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A Comedia Humana – Vol. 1 – Honore de Balzac

O conhecimento dos fatos materiais da vida de um artista facilitará realmente a compreensão de sua obra? Talvez. A biografia esclarece diversos aspectos da criação artística, revela as fontes das ideias do artista, indica-lhe as inspirações, segue a cristalização de sua personalidade intelectual, assinala os impulsos que recebeu de sua época e os que a esta comunicou. Por outro lado, graças ao paciente trabalho de reconstrução empreendido pelo biógrafo, a imagem do biografado, deformada pelo tempo e pela glória, reassume feições humanas. Sua personagem lendária e irreal ganha umcunho de familiaridade. Seus atos e suas atitudes encontram uma apreciação serena, justa e definitiva. O herói acaba por aparecer aos olhos dos leitores como um ser parecido com eles. Em redor da obra, no entanto, a névoa não se dissipa em medida igual. Quanto mais pormenores se conhecem da existência de um homem genial, tanto mais enigmática se torna a essência de sua personalidade artística. Poder-se-ão penetrar os seus segredos, mas não o seu mistério. O caso de Balzac confirma esse aparente paradoxo. Inúmeras pesquisas de minúcias, a publicação sucessiva de uma infinidade de testemunhos e de documentos íntimos entregaram-nos toda a sua vida particular. Conhecemo-lo hoje, pode-se afirmar com segurança, bem melhor do que os contemporâneos o conheciam, mas nem por isso compreendemos ainda o misterioso desabrochar, naquele indivíduo nascido em 16 de maio de 1799 e morto a 18 de agosto de 1850, da anomalia psicológica que é o gênio. Hoje vemos Balzac à luz dos refletores da pesquisa como nas cenas sucessivas de um filme contínuo. Criança de sentimentos recalcados, com uma viva e insatisfeita sede de amor, entre pais estrambóticos. Adolescente desambientado num meio escolar de onde toda manifestação de fantasia está excluída. Jovem derrotado logo nos primeiros encontros com o destino, marcado pelo resto da vida com o estigma da incapacidade. Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência da inata vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes. Ouvimos-lhe a voz retumbante e a palavra fácil, a gargalhada grossa e a respiração ofegante. Apalpamos-lhe a mão poderosa, os ombros largos, e até a barriga, produto da vida sedentária. Diagnosticamos as suas tonturas, apanhamos com o estetoscópio os ruídos de seus pulmões, o bater de seu coração hipertrofiado. Acompanhamo-lo em suas numerosas viagens, surrupiamos sua correspondência, espiamos-lhe os namoros e os amores. Acabamos por ter a impressão de ser ele nosso velho conhecido, quase que um membro da família — e ao mesmo tempo compreendemos cada vez menos o seu talento, essa monstruosidade que o diferencia dos outros homens. A adição de todos esses elementos, e de outros mais, já descobertos ou por descobrir, não dá uma soma igual a gênio.


Não por ter sido tudo isso, mas apesar de tê-lo sido, foi que Balzac criou A comédia humana, a maior fusão já conseguida da literatura com a vida real. O conhecimento da existência do autor não desvenda o misterioso porquê dessa realização; serve apenas para aumentar o assombro do espectador, para incutir-lhe um terror quase religioso perante o irracional. UMA ÉPOCA PARA ROMANCES Independentemente da vontade do autor, cada obra literária reflete o momento histórico em que foi criada. Além dessa relação involuntária com a sua época, a obra de Balzac está fortissimamente ligada a esta por ter-se proposto o romancista, primeiro entre todos, reproduzir a vida contemporânea com toda a sua riqueza de costumes e de tipos. A existência de Balzac coincide exatamente com o meio século que medra entre dois golpes de Estado: o de 1799, pelo qual Napoleão I liquidou a Revolução Francesa, e o de 1851, pelo qual Napoleão III extinguiu a Segunda República. Balzac ainda pôde conhecer testemunhas não somente da Revolução, como também do Antigo Regime, e quando morreu, em 1850, já se previa a próxima ressurreição de um poder forte sob forma do Segundo Império. Criança, Honoré assistiu aos capítulos mais brilhantes da epopeia napoleônica; ouviu comentusiasmo os anúncios incessantes de novas vitórias, com consternação as notícias das primeiras derrotas. Testemunhou o exílio de Napoleão à ilha de Elba, a sua volta fulminante, o relâmpago efêmero de seu Segundo Reinado, seu desaparecimento na longínqua Santa Helena — e viveu bastante para assistir à sua grande vitória póstuma, a volta de suas cinzas em 1840, um espetáculo “maior do que os triunfos romanos”. (Durante toda a sua vida, Balzac sonharia evocar, em vários romances, a epopeia napoleônica, mas não lhe sobrou tempo para escrever estas obras que deviamfazer parte das Cenas da vida militar. No entanto, a figura de Napoleão, a quem ele devotava uma admiração extraordinária, projeta a sua sombra sobre muitos episódios de A comédia humana e revive numa página famosa de O médico rural a “História do Imperador, contada numa granja por um veterano”.) Acompanhou as duas Restaurações borbônicas antes e depois dos Cem Dias, viu surgir e desaparecer o regime conservador de Luís xviii e o sistema francamente reacionário de Carlos x, este último varrido pela Revolução de Julho; presenciou todo o reinado liberal-burguês de Luís Filipe, a Revolução de 1848 e a eleição do futuro Napoleão iii para presidente da República. Quantas reviravoltas dentro de uma existência de apenas 51 anos! O mundo antigo resolvia-se dificilmente a morrer… ou as convulsões já eram as do parto laborioso de um mundo novo. Apesar das teorias conservadoras que professava e que examinaremos mais adiante, Balzac não se iludia quanto ao verdadeiro sentido dos acontecimentos. A “liquidação” da Revolução operara-se apenas no domínio político, mas seus germes frutificaram em todos os setores da sociedade, onde outra transformação, menos veemente mas não menos eficaz, fazia incessantes progressos — transformação esta da qual Balzac, quisesse ou não, era um dos operários mais fervorosos. Também acompanhava com o interesse mais apaixonado as fases dessa revolução latente. Por trás dos debates das Câmaras, das arruaças da capital, das polêmicas dos jornais, acontecimentos mais decisivos, embora menos espalhafatosos, verificavam-se nos bastidores da sociedade. Muitas instituições antigas foramrestauradas, mas os costumes de outrora ruíram definitivamente. Mais violentos do que as escaramuças reiniciadas periodicamente nas barricadas pelo povo parisiense, acendiam-se conflitos de interesse na Bolsa, nas casas de comércio, no seio das próprias famílias. Os progressos da técnica traziam uma série de inovações, antes de tudo as estradas de ferro, que, para olhos sagazes, anunciavam imensas modificações da vida coletiva e particular. Surgiam novos poderes: o capital, a imprensa, a publicidade. Patenteava-se a ascensão prodigiosa do dinheiro, que reivindicaria umpapel cada vez maior em todos os domínios. Estavam, pois, aparecendo e desenvolvendo-se as forças que passariam a moldar todo o período da história europeia até a Primeira Guerra Mundial. Esboçavam-se, desde então, os tipos humanos que as novas possibilidades não deixariam de produzir. A comédia humana de Balzac contém uma imagem fiel e pormenorizada de toda essa fermentação, de seus resultados visíveis e de suas consequências conjeturáveis; embora concluída em 1850, é um espelho de todo o século xix. A HERANÇA PATERNA Balzac nasceu em 16 de maio de 1799, dia de são Honorato, cujo nome lhe foi dado, em Tours, capital da Touraine, o “jardim da França”, uma das regiões mais belas e mais agradáveis da Europa.

Críticos literários tiram às vezes dessa circunstância conclusões apressadas, procurando explicar, pelo lugar de seu nascimento, características da fisionomia artística do escritor. Pátria de Rabelais, o criador de Gargântua, a Touraine distingue-se — na própria definição de Balzac — por um espírito “conservador, manhoso, trocista e epigramático […] e, ao mesmo tempo, ardente, artístico, poético e voluptuoso”. Mas o fato é que foi por mero acaso que Honoré veio a nascer em Tours, para onde seu pai, Bernard-François, languedociano de origem, fora transferido pouco tempo antes de ele nascer, conduzindo consigo a esposa, a parisiense Laure Sallambier, com quem tinha se casado em 1797; e, como mais adiante veremos, o filho passaria em Tours apenas os anos da infância. Ao examinar os papéis administrativos relativos ao nascimento de Honoré, pesquisadores impertinentes depararam com a falta, entre o nome e o sobrenome, da partícula nobiliária “de”, que o escritor sempre ostentava com vanglória tanto maior quanto menos direito lhe cabia de usá-la. Por outro lado, na certidão de idade do pai se vê que este era filho de um modesto lavrador do Sul da França, cujo nome se grafava Balssa e não Balzac. O sobrenome de Balzac, além de mais aristocrático, tinha também um sabor literário, pois fora ilustrado, desde o século xvii, por Jean-Louis Guez de Balzac, um dos primeiros membros da Academia Francesa, apelidado por seus contemporâneos “O Grande Epistológrafo”. Essas pequenas mistificações devem pôr-nos de sobreaviso quanto às brilhantes funções que o romancista mais tarde atribuiria ao seu progenitor. Parece estabelecido hoje que o sr. BernardFrançois Balzac não exerceu o cargo de “secretário do Grande Conselho sob Luís xv”, nem o de “advogado do Conselho sob Luís xvi”, mas apenas o de secretário particular de um banqueiro durante o Antigo Regime, e o de funcionário do serviço de víveres durante a Revolução. Depois, em sua permanência de quase vinte anos em Tours, chegou a ser adido do maire e um dos administradores do hospital local; enfim, foi nomeado funcionário da direção do mesmo serviço de víveres em Paris, chegando a ser aposentado nesse cargo. Nem por isso o pai de Balzac deixa de ser uma personagem curiosa. Tipo do esquisitão, professava princípios à la Rousseau e tinha um número regular de manias, todas reduzíveis a uma só, a principal entre todas: a da longevidade. Queria prolongar a vida humana em geral e a sua emparticular por todos os meios, e para isso preconizava a volta à natureza, o exercício físico, a abstinência alimentar e genésica; estudava com entusiasmo os costumes dos chineses, povo tido como de vida mais longa que os outros; fazia a propaganda mais fervorosa de certa tontina Lafargue, chamada a preservar a velhice dele e de seus concidadãos das preocupações materiais. Com ares de reformador, espalhava ideias bizarras sobre a eugenia, o aperfeiçoamento da raça humana, e publicou certo número de folhetos acerca dos assuntos mais variados, mas todos reveladores de preocupações universais e humanitárias. Eis alguns títulos (abreviados) desses opúsculos curiosos: História da raiva e o meio de preservar os homens desta desgraça como também de algumas outras que lhes ameaçam a existência; Memorial sobre as desordens escandalosas das jovens enganadas e entregues a uma horrível miséria; Memorial sobre os meios de se premunir contra os roubos e os assassínios etc. Contudo, era um fidalgo, homem indulgente e espirituoso, e que sabia manter, no meio das tempestades domésticas, a atitude risonha e serena de um verdadeiro sábio. Tinha 53 anos quando Honoré nasceu e, não fosse um acidente que o matou na idade de 83 anos, haveria enterrado, centenário, todos os seus consócios da tontina. Na constituição espiritual de Honoré, a herança paterna revela-se na força extraordinária da memória, na excepcional extensão da curiosidade intelectual, na predileção por ideias gerais e reformas e em certa excentricidade nos princípios e nos hábitos. Em particular, as estranhas máximas da Fisiologia do casamento demonstrariam a forte influência dos aforismos e dos paradoxos em que o sr. Bernard-François resumia ironicamente suas próprias experiências matrimoniais. MÃE E FILHO Este sábio, de fato, cometera um erro de consequências graves. Casara-se com uma moça que tinha 32 anos menos que ele, Laure Sallambier, filha de um diretor dos hospitais de Paris. Essa diferença enorme de idade explica, em parte, a falta de uma verdadeira atmosfera de felicidade dentro da casa paterna, falta com que Balzac ia sofrer tanto. Ambiciosa, nervosa, insatisfeita ao lado de um marido que, do alto de sua serenidade olímpica, pouco se importava com seus rompantes, ela, sem querer, fazia gemer os filhos sob o peso de seu temperamento áspero. A sra.

Balzac era uma dessas mães que, embora possuindo no mais alto grau o sentimento de família, são incapazes de expressar ternura. Sempre sujeita a apreensões reais e imaginárias e a repentinas mudanças de humor, receava para os filhos consequências nefastas da indulgência paterna e procurava corrigi-la como a natureza “que rodeia as rosas de espinhos e os prazeres de desgostos”. Atendia com feroz energia aos interesses materiais dos seus e atribulava-lhes o espírito com a maior boa vontade do mundo. A glória de seu filho Honoré em nada lhe modificou as disposições. Consagrou-lhe a própria existência, mas estragou a dele com incessantes implicâncias. Havia entre os dois um conflito permanente, agravado pelo fato de haver o filho, pelas dívidas que contraíra logo no começo de sua carreira e de que nunca conseguiu se livrar, reduzido a mãe e toda a família a um verdadeiro estado de pobreza. Até o fim da vida, o escritor, a despeito dos lucros imensos que lhe traziam os livros, não logrou desvencilhar-se das obrigações pecuniárias para com a própria mãe, que ficou sua credora. Esta, por seu lado, como tantas vezes acontece, não levava a sério o filho famoso. Balzac, já com cinquenta anos e um renome universal, queixava-se de que a mãe o admoestava como a uma criança. Vez por outra, o conflito entre essas duas criaturas, que talvez se estimassem, atingia uma intensidade trágica, como o revelamcertos trechos da correspondência de Balzac com a condessa Hanska, sua futura mulher. “Ela é a um tempo um monstro e uma monstruosidade! Neste momento, está matando minha irmã, depois de ter matado a minha pobre Laurence e minha avó”, exclama o escritor numa página de terrível amargura, em que afirma não ter rompido definitivamente com a mãe unicamente porque lhe deve dinheiro; e acrescenta: “Acreditávamos que estivesse louca e fomos consultar o médico, que é seu amigo há 33 anos. Ele nos respondeu: ‘Infelizmente ela não é louca; é má!… Ela não nos perdoa os seus defeitos’”. Se houvesse lido essas frases terríveis, a mãe teria sem dúvida acusado o filho de ingratidão, e não sem motivo. Quem procura colocar-se na situação da sra. Balzac há de reconhecer que ela pagou bastante caro a glória de ter dado à luz o maior romancista da França. Como podia conformar-se coma conduta daquele filho turbulento e incompreensível, criança eterna que não criava juízo, ganhava fortunas e não pagava as dívidas mais prementes, vivia no luxo sem ter um tostão, matava-se com trabalho e café, empreendia as especulações mais loucas, mudava-se constantemente, abandonava no meio os trabalhos mais urgentes e corria atrás da aventura na Suíça, na Itália, na Rússia, deixando passar meses sem escrever à mãe? Não, os instintos conservadores da sra. Balzac, encarnação do espírito de família, não podiam decididamente aquiescer à “maluquice” de Honoré. Por outro lado, o instinto materno nunca lhe permitiu abandoná-lo, agisse ele como quisesse, e ficou ao lado dele até o fim, assistindo-o fielmente em sua agonia, pois o destino a fez sobreviver ao filho. Balzac não desconhecia, aliás, a dedicação da mãe, e disso deu testemunhos em suas cartas a ela, cheias de protestos de amor filial. Agradecia-lhe mais de uma vez os seus incessantes cuidados e afirmava que o fim principal era assegurar-lhe uma velhice tranquila e feliz. Apenas esse sentimento não suportava a proximidade; bastava que os dois morassem sob o mesmo teto para recomeçar a briga. Na medida em que é possível determinar a transmissão das qualidades dos pais aos filhos, podese dizer que Balzac herdou da mãe a imaginação quase doentia, o temperamento impressionável, sujeito a crises de abatimento e a acessos de otimismo. Também foi ela que lhe transmitiu seu pendor para o misticismo, o qual provavelmente a levara a procurar um refúgio em meio às atribulações de uma existência falhada, e foi entre os livros dela que Honoré encontrou pela primeira vez as obras de Swedenborg, que o deviam impressionar tão fortemente. Havia ainda, na casa do sr. Bernard-François, a sogra, mãe de Laure Sallambier.

Aliada natural da filha, tentava cansar a paciente resignação do genro, cujas reações, no entanto, se limitavam a uma ou outra observação maliciosa, cochichada ao ouvido dos filhos. “Vossa avó”, dizia-lhes num piscar de olhos, “é uma comediante hábil que conhece o valor de um passo, de um olhar, da maneira de cair numa poltrona.” Mas pelo menos ela não partilhava a severidade da filha contra os netinhos, a quemteria viciado com suas carícias se não fora a constante vigilância materna.

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