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A Comedia Humana – Vol. 2 – Honore de Balzac

“Como as forças da natureza e como os grandes projetos” — escreve Léon Daudet — “Balzac temtempo. Começa por expor longa, minuciosa e até pesadamente os ambientes e as circunstâncias. Seus primeiros capítulos são provas pelas quais elimina o leitor frívolo ou distraído.” Mas o leitor que não é distraído nem frívolo saberá vencer esse obstáculo inicial e, à medida que a ação se desenvolve, há de sentir-se cada vez mais recompensado. Essa observação aplica-se perfeitamente a Uma estreia na vida (em francês: Un Début dans la vie), pequena composição entre novela e romance que as grandes obras de Balzac condenam a um esquecimento injusto, pois ela por si só bastaria a firmar uma glória literária. Na dedicatória, declara Balzac dever o assunto a sua irmã Laure. Tendo-lhe a revista Le Musée des Familles pedido uma colaboração, o escritor comprometeu-se em maio de 1842 a dar-lhe dentro em breve “Uma viagem em coucou”, título que encabeça uma narrativa publicada um pouco mais tarde pela própria Laure sob seu próprio nome, e de assunto em parte idêntico ao nosso romance. No prefácio inédito de sua novela, Laure também confirma que o assunto foi sugerido por ela ao irmão. Mas Le Musée des Familles devolveu a Balzac “Uma viagem em coucou”, sem dúvida por julgá-la licenciosa demais, e pediu ao romancista que a substituísse por outra narrativa. Balzac atendeu ao pedido, substituindo por A sra. La Chanterie a obra devolvida e vendendo-a ao jornal La Législature, onde saiu em julho e agosto do mesmo ano, já com o título de O perigo das mistificações. Finalmente, em 1844, quando publicado em livro, o romance saiu com seu título atual. A novela de Laure, publicada em 1854 na revista Le Compagnon du Foyer, teria ficado definitivamente soterrada pela poeira das bibliotecas se a curiosidade dos balzacólogos não a tivesse trazido à luz e reproduzido numa reedição moderna de A comédia humana (La Pléiade, vol. I, Paris, 1976; direção de Pierre Georges Castex). Essa reprodução permite aos estudiosos colher emflagrante o gênio criador de Balzac. De uma anedota divertida, não desprovida de graça, o romancista fez um esplêndido estudo de caráter, desenvolvido num ambiente perfeitamente delineado, rodeando o protagonista de uma dúzia de comparsas, vivos e atuantes. Os dois primeiros títulos que o livro teve antes de sua inserção em A comédia humana mostramque ele se cristalizou em torno do episódio da viagem em coucou (antiga carruagem pública de duas rodas) de certo número de pessoas reunidas pelo acaso, várias das quais contam lorotas e, pelo fato de não conhecerem a identidade dos companheiros, metem-se em situações desagradáveis. O título definitivo mostra a amplitude que esse episódio ganhou no espírito do autor. Como geralmente acontecia a Balzac, enquanto elaborava o assunto descobria-lhe toda a riqueza. A cena do coucou tinha um caráter essencialmente cômico, com as bravatas de Jorge, as tolices de Oscar e as pilhérias de ateliê dos dois pintores, de que o próprio Balzac seria o primeiro a rir às gargalhadas cada vez que as relesse ou que delas se lembrasse. Mas depois, com aquela imaginação prodigiosa que o fazia ver os incidentes mais vulgares enquadrados numa sucessão de acontecimentos, Balzac reconstituía os antecedentes de cada um dos viajantes e investigava as consequências que na vida de cada um deles teria essa viagenzinha de Paris a Presles, e assim o episódio banal ia se revestindo de proporções extraordinárias em virtude da perspectiva que atrás dele se rasgava. Por efeito de um esplêndido artifício, o leitor, inteirado do desenvolvimento ulterior da vida dos viajantes, chega a ter da viagem, retrospectivamente, uma impressão bem diversa da primeira. Verifica-se, aí, uma oscilação permanente entre o trágico e o cômico, num equilíbrio admirável, raras vezes atingido. De leitura agradável e de interesse crescente, Uma estreia na vida é do número das obras leves e finas, raríssimas, que no fim deixam o leitor com calafrio. Sente-se aí a presença da fatalidade divertindo-se à custa das personagens, que, desprevenidas, espairecem, conversam e brincam.


E uma fatalidade tanto mais terrível quanto é caprichosa. O menor gesto, a palavra mais insignificante podem ter na vida efeitos incalculáveis, que não estão absolutamente proporcionais à causa. A desonestidade de um administrador que durante anos rouba sistematicamente o patrão, quando descoberta, faz que ele seja despedido do lugar. Muitos escritores parariam aqui para deixar o leitor e a si mesmos com o sentimento tranquilizador de que há uma justiça imanente, funcionando comregularidade. Porém Balzac, inexorável, segue a pista de sua criatura: o administrador despedido, necessitando buscar outra atividade, penetra no campo da especulação e ganha milhões e reputação social. Por outro lado, uma tola exibição de vaidade, duas palavras ditas por um rapazinho inexperiente destroem-lhe quase todo o futuro. A viagem de Paris a Presles em coucou é, bem se vê, apenas um símbolo: é a viagem de cada umde nós de uma extremidade a outra de nosso caminho. Também o romance, apesar do título – Uma estreia na vida –, oferece-nos a trajetória de uma existência inteira. A cada volta do trajeto, surpreendem-se panoramas novos e desconcertantes. Um dos mais curiosos é aquele em que o escritor nos revela a complexidade dos caracteres. “Não existe, ou, antes, existe raramente, um criminoso que seja completamente um criminoso.” Não esqueçamos essa frase, em que se resume uma das teses essenciais do romance balzaquiano. Os benfeitores do jovem Oscar são Moreau, prevaricador desprezível, o tio Cardot, nojento epicurista, Florentina, rapariga de vida fácil. Por outro lado, o sublime amor materno da sra. Clapart tinge-se de ridículo para quem conhece a nulidade do filho; o tabelião Desroches, de honestidade tão admirável, peca por extremo rigor em julgar as ações dos outros. E, se examinarmos um a um os outros retratos, não menos perfeitos, dessa pequena obra-prima — Clapart, o aposentado imbecil tão antipático, apesar de ter razão; o farsante Jorge Marest, divertido a despeito da sua tratantice; a honesta e desagradável sra. de Reybert; o digno conde de Sérisy, grande patriota e pequeno marido —, em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real. A personagem principal, Oscar Husson, contrariamente à grande maioria dos heróis de romance, é um rapazinho medíocre, vaidoso, bobo, que desde o primeiro momento provoca antipatia. No entanto, Balzac, com um desses passes de mágica de que possui o segredo, consegue interessar-nos pela sua sorte a ponto de lamentarmos que Oscar acabe colocando-se na existência como simples burguês. Suas tolices e gafes eram, de algum modo, uma expressão de mocidade, e por isso, no final, ficamos com raiva da vida, que para nos corrigir os defeitos da juventude recorre a expediente tão estúpido e vulgar como o de nos envelhecer. Daí a melancolia que envolve essa história divertida, a qual, segundo o autor confessa em sua carta de 14 de maio de 1842 à Estrangeira, lhe deu tanto trabalho quanto um poema e que, de fato, tem a cintilante vibração de toda verdadeira poesia. Já vimos Balzac reivindicar para si, em vez do título de romancista, o de “historiador de costumes”. Nesta novela ele se mostra plenamente consciente desse qualificativo, quando, emvéspera da instalação das estradas de ferro, declara querer dar aos futuros leitores uma impressão fiel de como era, outrora, a viagem em diligência. E da intimidade forçada e das confidências trocadas entre os viajantes de um coucou ele faz a mola que desencadeia a intriga. paulo rónai UMA ESTREIA NA VIDAA Laure[1] Que o brilhante e modesto espírito que me deu o assunto desta cena lhe recolha as honras.

Seu irmão Balzac I – O QUE FALTAVA A PIERROTIN PARA SER FELIZ As estradas de ferro, num futuro já agora não muito distante, deverão fazer desaparecer certas indústrias, modificar algumas outras, principalmente as que concernem aos vários modos do transporte em uso nos arredores de Paris. Também, breve, as pessoas e as coisas que formam os elementos desta cena lhe darão o mérito de um trabalho arqueológico. Não ficarão encantados nossos sobrinhos de conhecer o material social de uma época que eles denominarão os velhos tempos? Assim, por exemplo, os pitorescos coucous que estacionavam na Place de la Concorde, obstruindo o Cours-la-Reine, os coucous tão florescentes durante um século, tão numerosos ainda em 1830, não mais existem; e, nas mais atraentes solenidades rurais, quando muito, se vê um na estrada, em 1842. Em 1820, nem todos os lugares famosos por suas paisagens, denominados arredores de Paris, possuíam um serviço regular de transporte. Não obstante, os Touchard, pai e filhos, tinham conquistado o monopólio dos transportes para as cidades mais populosas, num raio de quinze léguas; e suas empresas constituíam um magnífico estabelecimento, situado à rue du Faubourg Saint-Denis. Apesar de sua antiguidade, apesar de seus esforços, dos seus capitais e de todas as vantagens de uma centralização poderosa, as empresas de transporte Touchard tinham, nos coucous do Faubourg Saint-Denis, concorrentes terríveis para os pontos localizados a sete ou oito léguas em derredor. É tal a paixão do parisiense pela campanha que empresas locais lutavam vantajosamente contra a Pequena Empresa de Transportes, nome dado à firma dos Touchard por oposição à da Grande Empresa de Transportes, da rue Montmartre. Nessa época, o êxito dos Touchard estimulou os especuladores. Para as menores localidades dos arredores de Paris, formavam-se, então, empresas de veículos, bonitos, rápidos e cômodos, que saíam de Paris e regressavam a horas fixas e que, em todos os pontos e num raio de dez léguas, constituíram uma concorrência encarniçada. Vencido nas viagens de quatro a seis léguas, o coucou se limitou às pequenas distâncias e viveu ainda durante alguns anos. Sucumbiu, finalmente, quando os ônibus demonstraram a possibilidade de caber dezoito pessoas num veículo puxado por dois cavalos. Hoje, o coucou, se por acaso um desses velhos pássaros de voo tão penoso ainda existe nas oficinas de algum desmanchador de carruagens, seria, por sua estrutura e por suas disposições, objeto de sábias pesquisas, como as que efetuou Cuvier nos animais encontrados nos gessais de Montmartre. As casas pequenas, ameaçadas pelos especuladores, que lutaram desde 1822 contra os Touchard, pai e filhos, tinham, ordinariamente, um ponto de apoio na simpatia dos habitantes do lugar por elas servido. Assim, pois, o empresário, simultaneamente condutor e proprietário do carro, era um taberneiro do local, cujos habitantes, coisas e interesses lhe eram familiares. Ele desempenhava os encargos inteligentemente, não cobrava tanto pelos pequenos serviços e, por isso mesmo, obtinha mais do que a empresa Touchard. Sabia iludir a exigência de uma licença. Em caso de necessidade, passava por alto sobre os dispositivos referentes aos viajantes. Possuía, finalmente, a afeição do povo. Por isso, quando se estabelecia um concorrente, se o velho condutor da localidade entrava em acordo com este, para dividirem os dias da semana, algumas pessoas retardavam a viagem a fim de fazê-la com o velho cocheiro, embora o seu material e os cavalos estivessem em estado pouco tranquilizador. Uma das linhas que os Touchard, pai e filhos, tentaram monopolizar, a que mais disputada lhes foi, e que ainda hoje é disputada aos Toulouse, seus sucessores, foi a de Paris a Beaumont-sur-Oise, linha admiravelmente fértil, pois que em 1822 três empresas a exploravam. A Pequena Empresa de Transportes baixou em vão os preços, em vão multiplicou as partidas, em vão construiu excelentes veículos, a concorrência subsistiu, de tal forma é remuneradora uma linha em que se acham situadas pequenas cidades como Saint-Denis e Saint-Brice, aldeias como Pierrefitte, Groslay, Écouen, Poncelles, Moisselles, Baillet, Monsoult, Maffliers, Francoville, Presles, Nointel, Nerville etc. A Empresa de Transportes Touchard acabou estendendo a viagem de Paris a Chambly. A concorrência foi até Chambly. Hoje os Toulouse vão até Beauvais. Nessa estrada, a da Inglaterra, existe um caminho que começa num lugar apropriadamente chamado La Cave,[2] dada a sua topografia, e que leva a um dos mais deliciosos vales da bacia do Oise, à pequena cidade de L’Isle-Adam, duplamente célebre, quer como berço da extinta casa de L’IsleAdam, quer como antiga residência dos Bourbon-Conti.

L’Isle-Adam é uma encantadora cidadezinha, apoiada em duas grandes aldeias, a de Nogent e a de Parmain, notáveis ambas por magníficas pedreiras que forneceram o material dos mais belos edifícios da Paris moderna e do estrangeiro, porquanto a base e os ornamentos das colunas do teatro de Bruxelas são pedras de Nogent. Embora notável por admiráveis paisagens e famosos castelos construídos por príncipes, monges ou célebres arquitetos, como Cassan, Stors, Le Val, Nointel, Persan etc., em 1822, essa região escapava à concorrência e era servida por dois condutores de carros, que a exploravam de comumacordo. Fundava-se essa exceção em razões fáceis de compreender. De La Cave, ponto na estrada da Inglaterra onde começa o caminho pavimentado devido à magnificência dos príncipes de Conti, até L’Isle-Adam, a distância é de duas léguas; nenhuma empresa podia dar uma volta tão considerável, tanto mais que L’Isle-Adam formava nessa época um impasse. O caminho que lá ia ter, lá terminava. De havia alguns anos, uma grande estrada uniu o vale de Montmorency ao vale de L’Isle-Adam. De Saint-Denis ela passa por Saint-Leu-Taverny, Méru, L’Isle-Adam, e vai até Beaumont, ao longo do Oise. Em 1822, porém, a única estrada que ia a L’Isle-Adam era a dos príncipes de Conti. Pierrotin e seu colega reinavam, pois, de Paris a L’Isle-Adam, queridos em toda a região. O carro de Pierrotin e o de seu colega serviam Stors, Le Val, Parmain, Champagne, Mours, Prérolles, Nogent, Merville e Maffliers. Pierrotin era tão conhecido que os habitantes de Monsoult, de Moisselles, de Baillet e de Saint-Brice, embora situados na estrada real, se serviam de seu carro, onde a possibilidade de encontrar um lugar era mais frequente do que nas diligências de Beaumont, sempre cheias. Pierrotin harmonizava-se com o seu concorrente. Quando partia de L’Isle-Adam o seu camarada voltava de Paris, e vice-versa. É inútil falar do concorrente, Pierrotin gozava das simpatias da região. Dos dois condutores é ele, de resto, o único que entra em cena nesta história verídica. Que lhes baste saber que os dois cocheiros viviam em boa harmonia, fazendo um ao outro uma guerra leal, disputando-se a freguesia por meios honestos. Partilhavam em Paris, por economia, o mesmo pátio, o mesmo hotel, a mesma cocheira, o mesmo alpendre, o mesmo escritório, o mesmo empregado. Essa particularidade mostra bem que Pierrotin e o seu adversário, segundo a expressão popular, eram “uns bons sujeitos”. Esse hotel, situado precisamente na esquina da Rue d’Enghien, ainda existe, e chamase o Leão de Prata. O proprietário desse estabelecimento, destinado desde tempos imemoriais a hospedar carreiros, explorava ele próprio uma empresa de carros para Damartin, tão solidamente estabelecida que os Touchard, seus vizinhos, cuja empresa lhe ficava em frente, nem pensavam lançar carros nessa linha. Embora as partidas para L’Isle-Adam devessem efetuar-se a horas fixas, Pierrotin e seu colega usavam, a esse respeito, de uma indulgência que, se lhes conciliava a afeição da gente da terra, atraía sobre eles acerbas censuras por parte dos forasteiros, habituados à regularidade das grandes empresas públicas; mas os dois condutores daqueles carros, meio diligência, meio coucou, sempre achavam defensores entre os seus fregueses. À tarde, a partida das quatro horas arrastava-se até as quatro e meia, e a da manhã, embora anunciada para as oito horas, nunca se realizava antes das nove. Esse sistema, de resto, era excessivamente elástico. No verão, tempo de ouro para os cocheiros, a lei das partidas, rigorosa para os desconhecidos, não se dobrava senão para as pessoas do lugar.

Esse método oferecia a Pierrotin a possibilidade de embolsar o valor de dois lugares por um, quando umhabitante da localidade vinha cedo pedir um lugar pertencente a uma ave de arribação que, por infelicidade, se achava atrasada. Essa elasticidade não teria, certamente, perdão aos olhos dos puristas da moral; Pierrotin e seu colega, entretanto, justificavam-na com a dureza dos tempos, comas suas perdas durante o inverno, com a necessidade de terem em breve melhores carros, e enfimcom a exata observância da lei escrita nos boletins, cujos exemplares, excessivamente raros, não eram fornecidos senão aos forasteiros, suficientemente obstinados em exigi-los.

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