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A clepsidra de Aldibah (A garota dragão Livro 3) – Licia Troisi

Era uma gélida noite de fevereiro. Soprava um vento cortante, que chicoteava a praça deserta. Nenhuma lua no céu, somente um manto pesado de nuvens baixas. Os lampiões lançavam uma luz funérea nas grandes pedras da rua. Na fachada do Rathaus desenhavam-se sombras inquietantes entre os ornamentos góticos e as gárgulas. Marienplatz tinha um aspecto distante naquela noite. Karl, parado no meio daquele espaço vazio, fechou a gola do sobretudo com a mão enluvada. Estava em casa, em sua cidade, no lugar onde vivera os treze anos de sua breve existência. Mas Munique mostrava um rosto que ele não reconhecia. Ela estava ali, na frente dele. Alta, esguia, belíssima. Apesar do frio, usava apenas uma regata branca de corte masculino que deixava os ombros, torneados e levemente musculosos, nus sob as rajadas do vento. Uma calça preta de couro envolvia suas pernas compridas e esbeltas, enfiada dentro de um par de grandes botinas até os joelhos. Os cabelos loiros estavam cortados bem curtos, e um pontilhado de sardas dava um aspecto gentil ao seu rosto. Talvez a confundissem com uma inofensiva garota um pouco punk, mas a expressão em sua face e sobretudo as chamas negras que envolviam sua mão direita diziam algo completamente diferente. Karl fechou os olhos somente um instante, então sentiu. Aldibah, o dragão que vivia nele. Era uma presença que aprendera a reconhecer desde muito pequeno, desde que se lembrava. Grandes asas azuis apareceram em suas costas, inflando-se ao vento. Quando abriu as pálpebras, seus olhos não tinham mais o habitual azul desbotado: estavam amarelos, e a pupila era uma fenda fina como a dos répteis. – Me dê o fruto – disse com voz firme, tentando simular uma segurança que não tinha. Nida sorriu com sarcasmo. Sua mão esquerda apertava os cordões de uma bolsa de veludo que continha algo esférico. Karl conseguira entrever o que era por um instante, antes que ela colocasse lá dentro. Era um globo azul, no qual espirais de todas as tonalidades dessa cor turbilhonavam.


O poder benéfico que sentira emanar do objeto o aquecera, lhe dera força. Mas agora essa percepção estava cada vez mais fraca. Aquela bolsa devia aprisionar seus poderes. – Claro, está aqui para você. Por que não vem pegá-lo? – respondeu a garota com um olhar de desafio. Karl levantou voo, e no mesmo instante seu braço direito se transformou na garra de um dragão azul-escuro. Jogou-se em cima de Nida, mas ela já havia mudado de lugar quando ele tocou o solo. Agora estava atrás dele, podia senti-la. Virou-se de repente, de novo em posição de ataque. Não houve tempo para ela reagir: de sua garra serpeou um raio azul que fendeu o ar e circundou a coluna que reinava no centro da praça. A estátua dourada que se destacava no topo pareceu ser percorrida por um arrepio antes que a base se congelasse em um instante. Mas Nida se esquivou do golpe com agilidade e agora olhava Karl da garupa de uma gárgula com as fauces escancaradas, que parecia quase tirar sarro dele. – Você não está à minha altura – comentou com uma risada de desdém. – É o que você pensa – rebateu Karl entredentes, e, sem hesitar, lançou uma rajada de raios congelantes contra a sinuosa figura da garota, que escapava deles, um a um, com a graça de uma bailarina. Mas o último, o mais forte, acertou o alvo, e os pés dela foram envolvidos por uma grossa camada de gelo que a imobilizou no chão, impedindo-a de fugir. Karl foi para cima dela no mesmo instante e, com um golpe de garras, obrigou-a a soltar a bolsa, que caiu no solo tilintando e rolando por dois metros. O menino fez menção de se jogar sobre o fruto, mas Nida conseguiu esticar o tronco na direção dele e o paralisou, apertando seus braços na altura dos quadris. O sorriso feroz que se pintou em seu rosto foi a última coisa que Karl viu antes de enxergar as verdadeiras feições de Nida: em um ciciar, sua face delicada se deformou no focinho de um réptil, e seus lábios macios se rasgaram em uma risadinha demoníaca, aberta em uma arcada de dentes afiados como punhais. A pele tornou-se fria e escamosa e inflamou-se em uma fogueira de chamas negras que envolveu os dois. Não se deixe impressionar pela aparência, ela só quer assustar você! Karl concentrou-se nas palavras de Aldibah e encontrou forças para reagir: com as garras, atingiu o braço da adversária, conseguindo reconquistar a liberdade e ir para uma distância segura. Mas o ataque não ocorreu sem consequências. Sentia cada fibra do corpo gritar de dor e a respiração lhe faltar. Resista, você pode conseguir. Não está sozinho… A voz de Aldibah ficou mais fraca. Ouviu Nida avançar devagar, e os passos dela, amortecidos sobre as pedras da praça, se aproximavam cada vez mais.

Mas não conseguia se levantar. As queimaduras provocadas pelas chamas doíam loucamente. Quando reabriu os olhos, viu que a pele azul de sua garra estava aberta e manchada de preto. Enfim os passos pararam e Karl levantou o olhar. Nida estava acima dele. Sorria. O mesmo sorriso diabólico que mostrara desde o início daquele embate. Karl tentou um novo ataque, mas suas garras fincaram-se no calçamento de pedra. – Patético – sibilou ela. Uma dor surda explodiu sob o maxilar de Karl, enchendo seus olhos de centelhas acinzentadas. Nida lhe desferira um chute potentíssimo. Caiu virado para cima, e o gelo da pedra embaixo das costas o deixou arrepiado. – Acabou, fedelho! – exclamou Nida triunfante, pousando o pé em seu peito. Depois ficou séria e fechou os olhos. Karl sentiu uma vibração surda embaixo das costas. Era uma espécie de terremoto, algo vibrando no chão, como se um imenso animal, debaixo da praça, estivesse voltando à vida e tentasse se livrar das pedras e dos edifícios sobre ele. Karl instintivamente levou o olhar ao Rathaus e viu o inimaginável: no lado direito da fachada, embaixo, havia um pequeno dragão de chumbo. Ele o conhecia bem: Ef i sempre o indicava quando passavam por aquelas bandas. “Os dragões deixaram rastros por toda parte, como você vê. Os homens não os esqueceram e os representam nas obras de arte.” Karl era fascinado por aquele dragão e sempre o examinava com interesse quando passeava em frente à prefeitura. Costumava imaginar que à noite ele ganhava vida e dava uma volta na praça, mas era apenas uma fantasia boba de menino. Ainda assim, agora aquele dragão se mexia de verdade. Karl viu sua cauda balançar, seu focinho se curvar para cheirar o ar e, enfim, seu olhar pousar nele. Seus olhos não tinham mais nada de tranquilizador e o examinavam, malignos.

Desceu depressa a fachada, enquanto outras criaturas despertavam no palácio. As gárgulas se soltavam da pedra e esticavam os membros, como se tirassem de cima o torpor dos séculos, e devagar desciam para o chão, agarrando-se como aranhas a agulhas e pináculos. O Rathaus inteiro era um fervilhar obsceno de figuras que fervilhavam em direção à praça, inundando-a como insetos. Karl tentou se levantar do chão com as poucas forças que lhe restavam, mas o pé de Nida não se mexia um milímetro. Seu corpo estava envolvido por chamas enegrecidas, que agora também lambiam seu peito, apertando-o em uma mordida gélida. Karl gritou, mas não havia ninguém que pudesse acolher sua súplica de socorro. Nenhum passante, àquela hora da madrugada e com aquele frio. Apenas o cinza impiedoso de um céu sem lua, sobre ele. Nida abriu os olhos de repente e sorriu, vitoriosa. – Adeus! – berrou, dando um salto que seria impossível para um ser humano normal. Karl tentou se levantar, mas aquele último ataque o privara de qualquer força. Começou a se arrastar na pedra, enquanto as asas em suas costas se recolhiam e seu braço voltava a ser o roliço e rosado do menino que era. Mal teve tempo de ver Nida pegando a bolsa do chão e desparecendo depressa em direção à Kaufingerstrasse. Então o exército de gárgulas foi para cima dele, e tudo se apagou no gelo e no silêncio. 1 A Gema se apaga Aconteceu sem nenhum aviso prévio. Uma forte sensação de vertigem, um aperto no peito, e o chão pareceu desmoronar. Sofia estava em seu quarto e pensou que fosse um terremoto. Já Lidja não teve dúvidas: estava de frente para a Gema, sentada no chão com as pernas cruzadas e os olhos fechados para extrair o máximo de seu poder. Arregalou os olhos de repente e viu. A Gema da Árvore do Mundo estava se apagando. Enfraqueceu-se aos poucos, até escurecer por completo. Agora era apenas um simples botão, daqueles que, na primavera, podiam ser contados às centenas nas árvores do bosque em volta da mansão. A sala do calabouço permaneceu iluminada apenas pela luz difusa das tochas penduradas na parede, e todo o ambiente assumiu um ar espectral. Durou pelo menos um minuto, um minuto durante o qual Lidja se sentiu completamente perdida. O pânico cresceu e a imobilizou onde estava, impedindo-a de fazer a coisa mais óbvia: subir para a mansão e dar o alarme.

Então, pouco a pouco, a Gema voltou a pulsar, primeiro timidamente, depois com mais vigor. Sua luz tornou a clarear a sala, mas não estava tão brilhante como antes. Parecia ter perdido parte do esplendor, ainda que de modo imperceptível. Como se o encanto houvesse se partido. Lidja pulou feito uma mola, e no mesmo instante Sofia tomou coragem e saiu de seu quarto para correr ao andar de baixo. Encontraram-se aos pés da árvore que reinava no centro da casa. – Você também sentiu? – perguntou Sofia com o coração na boca. – A Gema se apagou! – gritou Lidja, transtornada. O rosto de Sofia ficou branco. A Gema. Apagada. – Professor! – gritaram em uníssono antes de partirem à procura do professor Schlafen. Elas o encontraram na estufa atrás da mansão, apesar da hora avançada. Ultimamente o professor havia descoberto uma paixão pelas plantas tropicais – cactos e orquídeas, sobretudo –, à qual dedicava grande parte de seu tempo livre. Foi surpreendido enquanto transplantava uma esplêndida planta com flores brancas salpicadas de roxo: operação que podia ser realizada apenas de madrugada para aquela espécie tão delicada quanto rara. – Professor, aconteceu uma coisa terrível! – começou Sofia. O rosto dele anuviou-se. – Eu tive a impressão de ter sentido algo estranho… Voltaram para o calabouço, diante da Gema. O professor acariciava a barba, pensativo, ajeitando os óculos no nariz o tempo todo, um gesto que fazia sempre que estava nervoso ou preocupado. – Eu também senti uma forte tontura, a sensação de que algo terrível estava acontecendo, mas pensei que fosse só uma impressão… algo pouco importante – confessou, examinando a Gema comseriedade. Lidja remexia as mãos. – O que acha que está acontecendo? O professor pensou algum tempo antes de responder: – Não consigo entender o que pode ter causado o enfraquecimento da Gema. – Podemos estar sob ataque? – perguntou Sofia. – Certamente a barreira deve ter enfraquecido quando a Gema deu sinais de ter cedido. De todo modo, vou ficar aqui para me certificar pessoalmente de que tudo está bem – respondeu ele com umsuspiro.

– Meninas, não tenho ideia do que está acontecendo. Pode ser um truque de Nidhoggr, mas isso significaria que por alguma razão ele aumentou enormemente seus poderes. A Gema é uma relíquia poderosíssima e está bem protegida aqui embaixo. Se Nidhoggr consegue abalar sua força a distância e penetrar até nas paredes desta casa, bem… isso quer dizer que a situação é muito grave. Lidja e Sofia sentiram um arrepio percorrer suas costas. – Mas a Gema também é profundamente ligada aos frutos – continuou o professor – e extrai seiva vital de cada um. Talvez tenha acontecido alguma coisa com um deles… ou com um Draconiano. Sofia ficou petrificada. Fabio. Desde a última vez em que o vira, ninguém tivera mais notícias suas. Mas não conseguia esquecer sua imagem se despedindo dela em uma calçada, em Benevento, enquanto ela partia para Castel Gandolfo no carro do professor. Não o esquecera sequer por um instante. Era um pensamento fixo às margens de sua mente, uma lembrança que nunca a abandonava e a acompanhava como uma doce melancolia ao longo de seus dias. Às vezes sonhava com ele. Perguntava-se onde estava e o que estava fazendo, e se um dia se juntaria a eles. No fundo compartilhavam o mesmo destino: todo Draconiano deveria estar com seus semelhantes. De repente se deu conta de que poderia ter acontecido algo com ele, um pensamento que lhe causou um aperto no estômago. – De todo modo, agora não tem sentido criarmos hipóteses. – A voz do professor a despertou. – Está tarde, e não temos meios para investigar. Temos que deixar para amanhã de manhã. Vou reforçar as barreiras em volta da mansão e ficarei de guarda até o amanhecer. Amanhã tentamos resolver a situação. Mas nem Lidja nem Sofia pareciam particularmente convencidas. – E nós? O que faremos? – perguntou Sofia com a voz trêmula.

Desde que havia começado a trabalhar com o professor e Lidja, a Gema sempre brilhara com aquela sua luz quente e reconfortante. Quando estavam cansadas e desanimadas, podiam contar com seu poder benéfico. Agora que esse poder tinha titubeado, Sofia sentia-se infinitamente triste. O professor olhou-as com um sorriso tranquilizador. – Vão para a cama e tentem dormir. Amanhã de manhã vocês têm que estar descansadas para enfrentar esse problema. Fiquem calmas, eu cuidarei de tudo esta noite. *** Lidja e Sofia foram cada uma para o seu quarto. Ultimamente Sofia passava muito tempo nele: como estudava em casa, era obrigada a passar por uma prova, o que a aterrorizava, e por isso ficava a maior parte do dia, e da noite também, estudando. Lidja, ao voltar de Benevento, recebera um quarto no sótão, que até aquele momento permanecera vazio. Thomas o deixara brilhando, e a garota havia tratado de enfeitá-lo com um pôster do Cirque du Soleil, algumas fotos dos companheiros com quem trabalhou em seu amado circo e ampliações de fotos do Tokio Hotel. Havia se tornado uma fanática pelo grupo. Sofia tinha dificuldade para entendê-la. A música deles não a empolgava nem um pouco, e aqueles caras estranhos vestidos de preto, com aquele cantor de cabelos eternamente esticados, lhe davam até um pouco de medo. – É que você não enxerga além da aparência! Eles cantam exatamente como eu me sinto, entende? Se eu soubesse fazer música, tocaria como eles. E, além do mais, Bill é lindo de morrer, você não pode negar – rebatia Lidja com olhos sonhadores. Sofia olhava os pôsteres e continuava sementender. Despediram-se em frente ao quarto de Sofia. – Você está com sono? – perguntou ela, antes de fechar a porta. – Nem um pouco – respondeu Lidja. – Você não faz ideia de como me senti quando vi a Gema se apagar. Uma experiência que espero não ter que repetir. Mas o professor tem razão: não podemos fazer nada agora. Sofia olhou para o chão. Queria fazer a pergunta que urgia em seus lábios, mas se envergonhava: em um momento como aquele, só conseguia pensar em Fabio, embora se desse conta de que, mesmo se houvesse acontecido algo com ele, a prioridade era a Gema e a ameaça de Nidhoggr.

Lidja exibiu um sorriso forçado. – Coragem, vamos tentar dormir: são quase duas, e eu já estava bocejando antes do que aconteceu. Sofia concordou sem muita convicção e fechou a porta à sua frente. Assim que ficou sozinha, na escuridão de seu quarto, encostou as costas à parede e suspirou. Bastava fechar os olhos para vê-lo de novo, parado na calçada, apertado na camisa quadriculada que pendia amassada em seu corpo magro. E seu sorriso, aquele sorriso que tinha visto florescer em seus lábios pela primeira vez desde que o encontrara. “Esteja bem”, pensou intensamente. “Esteja bem.” Como previsto, Sofia não pregou os olhos a noite toda. Pensava nos portões da mansão, quando haviam sido atacados por Ratatoskr; lembrava-se bem de sua metamorfose assim que os tocara, como sua verdadeira aparência tinha se revelado. Pensava na Gema, no calabouço, e se perguntava se ainda brilhava ou se já estava apagada. E pensava em Fabio, naquele momento de comunhão absoluta que haviam vivido um mês antes, quando ela conseguira livrá-lo dos enxertos que o tornavamprisioneiro e lhe devolvera a liberdade. Ela tinha a impressão de ainda sentir seu coração bater embaixo de sua mão, e essa lembrança enchia sua barriga de um calor doce e difuso. Na manhã seguinte, quando desceu para o café, estava com uma aparência medonha. Tinha se visto no espelho do banheiro: os cabelos ruivos desgrenhados como moitas, duas olheiras enormes e a cara de quem passou a noite revirando na cama. Não que Lidja estivesse com um aspecto melhor: era evidente que ela também não tinha dormido um minuto. Só o professor parecia descansado, e nemLidja nem Sofia conseguiam explicar isso. Havia passado a noite no calabouço vigiando, e ainda assim as cumprimentou com um bom-dia vibrante enquanto bebia seu leite quente e beliscava umBrezel. Às vezes, Thomas preparava essa típica especialidade alemã, e o perfume de pão recémsaído do forno espalhava-se por toda a casa. – E então? – perguntou Lidja antes de começar a beber seu leite com chocolate. – Não notei nada de anômalo – respondeu o professor. – As barreiras aguentaram perfeitamente, e a Gema brilha como sempre. Não mudou nenhuma tonalidade a noite toda. O mistério, portanto, permanecia. – E então? O que pode ter acontecido? – perguntou Sofia, limpando o bigode de leite com o dorso da mão.

– Temos que investigar – foi o comentário lacônico do professor, enquanto consultava distraidamente as manchetes dos jornais on-line no laptop. Ultimamente fazia isso com frequência, e também se detinha nos principais jornais alemães, hábito que mantinha vivo o laço com sua terra natal. Sofia começou a molhar seu Brezel no leite, tensa e preocupada. Foi justamente enquanto um pedacinho se rendia e escorregava, plácido e mole, em direção ao fundo da xícara, que o professor teve um sobressalto. Thomas entrou no mesmo momento, e o professor lhe disse algo em alemão. Ele respondeu e aproximou-se do monitor do computador, não antes de esboçar uma reverência para Lidja e Sofia. Fazia sempre questão da elegância formal, de umperfeito mordomo. Tanto ele quanto o professor eram alemães, e às vezes Sofia os surpreendia conversando naquela língua deles, que aos seus ouvidos parecia tão cacofônica e gutural. Thomas enrugava cada vez mais as sobrancelhas, à medida que continuava a leitura. – O que diz aí? – perguntou Lidja, inclinando-se para ler também. Tentou, mas as palavras eram incompreensíveis. – Está escrito em alemão – explicou o professor sem levantar o olhar. – E por que vocês parecem tão apreensivos? – insistiu Lidja. O professor leu, traduzindo: – Esta manhã ao amanhecer, em Munique, foi encontrado o corpo de um jovem rapaz ainda não identificado, cuja morte desperta muita perplexidade. Aconteceu em pleno centro, em Marienplatz, a principal praça da cidade. Dizem que não foi possível remontar às causas da morte, que serão estudadas pela autópsia atualmente em andamento. Mas no corpo foram encontrados vestígios de queimaduras anômalas. O legista que analisou o cadáver afirmou nunca ter visto nada parecido e não conseguiu determinar qual substância pode ter causado as feridas. – O professor ficou absorto uminstante, depois continuou: – Explicou que os tecidos orgânicos parecem ter sido danificados por umcalor incomumente intenso, que, porém, não corroeu a roupa do garoto. Além disso, a pele da vítima apresenta ao redor das queimaduras uma coloração preta, nunca antes observada em outra vítima. Só nesse momento Schlafen levantou os olhos e olhou Sofia e Lidja. Todos tinham tido o mesmo pensamento. Chamas. Grandes asas negras. Nida ou Ratatoskr, os dois seguidores de Nidhoggr, suas emanações terrenas.

Eles usavam chamas pretas, e certamente eram capazes de produzir feridas parecidas com as que aquele anônimo menino alemão apresentava. – Mas que motivo Nidhoggr teria para agredir esse garoto? – perguntou Lidja, servindo de intérprete ao pensamento de todos. – Você não se lembra de Mattia, o Sujeitado com quem tivemos que lutar quando procurávamos o primeiro fruto? Talvez tenham tentado sujeitar alguém que se rebelou – observou Sofia. Lembrava-se bem de Mattia. Havia sido o primeiro inimigo contra quem tinha combatido. Às vezes ainda se perguntava que fim levara, se estava bem. – Se o encontraram esta manhã, é possível que tenha morrido ontem à noite – observou o professor Schlafen. Uma luz se acendeu nos olhos de Lidja e Sofia. – Ontem à noite… – Quando a Gema se ofuscou… – E experimentamos aquela sensação estranha. O professor concordou. – Claro, não temos todos os elementos para tirar conclusões, e o garoto também pode ter morrido por outras causas… – Mas não pode ser uma coincidência que apresente feridas tão parecidas com as causadas pelas chamas de Nida e Ratatoskr – observou Lidja. – Porém, se o que aconteceu com a Gema ontem está relacionado com o destino desse rapaz… que diabos é isso? A resposta pairou sobre eles. O professor fechou o laptop. – É o que temos que descobrir – concluiu. – É taxativo sabermos quem é esse garoto. E não existe modo melhor para fazer isso do que ir diretamente ao local do crime.

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