, não puderam explorar esse mundo, como iremos nós fazê-lo? E, ainda mais, como poderemos ir dar com o Templo perdido nessa vastidão? — Nós o faremos. Porque vamos com roteiro certo e indicações seguras.

— Ora! Você tem a coragem de chamar “indicações seguras” a esses arabescos que encontramos e sobre cuja origem ignoramos tudo? — Perfeitamente. Eu creio. Tenho confiança absoluta nas indicações que possuímos. — Você está entusiasmado demais. — Não estou. Tenho sérios motivos para crer, e, além disso, você sabe que possuo certos conhecimentos… — Ora… Que conhecimentos? Pareceu-me que Salvio ia perder a paciência Mas controlou-se, e, depois de rápido suspiro, prosseguiu: — Jeremias não posso entrar em detalhes. Sou depositário de segredos que a posição que ocupo me impede de revelar. Mas você precisa ter confiança em mim. Afinal, eu participarei da sua sorte, você não irá sozinho. Por que, então, eu haveria de o induzir a praticar loucuras? Ouça: A tradição das religiões ocultas de que os iniciados têm conhecimento ensina que existe um Templo oculto no mais recôndito recesso da América do Sul… Eu não queria e não devia dizer-lhe isto, mas enfim… — depois de longa pausa, e como que impelido por uma força interior, Salvio continuou: — Nesse templo estão guardados os tesouros dos antigos sacerdotes do Culto Solar. Até os enfeites sagrados usados por eles na hora do sacrifício, como braceletes, peitorais, cintos e vários apetrechos, a maioria em oricalco, aí estão. Não se esqueça de que, logo após a descoberta do Brasil, foram vistos alguns aborígenes com enfeites desse gênero, segundo afirma Clemente Branderburger na sua “Nova Gazeta da Terra do Brasil”, em 1515. — Ora, Salvio. Você… — Espere. A mesma tradição, que conheço muito bem, e que é o meu principal ponto de apoio, afirma o seguinte: “O CAMINHO PARA O TEMPLO SÓ SERÁ ENCONTRADO POR AQUELE QUE DECIFRAR O MISTÉRIO.” — Não. É por isso mesmo. Francamente, é muito mistério. Não vejo nada claro. É só isso: triângulos, círculos, “runas”, “mamtrams” “lótus de mil pétalas”, decifrações… Não! Foi então que, pela segunda vez, vi Salvio exaltar-se. — Cale a boca, ignorante! Você nada vê, nada sente, nada entende e nada sabe. Mas tem que acreditar em mim, porque eu entendo, vejo e sei. — Pois então, vá sozinho. Eu, positivamente, não vou! Salvio ergueu-se dum pulo. Sua careca estava violácea e seus olhos pareciam querer saltar sobre mim.

Fulminou-me com um olhar e uma palavra: — IDIOTA! Recostei a cabeça no espaldar da poltrona e fechei os olhos. Ouvi seus passos pesados afastarem-se. A porta bateu com força. Depois, foi o portão que bateu e se abriu novamente, em recuo, rangendo. Eram seis horas. *** O dia estava lindo, e a lembrança de ir até à cidade não era má. Na praça do Patriarca era convidativa a escadaria da galeria subterrânea. E, quando eu chegava em baixo, coincidia estar chegando, também, o ônibus de Santo Amaro. Ia partir vazio. Pulei dentro dele. Parece aventura andar num ônibus vazio em São Paulo. O meu pensamento era ir até Santo Amaro e almoçar junto à represa, mas quando passava por Brooklin, lembrei-me do Mateus, e saltei. Era gostoso caminhar sem pressa pela estrada em direção do Morumbi. O ar da manhã estava fresco. Da terra subia agradável cheiro inclassificável. Os pássaros piavam, e operários cruzavam comigo, apressados. Eles decerto não tinham, como eu, um problema idiota na cabeça. Não pensavam em penetrar sertões desconhecidos à procura de incríveis Templos do Sol… As poças de água lamacenta eram lindas na sua tranqüilidade de expectativa. O matagal que marginava a estrada, intrincado e sujo, era ridícula sugestão das matas virgens que me acenavam de longe. Apanhei morangos silvestres que me souberam maravilhosamente bem, e olhei admirado os joás cor de fogo que enfeitavam o verde escuro da folhagem. Quando apareceu a ponte que atravessa o rio, a casa de Mateus estava perto. A sebe que a rodeia é baixa. As janelas estão todas abertas, o que indica que ninguém mais dorme lá dentro. Dois garotos, sujos, brincam no monte de areia que sobrou da construção, e lá no fundo do quintal, Mateus, com calças velhas e rasgadas e calçando tamancos, está arrumando o arame de estender roupa. Decerto, Mateus também não se preocupa com misteriosos Templos do Sol, e não pensa em impossíveis viagens pelo sertão central do Brasil.

Dei um berro: — Olá! Mateus! Ele voltou-se vivamente e sua cara riu toda. — Jeremias! A esta hora! Entre! — E para dentro: — Mariquinha, arrume um café para o compadre Jeremias! E depois, limpando as mãos nas calças esfarrapadas: — Mas que diabo foi isso? Você às sete da manhã aqui neste fim de mundo! Que é que anda fazendo pelo mato a uma hora destas? — Passei uma noite atribulada. Queria me distrair um pouco, respirar ar puro… Acho que estou envenenado. — Álcool, já sei… — Não, meu caro. Pior do que isso. Idéias! — Ah… então, fez muito bem. Depois do café vamos ao rio pescar uns acarás para o almoço. Venha.

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